|
Por
Eduardo Regis
A Amigona da Vizinhança
Ela se olha no espelho. Vira e muda de posição.
"Ai! Como eu tô horrorosa!" pensa.
Mãaaaaaaaeeeeee!!!!
Mary Jane Watson escuta a filha chamar. Com a serenidade e a paciência que só as mães têm ela sobe até o quarto.
O que foi, May?
O que foi? Como assim "o que foi"? Olha pra esse uniforme! Ele tá deixando aparecer minha barriga! E eu tô com uma barriga enorme! reclama a jovem May, medindo sua barriga com a palma da mão.
May, minha querida. Não tem nada de errado aí. Você tem menos barriga do que eu na sua idade, o que quer dizer que você não tem barriga nenhuma! Então, meu anjo, pára de fazer drama! M. J. fala, fazendo cara de quem já não quer mais discutir o assunto.
Ah! Você fala isso porque não é você que fica desfilando com esse uniforme por aí! Imagina só, qual a moral que eu vou ter com esse barrigão? Daqui a pouco os jornais vão me chamar de "Garota-Banha"! Argh! May bate o pé e, logo em seguida, se joga na cama.
Mary Jane balança a cabeça fazendo sinal negativo e deixa a filha.
"Às vezes acho ela tão mais parecida com Peter, mas tem horas que eu me vejo nela." ela pára alguns instantes na escada e sorri com as lembranças boas da sua juventude. Essas memórias preenchem o dia de M. J. Durante todos seus afazeres ela se delicia com as festas, os encontros com Peter, as passarelas. É um transe irresistível que dura por horas, até que ela olha o relógio da cozinha -"Meu Deus, está muito tarde!"
Maaaayyy! M. J. grita.
May abre um dos olhos. O sono parece que a está prendendo a cama, mas os gritos incessantes de sua mãe não a deixariam dormir novamente por nada nesse mundo. Ela desce até a cozinha, ainda com o uniforme, e encontra sua mãe mexendo numas sacolas.
May, se arruma rápido!
Ahn? May fica confusa.
Você tem que ir ao shopping agora!
Agora?
É, May! Agora!
Pra quê?
Trocar aquele seu vestido que ficou largo! Hoje é o último dia!
Ah, deixa pra lá. Não vou. May responde, fazendo cara de cansada.
Claro que vai! Seu pai e eu gastamos um dinheirão nele! Pode ir se arrumando, senhorita, e nada de sair do quarto vestida desse jeito de novo! E se tivesse alguém aqui?
Aí eu diria que é pro Halloween! May responde, subindo as escadas.
May! Vai se arrumar!
Tô indo. Saco!
Ela não queria ir, mas agora que está lá não quer sair. May já trocou o vestido, mas simplesmente não consegue deixar de olhar todas as lojas novamente.
"Sapatos novos! É disso que eu preciso! Ah! Olha aquele tom de vinho! Talvez eu devesse mudar o uniforme de vermelho pra vinho. Será que papai ia gostar?"
May anda por mais algumas lojas. Compra mais uma coisa ou outra e decide comer um pouco. Ela entra na fila de uma lanchonete, mas logo sente um familiar tilintar na sua cabeça. É o sentido de aranha avisando-a de perigo. Ela olha para trás e vê Killerwatt passando. As pessoas, apavoradas com a aparência estranha e com a eletricidade que emana dele, começam a correr para as saídas.
Aproveitando a confusão, May corre para fora do shopping junto da multidão. Do lado de fora ela coloca a máscara, e rapidamente sobe até o teto do prédio, onde se troca.
A Garota-Aranha corre contra a multidão já dentro do shopping. Rapidamente ela encontra Killerwatt destruindo uma loja de instrumentos musicais com seus raios elétricos.
Eu vou te fritar, Joey! Seu avarento miserável! Você vai se arrepender por não ter me vendido aquele teclado! Seu porco gordo! Killerwatt grita, enquanto dispara mais raios elétricos.
Hora de esquecer o passado, azulão! a Garota-Aranha salta para cima do vilão atingindo-o com um soco. Killerwatt é jogado para trás e bate com as costas numa parede.
Que bom! Justamente quem eu queria eletrocutar! A babaca-aranha! Killerwatt dispara um raio elétrico que atinge a Garota-Aranha em cheio. May cai no chão se contorcendo de dor.
Killerwatt se levanta e anda na direção da aracnídea.
Tá doendo, é? Dane-se! Vai doer muito mais, sua escrotinha!
A Garota-Aranha dá uma banda no vilão. Enquanto Killerwatt cai, ela arma um soco que o atinge em cheio na cara. No chão, o vilão grita impropérios de deixar qualquer garota vermelha de vergonha.
Tsc, tsc, tsc... que língua! Aposto que você choca todo mundo com esses palavrões!
A aranha dá mais dois socos no estômago do vilão elétrico.
Não vai sobrar uma faísca de você hoje, azulão!
Killerwatt pula para cima da aranha. A heroína se desvia, graças ao seu sentido de aranha, mas mesmo assim o vilão consegue segurar seu braço e disparar uma enorme descarga elétrica que arremessa a Garota-Aranha a dez metros de distância.
Arghhhhhhhhhh! ela grita, enquanto voa pelo shopping.
A Garota-Aranha se choca violentamente com algumas pessoas que estavam assistindo à luta.
Como eu estava dizendo antes de você me interromper, vai doer pra cacete! Porque eu vou te fritar até a alma! Sua aranhazinha nojenta!
Killerwatt começa a concentrar um campo elétrico em torno de suas mãos. Um globo cada vez maior de eletricidade vai se formando, até que ele o aponta para a Garota-Aranha. Todos os curiosos que estavam ali perto começam a correr.
May começa a sentir seu corpo parar de formigar. A visão volta ao normal ainda a tempo dela perceber o que está prestes a acontecer. Reagindo instintivamente, e sendo guiada pelo seu sentido aracnídeo, ela se desvia do raio e salta para uma parede próxima, de onde lança um fio de teia que cobre e gruda os óculos de Killerwatt em seu rosto.
Maldita aranha! Vou ter que fritar meus óculos! Killerwatt destrói a teia e seus óculos junto.
Vamos ver como você se sai quando eu começar a fritar essa gentinha do shopping! o vilão elétrico aponta a mão esquerda para um dos seguranças do shopping que está tentando ajudar as pessoas a evacuarem o local. Um raio sai de sua mão em direção ao homem. Mas antes que ele seja atingido, a Garota-Aranha o puxa para longe com a teia e o raio bate no chão.
Acontece, Duracell, que eu sou ótima na pescaria! Agora vamos ver como você se sai em esportes aquáticos! ela salta para próximo de uma mangueira de incêndio.
Não! Eu não vou cair nessa! e um raio elétrico destrói a mangueira.
"Droga, May! Que idiotice! Não se revela o plano antes de executá-lo!" a Garota-Aranha se condena em pensamento "Vamos lá, garota! O que seu pai faria numa hora dessas?!"
A aranha começa a saltar para se desviar dos raios de Killerwatt. Até que ela pára no teto e avista no fim do corredor um pequeno chafariz.
"Isso, garota! A água ainda tá no jogo!" ela pensa.
May salta para cima do criminoso e começa a lutar bem de perto com ele. Entre a troca de socos e chutes, a Garota-Aranha vai arrastando-o para mais perto do chafariz.
Quando acha que está perto o bastante, ela o prende com a teia e o joga para dentro do chafariz. Surpreso com o ataque, Killerwatt cai direitinho na armadilha, e ao mergulhar na água solta um grito de dor e cai desacordado.
A Garota-Aranha chega perto dele, com cautela, para verificar se ele realmente desmaiou. Confiando no seu sentido de aranha, que não tilinta, ela tem certeza de que a luta acabou. Por debaixo da máscara, respira aliviada e, então, relaxa.
Obrigado, Aranha! grita alguém na multidão que observava a luta.
É isso aí! Detonou o cara! Mandou muuuito bem! outra voz se manifesta.
Em poucos instantes um coral de vozes está agradecendo e enaltecendo a heroína. Um largo sorriso nasce no rosto de May. Seus olhos fecham de prazer. É ótimo quando reconhecem seu trabalho. Ela nunca havia se sentido dessa maneira antes. Era a glória reservada apenas aos heróis. Não era o motivo pelo qual ela lutava, mas também não era má idéia provar um pouco do sucesso.
Com os cumprimentos da sua amigona da vizinhança, a Garota-Aranha! ela sai de cena para voltar ao topo do shopping onde deixou suas coisas.
Enquanto mexe nas sacolas uma voz sinistra corta o silêncio e um pouco do barato dela.
Não deixe isso subir à sua cabeça.
Ela se vira para ver apenas o que já sabia. Era impossível não reconhecer a voz do Destruidor.
Será que eu não posso curtir minha felicidade em paz? pergunta, indignada, a Garota-Aranha.
Pode. Mas você devia ter aprendido com as lições de seu antecessor. O povo até que podia adorá-lo por algumas vezes, mas no geral o temia e invejava. Não pense que será tão diferente com você. O mundo não mudou tanto desde a época dele.
Destruidor, você tem algo de útil pra falar? Porque senão eu vou embora e...
Meu recado ainda não foi dado. Tenha paciência. ele a corta Por muitas vezes no passado eu a desencorajei a seguir o caminho do herói. Contrariando meus conselhos, você persistiu e vem sendo bem sucedida. Até mesmo os Vingadores enxergaram você como aliada e membro, mesmo que reserva. Isso veio a me mostrar que você é digna de confiança. Portanto eu venho comunicar que não mais irei interferir em suas decisões. Você já pode andar sozinha. ao terminar seu discurso, o Destruidor some em uma leve cortina de fumaça.
May abre um sorriso ainda maior do que o último e dá um salto de felicidade.
"Eu provei pra ele! Fiz ele engolir cada palavra! Provei praquele diabozinho que eu posso! Ahahahha! Ele teve que engolir! Um a zero pra mim!"
May volta para Forest Hills eufórica com o acontecido. Mesmo que oficialmente nunca tivesse precisado da aprovação do Destruidor para fazer nada, vê-lo aprovando-a era parte de um processo de auto-afirmação.
Já em casa, ela tira o uniforme com mais carinho e o estende com cuidado na poltrona de seu quarto. Começa a se aprontar para dormir, mas desiste e senta na janela. Olha para o céu e se encanta com as estrelas. Tudo parece mais bonito sob a ótica da vitória. Primeiro ela derrotou Killerwatt, depois, quebrou a cara do Destruidor, e o último lhe deu muito mais prazer! Porém, seus preciosos pensamentos são repentinamente interrompidos por uma pergunta:
Acordada? fala Peter.
É. Acabei de chegar.
Eu sei. Passou na televisão... ao vivo. ele senta na cama dela.
Eu nem imaginava. Nem vi câmera nenhuma por lá.
As câmeras do shopping. responde Peter.
Ah... é verdade!
Você está bem?
Tô, mas e a mamãe? Ela viu?! May fica preocupada. (*)
Não. Ela tava na sala fazendo exercício com um daqueles DVDs de ginástica e eu não a chamei pra assistir.
Obrigada! Você é o melhor pai que uma super-heroína poderia ter! May sai da janela e vai até a cama abraçar seu pai.
May, eu tenho uma coisa pra você lá em cima, no sótão.
Um presente? ela pergunta.
É. Mais ou menos. Eu andei pensando um pouco e fiz um par de lançadores novos. Melhorei o formato pra caber melhor em você e também melhorei outras coisinhas.
Ah, pai! Brigada! May dá um beijo no rosto de Peter.
Não se esqueça de trocar os lançadores velhos amanhã. Eu já testei os novos, estão ótimos. Esses outros já estão prestes a começar a emperrar e, você já sabe como é ruim ficar sem lançadores em pleno ar... bem, minha querida, eu vou dormir. Amanhã tenho que estar cedo no laboratório da polícia. Peter dá um beijo em sua filha e vai para seu quarto.
May volta para a janela e sorri para a lua agradecendo-a pela noite. Rapidamente ela corre para a cama, mal pode esperar pelo raiar do novo dia. O dia que será o marco de uma nova fase. A fase em que tudo vai dar certo para May Parker, a estonteante Garota-Aranha!

Um pouco mais tarde nessa mesma noite, em um telhado qualquer de Nova York...
Eu já conversei com ela diz uma voz sinistra que aparece junto de uma tênue cortina de fumaça.
Ótimo, Destruidor! responde Peter Parker.
Você tinha razão quando veio até mim: de fato, ela já pode andar sozinha. Até o respeito dos Vingadores ela ganhou.
Espero que você pare de controlá-la, então. Peter fala olhando direto nos olhos do Destruidor.
Pode ter certeza que sim, mas não vou parar de observá-la. o Destruidor coloca as mãos sobre os ombros de Peter Afinal, ela é como se fosse minha irmã.
O Destruidor desaparece mais uma vez, deixando Peter Parker apenas com a noite e suas lembranças. Peter chora uma dor antiga enquanto volta para sua casa e sua família.
:: Notas do Autor
(*) Para entender a preocupação de May, leia a minissérie Garota-Aranha Lições de Biologia, aqui no Hyperfan. 
|
|