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Por
Eduardo Regis
Pontos de Vista Parte I
Mutantes. Um problema negligenciado pelas autoridades mundiais e um desafio para a ciência moderna. Como nosso tema aqui é ciência, vou deixar de lado o aspecto social e me concentrar só na biologia. Essas mutações no DNA são capazes de gerar um fenótipo surpreendente num indivíduo. Querem exemplos? O próximo slide mostra fotos de crianças mutantes, podemos observar desde guelras até ventosas nas mãos. O gene x, como é conhecido o gene ou conjunto de genes mutados ou inseridos...
E assim continua a aula do professor Lance Tyler. Durante mais quarenta minutos, ele comenta sobre o assunto com cautela, tentando abordar só o que é relevante biologicamente e evitando deixar a discussão ir para o lado social. Quando o assunto já está esgotado, o sinal toca e é hora de comer no colégio Midtown High.
Que papo esse, hein? fala Davida.
O quê? Mutantes? pergunta Moose.
É. Imagina só, cara... ter quatro braços ou uma coisa assim. Eca! diz Davida, fazendo cara de nojo.
Eu consigo imaginar uma parte interessante do corpo pra se ter quatro! Ahaha! fala Moose.
Isso porque você é um babaca, Moose! Davida fala, fechando a cara.
O que você acha, May? pergunta Moose, virando a cara para a amiga.
Do quê? Mutantes? May pergunta, perdida.
Não! De ter quatro áreas de lazer! Moose responde, caindo na gargalhada em seguida.
Fala sério, Moose! Você já parou pra pensar o quanto os mutantes sofrem? É um baita preconceito em cima dos caras! Sem falar nos que tem a aparência estranha... imagina se esses caras podem ter uma vida normal. Claro que não! diz May, indignada com a brincadeira do colega.
Opa! Foi mal, May "defensora dos mutantes"! Moose faz como quem não vai mais discutir o assunto.
Para de babaquice pra cima da May! Davida se mete entre os dois.
Ei! Eu só não sabia que ela morria de amores pelos mutunas! Moose cai novamente na gargalhada.
Palhaço! May empurra Moose e segue pelo corredor.
May senta-se em uma mesa no refeitório. A conversa sobre os mutantes a deixou nervosa, afinal, ela é uma mutante e, no fundo, teme sofrer por isso.
"Engraçado. Antes de saber que eu era mutante eu simplesmente não ligava muito pro assunto, mas agora... é impressionante como a gente só se sensibiliza com uma coisa quando sente na pele. Mesmo pensando tanto no assunto ultimamente, nunca conversei com ninguém sobre ser uma mutante, nem mesmo com papai e mamãe. Mas também, o que eles entendem disso?"
Ei, amiga! Fica calma! Davida fala, enquanto senta ao lado de May.
Tô calma!
Sei! Pra que esse nervosismo todo? Até parece que você não conhece o Moose e, de qualquer maneira, você não é uma mutuna mesmo! Aliás, duvido que tenha algum aqui no Midtown. Davida fala, mexendo no cabelo de May.
Como você vai saber? Não dá pra simplesmente olhar pruma pessoa e saber se ela é ou não mutante! Qualquer um pode ser! Você, Moose, Yama e até eu! Entendeu? Eu acho um absurdo as pessoas ficarem fazendo piadas. É a mesma coisa com os homossexuais. Vivem fazendo piada e a gente nem mesmo sabe se tem algum perto! Essas coisas podem magoar essa gente! May discursa olhando nos olhos de Davida.
May, você é gay? a amiga pergunta fazendo cara de desconfiada.
Putz! Você não entendeu nada! May bate com a testa nos braços cruzados sobre a mesa.
Tá, vamos mudar de assunto! Davida tenta diminuir a tensão entre os colegas.
Ah, vamos comer que é melhor! May se levanta e vai para a fila da comida.

Nesse mesmo dia, à noite.
Uma estranha figura chega à recepção do edifício do Quinteto Fantástico.
Eu gostaria de falar com Franklin Richards, por favor.
E quem eu deveria anunciar? pergunta a recepcionista, um robô com a aparência quase perfeita de uma mulher, menos da cintura para baixo, onde é acoplada a um sistema de locomoção com duas rodas.
Ahn. A Garota-Aranha.
Um instante, minha querida.

Foi uma surpresa e tanto. fala Franklin, trazendo uma bandeja com dois copos de suco.
É, eu sei. Desculpa ter vindo assim.
Tudo bem. Primeiro pensei que fosse algum problema do tipo comum, mas já percebi que é um pouco mais complicado, certo? ele pergunta.
É. Na verdade... pode parecer meio bobo.
Por que você não tenta assim mesmo? ele sorri.
Sabe, ahn, bem... todo mundo sabe que você é um mutante. Tá certo que você é filho de quem é e isso deve te dar um baita prestígio, mas... sei lá... você nunca sofreu discriminação ou teve medo?
Entendo o seu ponto. Posso perguntar qual o seu interesse nisso? ele estende o copo de suco para ela.
Claro. É que eu também sou uma mutante e hoje uns amigos começaram a conversar sobre isso e, não sei, fiquei meio perdida.
Normal. Eu já me senti perdido muitas vezes. Ser filho deles certamente me ajudou muito e não vivi metade do preconceito que muitos vivem, mas mesmo assim eu sei o que é o sentimento anti-mutante. Muitos já me olharam com medo, desconfiança e até com nojo. Eu também já senti medo de ser caçado e sofri pelos meus semelhantes que estão aí fora sendo destratados. Na verdade, acho que esse problema deve ser resolvido mostrando a eles que nós viemos pra ficar! Sim! Nós temos que mostrar nossa força e aí sim eles verão quem é o mais forte!
É... obrigada pela conversa! Aliviou-me dividir isso com alguém! Queria ficar mais, mas é melhor eu ir agora. Ainda tenho uma ronda pra fazer! a Garota-Aranha se levanta e coloca o copo numa mesinha próxima Essas janelas abrem?
Claro! E pense no que eu disse!
Ela se atira entre os arranha-céus e balança pela noite da cidade. As palavras de Franklin deixaram-na mais confusa. Pois, se ele acredita que a solução é tão radical assim, talvez realmente seja hora dela considerar se juntar a algum grupo ativista. Afinal, ele é Franklin Richards, filho de Reed e Sue, membro do Quinteto Fantástico. É uma opinião a ser fortemente considerada. Enquanto pensa, ela avista um assalto à mão armada e se dirige para o local.
Com sua incrível agilidade a Garota-Aranha chuta a mão do bandido, enquanto passa balançando na teia, e joga a arma dele longe. Desesperado o ladrão corre, mas ela o prende em uma rede de teia.
Prontinho gente, mais um embalado pra presente! ela se vira em direção ao casal que estava sendo assaltado.
O homem e a mulher fazem cara de desespero.
Saia de perto de nós, sua mutante nojenta! Sua raça asquerosa devia ser extinta! a mulher se afasta, dando passos para trás.
Eu juro que te mato se você encostar na minha mulher! Eu juro! o homem toma a frente da parceira, tentando protegê-la.
A Garota-Aranha dá um salto e escala o mais rápido que pode um prédio até chegar ao topo.
"Meu Deus! O que deu nessa gente? Parece até que tudo está acontecendo como o Destruidor disse. Porque essas pessoas fizeram isso comigo? Eu só estava ajudando-as. Quer dizer, eu as salvei de um cara com uma arma, e é isso que eu recebo. Bando de mal-agradecidos!"
May entra em casa pela janela do seu quarto. Silenciosamente, tira o uniforme e coloca sua roupa de dormir. O dia foi muito complicado e ela só quer cair na cama, mas antes desce para beber um pouco de água. Porém, quando está quase chegando na sala...
Ah! Então foi por isso que eu demorei horas pra chegar em casa hoje! Um mutante idiota resolveu quebrar uma rua inteira no centro! Impressionante como os mutantes só fazem besteira, até hoje não vi um fazer algo que preste! reclama Peter.
Ih, Peter. Vai ficar perdendo seu tempo reclamando dessa gentinha. Eles não têm jeito, são uma praga. diz Mary Jane.
Ela não acredita no que está ouvindo. Além de tudo, ao chegar em casa, tem que aturar isso dos pais. Logo deles. Logo dele, seu pai, que por muitas vezes tinha lutado ao lado de mutantes e, aliás, é por causa do sangue radioativo dele que ela é uma mutante. Essa situação é intolerável para ela!
O que vocês estão dizendo? Droga! Esqueceram que eu sou uma mutante?! May grita com os pais.
Peter e MJ se assustam com a reação da filha.
Escuta aqui mocinha... MJ começa a falar, mas é cortada por Peter:
Deixa que eu falo com ela, Mary. May, quem te deu o direito de falar conosco assim? Não foi essa a educação que você recebeu! Acho bom você ficar quieta e não se meter nesses assuntos! Você é uma criança e não sabe de nada! Graças a Deus ainda está em tempo de tirar você desse caminho podre que essa sua racinha segue! Você tem chance de ser diferente e de ser quase uma humana! Eu não vou deixar você jogar isso fora!
O quê? Que papo mais nojento é esse? Eu não estou reconhecendo vocês! May começa a chorar E aquela história toda de integridade e igualdade que vocês me ensinaram? Era tudo mentira?
Historinha pra criança, May. Agora que você já é grande, é hora de aprender como o mundo funciona. No mundo não existe espaço pros mutantes! Você deve esconder de todos o que você é! Ouviu bem? fala MJ, se levantando do sofá.
Não! Não! Eu não acredito no que eu estou ouvindo! Eu odeio vocês! May sobe as escadas correndo.
MJ e Peter se viram novamente para a TV e trocam de canal.
"Droga! Meus pais são uns idiotas! Não acredito nisso! Que raiva!!!"
Ela começa a colocar o uniforme, enfurecida, e salta para fora de casa. Vai se balançar pela cidade, tentando se acalmar.
"Argh! Eu odeio! Odeio! Odeio! Odeio! Odeio essa minha vida! Nada pode fazer minha noite ficar pior! Nada!"
De repente, um grito corta a noite de Nova York. Um grito de criança. A Garota-Aranha se amaldiçoa por ter tido a idéia de balançar por aí, ao invés de se trancar no quarto como qualquer menina normal da sua idade, e vai dar uma olhada no que está acontecendo. Ela pára no alto da lateral de um prédio que dá num beco. De sua posição, ela vê uma multidão encurralando uma criança.
Matem a aberração! grita um senhor.
É isso ai! Essas criaturas nojentas... esses mutantes não podem ficar andando livres pela rua! Vamos tacar pedra nele até que o desgraçado morra! grita um outro homem.
A multidão, munida de paus e pedras, avança para cima da criança. O avanço, porém, é contido pela Garota-Aranha, que se coloca entre as pessoas e o mutante.
Parem! Voltem para suas casas! Eu não estou brincando, droga! ela grita, enfurecida.
Ela deve ser uma mutante também! Vamos pegar os dois! diz uma voz saída da multidão.
A Garota-Aranha prende alguns com uma rede de teia. Outros, porém, continuam avançando e embora ela pudesse pará-los de várias maneiras, decide usar seus punhos e, em poucos instantes, os que não estão desmaiados estão correndo desesperados.
Ela se vira para o menino mutante, que está acuado num canto. Agora ela consegue vê-lo melhor. O garoto não deve ter mais do que nove anos e seus olhos brilham num tom prateado.
Pode vir agora, garoto. Está seguro. Ninguém mais vai te machucar. ela se abaixa, abrindo os braços para o menino.
A criança corre e abraça a Garota-Aranha.
Eu vou te levar pra casa, menininho. Pode deixar com a titia aranha! Aliás, qual o seu nome?
O menino nada responde.
"Ótimo. Agora o moleque não quer falar. Como eu vou achar a casa dele? Se é que é uma boa idéia leva-lo pra casa..."
May escuta alguém entrando no beco. É uma mulher magra, de cabelos prata e olhos verdes.
Ah, obrigado por salvar meu garoto! Deus, eu juro que tentei ajudá-lo, mas o que eu podia fazer contra toda aquela gente? Eles iam me matar também! a mulher corre e abraça o menino, que corresponde.
Garota-Aranha, eu não sei como posso retribuir... diz a mulher, colocando um boné e um casaco no filho.
Não precisa. Esses caras são uns animais mesmo. Coitado, é só uma criança. Deve estar muito assustado.
É, eles tão cada dia piores. Sabia que tem um senador querendo que os pais tenham direito de abortar fetos que sejam mutantes? Ele quer obrigar os médicos a fazerem a detecção do gene x em todos os fetos... imagina só! O safado tá vindo pra cá amanhã cedo pra debater as idéias dele. Tomara que alguém faça alguma coisa. Um monstro desses não pode se dar bem. Bom, Aranha, obrigado... mas é melhor eu levar o Tim pra casa.
Enquanto a mulher sai do beco abraçada com o filho, a Garota-Aranha tem a esquisita sensação que a conhece de algum lugar, mas essa sensação logo é tomada por outra: raiva.
"Realmente alguém tem que fazer alguma coisa contra esse cara, e esse alguém vai ser eu!"
Continua!
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