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Demonomania - O Oitavo Círculo

Por Lucio Luiz

Ilusão

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Uma das maiores ilusões dos pecadores é a de que a morte é o fim derradeiro de tudo. Maior ilusão é a de quem imagina poder encontrar a redenção ainda em vida e chegar ao Céu. Este é um lugar para poucos, pois a imensidão das almas que povoam a Terra tem como destino certo o lugar chamado Inferno.

Não há religião ou seita capaz de salvar a pessoa mais humilde ou bondosa do julgamento de Minos, o demônio que guarda a entrada dos oito Círculos infernais abaixo do primeiro. Alguns têm a sorte — ou como possamos chamar esse destino — de serem encaminhados para o purgatório ou para o Primeiro Círculo. O sofrimento é grande, mas nada comparado ao horror eterno das almas condenadas às mais vis punições.

O Céu? Ilusão de poucos. Mesmo entre os que pensam tê-lo alcançado, por fazerem do Inferno seu próprio Céu. O bem e o mal não são duas faces de uma mesma moeda, como se convencionou dizer popularmente. O bem e o mal são, certamente, ilusões, pois não há entre os homens aquele que conseguirá escapar facilmente do Inferno.

Giovanni Hormanico sabe disso. Um verdadeiro hipócrita, prega o bem visando apenas sua própria riqueza material. Com a certeza de que jamais ganhará o Céu, optou por conquistar seu espaço no Inferno. Há muitos anos, Giovanni atingiu seu maior intento ao fazer um acordo com um demônio. Sua vida seria repleta de tudo o que mais desejava e, em troca, cederia sua alma.

O italiano julga-se esperto, pois tramou uma forma de enganar o próprio demônio no momento do pagamento de sua barganha. Essa, porém, é a maior e derradeira ilusão dos pecadores: a de que os demônios podem ser pervertidos em seu próprio benefício.

A maioria das pessoas de Riviera di Levante, no norte da Itália, considera Giovanni Hormanico um homem de bem. Intelectual prestativo que chegou há alguns anos na cidade, prega conceitos complexos para a população pobre, mas sempre está disposto a auxiliar a quem deseja ou precisa.

Quando da morte de sua esposa, não houve quem não ficasse abalado na cidade. Giovanni agora está sozinho com seu filho, que sequer teve ainda a chance de ser batizado na igreja local.

Todos se penalizam com a condição de Giovanni, especialmente aqueles mais próximos, que sempre viram o carinho com que ele tratava Maria, a mãe de seu filho. Ela era filha do homem mais rico da região e se apaixonou por Giovanni no mesmo instante em que o viu, como que por mágica.

Em pouco tempo, os dois estavam casados. O italiano demonstrava um forte amor por ela e desejava ter um filho o mais rápido possível, "para consumar de vez seu amor", como afirmava para sua esposa.

Quando Maria engravidou, alguns meses depois do casamento, Giovanni havia assumido os negócios de seu sogro, que morreu após um violento assalto nos arredores da cidade. Apesar de ser tão dedicado à família, aos negócios e à cidade, Giovanni se isolava durante algumas horas do dia em um quarto no qual nem Maria podia entrar. Ela respeitava o desejo do marido.

O que ninguém sequer pode imaginar era que Giovanni Hormanico é um estudante das artes arcanas e adorador do diabo. Sua hipocrisia é tão perfeita que engana a todos com perfeição. Anos antes de mudar-se para Riviera di Levante, fez um pacto com o próprio demônio, com a finalidade de alcançar sabedoria e riqueza.

A sabedoria adquirida através deste pacto permitiu-o ampliar seus já vastos conhecimentos a respeito do mundo sobrenatural. Já a riqueza lhe foi indicada desta forma, pois através de seus conhecimentos de magia pôde tornar a mais bela e rica moça de uma cidade que o desconhecia em uma esposa apaixonada e cega.

Nada na vida de Giovanni é sem propósito. Ele auxilia os pobres com o intuito de ganhar a admiração da sociedade católica local, afeita à caridade mas não interessada em desenvolvê-la com suas próprias forças. O local perfeito para exercer sua vida coberta por mentiras.

O pai de Maria foi assassinado a seu mando. Quanto à sua esposa, Giovanni sentiu o prazer de pôr fim à sua vida com suas próprias mãos. Não é difícil para ele demonstrar ao povo a face de homem derrotado pela dor da morte da esposa amada, o que serve perfeitamente a seu maior intuito: algo que nem o mais corajoso dos homens ousaria tentar.

Em seu coração não há espaço para o amor. Ele casou-se apenas para ter um filho, cujo propósito de vida é algo que apenas Giovanni conhece. O italiano se diverte em imaginar a ironia da sabedoria ofertada pelo demônio ser exatamente o que lhe permitiu orquestrar um plano perfeito para enganá-lo.

Porém, hoje, uma noite após o dia em que fingiu chorar a morte de Maria, durante uma experiência alquímica em seu quarto secreto, Giovanni comete um erro que lhe custa a vida. Ou seria isso apenas mais uma ilusão?

"Abandonai toda a esperança, ó vós que entrais"

Logo após sua morte, a aterradora mensagem é a primeira imagem à vista de Giovanni. Imaginando saber o que lhe aguarda, o italiano adentra pelos sombrios portões do Inferno e segue pelo rio Aqueronte, devidamente conduzido por Caronte, o barqueiro.

Após cruzar o Primeiro Círculo infernal, um lugar para o qual sabia não ter sido destinado, Giovanni depara-se com um gigantesco monstro possuidor de uma enorme cauda negra com a qual segura as almas, uma a uma, conduzindo-as para os locais de direito.

Quando chega sua vez de ser julgado pela fera, Giovanni olha fixamente para o local onde deveriam estar os olhos da criatura e aguarda sua decisão. Minos enrola sua cauda oito vezes, e o italiano sorri levemente. Se fosse possível discernir alguma feição no horrendo monstro, seríamos capazes de perceber que o demônio gostaria de sorrir mais que a alma iludida à sua frente.

O Oitavo Círculo do Inferno é a região para a qual são destinados todos os enganadores. Seu regente é conhecido na Terra como Neron, nome do qual os hebreus derivaram o número 666, o sinal da Besta. Seu estilo destoa dos demais regentes infernais, não por sua crueldade ou falta de compaixão, mas pela forma como prefere agir.

Neron sempre está em busca de almas conspurcadas pelo mal. Aquilo que é conhecido entre os humanos como livre arbítrio é seu maior aliado, pois as almas que têm a capacidade de seguir o mal por vontade própria são muito mais sedutoras do que aquelas cuja índole já está predeterminada por condições inerentes em cada ser.

Seu poder é incomensurável e seu reino é um dos mais povoados entre todos os nove Círculos. Sua iniciativa de buscar almas e ferí-las com o ódio e o rancor a partir de promessas vãs é seu maior prazer. As almas destinadas a seu comando passam a eternidade em valas repletas de lava incandescente, sendo ainda espetadas por seus discípulos e picadas por cobras, além de outros sofrimentos.

Mas Neron possui ainda outra característica que o diferencia dos demais demônios. Seu prazer em provocar sofrimento é tão complexo que prefere disfarçar sua verdadeira forma demoníaca em uma figura humana imponente, mas que o faz ser subestimados por seus "companheiros". Sua vestimenta espalhafatosa e suas atitudes por demais "humanas", portanto, conseguem disfarçar não apenas seu rosto e corpo, mas sua verdadeira natureza de puro mal.

É raro Neron ser enganado, já que ele é o rei da hipocrisia. Contudo, sempre há aqueles que têm a ilusão de querer enganar o demônio. Com esses seres, Neron costuma se divertir.

— Desejo falar com vosso mestre! — impõe Giovanni, na presença de um diabo menor.

— Humano tolo, quem você pensa que é? — diz rispidamente o demônio, tentando disfarçar seu espanto por uma alma recém-chegada ao Oitavo Círculo infernal ter coragem de se apresentar com tanta empáfia.

— Sou Giovanni Hormanico e seu mestre me conhece. Esse falso demônio não cumpriu sua promessa e fui trazido a este mundo por meio de mentiras.

— Mas esse é o reino das mentiras! Nada é verdadeiro e não importa como você chegou aqui! Agora você vai sofrer, desgraçado!

— Recuso-me a ser molestado por um demônio inferior como tu!

— O quê? — espanta-se o demônio, para logo adquirir uma face obscura, repleta de ódio — Eu vou cuidar pessoalmente para que você experimente todo o tipo de dor!

No momento em que o demônio ergue seu tridente para lançar Giovanni à lava destinada à sua alma, uma voz ecoa ao fundo.

— Pare!

— M... mestre? — assusta-se o demônio.

— Traga este humano à minha presença! Imediatamente!

— Tu me enganaste!

— Giovanni Hormanico. Tua alma já era aguardada no Inferno há algum tempo. Dei-te mais tempo do que merecias.

— Poupe-me deste falatório.

— Tu és, realmente, uma pessoa inconseqüente. Não sabes com quem falas?

— Claro que sei! Eu não seria um especialista nas artes arcanas se não soubesse que tu és o regente do Oitavo Círculo do Inferno!

— Claro... e tu sabes, portanto, que estás aqui principalmente por ser um hipócrita.

— Fizemos uma barganha!

— Lembro-me claramente. Prometi-te riqueza e sabedoria em troca de sua alma. E aqui tu agora estás.

— Eu não deveria morrer! Ao menos não da maneira torpe como aconteceu!

— Estranho... fui informado de que morrestes vítima de tua própria feitiçaria, num erro crasso.

— Tu me prometeste sabedoria, contudo fui vítima mortal da ignorância! Exijo que me tornes imortal como compensação!

— Ah... aprendeste sobre esta, digamos, "cláusula", nos livros?

— Minha vida inteira foi dedicada a adquirir sabedoria sobre o local para onde estava destinado a vir.

— Pois tua sabedoria é ilusão. Nada me obriga a dar-te o que exiges.

— E quanto a uma nova barganha?

— O que podes oferecer-me? Tua alma já é minha por direito.

— Sou capaz de oferecer-te uma alma mais pura e forte que a minha.

— Teu filho?

— Como sabes?

— Já imaginava que serias capaz de oferecer a alma de teu próprio filho em sacrifício para salvar-te. És um homem de decisões óbvias.

— Aceitas?

— O que queres em troca?

— Vida eterna!

— Mas tu não tens mais corpo.

— Sei que tu podes conceder-me vida eterna a partir da carne plasmática de minha alma.

— Que assim seja!

Enganar o demônio. O homem sempre se julga mais esperto do que realmente é. O regente do Oitavo Círculo jamais recusaria uma nova barganha e, para oferecê-la, bastou ser firme o suficiente para ter sua atenção. Vida eterna. Em troca, a alma de uma criança cujo único propósito de ter recebido a vida era a servidão de sua morte.

Giovanni planejou tudo durante anos. Com sua grande sabedoria, adquirida através da barganha com Neron, dedicou-se a estudar como adquirir também a vida eterna. Jamais poderia ganhar a eternidade oferecendo sua alma em troca; afinal, se jamais morresse, o demônio jamais teria uma alma. A vida eterna, como descobriu em livros tão secretos que nem o Vaticano os conhece, só seria possível em troca de outra alma.

Uma pessoa pode apenas dispor de seu próprio espírito para acordar algo com um demônio. Contudo, uma criança imberbe tem sua alma ainda em formação e, portanto, é dependente da vontade de seus genitores. Claro que a mãe da criança precisou ser morta para que ele fosse o único dono da alma de seu filho, que sequer ganhou um nome, pois seu único destino será morrer em prol de seu maldito pai.

Não poderia ser mais simples. Impressionante como o demônio foi enganado tão facilmente. A alegada ignorância que ocasionou sua própria morte foi proposital. Imagens sacrossantas no chão impediriam as forças do mal de saber que o acidente não passou de um suicídio, com a finalidade de contatar o demônio antes que a alma da criança não estivesse mais sob seu poder.

Agora basta matar a criança para que sua alma ainda pura seja encaminhada para Neron. Chegando pura, o demônio certamente sofrerá por não agüentar sua força ainda infantil e inocente. Com isso, ele será incapaz de retirar sua imortalidade.

Tudo baseado em um plano perfeito para enganar as forças de Inferno. Ilusão.

O que um indefeso bebê estaria fazendo no Inferno? Esse é um lugar no qual não faz sentido a presença de uma criatura pura, que ainda não foi tocada pela maldade do mundo. O Oitavo Círculo, então, seria um posto impensável para uma criança há pouco nascida.

Giovanni Hormanico não entende o que está acontecendo. Logo após o demônio dizer "que assim seja", ele esperava ser encaminhado para sua casa, onde poria em prática a segunda parte de seu plano, matando seu filho para garantir sua vida eterna. Contudo, ao invés de ser lançado fora do Inferno, ele vê seu filho nos braços de Neron.

— O q... que significa isso? — contesta, incrédulo, o italiano.

— Ora, tu não me ofereceste a alma de teu pimpolho? Hahaha! — a gargalhada demoníaca ecoa pelas paredes impregnadas de dor e sofrimento.

— Mas eu... eu...

— As palavras te faltam, não é? Hipócrita! Achaste mesmo que poderias enganar o rei da mentira? O mestre da hipocrisia? O acordo foi feito e a alma de seu filho será minha e tu terás a vida eterna! Tua alma tornou-se carne, mas tua carne não habitará as planícies do mundo vivo! Tu ficarás aqui e a dor a ser infligida resultará em maior sofrimento na carne do que seria na alma!

— Mas...

— Cale-te, ser ignóbil! Tu realmente pensaste que eu cairia neste tolo truque de receber uma alma pura, sem pecado? Esse erro já cometi uma vez e quase foi fatal! Jamais seria enganado novamente por um reles humano!

— A criança...

— Está viva. Enquanto conversávamos, ela me foi trazida por um de meus emissários. Tu sofrerás mais do que o normal, e esta criança, cuja alma me pertencerá no momento oportuno, será teu eterno carrasco! Agora tu verás que eu sou o último demônio com o qual deverias tentar brincar! Terás a rara oportunidade de ver um pequeno aspecto de minha verdadeira aparência.

— Verdadeira...?

— Achas que eu realmente mereceria ser regente do Oitavo Círculo se fosse essa figura ridícula que tu vês? Achas que alguém com a figura humana intacta teria um dos mais horríveis reinos do Inferno sob seu comando? Observe agora quem realmente sou.

Neron começa lentamente a modificar sua aparência. A pela lisa e alva passa a dar lugar a uma textura ríspida. Suas vestimentas são absorvidas por seu corpo, pois não são senão simplesmente uma aparência falsa. Seu rosto torna-se detentor do mais assustador formato que Giovanni pode imaginar.

Com a transformação concluída, Neron posiciona seus tentáculos cobertos de ácido no corpo ainda inocente daquela criança sem nome. Um choro de dor, vindo de quem não deveria conhecê-la antes da idade adulta, toma conta de todo o reino do Oitavo Círculo. Giovanni é obrigado a observar todos os detalhes da violência aplicada contra seu filho. O bebê é violentado por demônios inferiores e fica coberto de chagas produzidas pela lava e pela sarna daquele lugar.

Pare! — implora Giovanni — Não faça isso com... meu filho...

Hahahaha! — novamente o riso maligno de Neron ocupa o ambiente — Agora ele é teu filho? Antes era apenas um meio para conseguires a vida eterna.

— Todo esse sofrimento... eu imaginei que ele teria, mas que eu não precisaria ver...

— Violente-o!

— Como?

— Ordeno-te. Violente essa criança e tu terás a liberdade!

— Não posso...

— Queime-o no fogo da lava incandescente e o estupre, para meu deleite! Basta isso e tu terás liberdade!

— Não... não posso...

— Vocês, humanos, são todos iguais. Presunçosos e previsíveis. Prepara-te para teu castigo, que está na hora de seres apresentado a teu carrasco.

Neron esmaga o crânio da criança e o choro cessa definitivamente, para em seguida sua alma, já suficientemente apodrecida para ser elevada a um demônio, é encarregada de atormentar por toda a eternidade o imortal Giovanni Hormanico.

Uma das maiores ilusões dos pecadores é a de que a morte é o fim derradeiro de tudo. Às vezes durante a própria vida, o pouco que se faz é suficiente para a eterna danação. Os demônios não devem ser julgados pela aparência, assim aprendeu da pior maneira Giovanni Hormanico. Tentou enganar o próprio rei da mentira, mas acabou ele próprio enganado e condenado a um sofrimento maior do que qualquer outro existente no Oitavo Círculo infernal.

Pensar que se pode enganar o rei dos enganadores. Essa é a derradeira ilusão dos pecadores. Toda esperança deve ser abandonada por quem é destinado ao Inferno, mas até esse abandono não costuma passar de uma ilusão.



 
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