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Por
Fábio Fernandes
Vantagem Competitiva
Cinosura nunca foi santa.
A Cidade que Nunca Dorme sempre foi, além de uma encruzilhada dimensional, uma terra de oportunidades. Todo tipo de negócio sempre foi permitido dentro de suas fronteiras. E num território de fronteiras líquidas, pode-se ver que todo tipo de negócio é um bom negócio.
Até a chegada das TransDims.
As Corporações TransDimensionais são o resultado de séculos de disputas, aquisições hostis, ou simplesmente guerras comerciais. Depois de apararem as arestas e de alcançar um território comum de negociação, as TransDims voltaram os olhos para Cinosura e viram que era bom. E que só conseguiriam dominá-la inteiramente caso se unissem.
Assim foi feito.
Hoje, o Consórcio domina Cinosura. O Consórcio segue à risca uma doutrina antiqüíssima, mas não menos eficiente por sua antigüidade, segundo a qual todos têm oportunidades iguais. Quem tem competência se estabelece; quem não tem apodrece. Obviamente, o que o Consórcio não explica à ralé, à patuléia de Cinosura, que tal competência é estabelecida mediante a simples eliminação de todo aquele que se opõe aos interesses das TransDims. As empresas de médio porte que se recusam a vender suas ações são levadas à falência. As pequenas e micro não são sequer consultadas; num dia, está tudo bem. No dia seguinte, elas não existem mais. Nem seus proprietários.
Para a mulher que estuda solitária uma fileira de monitores de vídeo, isto está muito bom. Para ela, só agora Cinosura realmente dorme em paz. Que lhe importa se o livre comércio tem que sofrer algumas alterações de percurso? Melhor do que há trezentos anos, quando a polícia TransDim era ineficaz e até a escravidão era tolerada na Cidade.
Hoje não há mais escravidão em Cinosura.
Para a mulher que observa atentamente os vídeos de vigilância da Praça Central, que lhe importa se os habitantes da Cidade hoje são escravos dos reality shows, ou dos Domos do Prazer da Interzona, centro de lazer gigantesco que ocupa o lugar que anteriormente era do Poço? Pelo menos ninguém combate até a morte na Arena, que não existe mais.
Ninguém pode dizer que Rachel Kodama não fez nada por Cinosura: se não fosse por ela e sua corporação, nada disso estaria acontecendo. Que lhe importa se algumas pessoas morrem de vez em quando de fome ou de miséria? Quem não tem competência não se estabelece.
Rachel Kodama também não é santa. Santos não são bons CEOs.
E a Wells-Kodama tem que ser dirigida de modo especial. Com mão de ferro.
No caso em questão, isso é a mais pura verdade. As portas da Sala de Controle da WK se abrem deslizando. O homem que entra não é grande, mas sua presença é tão poderosa que parece sugar até mesmo o ar do ambiente. A luz que já é fraca fica ainda mais tênue diante dele.
É um homem alto e atarracado. Usa uma boina militar vermelha na cabeça. Um imenso bigode grisalho de pontas curvadas para cima se destaca no rosto de olhos cinzentos reluzentes.
Mas o que mais chama a atenção e Rachel Kodama desconfia que é isso o que na verdade suga a energia de qualquer lugar onde ele se apresente é a mão ciborgue. Uma mão metálica e tão encorpada quanto o resto do corpo, com uma estrutura delgada com cabos aparentes, mas aparentando grande flexibilidade e força.
Não é por outro motivo que chamam esse homem de Comandante de Ferro.
Comandante Moorcock. Rachel o cumprimenta com um aceno de cabeça Já viu estes vídeos?
Ainda não, sra. Kodama. ele diz com um tom respeitoso, porém seco Estava ocupado espantando os arruaceiros da Praça.
É justamente disso que estou falando. ela diz, apontando para o monitor da extrema esquerda A microcâmera do Beco captou uma coisa muito interessante relacionada aos blackjackers.
O Comandante de Ferro se aproxima de Rachel e se coloca ao seu lado, de frente para o monitor. Rachel não é uma mulher tão jovem. Aparenta cerca de cinqüenta anos (se tem realmente isso, ela não revela), e já viu muita coisa em sua vida. Só por isso consegue disfarçar o arrepio que lhe causa a presença do Comandante de Ferro.
Por sua vez, o Comandante parece não prestar atenção em sua patroa. Encara fixamente o monitor, que passa num loop de alguns minutos uma cena de luta. Graças ao sistema de gravação infravermelha para ambientes escuros, a cena é de uma clareza cristalina: quatro soldados em full armor isolam no fundo do Beco duas integrantes dos Blackjackers. Ele reconhece ambas: Jin Kei Hua e Martha Baylor-Noone. As líderes do movimento blackjacker.
Subitamente, dois borrões pretos caem em cima dos soldados. A ação só não é impossível de acompanhar porque o aparelho foi programado para exibir o vídeo com velocidade reduzida. Os borrões são duas pessoas vestidas completamente de preto, portando espadas samurais. Espadas que não reluzem; provavelmente, portanto, feitas de madeira ou bambu.
A luta é rápida e eficiente. Os dois samurais se portam como alguém que o Comandante de Ferro conheceu. Mas esse alguém já morreu há muito tempo.
O que não quer dizer que não possa ter deixado discípulos. Assim como os malditos blackjackers herdaram a agressão e o comportamento indisciplinado de Blacjacmac.
O vídeo chega ao fim do loop com Jin, Martha e os dois samurais desaparecendo num wormhole recém-criado no muro de tijolos que bloqueia o Beco. Contudo, o mais interessante do vídeo para o Comandante de Ferro é aquilo que Rachel Kodama, em sua ânsia de pegar os blackjackers, não viu: o brilho incrivelmente sutil que emanou dos borrões pretos até uma fração de segundo antes que eles caíssem sobre a polícia.
Em nenhum momento Rachel mencionou o brilho. Mas o Comandante de Ferro sempre teve os sentidos aguçados. Rachel está mais preocupada com outra coisa.
Você consegue acessar aquele portal retroativamente? ela pergunta.
Eu consigo acessar qualquer portal. diz o Comandante.
Então faça isso. ela diz E mate todos os blackjackers.

Recolhidos a um canto na penumbra da base blackjacker, os dois jovens recebem comida das mãos de um cozinheiro, ao lado de um caldeirão com um cheiro bom de sopa de entulho. No centro, McKeena e as mulheres conversam.
O nome Grimjack consta de meus registros. diz ele Mas os lugares em que habitei antes de vir para Cinosura não continham informações a respeito. Qual é a importância dele para os blackjackers?
Estrategicamente, neste momento, não sei. confessa Jin, olhando para os dois jovens. Jonas come com vontade, mas calmamente; Joana está com a cara mergulhada na tigela de sopa, como se fosse morrer amanhã Mas para o moral da tropa, pode ser crucial.
Por quê?
John Gaunt conheceu Blacjacmac ainda criança, na Arena. explica Jin Lutaram juntos, tanto lá quanto depois, nas Guerras Demoníacas. E foram amigos até a morte do clone de Gaunt.
Mas a amizade perdurou até mesmo depois da morte. continua Martha Na encarnação seguinte, como Jim Twilley, Grimjack descobriu que Blacjacmac havia deixado para ele em testamento a condição de membro da Corporação Familiar que fundou antes de morrer. E foi isso que garantiu a Twilley condições materiais para gerir sua vida depois de abandonar a fortuna de seus pais naquela encarnação.
E qual é a condição atual de Jonas e Joana? ele pergunta.
Só sabemos o que eles nos contaram no caminho de volta. responde Jin Nasceram de pais muito pobres e moram na região das Palafitas, um imenso mangue na periferia de Cinosura.
Mas lutam como dois samurais. acrescenta Martha.
E isso é normal para os habitantes das Palafitas? pergunta McKeena.
Nós não moramos mais nas Palafitas. diz Joana, levantando-se bruscamente e indo na direção do grupo O que você está querendo insinuar?
Eu não insinuo nada. McKeena diz com calma Apenas registro os fatos.
Na verdade Jonas interrompe, levantando-se rapidamente para alcançar a irmã saímos de casa um ano depois que as visões começaram.
Quando nossa mãe morreu. complementa Joana.
Deixamos nossos irmãos com uma tia e viemos para o centro de Cinosura na esperança de encontrar a Corporação Familiar de Blacjacmac... diz Jonas.
...mas ela havia entrado na ilegalidade. completa Joana.
Tivemos que trabalhar para sobreviver. Joana acabou arrumando um emprego de faxineira num dojô.
O que foi providencial. ela diz, levando a mão ao shinai, com um sorriso cínico.
Mas vocês sabem que podem ter colocado em risco a segurança deste lugar. diz McKeena, ainda impassível.
Como assim? pergunta Joana, franzindo a testa Vocês mesmos disseram que funcionam de modo independente e que até hoje ninguém foi capaz de hackear vocês.
O Gerador de Realidade Portátil que temos aqui foi apropriado diretamente da antiga fortaleza da Chronost Marshall, a autoridade que regulava as viagens no tempo em Cinosura. Jin explica Ele foi reprogramado, mas não é inacessível. Até agora contávamos também com o fator surpresa. E, segundo soubemos agora por McKeena...
Rachel Kodama mandou encher Cinosura de aparatos de gravação. McKeena acrescenta Toda a cidade está sendo vigiada agora.
Inclusive o beco onde estávamos. completa Martha.
Precisamos evacuar esta realidade antes que os homens do Comandante de Ferro cheguem.
Mas quem é esse pessoal? pergunta Joana Essa Ruth Kodama...
Rachel. corrige Martha, impaciente.
...e esse tal de Comandante de Ferro? completa Jonas.
Podemos explicar mais tarde. diz McKeena Vou entrar em contato com os Rastas.

O homem se aproxima do beco. Faz frio. Ele usa um capote que o cobre quase todo e um gorro de pele que cobre sua cabeça. De fora, apenas o imenso bigode de pontas curvadas para cima. E os olhos reluzentes.
Sem que ninguém o veja, ele retira uma das mãos do capote. A mão é robótica. Basta apenas encostá-la no muro de tijolos.
Lentamente, ele vai traçando a trajetória quântica do wormhole. O fluxo de partículas subatômicas descreve arcos na vastidão de sua memória. Arcos que se bifurcam e se ramificam, formando uma árvore gigantesca, uma planta de galhos que vão ficando cada vez mais finos, capilares quânticos. Aos poucos, o Comandante de Ferro filtra passagens, peneira possibilidades, decifra trajetórias. Descobre segredos.
O Comandante de Ferro exulta de antecipação.

Entramos em fase. diz McKeena, apontando para uma parede escura do outro lado do salão Vamos iniciar a evacuação.
Diante dos olhos de todos os blackjackers, a parede começa a tremeluzir num brilho esverdeado, abrindo-se como um esfíncter. Do outro lado, um som tipo bate-estaca começa a se fazer ouvir numa intensidade e altura cada vez maiores. Uma figura começa a se destacar no centro da abertura.
Jah love, man. diz o homem, que sai na direção de McKeena, Jin e Martha, acenando para eles.
Como vai, Bob? pergunta McKeena.
Cool, man, cool, steady and easy. Ready to go?
A evacuação começa na hora. Só então Jonas e Joana percebem a imensidão do lugar: como lagartixas grudadas às paredes, os blackjackers se esgueiram lentamente e saem dos lugares onde estavam, no meio da escuridão. São tantos que por um instante os irmãos se atrapalham.
Duzentos e vinte e cinco, sem contar com os fodões e nós aqui. Joana diz de repente para o irmão, como se adivinhasse o que ele estava pensando. Ele sorri: ela não adivinhou nada. Ela sabia.
Jin olha para os dois e apenas sorri, sem dizer uma palavra sequer.
O silêncio só é quebrado pela música que vem do lado de lá. Lentamente, o cheiro de erva queimada começa a circular pelo ambiente fechado do salão. A movimentação dos blackjackers só faz deslocar a fumacinha.
Que cheiro bom. diz Jonas Mas é forte, hein? Estou meio tonto.
Pela primeira vez em horas, Joana abre um sorriso no rosto, e dá um abraço rápido no irmão. Martha faz uma careta de nojo e abana o ar na frente do nariz. Jin e McKeena parecem não se abalar.
Como você agüenta essas coisas? Martha pergunta irritada. Sua companheira olha para ela e dá um sorriso tranqüilo e doce:
Às vezes precisamos fazer alianças para realizar nossa missão. Se não aceitarmos quem é diferente de nós, Martha e acaricia o rosto da companheira como podemos esperar que nos aceitem?
Martha não diz nada. Afasta-se educadamente de Jin e vai supervisionar a evacuação.
Só existe uma coisa que não poderemos levar. Jin diz para McKeena.
O Gerador não pode ser levado, mas posso acionar um dispositivo de autodestruição para que não sobre nada para ser analisado.
Você pode fazer isso?
Na verdade, já fiz. ele diz Assim que o último blackjacker sair, acionarei a máquina para ser destruída em cinco minutos.
Ótimo. diz Jin.
Jonas olha meio divertido para sua irmã.
Eu estou viajando ou seu broche está brilhando?
Joana olha para baixo e vê que o broche que ela prendeu à blusa está emitindo um suave brilho verde.
Ela começa a suar frio.
Rápido! ela grita, assustando todos ao redor Fujam! Agora!!
O que é isso, menina? Martha a segura pelo braço. Joana saca a espada presa ao cinto e se livra de Joana com um safanão.
Nunca mais ponha sua mão em mim. ela diz. No mesmo instante, ela é cercada por um cinturão de blackjackers, todos armados.
O que está acontecendo? Jin pergunta, atônita.
De repente, Jonas se lembra. É ele quem responde:
O broche é um detector de demônios!
E as portas do inferno se abrem sobre eles.

Quando tudo acaba, eles mal conseguem entender o que aconteceu. Jonas olha ao redor e só vê sofrimento; na segurança do refúgio Rasta convenientemente silencioso agora restam apenas algumas dezenas de pessoas vestindo o uniforme preto dos blackjackers. Várias delas ainda ostentam os óculos vermelhos, mas quase todos têm as lentes rachadas ou quebradas. Todos sangram.
Jonas olha ao redor e vê alguns feridos sendo atendidos pela comunidade Rasta. No meio da multidão, ele vê Martha chorando. Segurando o corpo inerte de Jin.

Quando tudo começa, para Joana é como se as coisas subitamente passassem a acontecer em câmera lenta.
Embora sua mente pareça quase parada, o corpo trabalha incrivelmente rápido: em poucos segundos, ela corta a garganta de um demônio comprido e fino como uma lombriga e trespassa a barriga enorme de outro demônio, gordo e redondo como um barril. Ao seu lado, Jonas, Jin e Martha fazem um círculo e se defendem como podem, juntamente com os outros blackjackers. Num canto escuro, Joana percebe, de relance, a silhueta de McKeena, imóvel. Ele não se envolve no conflito.
O corpo de Joana continua matando demônios enlouquecidamente. Mas sua mente agora trabalha hipóteses.
McKeena poderia estar paralisado de medo. Mas não é o que a sua postura dá a entender. Ele poderia simplesmente estar esperando o momento certo de entrar na refrega. O que também não parece provável: é como se ele estivesse simplesmente olhando. Sem envolvimento emocional.
Para Joana, isso só pode significar uma coisa.
Traição.
Mas não há tempo. A passagem dimensional através da qual os demônios se derramam (pois essa é a palavra certa, não há outra; parece um enxame de abelhas em fúria) está aumentando de tamanho. Joana ouve Jin gritar no meio da confusão:
McKeena! Acione o dispositivo!
O quase-albino continua parado onde está. Será que o dispositivo pode ser acionado remotamente? Não há como saber e não será ela a perguntar: está ocupada demais decapitando um demônio amarelo e rimador com uma roupa ridícula de bobo da corte medieval. A cabeça ainda continua fazendo suas rimas ridículas depois de cortada, mas pelo menos o corpo inerte no chão não oferece mais perigo. Aproveita uma brecha no ataque e se posiciona ao lado de Jonas, que, coberto de sangue preto e viscoso de demônios, sua para derrotar um mini-leviatã com cara de baleia e garras de águia que emite rugidos apavorantes.
Juntos, Joana e Jonas parecem dois bailarinos executando um pas-de-deux: com movimentos absolutamente precisos e certeiros, sem o menor desperdício, os dois cercam a criatura e a desorientam com pancadas de shinai por tempo suficiente para que Joana, de um pulo, perfure um dos olhos da coisa com a ponta de sua espada. Jonas brande sua capa na frente do monstro caolho como um toureiro experiente. Isso permite que Joana atinja por trás o pescoço grosso do demônio. O gume da espada não atravessa toda a massa de músculos e tendões, mas é o suficiente para derrubar a coisa no chão.
Jin e Martha não têm a mesma sorte. A torrente de demônios atinge a todos de modo tão violento que só no primeiro impacto vinte e oito blackjackers são mortos antes de sacarem suas armas. Se não fosse a confusão armada por Martha e Joana segundos antes, não haveria um blackjacker vivo no recinto. O pequeno grupo que saca as armas para defender Jin e Martha compra o tempo necessário para a fuga de uma parte do grupo e a entrada no esconderijo de uma patrulha fortemente armada de Rastas.
Durante alguns minutos que parecem uma eternidade para Joana é absolutamente impossível ver alguma coisa além de sangue e demônios. Então Joana vê um grupo de Rastas abrindo caminho a rajadas de metralhadora até chegarem ao núcleo no centro do esconderijo. Bob, o homem que apareceu primeiro quando o portal se abriu, lidera o comando avançado.
This way here, ever'body! ele diz, com um incrível sorriso de animação no rosto B'fore we all get kill'd.
E todos saem correndo. Um grupo de blackjackers na frente, Martha e Jin logo atrás e Jonas e Joana na retaguarda. Ao passar pelo portal, onde McKeena já os espera com algo na mão (provavelmente o dispositivo, Joana pensou), Joana olha para ele. Pensou ter visto um brilho metálico nos olhos de McKeena.
Entrem, rápido. ele diz, a voz ainda totalmente tranqüila A bomba vai detonar em doze segundos.
O portal se fecha na cara dos demônios, antes da explosão. Mas todos os blackjackers vivos conseguem atravessá-lo antes. Um grupo de Rastas com equipamento médico corre para acudir os feridos.
É só nesse momento que Joana repara em Jin. O rosto da oriental está cinzento, e ela sua profusamente. Os olhos estão fora de foco, e dois médicos rastas se debruçam sobre ela. De onde está, Joana procura algum ferimento no corpo de Jin, mas o quimono preto e a distância dificultam sua visão.
O que não faz a menor diferença. Um dos médicos diz algo baixinho para Martha. E ela começa a chorar. Os olhos de Jin estão fechados.

Joana observa McKeena calada. Tudo a seu tempo. Por mais que ela discorde desse ditado, por mais que ela o ache absolutamente idiota e sem sentido, nesses momentos um fragmento de lembrança de John Gaunt, um quê de sua experiência, suplanta a loucura de Jim Twilley e sua própria teimosia. E ela se lembra do que John Gaunt perdeu por ser apressado.
Rhian.
Joana não quer pensar nisso agora. A lembrança da bela moça pela qual Gaunt se apaixonou numa dimensão mágica e com a qual viveu durante meses até curar as feridas de sua infância e adolescência é demais para ela. Por vários motivos. A morte de Rhian pelas mãos dos demônios na época da Guerra Demoníaca é apenas um deles.
Joana observa a tudo calada.
Martha não. Ela levanta a cabeça e encara Joana por um longo momento. Então, depois de depositar com carinho a cabeça de Jin no chão no esconderijo Rasta, levanta-se e diz, apontando para a garota:
A culpa é dela. De Joana, e também de seu irmão Jonas.
Como é que é? Joana pergunta, levantando-se com a espada na mão. Antes que outra confusão se arme, Jonas detém a mão de sua irmã.
Do que você está nos acusando, Martha? ele pergunta, com o tom de voz mais calmo possível.
Se não fossem vocês, isso não teria acontecido. Nunca ninguém havia invadido nosso refúgio. É uma coincidência muito grande que isso tenha acontecido justo agora.
Você sabe por que viemos. diz Joana.
Não, eu não sei. Martha retruca Jin acreditava nisso, mas eu não. E mesmo que seja verdade, todos aqui conhecem a fama de mercenário de John Gaunt, e de Jim Twilley também. Quem garante que Grimjack não se venderia? Quem garante que ele não trairia os blackjackers?
Joana puxa a espada.
Sua filha da...
Jonas a detém novamente, desesperado.
Calma, Joana! Não faça isso!
Vamos lá, Grimjack, faça o que você sabe fazer melhor! diz Martha, lágrimas de ódio descendo pelo rosto Matar, não é isso? Eu vi como vocês mataram os demônios lá atrás. Golpes precisos, certeiros, uma verdadeira coreografia. Como se tudo tivesse sido ensaiado. Vocês se venderam às TransDims. Vocês são agentes infiltrados. Eu acuso vocês!
McKeena se aproxima de Martha e coloca gentilmente a mão sobre seu ombro.
Vamos convocar o Panteão. ele diz Eles nos ajudarão a julgar.

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