hyperfan  
 

Hulk # 04

Por Otávio Niewinski

Tales to Astonish
Parte IV

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
::
Próxima Edição
:: Voltar a Hulk
::
Outros Títulos

— Ei, Hulk? Acorda!

"Oi. Eu sou Jack McGee, repórter do Planeta Diário, e meus últimos dias foram um verdadeiro turbilhão. Recebi do meu chefe, Perry White, a incumbência de escrever uma matéria sobre políticos que estariam sendo forçados, por chantagem, a votarem a favor de uma lei que proliferaria o desenvolvimento de bombas gama em território americano. Então, descobri pistas que me indicavam que o Hulk seria o chantagista. Como o verdão não aparecia faz um bom tempo em público, fui à instalação militar conhecida como Área 102 tentar descobrir o paradeiro dele. Fui escorraçado de lá, e acabei dando de cara com o monstro, que não se lembra de nada do que aconteceu nos últimos meses. Caem por terra as minhas especulações sobre a identidade do chantagista. Mas, já que eu estou aqui, no meio do deserto, vou conversar o máximo que puder com o Hulk pra tentar descobrir alguma coisa. Afinal, não lembro de muitos repórteres que tenham conseguido uma exclusiva com ele nos últimos anos... O problema é que, há uns quinze minutos, ele se recostou em uma rocha e parou de responder as minhas perguntas."

— Olá-á? Alguém em casa?

"Chego perto do monstro, que parece estar em um tipo de transe. Ele fica apenas olhando para o vazio. De repente, vira a cabeça e olha para mim."

— Tem alguém que quer falar com você. — diz o Hulk.

— C-como assim? Quem...

"Eu não chego a completar o raciocínio, porque me deparo com uma situação fantástica. O corpo do Hulk começa a perder massa muito rapidamente. Os músculos se contraem e a pele começa a perder a tonalidade verde. De repente, o gigante verde assume um aspecto muito mais... humano. E é Robert Bruce Banner quem toma seu lugar."

— Jack McGee, eu presumo. — fala Banner.

— Hã... sim, mas você já me conhecia... pelo menos conhecia, há alguns minutos atrás!

— Heh... você pode ter conhecido o Hulk. Não eu. — Banner coça a cabeça e sorri.

"Nossa. O doutor pirou. É melhor eu fazer o jogo dele."

— Aham... sim, é isso. Mas... poderia me explicar por que essa transformação repentina?

— Claro. O Hulk não tinha mais nada a fazer aqui. Então, ele me passou o controle.

— Não entendo. Como assim... "o controle"?

— Senhor McGee, já ouviu falar em alguma destas palavras: id, ego, esquizofrenia...

— Sim, mas...

— Por favor, deixe-me terminar. Digamos que eu tenho uma relação muito forte com cada uma delas. — Banner dá um sorriso irônico. — Uma relação que já vem se prolongando há anos. E com a qual talvez eu esteja começando a me acostumar. Mas me diga... o que o senhor estava tentando dizer ao Hulk?

— É uma longa história. Acho melhor sentarmos.

— Por mim, tudo bem. — Banner olha rapidamente para os bolsos do meu casaco. — Você não fuma cachimbo, fuma?

Interlúdio

Los Angeles. Casa de Rick Jones, onde uma conversa familiar acontece. Sentados na ampla sala de estar, bebendo café, o próprio Rick, sua esposa Marlo e sua neta, Janis. Seria um típico lar americano, se Janis não tivesse vindo de um futuro alternativo e apocalíptico.

— Já estava me perguntando por onde você andava. A última vez que nós nos vimos foi no Cairo, não? — pergunta Rick à sua neta.

— Sim. Foi quando... aconteceu... aquilo com você. — responde Janis, que curiosamente tem apenas alguns anos a menos que seu avô.

— Pois é. Sabe que eu ainda não lembro bem do que aconteceu? Você estava lá, quem sabe pode me ajudar a lembrar como foi.

Janis olha para Marlo e Rick, e percebe a curiosidade em ambos. "Deve ser realmente inusitado que um casal encontre sua neta ainda não nascida", pensa. A jovem se lembra dos momentos que passou ao lado do avô, no futuro. E sabe que essa dúvida ele terá que solucionar sozinho. Portanto, é melhor fingir que não sabe da verdade, que não sabe que foi o Hulk quem aleijou Rick Jones.

— Sinceramente, não pude ver, vovô. Eu estava um pouco afastada quando aconteceu.

— Não me chame de vovô, fica parecendo que eu sou um velho decrépito! — fala Rick.

— Bom, quando eu te conheci, você era mesmo decrépito! — responde Janis, arrancando uma gargalhada de Rick. — Bem, mas não vim aqui falar sobre o meu passado... mas sim sobre o nosso futuro.

— Acho que essa conversa foi mesmo adiada demais. — pondera Rick. — Da primeira vez que te encontrei, você veio buscar o Hulk para que ele derrotasse um inimigo na sua época. Mas há alguns meses atrás você voltou, e ainda não disse o motivo.

— Digamos que eu estou precisando do Hulk novamente. Logo que cheguei do futuro, consegui encontrá-lo , mas depois dessa confusão no Cairo, nos perdemos. Sabe onde ele está?

A face de Rick reflete seu desapontamento.

— Não. Logo após a morte de Betty, Bruce ficou... — Rick escolhe a palavra certa — abalado. Abalado demais. Ele simplesmente se fechou. Os psicólogos do exército disseram que o trauma foi grande demais para ele.

— Quer dizer que ele parou de se transformar no Hulk?

— Mais do que isso. — Marlo entra na conversa. — Ele não reagia a qualquer estímulo. Então, o mantiveram na Área 102.

— Então ele está lá? — Janis sente um alívio por ter finalmente chegado ao fim de sua busca.

— Calma. Tem muita história ainda, guria. — Rick toma um gole de café. — Outro cara que ficou abalado com a morte da Betty foi o general Ross, pai dela. Ross decidiu se aposentar e foi substituído por outro general no comando da base. Um tal Stan... Stan David. Foi esse escroto quem decidiu liquidar com o Bruce.

— Como assim, "liquidar"? — Janis arregala os olhos.

— Esse general percebeu que podia ficar famoso se acabasse de vez com o Hulk. O momento era propício, porque o Bruce estava indefeso em uma cela na Área 102. Eles poderiam ter feito qualquer coisa com ele... — fala Rick, com indignação na voz.

— Eles mataram o Hulk?

— ...exceto matá-lo. O general David não é bobo. O Bruce tinha recebido um tipo de perdão presidencial um dia antes da morte da Betty. As acusações contra ele foram retiradas. Ou seja, sem um julgamento, ele não poderia ser condenado à morte. E sem acusações, não tem julgamento. Então, eles tiveram uma idéia "genial". Me diz, Janis, você sabe o que é lobotomia?

— Hã... uma operação na cabeça, não é?

— Isso. Na verdade, é uma cirurgia no cérebro. Os médicos utilizavam esse tipo de cirurgia em pacientes com depressão e ansiedade. — responde Rick.

— Mas hoje em dia isso não é mais usado, eles tratam esses casos com psicoterapia e antidepressivos. — completa Marlo. — É que essa cirurgia tem graves conseqüências, como retardamento mental e perda de agressividade.

— Nossa. Como vocês sabem disso tudo? — espanta-se Janis.

— Um dia ligamos para um amigo e perguntamos. Outra hora eu te apresento o cara. Se chama Leonard Samson. — diz Rick. — Bom, mas foi isso que fizeram com o Bruce. Como todo tipo de tratamento já tinha sido tentado, e falhado, nesses anos todos, resolveram arriscar. Lobotomizaram Bruce tentando fazer com que, com a perda de agressividade, o Hulk nunca mais aparecesse. Mesmo que isso tornasse Bruce um retardado, o que realmente aconteceu. Nós tentamos impedir, mas o general nos expulsou da base e não pudemos fazer nada.

— Então é isso, ele continua preso. E o Hulk se foi. — resigna-se Janis.

— Não sabemos. Mas recebi hoje um telefonema de um tal de McGee, que diz ter novidades sobre o Hulk. Ia tentar contato com ele quando você chegou. — Rick move sua cadeira de rodas para perto do telefone. — Que tal?

Janis assente com a cabeça. Ela está realmente ansiosa para encontrar Bruce Banner. Torce para que o Hulk não esteja liquidado, pois o golias verde é a única saída para uma catástrofe global... que, pelo que ela tem lido nos jornais, se aproxima cada vez mais rápido.

"O doutor Robert Bruce Banner é um homem franzino, de estatura mediana e voz pausada. Ninguém que olhe esse homem pode sequer imaginar que ele pode se transformar em uma máquina de destruição. Estamos conversando há pouco mais de uma hora e eu estou tentando fazê-lo recapitular suas lembranças, para que ele talvez recobre a memória dos últimos meses, que parece perdida. E escuto atentamente."

— Continue, doutor.

— Bem, no ano passado, o Hulk integrou uma equipe chamada Panteão. Depois da dissolução do grupo, ele viveu um tempo incógnito na Flórida, com Betty...

"É impressionante. A cada menção à sua esposa morta, Banner faz uma pausa e parece se contorcer por dentro. Ele devia gostar mesmo da moça. E ele se refere ao Hulk como se fosse mesmo outra pessoa."

— ...fui capturado, e uma granada me atingiu, deixando estilhaços alojados no meu cérebro...

"Agora ele fala na primeira pessoa. Isso deve ter acontecido enquanto estava na forma de Banner."

— ... o Hulk então assumiu integralmente, pois eu não resistiria ao trauma provocado pelos estilhaços. Mas isso o deixou um pouco... instável. Ele inclusive destruiu o Monte Rushmore e dominou Flórida Keys...

"Isso foi noticiado pela imprensa. O Hulk assumiu a autoria de diversos atentados, mas foi descoberto posteriormente que a culpa não era dele. Não sei ainda porque ele assumiu algo que não fez. O Monte Rushmore foi reconstruído por outro fantasiado... o tal Homem-Molecular. Depois o Hulk invadiu as ilhas de Flórida Keys e se autoproclamou dono do lugar. Saiu de lá após um tempo."

— Os estilhaços foram retirados do Hulk pelo mutante Apocalipse, que o obrigou a servi-lo. Então, o Hulk causou pânico no Cairo e... — Bruce Banner pára, lembrando da severa agressão que infligiu a um de seus únicos amigos. Ele pensa em contatar Rick em breve. — ... e depois voltou aos Estados Unidos, em um avião. Aos poucos, o Hulk me deixou aparecer de novo. Logo depois disso, fui preso pelo exército.

"Isso também foi noticiado. O Hulk salvou o avião de um desastre iminente. Logo depois, fugiu para o deserto, onde liberou níveis exorbitantes de radiação. Depois de uma caçada, o exército acabou capturando o monstro e levando-o para a Área 102."

— Depois disso, me lembro que minha esposa morreu. E depois, de o Hulk estar falando com você, McGee. É isso. Infelizmente, ainda não consigo lembrar de nada que aconteceu entre esses dois fatos. Agora, o que eu gostaria de saber é por que você está atrás do Hulk.

— Vou ser franco. Há alguns dias estou investigando casos de chantagem no governo. As pistas me levaram ao Hulk como principal suspeito.

— Bom, imagino que você já percebeu que estava errado... já tentou o Jarvis, dos Vingadores? O mordomo quase sempre é o culpado nas histórias policiais. — Banner balança a cabeça, reprovando a própria infâmia. — Mas o que o levou ao Hulk?

"Vou entrar na brincadeira."

— Uma descrição. Um bandidinho disse que viu o chantagista e que ele era você. Mas, que eu saiba, Bruce Banner não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. O que poderia ser então? Um clone? Um gêmeo malvado?

"A minha frase faz cair uma mortalha sobre a fisionomia de Banner. E o que ele diz chega a me assustar."

— Quase. Vou lhe contar sobre o.. Maestro.

:: Notas do Autor

Se você estranhou a falta de menções ao Massacre na recapitulação dos últimos fatos da vida do Hulk, não se assuste. É que as sagas Massacre, Heróis Renascem e Heróis Retornam simplesmente não aconteceram na cronologia do Hyperfan.

O meu "valeu" de hoje vai para os renomados doutores Eduardo Cercato e Matheus Pacheco, que me deram umas dicas legais sobre lobotomia.

E mês que vem, o Hulk sai no encalço do Maestro. Até!



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.