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Por
Fábio Fernandes
Free Cinosura Free
Bem-vindos à cidade que nunca dorme.
Uma canção antiga celebrava outra cidade com essa mesma alcunha. Não importa. Só o que importa hoje é esta cidade. Conhecida por alguns como a Encruzilhada Dimensional, por outros como a Cauda do Cão, ela tem um tamanho impossível de calcular e é caótica demais para ser mapeada. Possui regiões que se abrem como pétalas para outras dimensões. Em umas, a magia funciona; em outras, a ciência dá as cartas.
As coisas mudaram muito nos últimos dias. O que parecia um caos mal e mal contido se tornou literalmente um inferno. Demônios invadem as ruas e se banqueteiam com pessoas, vivas ou mortas. Os poucos humanos que sobreviveram não sabem se fogem (para onde?) ou se lutam.
E, ao ver o gigantesco demônio amarelo que solta raios de energia pelos olhos e derruba prédios inteiros com a cauda, mesmo o grupo que derruba demônios muito menores na praça central de Cinosura não consegue deixar de pensar que talvez a primeira opção fosse mais racional. Pois é loucura tentar enfrentar o que eles estão vendo pela frente.
A sorte deles é que simplesmente não há tempo de pensar. A forma em negativo à frente do grupo abre caminho com uma fúria só comparável à dos próprios demônios. Heimdall usa sua espada gigantesca (até então presa às costas, oculta sob uma capa de pele) para sozinho formar a segunda linha de frente. O Registrador é cercado instintivamente por um grupo de deuses que abrem caminho a golpes de facas e machados. Contudo, mesmo não sendo programado para lutar, o robô rigeliano não está necessariamente indefeso. Além de virtualmente indestrutível, ele emite um quase imperceptível campo de força que repele qualquer investida demoníaca. Cinosura, afinal, é uma cidade onde a ciência ainda funciona.
E precisa funcionar. Se assim não fosse, o computador quântico que mantém as dimensões dos demônios em fase não poderia continuar ativo.
Lentamente, com fúria e garra, Grimjack e os ex-deuses se aproximam do prédio majestoso da Wells-Kodama.

No espaço, muito longe do nó espaço-temporal que constitui a cidade de Cinosura, o deus do trovão volta a se encontrar, depois de tanto tempo, com as naves rigelianas.
Elas não estão mais novas e reluzentes como na primeira vez em que ele as viu. Impactos com micrometeoritos e o simples desgaste de séculos de navegação (fora os rigores da perigosíssima Galáxia Negra, perdida na vastidão do espaço e que ele próprio já visitara antes junto com esses seres) tornaram o revestimento metálico das naves menos portentoso e mais sombrio.
Thor se aproxima da nau-capitânia devagar o suficiente para ser captado pelos sensores de bordo. Em poucos segundos, uma escotilha se abre na lateral direita da nave. O deus do trovão voa até lá e entra por ela.
Depois de passar por uma breve descompressão ele não precisa, mas a tripulação da nave sim a escotilha interna se abre e uma velha amiga aparece para recepcioná-lo. A rigeliana, com sua cabeça quadrada maior que o corpo e completamente coberta (à exceção do rosto) por uma armadura de sustentação de vida, é uma visão bem-vinda para os olhos cansados de um deus.
Seja bem-vindo, Thor. diz a comandante da armada rigeliana, que, ao contrário de sua nave, não parece ter envelhecido nada em séculos. E também ao contrário do próprio deus do trovão, que, embora imortal, viu muito sofrimento em sua vida desde então.
Obrigado, Tana Nile. ele responde Estais prontos? Vamos empreender uma jornada que nos levará à guerra.
A rigeliana assente, séria.
Se isso trouxer a paz para meu povo ao final, e um novo lar, ela diz sim, estamos prontos.
Então está decidido. afirma Thor Vamos para a órbita da Terra. Até lá, se Heimdall e meu bom amigo Grimjack conseguirem, seremos capazes de entrar em Cinosura.
Tana Nile franze a testa quadrada.
Não conheço esse Grimjack. ela diz Ele é um deus?
Não. responde Thor Mas já fez coisas das quais até mesmo os deuses duvidam. Se alguém pode reabrir Cinosura, é ele.

Uma forma em negativo invade o prédio da Wells-Kodama. Logo atrás, um bando de deuses e os poucos seguidores humanos que não tombaram em combate na praça. No meio destes, subitamente se materializa um rasta com um incrível parka vermelho, amarelo e verde. Um alvo perfeito, não fossem os rastas especialistas em alta tecnologia. Depois de desligar o defletor de fótons (que o tornou virtualmente invisível a olhos humanos e demoníacos porque mesmo demônios, ou a maioria deles, têm olhos), Malcolm se aproxima de Grimjack, que varre o grande átrio do prédio com seu olhar em negativo.
This way, man. diz Malcolm, apontando para o hall de elevadores.
Não é seguro usarmos os elevadores. adverte o Registrador.
Com isto aqui ele tira um minúsculo aparelho do bolso interno do parka é, sim.
Antes que os demônios consigam, pela pura força de seus números, quebrar as vidraças panorâmicas de plasteel que cercam a entrada e invadir o átrio, eles correm para os elevadores. Malcolm digita algo no aparelho enquanto corre. Quando chegam em frente aos elevadores, todos estão com as portas abertas.
Não apertem nenhum botão. ele avisa Assim que as portas se fecharem, iremos direto ao nível onde a fonte de energia está localizada.
As portas se fecham no instante exato em que o plasteel se quebra e os demônios invadem a Wells-Kodama.

Do lado de fora, Mangog ataca sem piedade. O monstro consegue matar vários coelhos de uma cajadada só: enquanto os pés esmagam o asfalto das ruas de Cinosura, a cauda derruba prédios e os raios de energia que saem de seus olhos torram veículos e coelhos.
Os coelhos, claro, são os humanos.
Longe se vão os tempos dos Fuzileiros Livres. A única força militar da cidade hoje é a Polícia TransDim, e não há um mísero soldado nas ruas. Os habitantes cujo medo não os levou a serem absorvidos para dentro da grotesca forma-pensamento do demônio gigante lutam e correm por suas vidas, procurando se esconder em qualquer buraco. Não como coelhos, mas como ratos. Para Mangog, não faz diferença: a cor das vísceras dessas criaturas quando são esmagadas é sempre a mesma.
Mangog esmaga. Mangog urra. Só o urro de Mangog é forte o suficiente para estourar os tímpanos de quem estiver por perto e sobreviver, claro.
Esse urro é de dor e de fúria. Dor, porque é isso o que demônios sentem o tempo inteiro. Está na natureza deles. Fúria, porque não há nada no universo que possa apaziguar essa dor. A não ser a destruição.
Mangog urra para destruir e para desafiar quem quiser destruí-lo.
Se os deuses vierem, que venham armados.

Armados até os dentes, os deuses descem.
A viagem dura menos de cinco minutos. Obviamente, esse tempo é uma eternidade, e qualquer clichê numa situação dessas está mais do que perdoado.
No elevador principal, descem Heimdall (curvado, apesar do tamanho enorme da cabine), o Registrador, Malcolm e a forma em negativo. À direita de Grimjack, Malcolm lança olhares não muito discretos para a figura. Seus olhos não conseguem ajustar o foco sobre ela. Quem olha para Malcolm não diz, mas ele é um cientista. Ele gostaria muito de estudar esse fenômeno. Mas agora não é hora para pedir uma coisa dessas, e certamente não a uma figura em negativo com cara de pouquíssimos amigos.
Como se obedecendo a uma deixa, Grimjack volta subitamente o olhar para Malcolm. Por uma fração de segundo o rasta olha nos olhos da figura ou tenta. São dois poços sem fundo e sem luz, dois buracos negros. Malcolm desvia o olhar. Sente um filete de suor gelado descendo pelas costas.
As portas do elevador finalmente se abrem.
Eles estão literalmente na sucursal do inferno.
O frio no subsolo é quase insuportável. É possível ver pequenas estalactites de gelo se formando perto das passagens de ar. O chão está escorregadio com algo grudento e vermelho. Ninguém precisa perguntar o que é.
Grimjack avança a passos largos na direção da imensa estrutura piramidal à frente do elevador. As portas dos outros elevadores se abrem, e o restante dos deuses desembarca.
A figura em negativo desce rápida uma escada de metal, pulando quase um lance de degraus de cada vez. Heimdall, o Registrador e Malcolm seguem logo atrás. Os demais se dividem em dois grupos: um desce até o pé da pirâmide e o outro se dispersa para defender o perímetro.
O computador é gigantesco. Mas Malcolm sabe que botões apertar.
Do you see this? ele aponta para furos minúsculos na parte da frente da estrutura, ao lado de símbolos incompreensíveis escavados no metal São outlets para configuração. Basta fazer uma conexão com eles e transmitir as coordenadas.
Grimjack olha para ele sem dizer palavra. Subitamente, é como se alguém tivesse murmurado algo no ouvido de Malcolm. Ele responde sem hesitar, erguendo a mão com o aparelhinho que utilizara para programar os elevadores:
Já programei meu dispositivo all-purpose para procurar as coordenadas exatas. É só estabelecermos conexão.
Eu posso fornecer os contatos. diz o Registrador, dando um passo à frente e abrindo um compartimento oculto no peito. Puxa de dentro um cabo metálico finíssimo com um conector na ponta, que penetra em um dos furos da pirâmide. Malcolm entrega o aparelho ao Registrador, que puxa outro cabo e o conecta numa entrada lateral.
O processo começa.

As naves chegam à Nuvem de Oort. Os rigelianos estão na porta de entrada do sistema solar.
A viagem durou apenas algumas horas. Isso não era o mais difícil, nunca foi, pensa o deus do trovão olhando sombrio para Plutão. A pior parte ficou para Grimjack e os outros deuses.
Subitamente, Thor se encaminha para a escotilha. Não pode agüentar mais tempo parado. Vai voar à frente da esquadra e tentar acessar Cinosura tantas vezes quantas puder até conseguir.

Operação concluída. diz o Registrador.
No instante exato em que os demônios arrebentam as portas de acesso ao subsolo e começam a se derramar como um tsunami sobre os deuses.
Mas agora eles têm poder.
É uma carnificina. Mas o sangue que corre sobre o chão gelado é de demônios.

Subitamente, na oitava tentativa, um redemoinho se abre à força do martelo. Um mini-wormhole, que Thor trata de aumentar girando cada vez mais o Mjolnir, até abranger uma região do espaço grande o bastante para permitir a passagem de naves inteiras.
O deus e a esquadra atravessam o portal.

Mas o trabalho ainda não está terminado. Enquanto a segunda linha de deuses luta para impedir o acesso dos demônios ao portal, a figura de Grimjack olha para Heimdall. E, subitamente, o deus menor sabe o que deve fazer.
Agora que tem seu poder de volta, o guardião da Ponte do Arco-Íris não precisa mais do Registrador. Ele coloca as palmas das mãos sobre a pirâmide, antes mesmo que o robô rigeliano retire seu conector da estrutura. Antes que ele o faça, a figura de Grimjack olha para ele, e o Registrador percebe (através de uma estranha porém peremptória mensagem em linguagem de máquina) que deve continuar exatamente onde está. A pirâmide passa a emitir um estranho e tênue brilho dourado.
A luta ao redor vai ficando cada vez mais encarniçada. Mas a operação não dura muito; em menos de trinta segundos tudo acaba. Grimjack estende a mão para o Registrador e o robô obedece à mensagem: entrega a ele o dispositivo do rasta. Ele pega o aparelho que cabe facilmente em sua mão enluvada e o enfia num bolso da calça.
Agora, sim, ele pode fazer o que sabe fazer melhor.
Espada na mão, ele se vira para matar os demônios que cercam seu grupo.

Do lado de fora, naves metálicas opacas cruzam os céus de Cinosura. De dentro da nau-capitânia, naves menores partem disparando raios contra os demônios que fervilham pelas ruas, becos e construções. Prédios são destruídos. Pessoas morrem. Isso não é importante para os rigelianos. Somente vencer o inimigo importa.
Para o deus do trovão, vencer é importante, mas não às custas de seus súditos. Isso ele aprendeu a duras penas desde a morte de seu pai. Por isso ele até pensa em tentar minimizar os danos. Mas não há tempo.
Lá embaixo, nas ruas de Cinosura, um demônio gigante o espera.

São impertinentes, esses demônios; mate um e aparecem outros três para substituí-lo.
Não que Grimjack se incomode com isso. Sua forma negativa parece ela própria uma emanação demoníaca, que tira sua vida das vidas que tira.
Parece confuso? Para Grimjack, não. Ele mata sem pensar: é sua natureza. Poucas coisas na vida superam esse prazer.
A mulher que entra em seu campo de visão é uma delas.
Na forma de Grimjack na essência em estado quase puro que possui a forma de John Gaunt e as memórias dele, de Jim Twilley e dos gêmeos Jonas e Joana ele se lembra de absolutamente tudo o que aconteceu em sua vida tão longa. Quando a figura suja e ensangüentada de Martha Baylor-Noone aparece matando demônios à sua frente, acompanhada de quatro rastas em condições iguais, ele não tem como não pensar imediatamente em Sharon. Elas são idênticas.
As lembranças invadem a mente de Grimjack. E ele hesita por uma fração de segundo.
Esse descuido é fatal.
Um demônio enorme com forma de buldogue lhe dá uma patada violenta no peito. Grimjack cai no chão já transformado novamente em Joana. O peito sangrando abundantemente. Joana sente que está perdendo a consciência: a mão ainda agarrada a espada, ela vê seus companheiros lutando à distância. Nenhum deles notou sua transformação e queda.
E então tudo se apaga.

Joana acorda com luzes fortes na cara. E um rosto pairando sobre o seu. Lentamente, a visão vai recuperando foco, e ela percebe duas coisas: está no chão de um banheiro (de novo?) e o rosto sobre o seu é o de Martha.
Isso já está virando perversão. ela diz, fraca, tentando se levantar. Martha coloca a mão em seu ombro e a empurra de volta para o chão. Joana sente frio.
Você não está bem, precisa descansar. Martha diz, um sorriso tênue nos lábios.
Descansar o cacete! Joana diz, mas não tenta se levantar desta vez Onde está o resto do grupo?
Estão todos bem. responde Martha Pelo menos por ora: a luta não está fácil, os demônios estão surgindo de todos os lugares.
Joana fecha os olhos e respira fundo. As mãos começam a tatear os ladrilhos frios do piso.
Eu sei. ela diz Por isso preciso voltar. Cadê minha espada?
Não faço idéia. Martha responde Fique calma. Tudo vai dar certo.
É? Joana pergunta irônica Para quem?
Martha não responde desta vez. Curva-se e dá um beijo na boca de Joana.

Num refúgio em lugar ignorado, um tapete de cadáveres cobre o chão.
São homens e mulheres, em sua maioria negros. Todos cortados, esquartejados, eviscerados, arrebentados. O sangue é tanto que cobre os corpos como um sudário coagulado. No meio dos cadáveres, um único corpo se destaca. Porque não tem pele. Apenas os músculos e parte da rede de capilares, veias e artérias enfeitam um corpo, agora impossível de identificar.
No meio de tanta morte, um homem está vivo.
Lentamente, com muita dor, um rasta sai debaixo de uma pilha de corpos. Bob só conseguiu sobreviver a essa chacina se fingindo de morto. Está quase tão branco quanto o Registrador quando se passava pelo quase-albino. Não sente o braço esquerdo. E não quer nem olhar para ele, por medo do que possa ou não ver.
Usa o braço direito, com muita, muita dor. E retira da cintura uma caixinha que aparentemente escapou incólume à destruição. Aperta um botão e digita um código de quatro algarismos. Precisa avisar Malcolm. Um inimigo está indo ao encontro de Grimjack.

Do lado de fora, Mangog esmaga. Mangog urra.
Mas desta vez alguém responde.
Antigamente em priscas eras o deus do trovão soltaria um grito de igual intensidade para atacar o inimigo. Ele gritaria "Por Asgard!"
Hoje o deus do trovão não grita mais. Ele está mais velho, mais ponderado.
Calmo não. Ele não está mais calmo. Não pode ficar calmo, não diante da batalha.
O deus do trovão atinge Mangog em silêncio.
Só o choque sônico é ouvido.

Joana nunca foi beijada assim antes.
Nunca por uma mulher. Não sabia que era assim.
Um beijo frio, quase metálico.
O arrepio que percorre sua espinha é tão violento que ela empurra Martha (como ela é pesada!) e se levanta bruscamente, olhos arregalados e tremendo. Joana nunca foi beijada assim antes. Nem John Gaunt. Ele pensava que já tinha visto de tudo em todas as suas vidas.
Mas nunca havia beijado um robô.
Você gostou, Grimjack? a voz que sai dos lábios carnudos de Martha é metálica e inconfundível para os ouvidos velhos de Gaunt.
Gaunt não tem palavras. Sua consciência e a de Joana se alternam de maneira vertiginosa. Sua blusa está empapada de sangue. Ele está fraco e sentindo muita tontura. Não acha sua espada e não tem nenhuma outra arma. Não sabe sequer onde está.
Só sabe o que seus sentidos lhe dizem. O frio terrível do banheiro que sua pele sente. E o espetáculo ainda mais tenebroso que seus olhos são forçados a ver.
As mãos femininas porém fortes de Martha rasgam com violência as roupas que cobrem o corpo da líder blackjacker. Por baixo da indumentária, Grimjack vê pedaços de pele pendendo como se colocados de qualquer maneira sobre uma estrutura metálica. Os seios pendem murchos. Sem parar, as mãos rasgam a própria pele do corpo nu.
Grimjack já sabe o que vem a seguir. Ele viu isso antes.
A forma metálica que emerge é a de um esqueleto coberto de fios e cabos grossos. Metal sobre metal. Apenas os olhos brilham vermelhos, emitindo uma luz forte mas doentia.
Kalibos.

Encolhido numa parede, a perna machucada e incapaz de fugir ou de lutar, Malcolm reza para que a batalha acabe logo.
À sua frente, seus companheiros de luta pelejam bravamente contra o exército de demônios. Aos poucos, tudo vai ficando sob controle. Mas Malcolm não é besta: anos na clandestinidade lhe ensinaram que é justo quando você vê as coisas se acalmando e baixa a guarda que seu momento de maior vulnerabilidade chega. Tateia o cinturão onde está embutido o defletor de fótons, sentindo a agradável vibração que traduz o perfeito funcionamento da máquina. Malcolm confia em máquinas. Com elas, ele está seguro.
A repentina vibração adicional do comunicador lhe dá um susto tão grande que ele quase solta um grito. Prende a respiração e verifica os arredores. Os poucos demônios que passam correndo para a briga ou fugindo desesperados dela não prestam atenção a ele. Atende.
A voz do outro lado é tão fraca e entrecortada que por pouco ele não reconhece seu irmão. Com atenção e um terror crescente, ele ouve o que o irmão lhe conta.
Não com Martha. Não com a mulher que apareceu ensangüentada na sala do computador e se ofereceu para retirar Joana dali. Não com a mulher que ele próprio ajudou a levar para o banheiro a poucos metros de onde ele está, montando guarda para que ninguém invada o recinto. E a impeça de matar Grimjack.
Malcolm não sabe o que vai fazer, mas precisa fazer algo.

Em Cinosura, o placar informa: deus do trovão e Mangog empatados.
É um empate técnico. Thor está ficando cansado. Mas Mangog também. O combate sem trégua com o deus, agora com todos os seus poderes, e os raios de energia das naves rigelianas estão deixando o demônio desnorteado. Aos poucos, parte do controle que ele exerce sobre as mentes apavoradas dos habitantes de Cinosura acaba, e várias centenas deles se libertam do jugo maligno. O demônio perde altura e massa. É questão de tempo para sua destruição.

Era uma questão de tempo. diz Kalibos, aproximando-se devagar e sem pressa de Joana, que se deixou idiotamente encurralar num canto do banheiro Eu sabia que você voltaria, Grimjack. Só não sabia quando.
Não cansou de apanhar, lata velha desgraçada? Joana ainda consegue perguntar. Mas as coisas não estão ficando melhores para ela.
Não sou eu quem está apanhando aqui, Gaunt. Ou devo dizer Joana?
Subitamente, a porta do banheiro se abre com um estrondo. Joana olha instintivamente para a entrada. Não há ninguém ali.
Mas Kalibos vê as coisas de modo diferente. Ele tem visão infravermelha.
A forma meio vermelha, meio amarela no umbral da porta não tem tempo de correr. Em uma fração de segundo Kalibos está em cima dela, as mãos no pescoço invisível. Cujos ossos e cartilagens se partem e arrebentam do mesmo jeito que em um corpo que pode ser visto.
É o tempo de que Joana precisa. Ou Gaunt, porque quem assume o controle do corpo agora é o velho Grimjack: ele reúne todas as reservas de energia que restam no corpo magro e ferido e arremete para a porta com carga total. Kalibos, ocupado demais rasgando o corpo de Malcolm do lado de fora, se distrai por um instante. É o suficiente. Gaunt sai correndo.
Assim que percebe seu erro, Kalibos corre atrás para corrigí-lo de imediato.
A sorte de Gaunt é que os demônios mais próximos correm todos em sua direção.
Isso atrai a atenção do Registrador, que chama Heimdall. Ambos largam o que estão fazendo e correm na direção de Grimjack. Gaunt consegue se esquivar de um demônio e Heimdall arrebenta uma outra criatura mais atrevida que tenta atacar a figura feminina aparentemente indefesa. Ofegante, Gaunt se vira para Heimdall e pergunta:
Você pode nos teleportar para o lado de fora?
Posso. é a resposta do deus menor.
Mas faça o seguinte: ele diz, no instante em que Kalibos se aproxima transporte todos os que estão no recinto.
Heimdall olha para a mulher como se ela fosse louca.
Faça o que eu digo, porra!! Gaunt grita.
Heimdall transporta a todos no susto.

Num piscar de olhos, estão todos na praça, agora incrivelmente vazia. O resto da batalha é fácil para os deuses, agora superiores em número.
Mas resta Kalibos. Gaunt vasculha os arredores com o olhar, até descobrir o que procura. E, sem explicar aos companheiros, sai correndo. Kalibos o segue, junto com Heimdall e alguns deuses. O Registrador infere o que vai acontecer pela posição dos participantes. Mas apenas observa.
A cabeça de Gaunt dói. O corpo de Joana quase bota os bofes para fora. Mas Grimjack continuam sua corrida maluca. Até chegar a um beco. O mesmo onde Joana e Jonas encontraram Jin e Martha.
Kalibos o encurrala.
Além de covarde, idiota. o robô escarnece O tempo não foi generoso para você, Grimjack.
Tem certeza? e grita por Heimdall.
Ele desaparece no exato instante em que a pata imensa de Mangog destrói o beco.
Kalibos é indestrutível. Mas, evidentemente, um conceito como indestrutibilidade de nada vale perante um demônio de dez mil toneladas.
Os fios e cabos que fornecem energia ao corpo de Kalibos se rompem com tamanha pressão. Faíscas breves saltam sob o pé da criatura, que nada sente.
Estão esperando o quê? Gaunt grita com os deuses que a tudo assistiram Vão ajudar a destruir esse pokémon supercrescido!
É uma carnificina.

Cinosura levará muito tempo para ser reconstruída. Nas primeiras horas após o que ficaria conhecido como A Segunda Guerra Demoníaca, o pó de caliça dos escombros cobre o céu da cidade. E o sangue encharca o chão.
No que restou da praça principal, os deuses se reunem com Grimjack para esperar os rigelianos. De volta ao grupo, o deus do trovão olha com benevolência para a forma cansada de Joana, agora com bandagens salpicadas de vermelho envolvendo o tórax.
Tudo acabou bem, afinal. ele diz a Grimjack. Ao que o outro responde:
Você está vendo os créditos rolando na tela? E a imagem dos atores congelada naquele riso imbecil?
O deus do trovão se cala. Melhor não contrariar o amigo.
Segundos depois, o módulo principal da nau-capitânia rigeliana pousa. Quatro soldados armados desembarcam, rostos neutros. Por último, Tana Nile.
Está feito, então? ela pergunta ao deus nórdico.
Sim, Tana Nile.
Então começaremos o desembarque. e, olhando para Grimjack: Você é uma brava lutadora. Será bem-vinda para governar Cinosura ao nosso lado.
Joana dá um sorrisinho irônico. Levanta um pequeno dispositivo na mão direita e o aponta na direção de uma das naves rigelianas.
No way, José.
A dimensão de antimatéria que se abre em cima da nave suga o veículo como um buraco negro. A nave explode.
Tomei minhas providências. diz Grimjack.
Thor assoma ameaçador sobre o amigo.
Tu enlouqueceste? ele grita Eles salvaram Cinosura. Nós salvamos a ti e aos teus ele realça bem o pronome e é assim que me retribuis?
Grimjack sorri mostrando os dentes como um animal prestes a atacar.
Ninguém me salvou. Eu me salvei sozinho. E, caso você não esteja lembrado, muitas outras pessoas ajudaram a salvar Cinosura. Vocês foram apenas parte da equação. Por que ficariam com o prêmio? Aliás, por que fazer de Cinosura um prêmio?
Não temos para onde ir. Tana Nile diz, impassível.
Existem dois tipos de problemas. Grimjack retruca para a rigeliana Os meus e os seus. Esse problema não é meu.
E por acaso sois o soberano de Cinosura? pergunta Thor, possesso.
Não sou. E você também não. Vá cuidar de Asgard e nos deixe em paz. Você perdeu a minha confiança quando fez um pacto com esses rigelianos safados.
Você sabe que está incorrendo na fúria de Asgard, humano?
Estou me lixando. ele diz Só sei que nenhum de vocês vai governar a cidade. Cinosura já sofreu muito nas mãos de administradores corruptos. Esta é uma Zona Autônoma Permanente. E, antes que você me ameace, deus do trovão, não que eu esteja jogando na cara, mas você e os rigelianos não teriam entrado aqui se não fosse por mim e meu grupo.
Thor está vermelho de fúria. Mas reconhece a verdade nas palavras daquele que foi um dia seu amigo.
O que dizes é verdade. ele diz Não fora por ti e eu não teria saído de Cinosura nem conseguido retornar. Mas ouve bem minhas palavras: eu voltarei.
À vontade. diz Grimjack Esta é uma cidade livre. E vai ficar assim.

Cinosura vai levar muito tempo para ser reconstruída. A vida de Joana também.
Depois que, com alguma relutância e muita raiva, Thor (levando Heimdall) e os alienígenas (levando o Registrador) partiram para procurar outras terras, ela olha ao redor e tudo o que vê é um bando maltrapilho de rastas e blackjackers.
Um grupo sem líder.
Caceta! ela diz. Mas não é só ela. Agora, mais do que nunca, ela leva dentro de si as memórias de três homens.
John Gaunt.
Jim Twilley.
Jonas Ferreira.
Ela nem teve tempo de chorar a morte do irmão. Por outro lado, ela sabe que ele não está perdido. Parte de sua essência ficou dentro dela. Toda vez que a necessidade conjurar a figura fantasmagórica de Gaunt, ela e seu irmão estarão de algum modo reunidos.
E pelo menos por enquanto isso lhe serve de consolo.
Vambora, putada. ela diz para o grupo brancaleônico Vamos tratar dessas feridas. Temos uma cidade para reconstruir.

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