hyperfan  
 

Demonomania - O Primeiro Círculo

Por Rafael 'Lupo' Monteiro

24 Hour Party Demons

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Voltar a Demonomania
:: Outros Títulos

Cíntia e o Rio de Janeiro realmente não combinam. Domingo, manhã de sol em mais um verão de quarenta graus na cidade, e tudo o que ela quer é dormir a manhã inteira. Seus pés ainda doem, de tanto que dançou durante toda a madrugada. Mas o pai e a sua maldita música clássica na altura máxima conspiram contra seu sono.

Ela levanta mal-humorada e vai direto ao banheiro. Olha-se no espelho, e vê que seu rosto tem uma palidez cada vez mais cadavérica. Os fundos olhos negros só parecem confirmar isso. Os cabelos negros curtos precisam ser penteados urgentemente. A barriguinha com seus quilinhos a mais hoje a incomoda mais do que nunca. Tem vinte anos, mas se sente uma velha.

Depois de se arrumar, vai até a cozinha tomar seu café. Reclama com o pai sobre a música.

— Porra, pai, de manhã cedo e você vem azucrinar meus ouvidos com essa música chata!

— A casa é minha, tenho o direito que fazer o que quiser. Melhor do que ouvir aquelas porcarias de música eletrônica. Aliás, não sei porque chamam isso de música, DJ não sabe tocar instrumento nenhum.

— Não tô no clima, pai.

— Um dia você vai estar no clima e descobrir que Mozart é melhor músico do que esses caras que você tanto gosta.

Cíntia prepara suas granolas com leite e volta para o quarto. Liga o computador, e come lendo seus e-mails, enquanto faz o download das músicas do DJ Chip Totec. Liga o ICQ, mas ninguém está online. Alguns minutos depois, recebe uma mensagem de um tal de Belasco, e resolve bater papo com ele.

"Oi, tudo bem?" — ele começa.

"Tudo, e você?"

"Também. De onde tecla?"

"Copacabana, e você?"

"De um lugar longe, mas ao mesmo tempo perto"

"Misterioso, hein? :-)"

":-)"

"Tem alguma coisa de você que eu possa saber?"

"Claro! Eu sou DJ. Não muito famoso ainda, mas pretendo ser"

"Legal. Eu curto música eletrônica"

"Tenho um site com minhas músicas, quer ouvir?"

"Claro!"

"www.djbelasco.com"

"Irado! Suas músicas são de nomes bens sinistros"

"Você acha?"

"Sim. 'Abandonem a Esperança', 'Hino aos Ateus', 'O Óbulo de Caronte'..."

"Espero que você não seja uma dessas crentes que dominam o Rio de Janeiro dizendo o que é certo e errado..."

"Euzinha, crente? Não, nem batizada sou. Meus pais eram ateus também, e acharam que o batismo era uma violação ao meu direito de livre escolha"

"Interessante! Seus pais devem ser gente fina!"

"Eu acho eles um saco. Tão sempre querendo me controlar. Eles estão separados hoje em dia"

"Sei. Bem, tenho que sair agora, espero que curta minhas músicas"

"OK. Beijinhos"

Cíntia faz o download das músicas de Belasco. Quando vai ouví-las, seu computador trava, mas ela consegue evitar que ele reinicie. Contudo, ao voltar a digitar, letras estranhas aparecem na tela, são caracteres que ela não tem a remota noção de qual língua são oriundos. O computador trava novamente, e desta vez não tem jeito, é necessário reiniciar.

Cíntia levanta cedo na segunda-feira. Veste sua calça jeans, sua camiseta branca, toma um café da manhã corrido e sai com pressa para não chegar atrasada na aula na faculdade de História. Um mendigo lhe pede dinheiro, e ela dá uma boa esmola. Antes de entrar no ônibus, compra o vale-transporte de um ambulante. Na faculdade, fala com todos os funcionários, com os colegas de sua sala. Ela é querida por todos, sempre ajuda como pode, seja ensinando as matérias, seja dando apoio emocional ou até mesmo financeiro, quando é o caso.

Apesar disto tudo, ela não é completamente feliz. Seu sonho, na verdade, é encontrar o príncipe encantado com que sonha desde a infância. Mas Cíntia nunca conseguiu viver um grande amor. Não é que ela seja feia, só que os homens não conseguiram se aproximar muito dela até hoje. Mas isto irá mudar.

Cíntia participa de vários grupos de ajuda aos mais carentes. Toda segunda-feira ela visita as comunidades do complexo de Favelas da Maré, onde distribui alimentos. Nesta segunda, um novo voluntário se apresenta. Seu nome é Roberto, 22 anos, longos cabelos loiros, olhos azuis. Ele logo se interessa por Cíntia, auxiliando-a na distribuição. No final dos trabalhos, sentam-se para descansar, e aproveitam para conversar. O sol se põe ao fundo na Baia de Guanabara.

— É gratificante essa trabalheira toda, certo? — ele diz, limpando o suor do rosto.

— Sim, seria muito bom se todos pudessem perder um pouquinho de seu tempo para ajudar quem precisa. Quer um gole? — Cíntia oferece a Roberto uma garrafa de água, já pela metade.

— Obrigado! — ele bebe um pouco na boca da garrafa, e devolve-a para Cíntia.

— Então vou poder contar com você semana que vem?

— Claro! Quando quiser! — ele responde com um sorriso.

E assim passam as semanas. Logo Roberto e Cíntia ficam grandes amigos, e passam a se encontrar também em outros dias da semana. Até que ele a convida para sair na sexta-feira à noite, e ela aceita. Eles vão para uma boate em Botafogo, na rua Voluntários da Pátria, que toca basicamente música eletrônica e rock'n roll.

Encontram-se na fila, por volta da meia-noite. Ela está vestida com tênis All-Star, uma sainha preta e camiseta azul-escura. Ele de calça jeans, uma camisa preta, e também usa tênis All-Star.

— Cíntia, você está linda! — ele diz, ao abraçá-la.

— Obrigada! — ela responde, dando as mãos à ele.

— Esse lugar aqui é muito legal, mas ainda não é tão conhecido como outras

casas aqui da Zona Sul.

— Legal, pelo menos vamos poder dançar em paz. — ela dá uma grande sorriso, está feliz como nunca esteve antes. Finalmente está apaixonada!

A noite é ótima. Eles dançam muito, Cíntia só bebe água, Roberto gosta de tequila, mas bebe moderadamente. Quando o DJ toca a música "Star Guitar", dos Chemical Brothers, eles finalmente se beijam. É um beijo longo, que toca fundo na alma de Cíntia. Ela parece estar realizada, se sente completa pela primeira vez na vida.

Entretanto, algo ocorre logo a seguir. Cíntia sente uma falta de ar, tenta respirar, mas não consegue. Sua visão fica turva. Roberto a segura pela cintura, e a leva até o balcão. Pede ao barman um copo d'água.

— Cíntia, beba esta água. E tome este comprimido junto. — Roberto retira do bolso uma pílula vermelha, do tamanho de um grão de feijão. Cíntia está meio grogue, e aceita. Abre a boca para que ele ponha nela a pílula, e a seguir lhe dá água para beber.

O mundo parece girar ao redor de Cíntia. Tenta chamar Roberto, mas não consegue pronunciar uma única sílaba. Cíntia desaba no chão, e ao olhar para cima, tem a impressão de ver um pequeno ser vermelho com uma grande língua sorrindo para ela. É a última coisa que vê, apagando logo em seguida.

Tudo é escuridão e névoa. Cíntia acorda, e olha para os lados, perdida. Ela está dentro de um barco, atravessando um rio, ao que parece. A margem não está longe, e ela vê uma cadeia de montanhas bem próxima. Ela está vestida com a mesma roupa que antes, tênis All-Star, uma sainha preta e camiseta azul-escura. A sua frente, um homem alto, vestindo um grande roupão cinza, com um capuz no rosto, está em pé, remando. Ele lhe dirige a palavra:

— Vejo que acordou, senhorita. Trouxe-me uma moeda? — sua voz é grave, e cada palavra é dita pausadamente, como se ele tivesse todo o tempo do mundo para falar cada uma delas.

— Moeda? Não, não trouxe. Aliás, onde estou?

— Não trouxe... — o homem suspira — Nunca mais me trouxeram uma única moeda... — fala decepcionado, já sem esperança de que algum dia isto volte a ocorrer.

— Desculpe, mas onde estou?

— No lugar par aonde muitos vão depois da morte.

— Morte? — Cíntia pergunta, assustada.

— Sim, morte, qual o problema? Ela não foi te buscar?

— Não sei... eu me lembro de estar numa festa com um... amigo, e de repente estou aqui não sei como...

— Você não lembra de ter feito nada que possa ser considerado ruim a alguém?

— Não... por que você não me diz logo onde estou, por favor? — ela pede, aflita.

— Nem uma vez?

— Já disse que não... 1uem é você, afinal? E que lugar é este?

— Vejamos... — o homem a ignora — Você foi batizada?

— Não! — ela diz irritada — Pare de me fazer perguntas tolas!

— Então é por isso que está aqui! Já vi muitos casos assim antes... regras são regras! — o homem fala friamente. Sua voz não demonstra o menor grau de piedade.

— O que isso quer dizer? — diz Cíntia, cada vez mais confusa.

— Você já irá descobrir.

O barco chega à margem. Cíntia sai dele, molhando os pés e as canelas ao caminhar até a margem. Não há areia na praia, apenas pedras negras, de todos os tamanhos. À sua frente, uma montanha de onde se vêem chamas ao fundo. Há um grande portão de madeira, no estilo dos castelos medievais, para se chegar até lá. Acima do portão, há algo escrito na pedra em uma língua estranha. Cíntia olha bem para as letras e imediatamente se lembra das letras que apareceram em seu computador quando tentou ouvir as músicas do DJ Belasco. Cíntia sente um longo arrepio em sua espinha. Ela agora consegue ler o que diz nas inscrições, e é o seguinte:

Por mim se vai à cidade dolente,
Por mim se vai à eterna dor,
Por mim se vai à perdida gente.

Justiça moveu o meu alto criador,
Que me fez com o Divino poder
O saber supremo e o primeiro amor.

Antes de mim coisa alguma foi criada
Exceto coisas eternas, e eterna eu duro.
Deixai toda esperança, vós que entrais!


Ao abrir o portão, uma grande festa está ocorrendo. Mas há nela algo de estranho. Todos os seres que estão dançando são demônios, e humanos são torturados de todas as maneiras possíveis e imagináveis no centro da pista de dança. A única iluminação do lugar é de chamas em tochas que estão nas paredes. A batida da música eletrônica é hipnótica.

Há alguns demônios que lembram pingüins, baixos e de olhos vermelhos. Eles circulam pela pista com bandejas, onde são servidas cabeças humanas. Cada um dos participantes retira alguma parte delas, como os olhos, as línguas, partes dos cérebros. As cabeças estão vivas, e gritam de dor, pedindo piedade. Algumas sofrem ainda mais ferimentos só para que gritem mais, divertindo assim os demônios que as devoram. Uma das cabeças grita: "Não há mais esperança para quem não acredita em Deus!".

Um dos demônios dirige-se a Cíntia. É pequeno, de cor vermelha, olhos verdes, com uma grande língua bifurcada na ponta, como a de uma cobra. Seus dentes são enormes, e uma baba verde escorre de sua boca, pingando no chão, onde pequeninos buracos se formam ao receber o líquido.

— Olá, querida! Animada para a festa? — ele pergunta, com um grande sorriso.

— On-on-onde estou? — ela responde, desnorteada.

— Você ainda não sabe? Estamos no Primeiro Círculo do Inferno!

— Inferno?! — grita Cíntia, apavorada.

— Sim! Você não leu a mensagem na entrada?

— Aquela de letras esquisitas? — lágrimas já rolam dos olhos de Cíntia nesta altura.

— Aquela é linguagem universal do Inferno. Não importa de onde você veio, ou que idioma você falou quando viva, todos aqui se comunicam numa mesma língua. Mas venha, o mestre quer vê-la.

— Espere... sua voz... Roberto! — ela grita, espantada.

— Estou feliz que tenha me reconhecido. Afinal, estávamos já muito próximos, certo, gatinha? — ele passa a mão na bunda de Cíntia, e lhe dá um beliscão — Mas aqui você pode me chamar de Loreth.

O demônio puxa Cíntia pelas mãos, e a deixa com pequenos ferimentos, causados por suas unhas gigantescas. Eles caminham por entre os demônios, que gargalham e se divertem. Sem parar de dançar. O demônio pára em frente à cabine do DJ. Este é um demônio de pele vermelha, alto, de olhos pretos e cabelo marrom. Suas orelhas são pontudas, possui um longo rabo, e pequenos chifres na testa. Não tem o braço direito. Ele sorri para Cíntia, pisca o olho direito, e fala:

— Finalmente você irá ouvir minhas músicas. Espero que goste!

A seguir, dá uma gargalhada estridente. Vários demônios, alvoroçados, a agarram, arrancam sua roupa, a escalpelam e a estupram no meio da pista. Cíntia grita horrorizada, não consegue nem se mover. Sua carne está toda arranhada, mordida, sangra aos cântaros. Caída no chão, Loreth a levanta novamente, enfia-lhe uma pílula vermelha na boca, que tem gosto de enxofre, e a deixa completamente acordada. A seguir, ele fala:

— Vamos dançar, minha querida! Aqui no Inferno a festa nunca acaba!



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.