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Demonomania - O Terceiro Círculo

Por Otávio Niewinski

O presente.

Uma a uma, cinco balas vão sendo retiradas do tambor do revólver. James observa a bala restante, sentado na cama de seu quarto mal-iluminado, e em sua mente faz uma última prece. Ele sabe que, daqui a um minuto, estará morto. E também sabe que a morte será um castigo merecido.

A Última Bala

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James fecha o tambor, gira-o e aponta a arma para sua cabeça. Fecha os olhos e, lentamente, pressiona o gatilho.

CLIC

A primeira câmara, vazia. Mais alguns instantes de vida apenas. Ele pressiona o gatilho novamente.

CLIC

Mais uma câmara vazia. James amaldiçoa a própria sorte: ele quer morrer, ele precisa morrer. Tenta mais um disparo.

CLIC

Ele indaga se Deus está brincando. Sabe que seus pecados são grandes, e que não pode mais viver com eles...

CLIC

Restam apenas dois disparos, no máximo. E ele torce para que seja apenas um.

CLIC

James suspira. Apesar da pequena demora, não há mais volta; não há outra opção. Ele finalmente conseguirá o que quer. Ele se pergunta se vai sentir alguma coisa. De súbito, afasta a idéia, com medo de voltar atrás na decisão. Resolve não pensar mais, puxa o gatilho pela última vez e descobre que, como dizem, a sua vida passa diante de seus olhos no momento da morte.

O passado.

James Anderson, vinte e poucos anos, chegou a Nova York seis meses atrás. Saiu de Boston fugindo de pessoas que queriam seu mal, deixando para trás sua mãe viúva e sua irmã pequena. Mas tendo pela frente a vida que sempre quis. E, se as coisas apertassem de novo, seria só ir embora novamente.

James é, como ele mesmo se define, "viciado na noite". E isso significa festas, drogas, bebida e garotas. Não tem trabalho fixo, apenas faz bicos para juntar dinheiro para a próxima noitada. Raves são o seu divertimento preferido: lá ele pode encontrar tudo o que procura ao mesmo tempo. É só procurar no lugar certo.

Hoje parece um dia especial. Depois de chegar à festa, ele encontra alguns amigos e com eles bebe e toma ecstasy. Um deles oferece uma seringa, mas James recusa: também gosta da heroína, já foi usuário freqüente, mas nas últimas semanas tem preferido o ecstasy, que descobriu em Nova York, e que foi amor à primeira vista. Quando as drogas começam a fazer seu efeito, vai à pista de dança. É hora de procurar a transa da noite.

Algumas horas depois — que, para James, pareceram apenas alguns segundos — ele já se mostra decepcionado. Nenhuma de suas investidas deu certo. Será que vai ter que ser mais uma noite com uma puta? James não se importa de transar com prostitutas. Mas é claro que comer uma menina riquinha é bem melhor...

É quando James a vê. Loira, com os cabelos presos num rabo-de-cavalo, olhos azuis, seios fartos, rosto lindo — o tipo dele. E, como se tudo isso não bastasse, um "algo mais" que deixa James simplesmente maluco. Sozinha na pista de dança. E está olhando para ele! Ele se aproxima, tentando um assunto.

— Oi, eu sou James.

— Oi. Trish.

A voz é rouca e sensual. Exatamente como ele gosta. James só pensa em transar com a garota, mas sabe que vai ter muita conversa pela frente até conseguir o que quer.

— Tá a fim de uma água? — pergunta ele.

— Já tenho. — ela mostra uma garrafinha.

Ela olha fixo nos olhos dele.

— Quer transar?

No apertado banheiro químico, James tem a melhor transa da sua vida. Trish faz tudo o que ele gosta — ela nem pede para ele usar a camisinha! — e mais algumas coisas de que ele nem sabia que gostava... no final, ela põe as mãos dele em seu próprio pescoço e faz um pedido no mínimo estranho.

— Aperta.

— Quê?

— Aperta o meu pescoço. Eu gosto...

James já ouviu falar disso. Minas que se excitam com sufocamento.

— Leeeeeeeegal.

E ele aperta. Com cuidado. Ela se contorce, geme e, por fim, chega ao orgasmo. James solta seu pescoço. Trish cochicha no ouvido dele:

— Vou dar uma volta. Fica por aqui, daqui a uma meia hora eu apareço... e a gente faz de novo. Tá legal?

— Claro. — ele responde, vestindo as calças. Os dois saem do banheiro, ela vai para um lado, ele para outro.

James encontra seus amigos, conta para eles o que acabou de acontecer. Ninguém acredita. Ele toma mais ecstasy e bebe ainda mais. De repente, ele já não está conseguindo mais coordenar suas idéias. Mas de uma coisa ele lembra: Trish vai estar no banheiro em meia hora. As situações seguintes não ficam em sua cabeça por mais de alguns segundos... e misturam-se, como um carrossel doentio de flashes.

James começa a transar com ela.

Ele tira suas calças e a calcinha dela.

Proximidades do banheiro químico. Trish chega.

Ela grita, mas nem mesmo James escuta, pois o volume da música eletrônica no momento está no auge.

Ela parece resistir, mas ele sabe que é só mais um jogo.

James aperta a garganta de Trish novamente. Ele sabe que ela gosta.

James a beija e a puxa para dentro do banheiro.

Aos poucos, a mente de James começa a clarear um pouco. E ele se vê fazendo sexo com uma garota morta. Os olhos azuis, ainda abertos, já estão desprovidos de vida. E o corpo, inerte, não mais reage com o prazer de meia hora atrás. Apavorado, James solta a garganta de Trish, as marcas de seus dedos visíveis no pescoço da garota. Ele sai correndo dali, sai correndo da rave, sai correndo para casa.

Ao lado da pensão — ou seria melhor "pardieiro"? — onde James aluga um quarto, há uma igreja. Passando na frente do templo, James, já quase sóbrio, devido ao medo e à adrenalina, vê luzes acesas lá dentro e pensa no que fazer. Decide entrar. No altar, o padre observa a imagem da cruz e vira-se, espantado, para o inesperado visitante.

— Na igreja a essa hora, filho? — diz o religioso — Incomum.

— Incomum também é encontrar um padre acordado a essa hora da madrugada. — responde James.

— Insônia. — diz o velho padre, sorrindo — Sou o padre Kozlowski. Mas o que posso fazer por você? Não parece que está atrás de dinheiro. Mesmo porque não tenho.

— Preciso me confessar. — diz James, quase chorando.

— Pois venha, filho.

No confessionário, James conta toda a história desta terrível noite e é escutado atentamente pelo padre. No final, o reverendo pergunta:

— Tem certeza que ela está morta, filho?

— N-não sei, padre. Mas acho que sim.

— Então, que Deus tenha piedade de sua alma.

James percebe o tom grave na voz do padre, levanta-se e sai correndo para casa. Entrando no seu quarto, expulsa as baratas de cima da cômoda, abre a gaveta e de lá saca o revólver que guarda para o caso de algum de seus inimigos de Boston dar as caras. Ele decide que não merece viver.

Enquanto isso, na igreja, mais uma visita chega para o padre Kozlowski. Ele sorri, levanta-se e, em um piscar de olhos, nem o padre e nem a visita estão mais lá.

O presente.

CLIC

James olha aterrorizado para sua arma. Ele abre o tambor e esfrega os olhos, incrédulo. Sabe que colocou uma bala no revólver — e está vendo a bala no tambor. Sabe que a arma está em perfeitas condições. Então... por que não disparou?

— Porque eu não quis que disparasse.

Ao ouvir a voz que vem de trás de si, James toma um susto tão grande que urina nas calças. Encosta-se na parede e observa o homem alto de batina ao lado da janela fechada.

— P-padre Kozlowski? — gagueja — Como...?

— ...entrei aqui? James, James. Eu, como Ele, estou em toda a parte.

James percebe que há mais alguém no quarto, próximo ao padre. Seus olhos se arregalam quando reconhece o vulto como sendo Trish. Pálida, com marcas roxas de dedos no pescoço, ela fita James fixamente. Mas seu olhar, surpreendentemente, não é de ódio. Mas de pena.

— Surpreso por ver sua putinha aqui, James? — pergunta o padre — Oh, mas é claro! Você a matou hoje, não é? Você mesmo confessou isso para mim na igreja... mas ela está aqui, James! Vamos, não tem nada a dizer para a moça?

James começa a chorar copiosamente.

— Trish, desculpe... desculpe... — geme o rapaz — Você me disse que gostava... foi um acidente...

— Blah, blah, blah! — debocha o padre — Por que vocês sempre fazem isso? Por que sempre ficam choramingando? Enchem a cara, passam os dias chapados, fazem sexo sem proteção... e acham que nunca vai dar merda??? — o padre se aproxima seu rosto a centímetros do de James — Bem, sinto informar-lhe: deu merda. E muita.

O padre caminha pelo quarto, e ao olhar para ele com o canto do olho, James tem a nítida impressão de ver nele um rabo e um par de chifres.

— Você realmente acha que a sua namoradinha está mesmo aqui, de pé, depois de tudo aquilo que aconteceu? Ora, seu idiota, é claro que não! Ela morreu!

— E-então quem... — James olha de novo para Trish, que se transforma diante de seus olhos. O cabelo loiro torna-se preto. Os olhos azuis também escurecem. As feições e o corpo alteram-se radicalmente. Em questão de segundos, Trish é outra garota. E uma garota que, inexplicavelmente, atrai a atenção de James, da mesma forma que ele sentiu com Trish, há poucas horas atrás, naquela primeira transa.

— James Anderson, apresento-lhe: uma súcubo! — diz o padre — Sabe o que é uma súcubo?

— N-não... — gagueja James.

— Bem, não importa. Você encontrará várias, um dia, quando for me visitar. — prossegue Kozlowski — Basta, por ora, saber que foi com ela que você transou hoje. Da primeira vez, quero dizer. Já da segunda vez, infelizmente... era Trish, que morreu sem nem saber quem era você e o que estava acontecendo. Tsc, tsc... pode menina.

— Não entendo... — diz o rapaz, escorregando para o chão.

— Não espero que sua mente tacanha cheia de fumo, bebida e comprimidos entenda. Por causa dessas porras, você tem feito merda toda a sua vida. Sabia que sua mãe morreu por sua causa, depois que você veio para Nova York e deixou aquela dívida com os traficantes de Boston? Eles foram até a sua casa e fuzilaram a pobre mulher. Mas é claro que você nunca pensou em entrar em contato com ela de novo. Ela tentava tirar você dessa vida, mas não! Você não dava ouvidos. Só queria saber de beber, tomar drogas e comer umas putas, não é? Ah, e a sua irmã? Sabe como ela vai?

— O que tem ela? — James encolhe-se cada vez mais no canto do quarto.

— Os traficantes a pegaram como escrava. Sexual. Uma bela menina, na flor de seus dez anos... devo dizer que não durou muito também.

É mentira! — grita James.

— Não, James, não é. Mas é claro que você não sabia disso. Você nem quer saber disso... só quer saber de beber, tomar drogas e comer umas putas. Mas acho que estou sendo repetitivo.

— É mentiraaaaaaaaaa... — murmura James.

— E tudo culminou com o que aconteceu hoje. Duvido que você lembre de muita coisa, dado o seu estado deplorável. Na verdade, duvido que você vá lembrar desse nosso encontro amanhã. Mas acha mesmo que essa menina, essa garota linda, candidata a celebridade instantânea assim que aparecesse em algum programa de TV ou coisa parecida, ia querer mesmo fazer sexo com você, seu viciado de merda? — o padre se abaixa e senta-se ao lado de James — Era nossa amiga Chantinelle aqui. Uma mutretinha para que você se aproximasse de Trish. — ele pisca o olho esquerdo para James.

— Por que... — diz James — Por que você queria Trish morta? E por que eu?

— Eu não a queria morta... eu estou é atrás de você, e faz tempo. Sabe, se eu quisesse realmente, poderia até saber que Trish iria acabar morta, mas normalmente prefiro não pensar tão longe — gosto do sabor da surpresa. O que eu sabia é que ela estaria no banheiro na hora em que você voltou, e por isso minha "sócia" disse para você estar lá. Realmente não esperava que Trish morresse hoje. Essa história de sufocamento é só uma tara de Chantinelle. Mas já que você caiu nessa e apressou as coisas...

— Como assim? — indaga James — Não esperava que ela morresse hoje?

— Sim. Pois, se não morresse hoje, ela morreria mais tarde, já que você transmitiu AIDS para ela. E para tantas outras, nos últimos meses... eu devo saber, afinal estou vigiando você há um bom tempo, e bem de perto desde que me instalei na igreja aqui ao lado, há alguns dias. Aliás, castigo justo para você, pelo fato de nunca ter usado camisinha. E é por esse descompromisso, por esse descontrole, por tudo isso, que você está intimado a me visitar assim que for dessa para uma melhor. — o padre pára de falar por um momento e pensa — Digo, para uma pior. — ele pensa de novo — Ah, você entendeu.

— O... o quê...?

— Bom, deixe eu me despedir agora. — fala Kozlowski, levantando-se — A gente se vê.

James, desesperado, pega novamente a arma, aponta para a própria cabeça e puxa o gatilho. Uma, duas, dez vezes. E a arma não dispara. O padre vira-se para ele e fala:

— Ah, sabe essa história de "arma que não dispara"? Cortesia minha. Vou cuidar pessoalmente para que você não se mate, de forma alguma. Não quero perder sua alma para outro Círculo qualquer. Qual é mesmo aquele para onde vão os suicidas, Chantinelle?

— Acho que pra qualquer um. — diz ela, dando de ombros. Sua voz é de veludo, suas formas, hipnotizantes.

— Bom, melhor não arriscar. — o padre, como a garota o fez minutos atrás, muda de forma. Sua batina torna-se uma capa, sua pele torna-se ligeiramente avermelhada, seus cabelos grisalhos tornam-se morenos e compridos. Ele acena para James — Prazer em conhecê-lo. Espero que adivinhe o meu nome.

O homem e a garota não saem pela porta, nem pela janela; mas de repente James se vê sozinho. Aterradoramente sozinho.



 
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