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Demonomania - O Sétimo Círculo

Por Octavio Aragão

O Melhor Condenado

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O bom jogador sabe quando deve apostar.

A aceleração de uma bala calibre 38 ao sair do cano vai do zero a 300 km/h em menos de um segundo.

O grande truque é esconder os sentimentos sob uma máscara gelada.

O impacto do projétil disparado a menos de dois metros do alvo pode atravessar a vítima, causando grave hemorragia interna e espalhando estilhaços de ossos por dentro do corpo, o que aumenta a probabilidade de infecção generalizada.

A graça está em levar um blefe até o fim, determinando o momento exato em que o adversário está fragilizado para desferir o golpe fatal.

O recuo de uma arma de fogo é violento, logo, se o usuário decidir realizar outro disparo, deverá manter a mão firme e apenas ajustar a mira para o objetivo subseqüente.

É necessário deixar o outro jogador desamparado, sem pai nem mãe...

O atirador consciente sabe quanto deve gastar para atingir seu objetivo. Se duas balas podem resolver o problema, não faz sentido desperdiçar munição em alvos que não representam ameaça imediata. O melhor é guardar a arma e retirar-se o mais rápido possível da cena.

...e alimentar nele sentimentos simples e ambíguos como raiva e vingança.

Por outro lado, é importante precisar se o alvo está devidamente neutralizado antes da retirada. Ninguém quer ser atacado pelas costas por um animal ferido ou deixar escapar algo que possa querer cobrar uma dívida de sangue.

É como pescar. Você dá a linha ao peixe e deixa-o pensar que está seguro, que se safou com a comida.

Porque há casos documentados de caçadores profissionais que sofreram prejuízos enormes por deixarem um filhote vivo e, ao voltarem à floresta no ano seguinte, serem confrontados por um adulto raivoso e de boa memória.

Deixe-o alimentar o ódio, esquecer os prazeres da vida. Faça com que o amor morra lentamente, salgando o solo. Focalize seu pensamento na retribuição, na dor. Transforme-o em seu instrumento, seu chicote, a bota que pisa o rosto.

Certos predadores evoluem por causa do homem, desenvolvem sentidos especiais que permitem localizar o inimigo nos cenários mais inóspitos, transformam caçador em caça e devoram até os ossos.

Pendure-o numa corda e manobre o corpo como uma marionete, punindo seus inimigos, mas pensando que o faz por vontade própria.

Certos animais podem contagiar um ambiente, espalhando a dor, a raiva e a loucura por entre outras criaturas.

Faça com que todos sejam influenciados por sua raiva justificada. Utilize a aura da fera e potencialize seus adversários. Faça com que ele se torne a causa do que pretende exterminar, encurrale a presa, reverta o jogo, feche o círculo.

E, numa floresta tomada pelo medo e pela raiva, não há para onde fugir.

Então, quando estiver no centro da roda, algo simples, um descuido fatal, trará todo o butim, toda a recompensa de uma vez. Todos os inimigos, a sopa de ódios, a violência primordial, a insanidade concentrada será sugada. Todos morrerão ao mesmo tempo e o jogo estará ganho.

O caçador deve manter a calma mesmo nas situações menos propícias. O raciocínio nunca deve ser embotado pela emoção, mas focar a atenção como uma lâmina afiada. Sempre há uma saída. Sempre...

— Está vendo só? Ganhei. — disse o anticristo ao demônio amarelo.

— Não vejo como / A demência persiste. / Mas, para o Inferno, / O amargo pomo, / Precedência insiste.

— Péssima rima. Pedante e cacofônica.

— Que quereis? / Aqui é a danação! / Talento é negado / Aos que expiam. / Quanto aos reis, / Pior a situação. / Mas pecado sem par / É ver tempo dedicado / À erva daninha / De pouco significado. / Diferente da minha, / Sua parte no legado / Vai ter de esperar / A morte do condenado.

Um sorriso aflorou nos lábios do ouvinte, que espalhou sangue sobre a mesa. A imagem de um morcego surgiu na superfície úmida e de suas garras pendia um homem enlouquecido. As gargalhadas se confundiram com o bater das asas e ambos desapareceram enquanto o plasma enegrecia.

— Viu, amigo? — disse o filho da Besta enquanto limpava a mesa — Nem sempre é necessário manter uma alma em nossos domínios. Às vezes, o trabalho é melhor cumprido se deixamos os loucos tomando conta do sanatório, disseminando nossos mandamentos até o fim da vida, sem pressa. O melhor condenado é aquele que se julga inocente.

E, enquanto embaralhava, completou:

— Ele já tem a corda. Só nos resta esperar pelo enforcamento.

O demônio amarelo bufou enquanto analisava suas opções e estratégias. Teria de se esforçar para ganhar a próxima partida, mas tinha a impressão que seria inútil. Naquele cassino todas as cartas já nasciam marcadas.



 
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