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Demonomania - O Segundo Círculo

Por Délio Freire

O Diabo Está na Carne

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"Deus é o amante, o amoroso e o amado. Tudo ao mesmo tempo"
— Trecho de uma antiga canção sufi.


A chuva forte bate repetidas vezes contra a janela, deslizando suavemente pelo vidro. Protegido, um homem olha para fora, observando o tráfego de pessoas alheias aos acontecimentos sinistros dentro da igreja de Sant Patrick.

A voz do policial Haskins vem de longe e parece assustada.

— Detetive? Está tudo bem?

— Sim. — responde o detetive O'Malley, que nessas horas gostaria de trabalhar menos — Apenas precisava olhar algo menos sórdido nessa manhã de domingo, Haskins. Poderia ter demorado para me chamar.

— Desculpe, detetive. Mas não é hora de darmos prosseguimento ao nosso trabalho?

O detetive O'Malley coça as vistas, como se as olheiras pelas duas noites sem sono fossem manchas fáceis de tirar.

— Sim. Manchas. Por todo os lados.

— Senhor? — Haskins ainda parece assustado, imóvel, deixando seu superior passar por ele e voltar à cena dos crimes.

— Por que Deus não cuida mais de suas criancinhas?

Seis cadáveres de crianças perfilados no chão da igreja. Todos nus e em estado adiantado de putrefação. A putrefação ocorre mais rápida nos pequeninos do que para os adultos, produzindo gases que se alojam nos pequenos corpos e tornando-os gigantes e disformes.

— Vísceras e corações reduzidos. Cabelos caídos.

— Eu vejo o quadro por mim mesmo. Não é necessário acrescentar nada, Haskins.

— Lamento, senhor, mas há mais que precisa saber. Há indícios de que as crianças sofreram abusos sexuais.

O detetive O'Malley caminha pela nave da igreja, mas olhando para as crianças mortas.

— Infelizmente, isso não me surpreende.

— Mas o abuso sexual se deu após o início da decomposição.

O detetive O'Malley respira fundo. Não sente raiva. O desgraçado responsável pela barbaridade já está morto. O padre, um homem de Deus possivelmente possuído por algum demônio, deu fim à própria vida após noites macabras de demência e horror. Poderia ele estar de posse de seus atos? Poderia ele, após sua ação condenável, ter tido consciência do que fizera e se matado?

O detetive continua perdido em seus pensamentos.

— Talvez nunca venhamos a saber realmente o que levou esse homem a fazer isso. Podemos vê-lo?

Haskins apenas acena afirmativamente com a cabeça e, em poucos momentos de sua carreira, se vê satisfeito em sair de uma cena do crime. Rapidamente saem da nave central da igreja e vão até o escritório particular do padre.

— O suicídio aconteceu há poucas horas. — informa Haskins — A batina está toda úmida, toda mijada. O pescoço quebrou assim que se jogou para a morte.

O detetive irlandês o olha com curiosidade.

— Possui uma mulher, Haskins? Possui uma esposa e filhos?

Haskins franze o cenho

— Não, senhor. Por que a pergunta?

O detetive não se digna a responder.

Quando entram no escritório, o corpo está lá, pendurado na corda e balançando como um pêndulo macabro. Aos poucos, os homens se aproximam do cadáver.

— Gostaria que eu o desprendesse?

— Não. — responde O'Malley — Na verdade, devemos...

Ele pára de falar assim que o corpo do homem, de tanto se movimentar, fica nitidamente à sua frente, o rosto envelhecido protegido parcialmente por uma sombra. Ainda assim ele o reconhece.

Mas também é reconhecido.

O Cadáver tem a voz rouca.

— Ah, fico feliz que os anos não o fizeram se esquecer de mim, não é mesmo? Lamento que eu não esteja em um dos meus melhores dias para desfrutar melhor de nosso reencontro. Sabe, estou me sentindo mais morto do que vivo.

Os olhos abertos do morto olham diretamente para o detetive, traindo um desprezo profundo pelo seu interlocutor. Haskins não ouve a voz do morto ou mesmo presencia nenhum movimento dele; o que lhe surpreende, na verdade, é a intranqüilidade e o balbucio do detetive.

— Isso não pode...

— Ah, o que há de impossível nisso? — diz o Cadáver — Vez ou outra nos encontramos, graças ao acaso, com aqueles que amamos e, porque não, com quem odiamos. Coisas do destino, não concorda? Mas se a surpresa vem pelas minhas vestes sacras, saiba que desde que nos vimos pela última vez, minha vida e meus objetivos mudaram drasticamente...

O detetive O'Malley grita e gesticula sob o olhar confuso de Haskins.

— Chama essa barbárie de mudança?

— Quanto exagero... — espanta-se o cadáver — E pensar que você um dia já foi igual a mim...

— Não ouse nos comparar. Quando o conheci, era um jovem, alguém que se deixava guiar pelos impulso.

— Impulsos? — o Cadáver solta um leve gemido, balançando o corpo na corda que o enfocara e segurando o sexo com uma das mãos, por debaixo da batina umidecida de urina, masturbando-se — É desses impulsos que fala, velho amigo? A vontade de satisfazer seus desejos a qualquer preço?

A cabeça do cadáver pende para o lado, a língua roçando os lábios e murmurando enquanto se masturba.

— Caia de boca, detetive O'Malley... caia de boca...

O detetive se vira, empurra Haskins para o lado e abre a porta do escritório para sair, para fugir daquele pesadelo. Ainda sem assimilar o que viu, surpreende-se também com o corredor que surge após sair do escritório. Longo, estreito. Mas ele não estava lá anteriormente. O que houve? A voz do Cadáver está na sua cabeça.

— Por que não escolhe uma porta, velho amigo? Por que simplesmente não abre uma e sai daqui, saia para viver sua liberdade!

— Desgraçado! — ele comprime as mãos sobre a cabeça.

— Abra!

As mãos trêmulas chegam até a porta mais próxima. Ele a abre.

Prestes a correr para seu interior, para de repente ao ver a si mesmo, mais jovem, recebendo os carinhos dos lábios infiéis da esposa de seu tio.

— Ah, bela chupada, não é mesmo? — a voz do Cadáver é debochada — Sabemos que viria a se repetir diversas vezes... você, mais novo, recém chegado aos Estados Unidos para trabalhar para o seu tio, um dos mais influentes homens da máfia irlandesa. Você trabalhou bem para ele. Mas a esposa dele trabalhou bem para você também.

O'Malley não entende. A cena é nítida, reforçando suas próprias lembranças do momento. A mulher desliza a boca lateralmente pelo seu sexo, de baixo para cima, até pressionar a parte superior entre os dentes suavemente, totalmente incansável em suas buscas e tentativas de leva-lo ao orgasmo. Sua versão passada segura-se por alguns segundos, mas está prestes a gozar.

O detetive vira-se e abre a porta do quarto, saindo.

— Isso! Escolha outra porta!

Merda!

A nova porta é aberta. Uma nova versão de O'Malley, um pouco mais velha que a anterior, e uma versão mais jovem, cheia de vida, do cadáver do padre estão arrastando um adolescente para fora de sua casa. A mãe chora, querendo salvar o filho. A versão do cadáver dispara uma, duas, três vezes nela.

O'Malley quer dar meia volta.

— Pare! O melhor está por vir!

Ele resolve seguir o conselho do Cadáver, embora não consiga ouvir direito o que as versões antigas estão conversando. Parecem rir. Consegue discernir a palavra dívida, uma dívida de drogas de um adolescente. Ele lembra-se com clareza agora que seu tio era respeitado por exatamente não permitir que nenhuma dívida ficasse sem ser cobrada ou, quando fosse o caso, aplicasse a pena máxima como punição.

— Ah, fazíamos bem o nosso trabalho, não é? E éramos uma boa dupla. Sem falar que aproveitávamos para nos divertir antes de matarmos nossas presas.

A cena estranhamente se torna fosca, ligeiramente amarronzada, como se o filme visto estivesse agora com uma imagem ruim. Mas ambos seguram o garoto com força e, entre murros e pontapés, retiram a calça da vítima.

O detetive O'Malley vomita desesperadamente ao ver seu passado nitidamente. Ele sai, vai para o corredor. Há tantas portas... tantas escolhas...

— O que você quer de mim, desgraçado?

— Quero apenas educa-lo, amigo. Para o que está por vir. Vamos, abra outra porta!

Não!

— Abra! Prometo que, entre tantas portas, existe uma saída! Uma! Você só precisa ter mais sorte!

Dessa vez O'Malley resolve correr todo o cumprimento do corredor. Parece interminável. Quer deixar-se guiar pela intuição para fazer a escolha certa, mas não sabe. Tem medo. Qual porta abrir? Esta? Não... esta? Também não... Talvez... sim... exatamente esta!

Ainda não é a saída.

Ele vê uma versão de si mesmo, nu, sobre a cama. Abaixo dele, as pernas abertas, uma mulher loura parece fingir para as câmeras que captam todos os seus movimentos. Uma versão do Cadáver, o diretor que comandava a cena na época, pede para que se interrompa a interpretação dos atores. Furioso, começa a gritar e retira a loura da cama e chama outra mulher, morena. Segura os seios dela, aperta os mamilos. Faz uma cara de reprovação e, em seguida, a empurra para o lado.

— Lembra-se disso? Nosso primeiro filme pornô; seu tio, com toda razão, apostava nessa onda para uma lavagem segura e rápida de seu dinheiro ilegal. Mas as primeiras gravações foram difíceis, lembra-se?

— Sim...

— Pois então... as mulheres, putas gostosas, mas sem um pingo de relação com a câmera, sem um pingo de sensibilidade. Eu não queria apenas alguém que levantasse o seu pau durante as cenas ou que fizesse o espectador bater uma punheta lá no cinema. Tinha que trepar com classe, de forma simples e cativante como as mulheres de seu cotidiano. Uma senhora puta que o cara olhasse e dissesse: "ah, essa está ao meu alcance".

A mão do Cadáver se torna consistente no ombro do detetive. Ele volta a se materializar ao seu lado, sem causar mais espanto ao seu velho amigo, para assistir ao passado que também lhe pertencia, como se ambos assistissem a um filme velho e ruim reprisado pela milésima vez.

— Demorou dias até ela surgir, não é verdade? Mas ela veio até nós, como se a tivéssemos chamado.

A mulher foi trazida as pressas, ninguém sabia de onde ela vinha ou mesmo pra onde ia depois das gravações. Era um mistério, mas fascinava a todos que partilhavam da convivência no set. Não possuía constrangimento em nenhuma cena, não se recusava a nada.

— Eu me lembro dela. Victoria. Era linda.

— Não é mesmo?

Ela estava à frente deles novamente. Cenas do passado iam e voltavam rapidamente. Todas tendo Victoria como foco e suas performances sexuais diante das câmeras. Num dado momento, ela afastasse de um dos homens com o qual transava e sai não apenas da cena, passando por detrás do câmera, mas vai além, parecendo quebrar uma quarta parede que há entre presente e passado, entre espectador e espetáculo.

— Você... eu me lembro de você.

Victoria pega a mão de um atônito O'Malley, surpreso por ser reconhecido e ser tocado pela mulher do seu passado. Ele, como nos primeiros tempos em que era apenas um garoto numa terra estranha, olha para seu velho amigo, agora personificado no Cadáver, e seus olhos parecem querer perguntar o que deve fazer.

Seu velho amigo sorri.

— Aproveite-a. Lembre-se dos velhos tempos.

— Lembra-se mesmo de mim? — Victoria pega as mãos dele e as coloca no próprio rosto — Não mudei tanto, não é verdade? Por que não me beija? Ele recua, ela balança a cabeça positivamente.

Em poucos instantes estavam na cama. O Cadáver grita:

Luz! Câmera! Ação!

Os espectros do passado fazem seu serviço, filmando cada momento de O'Malley e de Victoria. Inicialmente, ela aproximasse de seu pescoço, ajeitando os cabelos vermelhos, e iniciando uma série de beijos e mordidas. Ele passa as mãos sobre a coxa da mulher que pensara residir apenas em sua imaginação, em suas reminiscências. Mas agradavelmente encontra a mesma textura, a mesma pele quente e macia. Deixa-se beijar. Deixa-se acariciar. A mão a aperta, a arranha, aproxima-se mais. Em instantes, seus dedos acariciam o sexo de Victoria, investigando sua umidade e atiçando-a.

Uma câmera passa por detrás dos corpos, sempre atenta aos movimentos. Após um longo e demorado beijo, a câmera se fixa nos dois, lado a lado, trocando carícias, ele buscando os seios dela, ela receptiva às brincadeiras.

Victoria se deita, querendo que ele faça o mesmo, que se deite sobre ela. Ele sente seu perfume, não consegue resistir, a penetra e, como conseqüência, um close obsceno dos dois sexos encontrando-se e friccionando-se é obtido por uma das câmeras. O Cadáver, diretor e voyeur, encontra-se satisfeito pela cena capturada.

Victoria demonstra experiência, movimenta os quadris lentamente, recebendo-o como se estivesse esperando-o por uma eternidade. Quer usufruir do momento o máximo possível, aonde ela encontra ansiedade e pressa, transforma em calma e fluidez. Por cima dela, O'Malley encontra um caminho fácil em suas investidas e estocadas.

— Devagar! Devagar! — sussurra Victoria ao seu ouvido, mordiscando-o em seguida .

Em nenhum momento a câmera que havia começado a acompanhar a união dos dois sexos se afasta. O close, para a edição futura, é imprescindível.

Ambos alternam posições para que as imagens sejam o mais excitantes possíveis para os espectadores. A última, a que surge no exato momento quando o casal não consegue mais se controlar, ocorre com ela por cima, movimentando-se, dessa vez, com mais rapidez e força, sempre conduzindo a situação como sempre lhe apetecia fazer. As mãos dele buscam o corpo dela, sentindo seu contorno. Prestes a explodir, ele fecha os olhos, o orgasmo chegando violentamente e inundando sua parceira.

Não! Goza fora! Goza fora! — o Cadáver se horroriza com a possibilidade que isso resultaria — A regra é gozar fora!

Um grito enorme vem de Victoria, que sai desajeitamente do corpo de seu parceiro. Ela se revira, bate a cabeça na parede, o sêmen de um humano fervendo dentro dela. Seus membros começam a inchar, seu corpo a engordar, tornando-se disforme. Num processo que dura cerca de alguns segundos, Victoria revela sua verdadeira forma na frente do diretor, dos câmeras e de seu parceiro.

Ela transforma-se em Baubo, a deusa pagã da sexualidade, menos bela, com um tufo amorfo e cabeludo acima do pescoço no lugar da cabeça, os seios enormes com olhos e sílios ao invés das auréolas e mamilos. A vagina de Baubo cospe o sêmen de O'Malley imediatamente e inicia uma pequena risada tímida, os olhos em seus seios observando o espanto de seu amante. Ela vê através de seus mamilos, ri e fala através de sua vulva.

— Meu bebê... — a gorda divindade requebra seu bumbum enorme, a cada momento que a vagina pronuncia uma palavra — Meu bebê é travesso... maroto... não sabe que nas filmagens você só deve gozar fora da sua mamãe Baubo? Senão ela mostra quem realmente é para você!

— Droga! Viu o que você fez? — o Cadáver fica possesso — Suma daqui! Os produtores não vão gostar nem um pouco disso...

O detetive O'Malley começa a correr do cenário, quase como se tivesse tentando despertar de um sonho molhado e macabro. Chega até a saída e a abre, indo parar no corredor, onde todas as portas se abrem, ele passa por todas, mas todas vão dar no mesmo lugar. Todas vão até uma sala vazia.

Os produtores do espetáculo surgem. Uma mosca gigante, de cabeça para baixo, caminha pelo teto, sua voz é irritante:

Canalha! Fraco! Você está morto!

— Não. — o detetive não entende a princípio.

— Morto. Matou-se! — outra voz vem de outro demônio, sem braços e sem pernas, com milhões de olhos, o corpo em forma de uma colméia surgindo ao lado da mosca gigante; de sua cabeça, pequenos cornos surgem — O choque ao ver seu velho companheiro de obscenidades dependurado, enforcado, o levou a atentar contra a própria vida. Mas você era o último que faltava...

— Sim... o último. — Beelzebub caminha rapidamente pelo teto, batendo asas, aproximando-se do irlandês — Seu tio e seu amigo requisitaram os serviços de nossa amada Baubo, nossa fêmea perfeita, para as telas. Assim foi feito e todos que se deitaram com ela, todos os que participavam do set, chegaram até nós, cedo ou tarde. Só faltava você.

O chão aos seus pés torna-se frio, as cerâmicas voltam a ser do escritório do padre, do velho morto cujo cadáver o assombrou nos seus últimos momentos. Esse cadáver nada fala; apenas balança, sem vida, para um lado e para o outro.

— Veja! — diz Beelzebub.

— Veja! — insiste Azazel — Vá até a janela. E descubra por que ainda chove.

O detetive olha para a janela e realmente a chuva continuava. Vê o policial Haskins tentando afastar a multidão, tentando chegar até o cadáver. Quando algumas cabeças se afastam lá embaixo, O'Malley vê horrorizado seu próprio corpo estirado sem vida após uma queda de vários metros.

Beelzebub e Azazel entreolham-se e em uníssono sentenciam:

Corta!



 
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