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Por
Fábio Fernandes
Cada Cabeça, Uma Sentença
Quem precisa de magia?
Não Cinosura. Não a Nova Cidade que Rachel Kodama tanto sonhou em construir.
Magia não dá dinheiro. Se as dimensões mágicas continuassem em fase com Cinosura, o que aconteceria com o justo equilíbrio financeiro de forças? Qualquer deus menor poderia executar curas e de graça, o que simplesmente levaria a indústria farmacêutica da Cidade à bancarrota.
A Wells-Kodama é uma das maiores empresas farmacêuticas de Cinosura.
Mas não só: de advocacia a zootecnia, cite um negócio no qual a WK não esteja envolvida, diretamente ou através de uma de suas muitas subsidiárias ou divisões.
Trabalhos que envolvem um conhecimento profundo de técnica. De ciência. Não de magia.
Magia não pode ser calculada. A magia tem um componente de acaso grande demais para o conhecimento científico tolerar.
Rachel Kodama não quer a magia em Cinosura.

A magia ainda existe em Cinosura.
Pelo menos os deuses que comandam o uso da magia ainda vivem. Todos os que estavam em Cinosura quando as TransDims fecharam o acesso às suas respectivas dimensões perderam imediatamente seus poderes. Mas não sua imponência. E nem seus contatos: em pouco tempo, eles se reuniram numa comunidade para se manterem vivos. Pois deuses que não são venerados logo são esquecidos. E morrem.
Deuses de todos os continentes da Terra. Orixás de terras distantes. Deuses de diversos outros mundos. Entidades de terras alternativas. Divindades do passado distante. Tecnomagos do futuro. Todos acompanhados por seguidores: druidas, padres, monges, lamas e xamãs. Reunidos sob a égide do Panteão, eles andam nas sombras dos templos fechados. Pois venerar qualquer coisa em Cinosura é algo que se paga com a morte.
Se não são exatamente os reis do submundo de Cinosura, os deuses do Panteão pelo menos são seus conselheiros e mentores. E, quando a ocasião exige, juízes.
Como, por exemplo, hoje.
No centro da vasta caverna que serve de abrigo para os Rastas, o Panteão se reúne. Numa das paredes do espaço, Bob e seu grupo colocam cadeiras de espaldar alto para os principais deuses e espalham almofadões para as divindades menores. Incensórios espalham cheiros quentes pelo ar. Sacerdotes encapuzados murmuram orações num idioma morto. Colegas seus tiveram as línguas cortadas por isso.
Lentamente, os deuses vão entrando, calados e muito sérios. Aos poucos, todos vão se sentando em seus lugares. Por último, presidindo o júri, chega o mais respeitado de todos os deuses que atualmente vivem em Cinosura: um deus antigo, grande e imponente. Seus cabelos e barba são de um amarelo-escuro, que, dependendo do ângulo de incidência da luz das tochas que iluminam o recinto, tem subtons ruivos. Na cabeça, um capacete de metal com asas nas laterais reluz como novo. Na mão direita, um martelo de pedra, imenso, mas que o gigante louro parece segurar como um homem normal segura uma faca de pão.
Estão abertos os trabalhos diz o deus com sua voz de trovão.

Está feito. disse o Comandante de Ferro.
Os blackjackers foram eliminados? Rachel Kodama pergunta.
Grande parte deles foi. disse ele E a cabeça do movimento foi aniquilada. Destruir o restante é questão de tempo. Mas eles já não oferecem nenhuma ameaça.
Nunca ofereceram, na verdade. diz Rachel Eram apenas um incômodo que devia ser feito de exemplo para todos aqueles que quiserem se opor ao Consórcio. O que não quer dizer que o exemplo não deva ser completo e absoluto.
O Comandante de Ferro sorri. Um sorriso frio, quase metálico como sua mão.
Mas será. ele diz Infiltrei um dos meus no grupo que sobreviveu. Ele irá nos levar a outros grupos subterrâneos de Cinosura. Como o Panteão.
É a vez de Rachel sorrir.
Isto será adequado. ela diz Obrigada, comandante Moorcock. Você fez um bom trabalho.
O Comandante de Ferro se retira. O que ele não disse para Rachel Kodama é que ele captou dois brilhos azulados muito fracos no esconderijo dos blackjackers. E que, graças ao seu infiltrado, ele terá como rastrear os brilhos onde quer que eles estejam. Não será difícil localizar o lugar para onde eles foram. E fazer duas coisas: erradicar os blackjackers da face de Cinosura e pegar os dois irmãos.

O deus com voz de trovão ouve as acusações de Martha com atenção. Em seguida, pergunta à audiência:
Haverá aqui alguém que defenda os acusados?
No meio da multidão, uma voz baixa porém firme ressoa impressionantemente pela ótima acústica da caverna:
Eu, milorde.
Aproxima-te, pois. diz o deus.
O homem é um careca bem alto e magro, trajando túnica vinho e açafrão. Jonas e Joana o reconhecem na hora: o Tulku.
Minha discípula e filha, Jin Kei Hua isso espanta até mesmo Joana, que sai de sua impassibilidade com o queixo caído me apresentou esses dois jovens como os possíveis veículos para a alma de John Gaunt, também conhecido como Grimjack.
Foi a vez do Panteão se surpreender. Murmúrios de espanto ricochetearam pela abóbada da caverna e ecoaram por todo o recinto. Jonas pensou ter visto a testa do Deus com voz de Trovão se franzir alguns milímetros, mas à distância que estava não era possível ter certeza.
E qual foi o veredicto a que chegastes, sábio Tulku? pergunta o juiz.
As provas são irrefutáveis, poderoso deus do trovão. o Tulku responde Cada um contém em si uma parte, um aspecto de Gaunt. O rapaz, Jonas, tem a perspicácia e a profunda sensibilidade que os amigos de Gaunt testemunharam por baixo de sua armadura emocional. A moça, Joana, tem a garra e a ferocidade que valeram a Gaunt a alcunha de Grimjack.
E isto, por si só, os inocenta da acusação que lhes foi imputada?
O Tulku abaixa a cabeça numa mesura respeitosa.
Ouso dizer que sim, milorde. John Gaunt foi um homem duro em seu tempo... mas nunca foi injusto nem traidor de seus amigos. Vós o conhecestes pessoalmente.
O deus com voz de trovão se cala por alguns segundos.
Sim. ele diz, a voz triste Eu o conheci. Mas achei que estivesse no Valhala agora.
Não, milorde. John Gaunt está condenado a reencarnar por toda a eternidade, sem nunca quebrar a roda do Samsara.
Mais alguns segundos de silêncio.
Proponho humildemente uma alternativa. o Tulku quebra a imobilidade do momento Ofereço o mosteiro de Ashoka como refúgio e local de exílio temporário, para que eles possam treinar comigo o Caminho do Meio.
Isso é demais para Martha. Ela quebra o protocolo e interrompe o Tulku sem pedir a palavra.
Isso é um absurdo! Eles levaram os demônios até nosso refúgio! Uma líder importante morreu por causa disso! Eles não podem ficar sem punição!
O deus com voz de trovão olha para ela fuzilando. No caso desse homem poderoso, a expressão idiomática é quase literal: os olhos brilham de tal forma que é como se uma corrente elétrica os percorresse. Algumas pessoas na sala recuam, com medo dos raios. O deus se levanta de sua cadeira.
Estes são tempos difíceis. pondera o deus com voz de trovão, olhando de forma penetrante para os réus Temos inimigos mais poderosos contra os quais lutar. Os sinais que vós me trouxestes são portentos do Ragnarok que se aproxima. É tempo de união, e não de dissidência. É provável que a chegada deles ao vosso refúgio tenha atraído os demônios. Mas, como vocês estavam em combate com a polícia TransDim naquele momento, e as câmeras de vigilância registraram vossa entrada pelo portal no beco, também é possível que eles tenham encontrado um modo de vos rastrear. O que nos leva a uma conclusão terrível: os demônios podem estar em conluio com o Consórcio de Empresas Transdimensionais.
Não houve murmúrios desta vez. O pavor foi tão grande que os gritos não puderam ser contidos.
Devemos permanecer reunidos em assembléia para planejar uma estratégia contra esses terríveis inimigos. Contudo, não posso vos obrigar e voltou novamente o olhar fuzilante para Martha a aceitar os acusados em vosso seio. Determino, pois, que eles permaneçam em Ashoka até que sua culpa seja determinada ou dirimida. Assim falou o Deus do Trovão!
Obrigado, milorde. disse o Tulku, fazendo outra mesura. Já ao seu lado, Jonas e Joana imitam o movimento, em sinal de respeito ao juiz de todos os deuses do Panteão.
Mas, ao levantar a cabeça, Joana percebe o vulto quase albino de Robert McKeena encostado em uma parede próxima, falando com um relógio. Não, não é um relógio, claro que não; é um rádio de pulso. Ela olha para os lados com o máximo de discrição possível, tentando abarcar o recinto e ver se falta alguém importante ali com quem ele poderia estar se comunicando.
Até onde ela pode ver, todos os blackjackers e rastas estão na caverna.
Ela não está entendendo nada. E também não está gostando nem um pouco disso.

O portal de saída da caverna fica do outro lado de Cinosura, muito distante do beco onde Jonas e Joana entraram pela primeira vez no submundo da Cidade. O grupo que irá escoltá-los a Ashoka consiste de dois blackjackers, dois rastas e o próprio Tulku. Dali, eles percorrerão uma parte da Cidade para despistar qualquer pessoa que possa segui-los até chegarem a um portal oficial das TransDims, pois Ashoka é uma dimensão autorizada. Durante o trajeto, os blackjackers (que, assim como os rastas, não estão usando os uniformes de sua tribo) se afastarão do grupo e os seguirão à distância. Os rastas farão o mesmo mais adiante. O portal será cruzado apenas pelos jovens e pelo Tulku. Agora é perigoso demais para os outros.
Infelizmente, toda essa preparação não faz o menor sentido. Não quando uma patrulha da Polícia TransDim está esperando por eles exatamente do outro lado. No mínimo uma dezena de policiais fortemente armados os confronta. No meio do grupo, um homem forte, atarracado e bigodudo, usando um uniforme marcial e um simples quepe, diz em tom de comando, sem elevar a voz:
Atirem para matar.

Foi uma carnificina.
Só não foi pior porque Joana, pressentindo o pior (afinal, a quem McKeena estaria tentando contatar?), já saíra da caverna com a espada na mão. Com um abandono de quem não tem nada a perder, ela atira a espada na direção do policial que cometeu a burrice de dar um passo à frente para ter a honra de ser o primeiro a matar. A espada perfurou a armadura de combate e o atingiu exatamente no coração. Ele foi o primeiro a ser morto.
Isso não intimidou o resto da patrulha, que começou a atirar, matando um dos rastas na hora. Mas Joana não perdeu o ritmo; shinai de bambu na mão, correu para recuperar a arma enfiada no esterno do policial. A essa altura, os blackjackers sacaram suas zarabacanas e sopraram as setas de micotoxinas para cima dos policiais. O rasta sobrevivente sacou um ERB (emissor de ruído branco) e o apontou para os soldados. Isso os desnortearia por alguns segundos.
O problema era que Joana, já com a mão no cabo da espada, estava no raio de ação do aparelho.
A sensação é que seu cérebro subitamente se transformou em toffee. Pensamentos escorrem como mel entre os neurônios, deslizando lentos e gosmentos pelos axônios que os conectam. Para Joana, cada segundo se transformou numa eternidade.
Na primeira eternidade, ela sente a rigidez do cabo da espada na mão. Duro demais. Ela não gosta disso.
Na segunda eternidade, Joana aperta o cabo com toda a força de que dispõe, mas não consegue sentir o que está fazendo. Os atos e as sensações parecem morar em cidades diferentes, tamanha a distância que os separa.
Na terceira eternidade, ela levanta a cabeça enquanto puxa a espada com o que lhe parece um grande esforço.
Na quarta eternidade, ela dá de cara com o homem forte e bigodudo. Que olha para ela com um sorriso maligno. Ao lado dele, um policial bambeia, olhando para baixo. O homem de bigode não parece ter sido afetado seja lá pelo que for que está transformando o cérebro dela e o dos demais policiais em tapioca.
Na quinta eternidade, o homem levanta uma pequena besta. O brilho da seta de aço é inconfundível. E a ponta está mirando na direção do seu peito.
Na sexta eternidade, um grito e um borrão entram na sua frente.
E então, o fim da eternidade.
Ao redor de Joana, os policiais que sobraram da patrulha começam a se recuperar e atacar o seu grupo. Quanto a ela, é como se acordasse de um sonho. Para acordar num pesadelo: ela está sentada no chão (como foi parar ali?) e um homem jaz caído à sua frente.
É Jonas.
Ele se interpôs entre ela e a seta que o homem de bigode lançara para matá-la.
Surpresa e completamente sem ação, ela olha para o irmão caído. Mas ele não está morto. Não ainda. Ele levanta a mão na direção dela. Move a boca, mas nenhum som sai de seus lábios.
A poucos passos de distância, o Comandante de Ferro coloca outra seta na besta. Vai terminar o que começou. Mas ele mesmo se obriga a parar para testemunhar o que acontece diante de seus olhos.
Um brilho azulado permeia os gêmeos. Um brilho que vai ficando cada vez mais fraco no rapaz e mais forte na moça. Não é isso, o Comandante percebe: na verdade, o brilho não está morrendo no corpo do rapaz, mas sendo transferido do corpo do rapaz para o da moça. Está sendo absorvido por ela.
Joana esquece tudo o que está acontecendo à sua volta. Isso não pode estar acontecendo. Eles não andaram tanto, não passaram por tantas dificuldades juntos, para tudo acabar daquele jeito.
Mas acaba. Para Jonas, acaba. Porque ele morre.

Foi uma carnificina.
O Comandante de Ferro agora oculto, a uma distância segura observa tudo fascinado.
No instante em que o irmão morreu, Joana levantou a cabeça para o céu e soltou um grito devastador. Tão devastador que a batalha (onde três policiais e mais um blackjacker haviam morrido) praticamente se interrompe por um segundo. É o tempo necessário para que o policial mais próximo dos irmãos se aproxime, metralhadora em punho.
Mas também é tempo mais do que suficiente para algo que o policial não entende.
Subitamente, o brilho azulado que só o Comandante de Ferro percebia começa a reluzir com tanta intensidade que todos ao redor o vêem com nitidez. O brilho é tão forte que ninguém consegue ver Joana.
E então Joana não está mais ali.
Em seu lugar, uma figura espectral, como se fosse um filme em negativo. É um homem, alto, magro, forte e de traços indígenas. Usa um uniforme bastante eclético: botas, calças de jóquei, túnica militar, capa e boina.
E carrega uma espada nada espectral.
A cabeça do policial rola pelo chão antes que seus olhos tenham tido tempo de registrar o que viram.
Em questão de segundos, todos os policiais restantes estão mortos. Mas não inteiros: cabeças, braços, pernas e órgãos internos cobrem o chão da rua. Com muito, muito sangue.
Foi uma carnificina.
Os sobreviventes do grupo encaram a aparição com terror. Menos o Tulku, que foi ferido na perna e não consegue andar. A aparição caminha até ele, sem o menor sinal de cansaço. Estende a mão para o velho oriental, que sorri e aceita a ajuda. A aparição pega o Tulku no colo. O Tulku sente frio ao contato da aparição.
Ela olha para os outros dois, e faz com a cabeça um sinal na direção de onde eles vieram. O rasta hesita por um instante, mas o Tulku diz que está tudo bem. Usando outro dispositivo, ele abre um portal de volta para a caverna onde o Panteão se reúne.
O grupo é recebido com pasmo. Mesmo o Deus do Trovão fica surpreso. Ele sai de onde está e vai pessoalmente até o grupo.
Depressa, cuidai do nobre Tulku. ele diz em sua voz trovejante, mas que trai um pouco de emoção quando olha para a aparição És tu mesmo, velho amigo?
No instante em que a aparição entrega o Tulku a um grupo de médicos budistas, o mesmo brilho azulado de antes a envolve por completo. E, em seu lugar, aparece Joana, caída no chão. Coberta de sangue e inconsciente.

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