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Demonomania - O Sexto Círculo

Por Alexandre Mandarino

A Bondade Está Nos Olhos de Quem Vê

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— Porque Deus está em todas as coisas e sem a Palavra Dele nossas vidas são minúsculas, cheias de sofrimento. Abandonem o sofrimento! Agora! Deixem Deus e Sua Infinita Bondade agraciar seus corações, abrandar o óleo fervente que torna seus pensamentos turvos e enegrecidos!

— Amém! — gritou a turba.

— Sim! Deus está em todos nós, com Sua Bondade! Cuidado com o demônio, irmãos! É o demônio que nos leva para o mal, para o caminho que não tem volta. É ele que espreita os nossos pensamentos mais negros, ele que nos faz pecar. Cuidado com o demônio. Voltem seus olhos, ouvidos e corações para a voz divina, porque só Deus salva, através de seu filho Jesus! Através da fé infinita que devemos a Ele por ter nos dado o sopro de vida que nos permite amar e ter fé em Suas ações!!

Nesse momento, os fiéis se levantaram e, em fila, começaram a depositar sua fé em uma bolsa de couro em frente ao pastor. Notas amassadas de cinco reais, moedas de 50 centavos. Meia hora depois, três homens de terno preto levavam cinco bolsas de couro, cheias de dinheiro até a boca, para uma sala nos fundos da Igreja da Palavra Quíntupla de Deus. Nunca a fé foi tão difícil de ser carregada.

O pastor José Carlos Guimarães, o "Joca Palavrinha", afrouxava a gravata sorrindo e perguntou:

— Quanto hoje?

— Difícil dizer — respondeu um dos homens de terno. — Mas com certeza deu mais do que ontem. Aleluia, irmão José!

— Aleluia!

Joca foi até a sala ao lado, onde sua mulher Míriam já havia preparado duas compridas carreiras de cocaína para ele. Antes que se pudesse dizer "Apocalipse de João", o pó já estava caminhando das narinas para a corrente sanguínea e o cérebro do pastor.

— Amanhã, Míriam. Amanhã é que vai ser o melhor. O Maracanãzinho cheio. Vou ter meia-hora para falar. Se tudo der certo, vão me transformar no principal homem da Quíntupla aqui no Rio.

— Eu sempre soube que você iria longe, Joca, graças a Deus.

— Sim, graças a Deus.

No dia seguinte, lá estavam eles, se amontoando para entrar em um Maracanãzinho abarrotado. Paraplégicos, mães de família, desempregados, neo-socialites, fiéis das mais diversas formas e tamanhos. Finalmente, após a apresentação da dupla sertaneja Joaquim e Quim, ele tomou o palco. A voz grossa do Pastor José Carlos ressoou pelo sistema de som: — Irmãos! Estamos aqui porque queremos uma só coisa! Temos em comum o mesmo anseio em nossos corações! E o que é isso que todos nós queremos?

Um segundo de silêncio, enquanto a turba pensava e Joca Palavrinha finalmente respondeu:

Parar de sofrer!!!!!

A multidão delirava em êxtase, ao passo que Joca continuava, aos berros:

— Sim, o sofrimento vai parar e vai parar graças à intervenção de Deus! Porque é através dele que vivemos, é através dele que respiramos. É Ele que nos transforma em agentes da bondade, para escapar das garras do demônio, das ações dessa entidade que deseja apenas propagar o mal pelas nossas vidas. É Deus que ilumina o nosso caminho! É Ele que...

Joca colocou a mão no peito e caiu pesadamente ao chão. O Maracanãzinho parou de respirar, em expectativa. Dois seguranças de terno se aproximaram correndo.

Trevas. Um mar leitoso de escuridão e breu.

Luz. Lentamente se infiltrando pela cortina de seus cílios.

Joca piscou os olhos e tentou se acostumar à extrema brancura que o cerca. Estava deitado em um chão de mármore. À sua volta, não existiam paredes. No lugar delas, uma imensidão de brancura. Então, o pastor teve um sobressalto. No canto esquerdo, quase fora de seu ângulo de visão. Lá estavam eles: dois anjos.

Sim, dois anjos.

Ele se levantou, trêmulo e cambaleou por alguns metros até as duas figuras. Eram quase idênticas, inclusive em seus gestos calmos e lentos. Seus cabelos loiros encaracolados caíam até as orelhas. As túnicas brancas não eram feitas de nenhum material conhecido na Terra.

Na Terra... Não estava mais na Terra. Mas então...

— Você teve um ataque cardíaco. Mas há uma boa notícia: não está morto... ainda. Pode ser que sobreviva.

A voz de Remiel, um dos anjos, ressoava como glacê em seus ouvidos. Ela parecia soprada através dos tubos de um órgão de igreja. Atônito, Joca respondeu:

— Então... Isto é o céu? Estou no céu, certo? Vocês são anjos.

Remiel olhou Duma, o anjo do silêncio e hesitou; então, voltando-se para Joca, disse:

— Veja, esta é a má notícia...

— Torquemada! Fique quieto no seu lugar, seu filho da puta! O que pensa que está fazendo?

— Eu... não aguento mais, senhor.

25, 15 olhou para o corpo esburacado do inquisidor:

— Quantas vezes ouviu essa frase, desgraçado? Quer dizer, quantas vezes fingiu não ouvir esta frase? Volte para seu lugar!

— Deixe-me ao menos tirar este capuz. Está quente e as feridas no meu rosto estão...

— Não! Chega. Volte para lá ou vou chamar o 34, 12.

— Não! Eu volto, já estou voltando!

Torquemada saltou e desapareceu no solo. Na verdade, caiu em uma imensa piscina de corpos, brasa e sangue. Das paredes de terra saíam garras mecânicas, com ferros de marcar nas pontas. Os estranhos mecanismos procuravam as mãos e pés dos condenados e os atravessavam. Muitas vezes erravam e atingiam em cheio os olhos, a o rosto, as pernas, o estômago ou os genitais das pessoas na piscina.

— Ex-TigMachina. Stigmata instantânea e automática... — balbuciou 25, 15, sem perceber que alguém se aproximava por trás dele.

— Brilhante, não? Stigmata Ex-Machina, feridas divino-tecnológicas para a plebe de desgraçados hereges e pilantras hipócritas. Torturadores, inquisidores, aqui é o vosso lugar!

A voz saía do enorme corpo de 12, 23, que sorria.

— Você é cruel, 12 — disse 25, 15.

— Não me diga. Vidência é agora um de seus dons, querido 25,15?

Na câmara ao lado, paredes de barro abriam e fechavam, como se batessem palmas. Em meio às gigantescas mãos, corpos nus berravam de dor. 02, 02 olhava para eles com satisfação. De tempos em tempos, levantava-se de sua cadeira acolchoada com fios de ouro e girava um mecanismo, como se desse corda em um relógio. Uma voz se destacou na turba de condenados esmagados:

— Maldito, nos dê pelo menos meia-hora. Meia-hora! O que é meia-hora frente à eternidade?

02, 02 riu e continuou girando o mecanismo. Um estalo se fez ouvir e as "mãos" de barro voltaram a se chocar, espalhando miolos e vísceras ao seu contato.

— Alexandre VI, você continua um idiota — disse 02, 02, voltando a se sentar.

Mas a cabeça de Rodrigo Borgia, o Alexandre VI, já rolava a metros de distância e demoraria a se reencaixar em seu corpo.

— Inferno?? Mas... como?

Duma e Remiel se olharam, tímidos. Foi Remiel quem falou.

— Aqui não é o inferno. Quero dizer, é. mas apenas uma parte dele. O que quero dizer é que este é o sexto círculo.

— Sexto... círculo?? — disse Joca.

— Sim. — Duma observava, em silêncio misterioso, enquanto o irmão falava. — O sexto círculo infernal. Você certamente sempre soube que o Inferno era dividido em nove círculos... ou não? Mas... sim. É claro. Você não acreditava na existência de um inferno. É verdade. Minha memória não é mais a mesma desde aquele dia... o dia em que fomos agraciados.

— A-agraciados? — espantou-se o pastor.

— Sim... Com a chave do Inferno. Quero dizer, a chave deste círculo. Quando Lúcifer se aposentou e...

— Esperaí. Lúcifer se aposentou?? Do que vocês estão falando?? Isso é um delírio. Eu estou em um quarto de hospital, delirando.

— Lúcifer se aposentou e coube a nós tomar seu lugar. Os novos anjos caídos. Primeiros de toda uma geração. E você ainda está em um quarto de hospital, mas isto não é um delírio. Não sabemos onde está agora o primeiro anjo caído, mas provavelmente está em alguma praia... ou tocando piano em algum clube de jazz.

— Jazz? Lúcifer? Mas isso...

— "Pastor", serei direto aqui. — Interrompeu Remiel. — Você e os outros pastores da sua igreja são uma piada. Sua igreja é uma piada. mas isso você já sabia. O que não sabia é que era uma piada completamente sem graça... Por isso você está aqui. O sexto círculo é para onde vêm os hereges. Os blasfemos. Isso lhe lembra alguém?

— ...

— E também os ateus materialistas, os maus chefes de família e aqueles que se voltam contra a Divindade. Seja ela qual for.

— Mas eu...

— Um belo resumo da sua vida, não? — disse Remiel. — Esta é a chave — E apontou para as mãos de Duma, que segurava uma enorme chave de metal, enferrujada e envelhecida. — A chave que fechou as portas do céu para nós. Não se brinca com símbolos, pastor.

13, 27 apanhou a colher do chão mais uma vez.

— Vamos, abra a boca e diga "aaahhh". Olha o aviãozinho!

Tremendo, Jim Jones abriu a boca. A colher entrou, vazia, e saiu cheia de dentes. A boca de Jones sangrava.

Hummurgf!!

— E lá vão seus dentes! — 13,27 fez um gesto com a colher e os dentes do condenado se espalharam pelo chão. — Você tem 33 segundos para encontrar todos eles, ou ficará banguela. Um, dois, três e... já! — disse 13, 27, olhando para sua ampulheta de pulso.

Ao grito de largada, Jones saiu correndo e, de quatro, tentava recuperar todos os seus dentes. Mas, mal havia apanhado os dois primeiros, duas enormes bestas de metal e engrenagens se engalfinharam com ele. As bestas recitavam trechos do Livro dos Números de traz para a frente.

— Eunf nãof aguuntfu maiff!

— Aguenta, sim! — gritou 30, 21. — Coma!

O condenado, com penteado à moda quaker, tornou a encher a boca de hóstias. Ao seu redor, na interminável mesa (haveriam ali centenas, talvez milhares de lugares?), os outros amaldiçoados pegavam hóstias com a mão e enchiam suas bocas com elas.

— Vamos, comam! Basta que o primeiro estômago arrebente para que tenham um descanso de dez segundos antes da próxima ceia!

Sobre a mesa, canos de bronze e garras metálicas despejavam uma quantidade infinita de hóstias sobre as tigelas de prata.

— Mas... por quê?? Sempre fui um homem religioso, temente a Deus...

Remiel se enfureceu:

— Não diga idiotices, pastor! pare de blasfemar, ao menos enquanto estiver aqui! Você sabe muito bem porque está aqui! Seu único Deus sempre foi o dinheiro. Tem até sorte de ter sido um herege e blasfemo, ou poderia muito bem ter terminado no quarto círculo.

Duma abaixou a cabeça, representando em imagens o tom da voz de Remiel, que disse:

— O quarto círculo... Nada, nada bom.

— Mas eu nunca fiz nada demais! — protestou o pastor.

Remiel olhou para ele com os olhos de um azul impossível de existir:

— Nós também não fizemos, pastor. Eu e Duma nunca fizemos nada demais. E estamos aqui, embora não como condenados no sentido estrito da palavra. Nunca mais veremos a cidade prateada, seus cânticos que desafiam todo e qualquer sentido humano de beleza. Suas torres que fazem chorar até um desalmado em sua ânsia ingênua de se agarrar às roupas da Palavra. Tampouco jamais vislumbraremos novamente os rios de hidromel e ambrosia, desaguando serenamente no Jardim do Éden, agora definitivamente alçado aos céus. Nossos olhos ainda serão virgens para todas as demais belezas e... tudo... todo o resto...

Duma colocou a mão sobre o ombro do irmão, que logo se recompôs e continuou:

— E em verdade vos digo, "pastor", que merecíamos estar lá mais do que você merece estar aqui. Mas precisamos nos posicionar aqui, nesta terra indizível, agora e sempre, por Vontade suprema Dele. Sabe que para cá também chegam as almas ridículas que gostam de abusar de seu poder na Terra? Bem, o senso divino não carece de ironia. Colocou neste círculo justamente os seres que menos gostam de poder. Não é fácil para nós, mas não merecemos reclamar de nossa condição. Ele é a Palavra e palavras têm vários sentidos, afinal de contas. Você, pastor!! Você e seus iguais! Você seria incapaz de identificar beleza e santidade nem que estas lhes fossem esfregadas diante do seu nariz cheio de pó! Vou lhe contar uma coisa: anjos, céu, a Palavra, a ida de Seu Filho à Terra... Tudo isso e todas as histórias das demais crenças e religiões dos humanos, tudo existe com uma única finalidade. Um propósito tão simples, afinal, que pode ser resumido em uma única frase: "Amai-Vos Uns Aos Outros Como Amas A Ti Próprio". E quão grande é a tristeza e a desgraça de uma raça que é capaz de entender este conceito mas não consegue aplicá-lo? E como poderiam? Muitos de vocês, pastor, não é capaz de amar o próximo. E sabe por quê?

O pastor tremeu.

— Porque não amam a si mesmos. Você, pastor, sempre teve um profundo desprezo pelo que é, você seria capaz de cuspir em sua própria alma se fosse ganhar algo com isso. Como amar ao próximo quando não amamos e respeitamos a nós mesmos? Como? É essa característica triste, negra e desgraçada que os condena a vir aqui; que nos condena a ficar aqui, como cicerones-seguranças-guardas-de-trânsito; que condena este lugar vil a existir. De todos os condenados, sinto mais dor por este lugar. Ele é o único que nunca será redimido. É a perversão da beleza. Vocês receberam tanto e fizeram tão pouco. Sabe, conseguimos realizar algumas mudanças aqui após a partida de Lúcifer. Todas as punições são realizadas de forma mecânica, por exemplo. Não há lugar para o sobrenatural por aqui. Ao menos, não explicitamente. Na superfície, tudo funciona de acordo com os padrões "humanos" de "lógica". Que melhor punição para aqueles que fizeram dos valores mais altos motivo de escárnio? Para aqueles que usufruíram do que julgaram erroneamente ser as benesses dos poderes mais elevados? Que melhor castigo para estes — para vocês — do que a máquina fria e nua? Nem mesmo demônios temos por aqui. Ao menos, não mais. Este círculo é coordenado não por seres abissais, mas por versículos.

— Versículos?

— Sim, você os conhece muito bem. Não? Afinal, os decorou de cabo a rabo para seus propósitos mais mesquinhos e hipócritas. As palavras têm poder, "pastor". E o número de vezes em que pronunciou a palavra "demônio" foi três vezes maior do que a quantidade de vezes em que citou — sim, apenas citou, já que nunca a enxergou plenamente — a Palavra. Pense nisso. A quem você realmente rendia homenagens? A quem?

O "pastor" gaguejou.

— A eles. — Remiel estalou os dedos e vários monitores e telas brancos apareceram em pleno ar na Câmara Branca. — Veja. Ali está 23, 44, torturando com ferro e fogo um dos fundadores da religião mórmon. As feridas são preenchidas com sal... Salt Lake City, entende? Na outra tela, você pode ver 54, 32 cantando a plenos pulmões o cântico das dores, enquanto pastores, padres, loucos, rabinos e outros "homens santos" que mal sabiam o verdadeiro sentido desta palavra tentam em vão tapar ou ouvidos. Mas a Palavra verdadeira sempre é escutada... mais cedo ou mais tarde.

— E aquilo... o que é aquela caverna? — apontou o pastor.

Remiel hesitou e então respondeu:

— Aquela caverna é mantida... em ordem. Uma homenagem nossa ao Senhor dos Sonhos. Nada vive ali.

— N-nada?

— Sim, não há mais Nada ali. Nada está ali. A caverna deve ser mantida, como dádiva de respeito àquele que nos acolheu e a outros em seu Palácio, certa vez. O Palácio que muda constantemente de forma.

Duma olhou para o irmão com uma expressão de repreensão.

— Desculpe. Me excedi. — entendeu Remiel, desligando com um gesto aquele monitor em particular. — Mas volte seus olhos para as outras telas: lá está, por exemplo, 20, 06 derramando salmos líquidos efervescentes nos ouvidos dos seguidores de seitas blasfemas. É um castigo um tanto incoerente... estes condenados em especial nunca foram muito bons em ouvir, de qualquer forma. Mas, como vê, não temos demônios. Os antigos demônios que aqui serviram foram transfigurados. Não queremos semelhanças com os outros círculos. Este é o nosso círculo, afinal de contas. Os velhos demônios tomaram a forma dos versículos sagrados... e não estou me referindo apenas ao Livro Sagrado que conheceu na Terra, mas a Todos Eles. É por isso que 20, 06, cuida desse castigo em particular. O capítulo 20, versículo 06, trata exatamente disso. Mas temo que nunca terá a oportunidade de conferir isso. Mas como, apesar de tudo, ainda somos anjos, o deixaremos fazer ao menos uma escolha.

— Como assim? Eu ainda estou vivo, em um hospital. Basta que me reanimem e eu volte a levar a minha vida. Se isto é um sinal, posso tentar mudar. E também...

— Você não entendeu nada, pastor. Não é assim que a beleza funciona. Além do mais, faltam quatro minutos e trinta e dois segundos... trinta e um... trinta... vinte e nove... para a sua morte.

— Ahn??

— Escolha uma das telas, pastor. É uma farta opção de versículos.



 
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