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Grimjack - O Retorno # 04

Por Fábio Fernandes

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Não é fácil ser um reencarnado.

Você se lembra de tudo. Absolutamente tudo.

Desde pequeno (não seria pequena, com "a"? Não, você sabe que não), apanhando de seu pai e de seus irmãos mais velhos. Você e sua mãe, que não era a mesma mãe dos outros filhos de seu pai.

Seu pai.

Aquele filho da puta.

Então você começa a chorar, porque a imagem que lhe vem à cabeça junto com o xingamento é a do pai de Joana, um homem carinhoso que morreu cedo de tanto trabalhar para tentar dar um sustento à família numerosa.

O filho da puta era o pai de John Gaunt.

O de Jim Twilley não era um sujeito ruim, apenas ausente.

O pai de Joana Ferreira era muito bom. Mas você não consegue se lembrar direito dele. Os outros ocupam um espaço muito maior na sua consciência.

Não é fácil ser um reencarnado.

Joana acorda sentindo frio. O corpo parece estranho; é como se lhe faltasse algo. Tenta levantar bruscamente a cabeça para ver se aconteceu alguma coisa, mas a tontura é tão violenta que ela imediatamente volta a repousá-la no chão. Sente a maciez da lã sob a cabeça, contrastando com os azulejos que, agora ela percebe, tocam frios o resto de seu corpo.

A cabeça dói com a luz das lâmpadas fluorescentes no teto. Entre elas e seu rosto, o semblante de Martha a contempla, sério, mas sem o ódio de antes.

— Você está se sentindo melhor? — ela pergunta.

— Não.

Silêncio.

— O Tulku me contou o que aconteceu. — diz Martha — Acho que lhe devo desculpas.

— Tudo bem. — Joana consegue dizer, depois de alguns segundos.

— Você se lembra de como chegou até aqui?

Você se lembra.

Dói demais para esquecer.

A dor pela morte de Jonas foi tão violenta que você simplesmente perdeu o controle.

E se lembrou de tudo. Absolutamente tudo.

Foi a primeira vez em sua atual encarnação. Foi também a primeira vez em que a persona Grimjack se manifestou de modo tão inteiro.

E você entende, claro, com uma imensa tristeza, que isso só aconteceu por causa do assassinato de Jonas. De algum modo que você não entende, toda a energia de seu irmão, toda a sua essência, foi transferida para você na hora da morte dele.

Seu rosto queima. Você percebe que a dor não é somente emocional.

Você se levanta bruscamente e dá de cara com uma pia. Sobre a cuba de porcelana branco-encardida, um espelho.

Um rosto mulato-claro, com olhos cor de mel, encara você. Cortando o rosto da testa até o meio da face, passando pelo olho esquerdo (milagrosamente intacto), uma grande cicatriz avermelhada.

Você só não estranha a cicatriz. Subitamente, o rosto dessa mulher é tão estranho para você quanto o de Jim Twilley foi para John Gaunt quando ele se deu conta pela primeira vez de que era um reencarnado.

— A cicatriz é uma impressão ectoplásmica. — diz um velho negro careca, com cara de feiticeiro tribal, ao lado de Martha.

— E vai ficar. — Martha complementa.

— Tudo bem. — diz Joana (ou seria John?) — Tenho marcas piores.

Vira-se e se dirige para a primeira privada que vê. Joana se posta em frente ao vaso, abre o zíper da calça e fica alguns segundos olhando para baixo até se dar conta do que está fazendo.

— Merda. — ela diz, abaixando a calça e se sentando.

Não é fácil ser um reencarnado.

Quando acaba de urinar, percebe que Martha ainda está no banheiro. O feiticeiro se retirou.

— O que você está fazendo aqui? — pergunta com secura.

— O Panteão está preocupado com você. — Martha responde — O deus do trovão me pediu que cuidasse de você até sua total recuperação.

— Já estou bem, obrigado. — o lado feminino de Joana percebe a mudança no gênero da palavra. Mas decide que essa é a menor de suas preocupações. Olha com atenção o rosto da morena de cabelos curtos, e só então se dá conta de que agora é que a está vendo pela primeira vez. E agora é que percebe um detalhe que não estava lá antes — não quando ele era apenas Joana. Vira-se para Martha e diz — Agora seu rosto me parece bastante familiar.

Martha balança a cabeça afirmativamente.

— Dizem que me pareço com minha bisavó. — responde Martha — Você a conheceu bem.

— Quem era sua avó?

— Sharon Baylor-Noone.

Joana não conheceu Sharon Baylor-Noone. Mas Jim Twilley sim. Foi o amor de sua vida. O amor desde o segundo grau, o amor do qual ele abrira mão ao descobrir que era a reencarnação de John Gaunt e que devia seguir sua sina de mercenário e assassino. Sharon Baylor acabou se casando com Tom Noone, um homem a quem Twilley conhecera apenas de passagem. Mas era um homem bom, que dera dois filhos a Sharon — e uma vida de paz e tranqüilidade que ele jamais poderia dar àquela mulher.

Isso não impediu que Sharon se arrependesse e procurasse Twilley anos depois.

Joana sentiu um arrepio. Twilley morrera nos braços de Sharon. Como se obedecendo a uma deixa, Martha disse:

— Depois da morte de Twilley, Sharon voltou para casa e permaneceu casada com meu bisavô até a morte dele, trinta anos depois. Ela ainda viveu mais dezoito anos. Nunca mais se relacionou com ninguém além dos filhos e netos. Eu ainda a conheci, quando era bem pequena.

— Quanto tempo se passou desde que eu... desde que Twilley morreu?

— Quase oitenta anos.

Merda, você pensa. E justo agora você encontra essa mulher.

Porque você tem algo mais importante ainda a fazer.

Você adentra o ambiente da Caverna — que, agora fica claro, é um grande salão enegrecido pela sujeira dos tempos, mas nada tem de formação rochosa em seu interior. E você percebe que Joana não era tão observadora assim.

Você solta um palavrão baixinho. Como essa mulher conseguiu permanecer viva em Cinosura? É preciso conhecer bem o ambiente que o cerca para não ter surpresas fatais. É preciso conhecer bem o ambiente e as pessoas.

Como, por exemplo, o quase-albino Robert McKeena. Você anda na direção dele a passos largos. Enquanto isso, como se sua mente fosse um jogo de xadrez, as peças vão se encaixando e assumindo seus lugares para o xeque-mate.

Peça um: a atitude estranha de McKeena no esconderijo dos blackjackers.

Peça dois: o brilho estranhamente metálico em seus olhos.

Peça três: com quem ele fazia contato em seu rádio de pulso?

Peça quatro: seu nome.

Robert McKeena.

Robot Machina. O trocadilho é óbvio e imbecil. Como você não percebeu isso antes?

Agora você está diante de McKeena, que, impassível, aguarda o desfecho de seu movimento. Agora você está diante de Kalibos.

Da primeira vez em que viu a figura metálica de Kalibos, quantos anos você tinha mesmo? Dezoito, dezenove?

Pouca idade para tantas aventuras. Você já tinha perdido sua mãe, sido vendido pelo próprio pai para lutar na Arena como escravo-gladiador, comprado a liberdade depois de matar muitos colegas, matado seus irmãos, fugido para uma terra paralela e se casado com a filha do mago-mestre.

E teria vivido feliz para sempre se não fosse pelos demônios.

O problema de uma cidade que serve de ponto nodal para todas as dimensões imagináveis é que, mais cedo ou mais tarde, elas entram em fase. Se isso acontecia constantemente com terras alternativas, dimensões onde a magia dava as cartas (e não a ciência), mundos habitados por anjos e deuses, por que não o Inferno?

A invasão durou algumas semanas, mas dizer que esse tempo foi uma eternidade não é clichê. Centenas de milhares de habitantes de Cinosura (dizem que ela tem milhões, mas nunca ninguém conseguiu recensear essa cidade) foram cortados, perfurados, chacinados, devorados, completa e irremediavelmente mortos. Só no final, quando tudo parecia perdido, você e o último grupo vivo de Fuzileiros Livres conseguiram deter o causador de todo esse genocídio.

Kalibos. Um robô consciente, uma inteligência artificial com maldade natural, cujo único objetivo era dominar Cinosura e destruir todas as formas de vida humana na Cidade. E teria conseguido, se não fosse por John Gaunt e seus colegas. Ele ainda voltaria mais uma vez, fomentando a discórdia entre empresas de Cinosura e provocando as infames Guerras Comerciais, que quase fizeram o trabalho que os demônios deixaram pela metade.

Desta vez Gaunt estava sozinho. Não foi tão fácil quanto da primeira vez — que o diga sua mão ciborgue, arrancada de Kalibos a golpes de espada em troca de sua mão direita, decepada pelo robô assassino.

Sua mão lateja enquanto você caminha até Kalibos. Se esta é a terceira vez que se enfrentam, você jura que não haverá uma quarta.

— Vaso ruim não quebra, hein, Kalibos? — você diz para ele, com um sorriso escarninho.

O rosto de McKeena não se altera.

— Não conheço esse nome. — ele diz — Ele não faz parte da relação de alcunhas pela qual posso ser chamado.

— Ah, é? — diz Grimjack, levantando a espada — E que tal "filho da puta"?

Martha se aproxima dos dois.

— Calma, Joana. — ela diz — Você está sendo precipitada.

— Foi assim que permaneci vivo. — diz Grimjack, passando o fio da espada sobre a pele de McKeena.

Que de fato é um robô.

— Foi esse tipo de atitude que fez com que sua essência continuasse se relocando para corpos após a finalização do seu primeiro corpo. — diz o robô.

— E quem é você para me julgar, boneco de lata? — grita Grimjack, arrancando com as próprias mãos a pele sintética de McKeena.

O robô é verde e prata. Sem as lentes que cobriam seus olhos, o que se vê no lugar deles são ondas osciloscópicas amarelas sobre fundo preto.

— Este nome não tem registro em meus circuitos. — diz o robô, despido de qualquer tentativa de se fazer passar por humano.

— Eu te conheço. — diz o deus do trovão, aproximando-se do grupo — Tu és um Registrador de Rigel.

— Eu também conheço você — diz o Registrador — Thor, filho de Odin, deus da dimensão de Asgard.

— Se me conheces, então tu só podes ser o Registrador 211?

— Afirmativo.

Foi em outros tempos. Para o deus do trovão, séculos se passaram — mas o tempo não corre para os mortais do mesmo jeito que em Asgard. Todos os humanos que ele conheceu quando seu pai o puniu fazendo com que vivesse em Midgard sob a identidade de um médico aleijado estão mortos. Enquanto que ele...

O deus do trovão envelheceu. Mas não está morto. Ainda não.

Nem os rigelianos.

— Dize-me, Registrador 211: há quantos anos da Terra nos encontramos pela última vez?

— Exatos duzentos e noventa sete anos terrestres, oito meses e nove dias. — diz o Registrador.

Mas para o deus do trovão parece que foi ontem que eles apareceram na Terra para conquistá-la e colonizá-la. Primeiro foi Tana Nile, que se infiltrou entre os terráqueos disfarçada como colega de quarto de Jane Foster.

Jane Foster foi a primeira mulher humana que o deus do trovão amou. No fundo de seu ser, ele suspira; na superfície, ele nada aparenta. Um deus não deve demonstrar fraqueza.

— Estás funcionando muito bem para tanto tempo, velho amigo. — ele observa, tentando não pensar no que já passou.

— Tenho autonomia para cerca de seiscentos anos terrestres. — explica o Registrador — Se meus componentes forem substituídos regularmente, posso durar o dobro disso.

— Espero que não precisemos de tanto tempo assim. — diz uma voz feminina estranhamente grave. Você percebe que é a sua voz.

O deus do trovão se vira em sua direção, e por um momento você pensa que ele vai soltar raios de verdade por sua impertinência. Mas você não tem medo: sabe muito bem que ele é deus lá pras negas dele. Em Cinosura ele apenas mais um dentre muitos. Vocês já conversaram muito sobre isso em tavernas da cidade, bebendo grandes canecas de cerveja (você) e mulso (ele).

Mas já faz muito tempo.

— Tu és mesmo a reencarnação de John Gaunt? — ele pergunta.

Você não contém uma expressão de cinismo.

— Quem mais interromperia você? Aliás, quem mais chamaria você de você? — ergue a espada repentinamente e faz um movimento brusco na direção de Thor. Que apara prontamente o movimento com seu martelo. O clangor soa tão fundo que quase todos no recinto tapam os ouvidos. Você apenas sorri. O deus do trovão olha nos seus olhos por um segundo e irrompe em uma gargalhada.

— De fato, és mesmo o meu amigo Grimjack! Voltaste para te unir a nós?

— Você está brincando? Eu não perderia isso por nada deste mundo.

De repente, um fraco bip se faz ouvir perto dos dois.

— Mensagem chegando. — diz o Registrador, erguendo o pulso. Instintivamente, o deus do trovão e você se colocam cada um de lado do robô para acompanhar a transmissão. A imagem no visor de pulso não é inteiramente nítida.

— Interferência subespacial. — diz ele — Com essa barreira do Consórcio, a tecnologia rigeliana consegue abrir apenas pequenos wormholes para comunicação. Nada além.

Mas aos poucos uma imagem vai se formando. A figura que aparece no visor é velha conhecida do deus do trovão.

— Tana Nile. — ele diz — Já faz muito tempo.

— Thor. — diz ela, sem aparentar emoções, como todos os rigelianos — Filho de Odin. O que você está fazendo em Cinosura?

— Odin está morto. — ele diz, sombrio — Como novo soberano de Asgard, devo zelar pelo meu povo. Vim para cá em busca de um súdito fiel e guerreiro valoroso que desapareceu. E, como todos aqui, estou preso.

— Sabemos de sua situação. — diz a comandante da frota de colonização rigeliana — Estamos dispostos a ajudar.

— Onde estás, velha amiga?

— Estamos a dois anos-luz da Terra. Podemos chegar em alguns dias, mas não temos condições de abrir um portal para Cinosura. Se vocês conseguirem isso, poderemos adentrar o espaço aéreo da cidade e ajudar vocês com o Consórcio.

— E na bunada, não vai dinha? — você pergunta (no fundo, o fragmento de sua personalidade que se chama Joana consegue até mesmo ficar envergonhado com sua cara de pau) — Qual é o preço que nós vamos ter que pagar pela sua intervenção?

A rigeliana franze o cenho — imenso e quase quadrado, como em todos os seres de sua espécie — e olha para o deus do trovão:

— Quem é essa mulher? — pergunta.

— É uma longa história, Tana Nile. Mas tu estás diante de amigos aqui. — olha para você e você percebe que, apesar de não aprovar seu método, o deus do trovão aparentemente concorda com a essência de suas palavras — Sejamos francos. Temos muito pouco a perder.

— Precisamos de um novo lar, Thor. A Galáxia Negra não é um bom lugar para vivermos. Já não somos muitos, e pelos dados que o Registrador 211 nos enviou, há espaço o bastante em Cinosura para nós.

— E se não dermos esse espaço, vocês vão tomá-lo, acertei? — você pergunta. O deus do trovão ergue uma mão lhe pedindo paciência. E dirige a palavra à rigeliana:

— Toda ajuda que pudermos obter de nossos amigos é boa. E os rigelianos são nossos amigos. Vinde. Tereis o que precisardes.

Você resolve se calar. Mas só por enquanto.

— Muito bem, temos o apoio dos rigelianos. — diz Martha — Agora só precisamos levantar o bloqueio às dimensões mágicas imposto pelo Consórcio.

— "Só"? — você não consegue deixar de escarnecer — Como se fosse fácil.

— Não é fácil, Grimjack. — Martha retruca — Mas não é impossível. Bob, quer dar o seu relatório, por favor?

O rasta se aproxima do grupo e diz:

— Well, man, o negócio é o seguinte: as you know, as dimensões são acessadas através de protocolos complexos. Códigos de acesso, know what I mean? E para bloquear tantas de modo artificial, our best guess é que eles estão utilizando um computador quântico.

— E o que é isso, man? — você pergunta irritado com tanta mistureba idiomática.

— Very complex, man, very complex. — responde o rasta, sem se dar conta da sua ironia — Resumindo muito de leve, é um computador que faz cálculos de possibilidades simultâneas. Um escrito antigo, o Sawyer, postulou que one of these machines poderia ser usada para acessar terras alternativas. Se usarmos o princípio dos protocolos de acesso, é uma teoria bastante provável.

— Mas apenas uma teoria. — você observa.

— Yeah, man, yeah! — Bob diz sorrindo, como se os dois estivessem finalmente chegando a um acordo, e não discordando cada vez mais. Você só consegue pensar em como esse sujeito é imbecil. Até que ele completa o raciocínio — Anyway, a única coisa certa in all that crap é que existe um método artificial de bloqueio, e a máquina está no prédio central do Consórcio.

— A sede da Wells-Kodama? — você pergunta.

— Exactly. Captamos uma emissão constante de partículas antitaquiônicas cuja fonte vem de algum ponto no subsolo daquele prédio. Se pudermos entrar no prédio e desativar esse computador, all will be running smoothly again, man.

Você apenas sorri. Não um sorriso qualquer, claro: é aquele velho esgar que você já sente repuxando os lábios e mostrando as gengivas como se você fosse um lobo raivoso. Você não recebeu a alcunha de Grimjack a toa.

— Deixem comigo. Eu sei exatamente o que fazer.

É uma visão emocionante, pensa Rachel Kodama ao ver o computador.

A máquina ocupa dois níveis do subsolo da Wells-Kodama. Não se parece com nada que ela já tivesse visto antes: a imensa pirâmide de metal reluz e vibra suavemente, ronronando como um gato. É um som que embala os sonhos de Rachel todas as noites: para ela, essa máquina é o que protege Cinosura dos malditos revolucionários que desejam tornar a Cidade um caos.

Se o comandante Moorcock não tivesse encontrado o projeto desse protótipo nos arquivos de uma das velhas empresas das Guerras Comerciais, provavelmente o Consórcio jamais teria sido criado.

Falando no diabo, o velho soldado entra exatamente nesse momento. É bom, pensa Rachel. Ele tem muito o que explicar.

— E então, Comandante? — ela pergunta sem tirar os olhos do computador — O que diabos aconteceu naquele confronto?

— Um velho inimigo. — ele diz, o semblante sério mas aparentando tranqüilidade — Um inimigo que eu supunha morto há muito tempo.

— Deve ser um inimigo e tanto. — ela retruca — Para matar toda a sua equipe.

— Ele não é um homem comum. — diz ele — Na verdade, não estou certo de que ele seja mortal.

— Isso não existe, comandante. — diz Rachel — Somos todos mortais.

— Não. — ele diz, e Rachel pensa detectar um tom de tristeza em sua voz metálica sempre séria — Nem todos.

— Pessoas morrem. — ela insiste — Idéias e projetos podem permanecer. Por isso construí um império. Por isso eu consegui reunir as empresas de Cinosura em um grande consórcio. Porque nós morreremos um dia, mas a Cidade continuará existindo.

— Uma coisa que eu nunca entendi — diz o comandante, se aproximando dela — é por que vocês, humanos, sempre fazem planos de longo prazo se não estarão vivos para vê-los se realizarem.

Pela primeira vez Rachel Kodama se vira para encarar seu subordinado.

— Como assim, "vocês, humanos?"

— Planos só valem a pena se você viver para concretizá-los. — o Comandante continua, como se absorto — Por que você acha que eu lhe entreguei os meus planos para a construção do Grande Portal?

— Seus planos?

— Essa pirâmide que você sempre vem ver tão embevecida é um computador quântico, como eu havia lhe dito. Mas é também um megaportal de acesso a certas dimensões muito específicas, das quais só eu tenho o código. Você gostaria de saber como eu realmente consegui esses planos?

Rachel pode sentir o hálito do comandante. Não, ela subitamente se dá conta. Ela não pode sentir o hálito dele. Nem a respiração.

Rachel Kodama, que viveu muito e viu coisas que arrepiaram muitas pessoas experientes e corajosas, começa a entrar em pânico.

Mas não há tempo de esboçar nenhuma reação. Com a rapidez de uma serpente, a mão de carne e osso do comandante de ferro voa no pescoço de Rachel. Ela ainda se pega perguntando, apesar do medo que sobe por seu corpo como a lava de um vulcão, como pode essa mão ser tão dura e fria. Tão dura e fria quanto a mão metálica, de cujos dedos grossos brotam pequenas hastes com lâminas de cerâmica de espessura monomolecular. Lentamente, sem pressa, ele leva as pontas das lâminas à altura do rosto dela.

— Vou satisfazer a sua curiosidade. — ele diz, a voz agora estranhamente mecânica, como a de um robô — Você já ouviu falar de Kalibos?




 
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