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Por
Fábio Fernandes
O Bom Filho à Casa Torna (*)
Bem-vindos à Cidade que Nunca Dorme.
Uma canção antiga celebrava outra cidade com essa mesma alcunha. Não importa. Só o que importa hoje é esta cidade. Conhecida por alguns como a Encruzilhada Dimensional, por outros como a Cauda do Cão, ela tem um tamanho impossível de calcular e é caótica demais para ser mapeada. Possui regiões que se abrem como pétalas para outras dimensões.
Em umas, a magia funciona; em outras, a ciência dá as cartas.
Aqui, pessoas lutam por aquilo em que acreditam. Antigamente digamos, trezentos anos atrás não havia lei na Cidade. Havia um arremedo de lei, que a corrupção se encarregava de solapar. E as pessoas, principalmente as pobres, faziam suas próprias leis. Havia até mesmo escravidão na Cidade.
As coisas mudaram muito nos últimos cem anos. O que parecia um saudável caos se tornou algo mais contido... mas não menos doentio. Hoje, por exemplo, não há mais escravos aqui. E a lei é severa e rígida. Para todos.
Isto ocorre graças às Corporações Transdimensionais ou TransDims, como são chamadas popularmente. Foram elas que tiraram a Cidade do caos. Foram elas que asseguraram o cumprimento das leis.
Por que, então, esse grupo enorme de pessoas vestidas de preto com óculos de quartzo vermelho enfrenta as tropas de choque das TransDims?
As coisas não vão bem em Cinosura.

As tropas de choque já chegam à Praça Principal de Cinosura descendo a lenha nos manifestantes. E não é mera força de expressão: embora o armamento padrão da polícia TransDim tenha rifles com balas de borracha, chicotes neurais paralisantes, luvas de choque subcutâneo e até vibrodagas, os manifestantes do outro lado lutam como podem, disparando dardos de neurotoxinas com suas zarabacanas, lançando bombas estroboscópicas para confundir as cabeças e rolamentos metálicos para desequilibrar os pés. E descendo a lenha literalmente, com bastões de beisebol, e bordunas decoradas com plumas e pinturas indígenas. Guerra é guerra.
Que o digam as duas mulheres encurraladas num beco bem perto da Praça. Praticamente espremidas contra um muro de tijolos, entre monturos de lixo e um cheiro forte de urina podre, elas tentam se defender como podem. De um lado, a morena de cabelos bem curtos segura nas mãos estrelas brilhantes de metal. Os shurikens são extremamente afiados, e podem cortar fundo a carne de uma pessoa. Do outro, uma mulher careca de idade indefinida e vestindo um quimono preto curva ligeiramente o corpo e assume a postura tradicional do Gafanhoto. Com a devida impulsão, ela pode quebrar um pescoço com um chute. Os soldados seriam presas fáceis se não estivessem fortemente armados e ainda por cima trajando armaduras de kevlar-obsidiana.
Elas podem muito. Mas não podem tudo. E vão morrer.
Por sorte, os soldados não reparam no fraquíssimo brilho azulado que se forma sobre suas cabeças. Num terraço adjacente ao beco, dois borrões se movimentam. Dois ou três, não há tempo de ver: as formas se movem rápido demais para um beco tão estreito. Caem em cima dos soldados com chutes, rabos-de-arraia, pancadas fortes com o que parecem pedaços de pau. Dois são postos fora de combate na hora; dos outros dois, as mulheres se encarregam, com golpes certeiros de kung-fu e um shuriken bem encaixado na viseira de um dos capacetes.
Quando tudo acaba, não há palavras. Está escuro demais no beco para que as mulheres consigam reconhecer as formas que, elas percebem, são duas. Mas é tudo o que conseguem ver.
Na entrada do beco, o barulho da conflagração está cada vez mais alto. Um cavalo da polícia TransDim caiu de través e bloqueia (junto com um soldado esmagado pelo animal) a saída.
Não há tempo a perder: uma das mulheres, a mais baixa, saca de dentro da roupa uma espécie de controle remoto e digita um código. Imediatamente um portal se abre na parede de tijolos. Ela faz sinal para que os dois borrões pretos se aproximem. Os quatro passam pelo pequeno wormhole, que se fecha logo em seguida.

O choque da passagem é inevitável. No beco, muito frio: calor e abafamento do outro lado. Cheiro de mofo e de poeira misturada com pó de caliça. Os dois borrões olham ao redor com um misto de curiosidade e atenção extrema. As mãos não abandonam os pedaços de pau que, à luz fraca de lampiões pendurados em traves e postes de madeira, revelam ser shinais: espadas samurais de treinamento, feitas de bambu.
O recinto parece bem grande, mas a iluminação pálida não deixa ver muita coisa além de um círculo, no centro do qual os quatro se encontram. Na margem do halo de luz, um homem albino aparece para recebê-los.
Quem são? pergunta o albino.
Na verdade, ele não é exatamente albino: é um homem extremamente pálido e louro. Até mesmo as sobrancelhas e as pestanas são louras, quase brancas. Ele olha com ar intrigado para a mulher do controle remoto, uma careca baixinha de traços orientais, buscando uma resposta.
Não sei. ela diz Mas acabaram de nos salvar.
Na luz baça do recinto, os dois borrões assumem contornos mais distintos do que na escuridão do beco. São um casal de jovens. Mulatos, altos e esguios. Ambos usam cabelos compridos presos por rabos-de-cavalo e vestem roupas colantes pretas dos pés até o pescoço. O cabelo do rapaz é mais curto, como o de um samurai, e sua postura é bem parecida com a de um. A garota tem um perfil mais bruto, menos lapidado.
Vocês são os blackjackers, certo? pergunta o rapaz.
Porra, estamos procurando vocês há meses diz a garota.
Quem quer saber? pergunta a morena que acompanha a careca, com uma cara de pouquíssimos amigos.
O rapaz olha para ela meio sem graça, como se envergonhado de ter quebrado alguma regra de etiqueta.
Desculpe, devíamos ter nos apresentado lá no beco. Meu nome é Jonas. Minha irmã...
Joana. interrompe a garota Não que tivesse dado tempo de nos apresentarmos no beco. Se tivéssemos feito isso, vocês estariam mortas.
A careca assente.
É verdade. ela diz, estendendo a mão Meu nome é Jin. Esta é Martha. E ele é Robert McKeena. E, sim, nós somos blackjackers.

Começou com um homem chamado Blacjacmac. Ex-policial, defendeu Cinosura durante as Guerras Demoníacas. Ganhou um dinheiro razoável depois disso, e fez bom uso dele. Pouco antes de morrer, fundou uma Corporação Familiar, ou seja: uma empresa cujo objetivo principal é utilizar o dinheiro que movimenta para cuidar dos parentes e amigos. A Corporação Familiar Blacjacmac fez um bom trabalho cuidando dos seus por mais de cem anos.
As Corporações Familiares foram declaradas foras-da-lei pelas TransDims que governam Cinosura.

E vocês? Por que estavam lá? pergunta Jin.
Precisamos voltar à Praça! Martha quase grita Estão precisando de nós lá.
Eles estão bem. diz McKeena É mais importante agora compreender esta brecha no perímetro.
Viemos para ajudar. diz Jonas.
Mas parece que vocês não gostaram muito. retruca Joana.
Por favor, desculpem minha companheira. diz Jin, curvando-se numa mesura para os dois Ela está preocupada com o resto de nossa tribo.
Podemos voltar com vocês. Jonas sugere.
Por que escolheram justo hoje? Martha pergunta, irritada.
Porque não sabíamos onde procurar vocês, ora. responde Joana E por acaso foras-da-lei têm endereço fixo?
Assim que soubemos do fuzuê na Praça, desconfiamos que só podiam ser os blackjackers. Jonas fala E chegamos bem na hora em que os soldados cercaram vocês.
Nunca deixamos os amigos na mão. diz Joana.
Amigos? pergunta Martha.
Blacjacmac era nosso amigo. diz Jonas.
Como assim? é a vez de Jin perguntar. Mas algo dentro dela já sabe a resposta.
Somos Grimjack. os dois irmãos respondem juntos.

Começou com um homem chamado Grimjack.
Na verdade, seu nome era John Gaunt. Não era um homem complicado, embora tivesse feito muita coisa na vida. Em suas próprias palavras: "Chamem-me de mercenário. Chamem-me de assassino. Chamem-me de vilão. Eu sou isso e muito mais."
Gaunt não teve uma vida fácil: nascido numa família miserável num tempo em que Cinosura não tinha lei e ainda por cima no Poço, a pior região da cidade ele foi vendido aos oito anos de idade como lutador na Arena. Matou seu primeiro homem aos dez.
Comprou a liberdade na adolescência. E foi aí que as coisas ficaram ainda piores na cidade, de uma maneira que ninguém imaginava. Pois Cinosura era uma encruzilhada dimensional, onde todos os mundos se encontram, mais cedo ou mais tarde. Até mesmo as regiões infernais.
Graças à interferência de vários seres que se venderam aos demônios entre os quais Kalibos, um robô que tinha o hábito macabro de colecionar (e vestir) peles humanas o inferno entrou em fase com Cinosura durante algumas semanas.
Foi um período negro.
Não vale a pena contar o que aconteceu. Pegue todas as catástrofes pelas quais a humanidade já passou em sua longa história e você não fará a menor idéia de como foi lá. Mas de uma coisa ninguém tem dúvidas: se não fosse pelos Fuzileiros Livres, Cinosura não existiria mais.
Os Fuzileiros Livres eram um grupo paramilitar que tomou a dianteira no combate com o inferno. Gaunt se uniu a eles num momento crítico, em que não era mais possível confiar em ninguém. E como se podia confiar em alguém quando os demônios invasores além de tudo eram transmorfos? Tinham o poder de assumir a forma das pessoas que matavam.
No final, coube a um grupo bastante reduzido de Fuzileiros Livres a destruição dos portais e a subseqüente expulsão dos demônios restantes de Cinosura. Depois disso, Gaunt ou Grimjack, como ele agora era conhecido, graças ao sorriso cínico e demoníaco que ostentava em seu rosto marcado por uma grande cicatriz da testa até o meio da face esquerda fez de tudo um pouco. Foi caçador de recompensas em terras paralelas (dizem que esteve até em Amber, considerada por seus habitantes o único mundo real, diante do qual todos os outros são sombras. Mas quem não diz isso do seu próprio mundo?), mercenário, espião. Até policial ele foi. Um dia se cansou e decidiu se tornar um empreendedor: comprou o Munden's Bar e fez da espelunca velha onde tourbots, os populares e cada vez mais chatos robôs de turismo por telepresença, eram proibidos sob pena de destruição de sua base de operações. Vivia dos lucros (poucos) do bar e tirava um (muito) por fora de uns frilas como detetive. Era uma vida boa.
Mas, como tudo o que é bom um dia chega ao fim, a vida de Gaunt também.
Começou com a volta de Kalibos. O robô queria vingança de Gaunt por ter impedido seus planos de dominação de Cinosura. Nas Guerras Comerciais (fomentadas por Kalibos), o robô cortou a mão esquerda de Grimjack, que por sua vez arrancou a garra esquerda da criatura cibernética para colocar no lugar da sua.
A perda da mão e de várias outras partes do corpo com outros confrontos igualmente difíceis acabaram por matar Gaunt. Mas não antes que ele tivesse mandado clonar seu corpo e transferir sua mente para a cópia. Que ainda viveu o suficiente para se arrepender disso.
Um dia, Gaunt foi procurado por um velho amigo. Jericho Noleski, ex-policial e parceiro de Gaunt, Jericho havia virado vampiro e ido para o inferno.
Um dos muitos ditados de Grimjack é "Eu sempre luto por meus amigos". Ele também se arrependeria disso no futuro... porque conseguiu entrar no inferno e salvar a alma de Jericho, mas foi condenado por isso a reencarnar eternamente.

Como é que é? pergunta Martha.
Não nos pergunte como. diz Joana Também não entendemos.
Mas sabemos que somos Grimjack. complementa Jonas.
Os dois? Não sejam ridículos! Martha faz uma careta de desprezo.
Ao lado, McKeena e Jin olham tudo em silêncio. Jin abaixa a cabeça e pára por um momento.
Existe uma maneira bem simples de descobrir isso. diz Jin Vamos para Ashoka.

É um dos lugares mais bonitos que Jonas e Joana viram na vida não que eles tenham visto muitos lugares. Quem veio das Palafitas dificilmente conhece outros mundos.
Ashoka é uma dimensão composta somente por cordilheiras maciços montanhosos imensos, que empalideceriam os Himalaias e provavelmente rivalizariam com o Monte Olimpo em Marte. Os jovens ficam boquiabertos.
E mortos de frio. Mesmo com os trajes isolantes que McKeena lhes deu ao saírem do Refúgio.
Meu pai foi sherpa aqui por muitos anos. diz Jin Conheço todos os caminhos desta região.
Região muito bonita, aliás. diz Jonas, sem conseguir esconder um sorriso.
Melhor do que o esconderijo de vocês. diz Joana.
Martha dá de ombros.
Podia ser pior. ela diz Se a radiação não tivesse acabado...
Radiação? pergunta Jonas.
O nosso refúgio fica no subterrâneo de uma antiga capital da Terra. Numa dimensão onde ocorreu uma guerra nuclear total há quase um século.
Não sobrou ninguém pra contar a história. diz Martha.
Sobraram alguns relatos. diz McKeena.
Dos poucos sobreviventes que conseguiram durar alguns anos. Menos de cinco anos. diz Jin.
Na verdade, a radiação não acabou inteiramente... diz McKeena.
Mas no subterrâneo nós estamos protegidos. acrescenta Jin.
Razoavelmente. completa Martha. Com um sorriso cínico.
Ficam em silêncio o resto da caminhada.

Alcançam o mosteiro de Paratha duas horas depois. É uma estrutura impressionante não tanto pelo tamanho, mas pela peculiaridade: o conjunto de prédios baixos de alvenaria foi esculpido nas escarpas; o acesso entre eles é feito através de estreitas pontes pênseis. À distância, no meio das nuvens, Paratha parece construída em pleno ar.
Na entrada, como se os esperasse, um homem vestido com uma túnica cor de vinho e açafrão. Ele é careca e oriental como Jin, mas é muito mais alto e magro do que a líder dos blackjackers.
O bom filho à casa torna. diz o oriental, com um sorriso leve nos lábios.
Jonas, Joana, diz Jin conheçam o Tulku.
Entrem. ele diz Acabei de fazer chá.
O senhor vai me desculpar, mas estamos com pressa e ainda não me explicaram o que foi que nós viemos fazer aqui. diz Joana.
Perdoem minha irmã. diz Jonas Ela se impacienta com facilidade.
Não há problema. diz o Tulku Entrem, por favor. Tudo será esclarecido.
O que vai acontecer? Martha pergunta baixinho para Jin depois que o casal de irmãos entra junto com o Tulku.
Eles podem estar falando a verdade, Martha.
Como assim? Como é que os dois podem ser Grimjack?
O princípio da reencarnação obedece a leis independentes do mundo físico. Ocasionalmente, diversos aspectos de uma pessoa podem reencarnar em corpos diferentes. O Tulku vai verificar se foi isso o que aconteceu com eles.

Do que vocês se lembram? pergunta o Tulku, depois do chá. Sentado sobre as pernas dobradas, ele encara os dois jovens com seriedade.
As coisas vêm em flashes. explica Jonas, tentando buscar palavras para exprimir o que sente Geralmente são sensações. Só de vez em quando eu tenho lembranças realmente nítidas.
Desde quando?
Desde adolescentes. diz Joana Foi aos doze anos.
Como foi?
Jonas hesita. Joana faz uma cara de impaciência e continua:
Foi quando menstruei pela primeira vez. Na hora em que senti o fluxo descendo pelas pernas, eu estava do lado de fora da nossa palafita caçando caranguejos. Senti um impacto violento na nuca, como se tivessem me dado uma porretada. Na mesma hora, comecei a ver coisas que não estavam ali, era como se eu estivesse sonhando acordada. Mas não conseguia evitar; era tudo rápido demais. Demônios, assombrações, um robô metálico, um pistoleiro, espíritos, espadas. Socos, chutes, ferimentos, mortes. Principalmente mortes. Quando acordei, estava sufocando com a cara enterrada na lama. Jonas estava do meu lado, o rosto molhado de lágrimas, apavorado, coitado. Ele tinha tido a mesma visão que eu, ao mesmo tempo.
Eu estava dentro de casa, dando comida para minha mãe, que era inválida. ele explica Quando de repente senti uma forte dor de cabeça e comecei a ver coisas também. Mas não exatamente as mesmas coisas que Joana. Eu vi batalhas e mortes também, mas vi cenas de amor, sexo... coisas que eu nunca tinha vivido antes, com muita intensidade e uma riqueza de detalhes que eu não tinha como criar.
Na nossa casa não havia nada, nem televisão. Joana diz, com uma cara que não esconde o rancor Éramos miseráveis.
Em algum momento, além dessas visões, vocês viram a si mesmos? pergunta o Tulku, franzindo ligeiramente a testa Como vocês eram?
Eu me vi como um homem alto, muito magro, cabelos compridos pretos com uma faixa grisalha. diz Joana Uma cicatriz cortando o rosto. Uma mão metálica. Às vezes a mão era normal. Eu me vi morto.
Eu me vi como um homem alto, muito magro, cabelos compridos ruivos. diz Jonas Uma cicatriz cortando o rosto. Muita dor no coração. Amigos mortos. Amores perdidos para sempre. Um filho morto na barriga da mãe. Outro que matei já adulto.
As lágrimas correm pelos rostos dos irmãos sem que eles se dêem conta. O Tulku pára com as perguntas. Faz um gesto sutil de cabeça para Jin. A mulher se levanta e sai da sala por um momento. Volta com um baú de madeira de tamanho médio.
Coloca o baú no chão de tábuas de madeira enceradas e o abre. Retira cuidadosamente todo o seu conteúdo e o deposita à frente dos jovens.
Uma capa azul desbotada.
Uma boina.
Um chapéu-coco.
Um broche com um símbolo arcano.
Um par de óculos de quartzo rosa.
Um monóculo.
Uma espada.
Peguem de volta o que é de vocês. diz o Tulku.
É instantâneo. Jonas pega a boina e a capa. Joana, o broche e a espada.
Os outros objetos nunca pertenceram a Grimjack.
O Tulku se levanta e curva o corpo numa mesura.
Bem-vindo, Grimjack.
:: Notas do Autor
(*) Em 1987, a editora Cedibra lançou no Brasil quatro revistas da editora americana First Comics: American Flagg, Badger, Jon Sable e Grimjack. Infelizmente, nenhum dos títulos passou da quarta edição em língua portuguesa. Contudo, elas duraram bastante nos Estados Unidos. A que teve a vida mais longa foi Grimjack: 81 edições.
Criado por John Ostrander (Esquadrão Suicida) e Timothy Truman (Hawkworld), Grimjack era o apelido de John Gaunt, um detetive de cabelos compridos e nariz aquilino que era uma estranha mistura de índio norte-americano com Humphrey Bogart. Ele vivia em Cinosura, uma cidade pandimensional, onde muitos mundos se cruzavam de planetas alienígenas a terras paralelas, passando até mesmo pelo próprio Inferno. O próprio Gaunt tinha um ótimo ditado que definia Cinosura com perfeição: "Ciência funciona aqui, magia funciona acolá... mas espadas funcionam em qualquer lugar." Desnecessário explicar qual era a arma de sua preferência.
A revista fez história no mundo dos quadrinhos independentes. Sempre escrita por Ostrander, e desenhada em três fases diferentes por Truman, Tom Mandrake e Flint Henry, ela permitiu que Ostrander explorasse as situações mais bizarras, desde um remake de O Falcão Maltês (o arco do Gato Manquês, na fase de Mandrake) até o arco que encerra a revista, com referências que vão de "Os Miseráveis" até os cyberpunks.
Mas o ponto fulcral da minissérie que vocês irão ler se apoia em uma edição especial que a Abril lançou anos depois do cancelamento da série pela Cedibra. Nessa edição, Grimjack paga uma dívida a um velho amigo, um ex-policial transdimensional chamado Jericho Noleski. Jericho virou vampiro, e acabou no inferno. Como Cinosura eventualmente tem acesso às dimensões demoníacas, tirar alguém de lá pode até ser difícil, mas não impossível. E se existe alguém que pode fazer isso, é John Gaunt, que lutou com Jericho nas Guerras Demoníacas quando jovem.
Mas isso tem um preço. Por ter resgatado Jericho, John Gaunt recebe uma maldição: ele terá que reencarnar para sempre! Tanto isso é verdade que, lá pelo número 54, a história de Gaunt acaba (bruscamente) e na edição seguinte, duzentos anos depois, surge um outro homem, que, embora vestido como Gaunt e com a mesma cicatriz no rosto, é ruivo e tem um olhar enlouquecido. Ele afirma e consegue provar que é a reencarnação de Grimjack. O novo Grimjack é Jim Twilley, herdeiro de uma das maiores fortunas de Cinosura. A partir daí, novas aventuras não faltam, desta vez com outros amigos pois todos os amigos de Gaunt estão mortos. A revista dura até o número 81, quando Twilley é assassinado por (literalmente) um fantasma do passado. E fim.
Fim? Numa entrevista concedida anos após o cancelamento de Grimjack, Ostrander afirmou que pretendia continuar a revista assim que possível (até agora, infelizmente, não foi), e que uma de suas idéias era fazer Grimjack reencarnar em um casal de gêmeos! Foi daí que resolvi partir.
Nesta minissérie, vocês irão conhecer Jonas e Joana, dois habitantes das Palafitas, uma das partes mais pobres de Cinosura. Cem anos se passaram desde a morte de Twilley, e a cidade pandimensional mudou tanto que está praticamente irreconhecível. Isto segue não só a lógica de Ostrander (que também fez Cinosura mudar inteiramente do tempo de John Gaunt para Jim Twilley) como também serve para facilitar o acesso do leitor que nunca leu uma história de Grimjack o que, suspeito, infelizmente deve ser o caso da maioria dos fãs brasileiros de quadrinhos hoje.
Isso, no entanto, não vai prejudicar a compreensão de ninguém, pelo contrário: preparem-se para muita ação, aventura e algumas surpresas para fãs de quadrinhos em geral. Bom divertimento! 

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