hyperfan  
 

Imagine Jonah Hex

Por Octavio Aragão

A Marca da Besta

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Imagine...
:: Outros Títulos

Parte 1: O Nó Corrediço

A areia do deserto entrava pela boca, pelos olhos e já estava em todo o corpo, até por dentro das ceroulas. O sol, então, era de cozinhar os miolos, mas o pior seria a noite, fria como o beijo daquela vagabunda.

Injustiça. A mulher não valia nada, mas até que em termos de safadeza era comparável às melhores do ramo. Pensando bem, o pagamento pela noitada foi justo: seus dois colts, a cartucheira e a roupa toda, exceto a ceroula esgarçada e as botas. Ruim foi ser expulso à bala do rancho às cinco horas da manhã pela mãe dela, a maldita Fattie Gofoey, e deixar o cavalo.

Às duas da tarde, Lash já tinha perdido a noção de quanto tempo andava a esmo e nem se importava mais. Não havia sinal de sombra, os lábios estavam rachados e nem uma gota de suor em seu corpo, sem contar a sede e a fome absurda. Nesse momento, quando já estava quase desistindo e se jogando no chão árido, viu o abutre.

Foi um piscar de olhos: num momento ele não estava ali, e no seguinte sempre esteve. Impassível, com seus olhinhos desapaixonados na cabeça careca, o bico recurvo que eventualmente coçava embaixo da asa um piolho invisível, a ave vigiava em silêncio, esperando um momento de fraqueza. Lash franziu os olhos sentindo a pele da testa estalar de tão seca, e, na falta de algo melhor para fazer, mostrou os dentes rosnando um grunhido para assustar a fera. O som resultante foi patético. Algo parecido com um idoso sofrendo de prisão de ventre. O abutre piscou duas vezes, mudou a perna de apoio e continuou quieto, esperando.

Então, teve a idéia brilhante... a saída era o abutre! Agarrar aquele bicho nojento, partir o pescoço pelado a dentadas e beber o sangue. Depois comer a carne crua mesmo. Com isso forraria o estômago e conseguiria arranjar forças para continuar andando até o noitecer. Só havia um problema: pegar o animal.

Descalçou as botas, retirou a ceroula rasgada na virilha, ficando perigosamente nu no meio do deserto. Agora o risco de insolação era de cem por cento, mas esforçou-se para não pensar nisso. Improvisou um nó corrediço com as pernas da roupa de baixo e preparou-se para laçar a ave. Fez cara de quem não queria nada, olhou para o outro lado e, num movimento repentino, jogou o laço na direção do bicho. Errou longe. A única reação do animal foi acompanhar com curiosidade o trajeto do pano até o chão.

O homem recolheu o laço com raiva, enrolou o pano no braço esquerdo como se tratasse de uma corda de verdade e, com mais violência que antes, mas caprichando na pontaria, arremessou. Acertou o abutre mas não o laçou como queria. O pássaro abriu as asas negras, recuperando o equilíbrio, e deu um pequeno salto para trás, grasnando. Nada outra vez.

Com os olhos vermelhos de raiva, Lash recolheu o pedaço de pano e, com toda a força que ainda tinha, jogou o laço uma última vez.

O nó corrediço apertou o pescoço do abutre, que se debateu assustado, buscando alçar vôo. Lash forçou o pano para baixo, tentando evitar a decolagem do pássaro que batia as asas desesperado, grasnando e guinchando um assobio agudo de medo.

O homem louro segurou firme os restos da ceroula e puxou o animal em sua direção. As asas poderosas abanavam o ar, tentando se desvencilhar do aperto, e as garras do pássaro já arranhavam o peito nu do homem. Mais um puxão e a ave estaria ao alcance das mãos secas que visavam o pescoço.

E então, com um estalo, Lash caiu de costas, segurando com força absurda uma perna da ceroula rasgada que havia cedido na costura da virilha, enquanto a outra metade flutuava pendurada no pescoço do abutre, voando cada vez mais alto.

Lash urrou de ódio. Ódio da ceroula, do abutre, do sol, do deserto, da Fattie Gofoey, da filha dela, da jogatina da noite anterior na qual havia ganho aquela pequena fortuna, toda guardada nos bolsos secretos da sela de seu cavalo, preso no sítio das Gofoey. O homem nu pulava como um possesso no meio do deserto, com os punhos fechados girando sobre a cabeça enquanto a ave circulava no céu, com uma gravata vermelha pendendo de seu pescoço. Voava cada vez mais alto, com certeza caçoando do sujeito lá embaixo, com seus guinchos cada vez menos audíveis, até que houve o disparo.

Tomou um susto tão grande com a queda do abutre morto sobre sua cabeça que desabou outra vez no chão poeirento do deserto. Com a boca aberta, finalmente percebeu a silhueta do homem que cavalgava contra o sol, em sua direção, com o rifle fumegante apoiado na coxa direita.

— Ei, compadre. — rosnou o recém-chegado — Problemas com o pássaro?

Ainda ofuscado pelo sol, Lash apenas conseguiu identificar a jaqueta azul e um brilho estranho no olho direito do recém-chegado, branco e arregalado, sem pupila, boiando sobre uma imensa cicatriz que era a metade direita do rosto. Provavelmente cego.

Com um meio sorriso, sussurrou antes de desabar, desmaiado pela insolação:

— Graças a Deus... Jonah...

Parte 2: A Águia e a Raposa

A parede negra e circular estava limpa. Do outro lado do túnel estava a cabeça de Lash, dormindo.

Jonah afastou o cano do colt do olho bom. Quem vive pelo revólver tem de mantê-lo sempre imaculado, sem um cisco de poeira. Um homem sujo pode sobreviver, já uma arma mal cuidada é passaporte para o cemitério. Lugar no qual seu companheiro estava prestes a dar um passeio.

Deitado sobre uma maca improvisada, amarrado com tiras de couro que foram um dia as rédeas reservas de seu cavalo, Lash era um peso que o caçador de recompensas carregava pelo deserto, atrelado às ancas de sua montaria.

Jonah colocou o tambor carregado de balas no pino e fechou o revólver, guardando-o no coldre. Os motivos pelos quais estava fazendo essa boa ação carregando o outro não eram claros. Uma racionalização mais afoita apontava a praticidade de ter alguém que conhecesse pessoalmente as Gofoey e já tivesse estado dentro da casa delas, mas havia algo mais que não sabia precisar, uma espécie de instinto que lhe assegurava que era melhor manter aquele civil inútil por perto.

Jonah arrancou uma coxa de abutre já devidamente tostada da fogueira improvisada e, com ela presa entre os dentes, tirou o cantil da sela de seu cavalo. Sentou-se no chão, molhou o lenço que pendia da testa de Lash e torceu-o sobre a boca do doente, que tossiu, fraco, e abriu os olhos.

— Obrigado por me tirar de lá.

O homem desfigurado acenou com a cabeça, enquanto comia um pedaço de carne.

O doente apontou com o queixo para o osso que Jonah trincava com os dentes.

— É o meu abutre? — tentou sorrir — Se é, será que posso ter um pedaço?

O pistoleiro de aluguel levantou e foi até a fogueira. Voltou com um pote de barro, pintado com motivos navajos, e estendeu-o para Lash.

— O que é isso? — perguntou ao ver, dentro do pote, um líquido pastoso verde no qual flutuavam pedaços de algo indefinível.

— Beba.

Não havia espaço para discussão com aquele tom de voz. Lash bebeu e mastigou tudo sem parar para respirar. Jonah comeu pouco, o suficiente para se manter, sem empanturrar o estômago com a carne de uma ave que se alimentava de carcaças. O preparado índio deveria curar o louro em dois dias; mais do que o suficiente para, acampados nas cercanias do sítio das Gofoey, tomarem conhecimento de tudo que acontecia lá dentro. Se o informante de Jonah estivesse certo, em breve a Águia mostraria suas penas e, em seguida, a Raposa, real motivo de sua vinda até a cidade de Coyote — no extremo sul do Texas —, apareceria em toda sua glória.

Assim que Lash terminou a refeição, Jonah perguntou:

— Viu algum homem no rancho?

— Que rancho?

— Das Gofoey.

Lash levantou as sobrancelhas e tossiu.

— Por que acha que vim de lá?

— Porque é o único lugar próximo daqui. Você foi lá, dormiu com a guria e foi roubado. Já aconteceu com gente melhor.

— Lash sorriu.

— Com você, por exemplo?

Jonah não respondeu. O outro desviou o olhar para o pote.

— O que tinha aqui? Já estou me sentindo melhor!

— Se eu disser, você vomita. Agora fale: viu algum sujeito lá?

— Não. Mas não prestei atenção.

— E é por isso que ficou nu e febril no meio do deserto.

Lash levantou o corpo e sentou na maca improvisada.

— OK, tem razão, mas quem é o homem que poderia estar lá? Deve ser valioso para terem contratado você.

O mercenário decidiu contar uma parte da verdade.

— Quando Maximiliano caiu, em 1860, alguns oficiais e políticos fugiram para o Texas. Esse que eu procuro é um deles. Foi governador de Los Angeles e atendia pelo apelido de "El Aquila".

— Criminoso de guerra? — sussurrou Lash como se alguém pudesse ouví-los.

Jonah não respondeu, apenas deslocou o ombro esquerdo como quem diz "não me importa o que ele seja". Depois de um curto espaço de tempo, falou:

— Soube que ele está escondido no rancho das Gofoey. Parece que fizeram um tipo de acordo. — e, encarando Lash com o olho bom, acrescentou — Quer me ajudar a tirá-lo de lá?

Lash sorriu.

— Não sei. Divide a recompensa comigo? Cinqüenta por cento.

Imediatamente, Jonah sacou o revolver e disparou. Uma pedra, a dois centímetros de distância do joelho direito de Lash, virou pó. Diante do homem paralisado de medo, Jonah respondeu:

— Eu não negocio.

O eco do tiro serviu de contraponto para a frase final de Lash.

— Fechado.

A trinta metros dali, um puro-sangue negro estacou sua caminhada, levantando as orelhas. O cavaleiro mirou o horizonte na direção do som e um leve ar de riso clareou o rosto moreno. Não era disparo de espingarda, mas de Colt 45, logo, não se tratava de um caçador, mas de pistoleiro. Pelo visto, a festa no rancho Gofoey seria boa.

Parte 3: Fim da Linha

Alfonso Melendez foi muito rico. Teve todas as mulheres que bem entendeu em palácios dignos dos sonhos dos califas árabes. Agora as paredes coalhadas de manchas de inúmeros insetos esmagados pareciam rir da sua cara. A cama de palha, então, era um escárnio. Pensava naquele Juarez nojento, vivendo no luxo ao qual não merecia, e antecipava o momento em que entraria pelas portas do palácio do governo e arrastaria o animal pelas orelhas até a praça central para enforcá-lo e a todos os seus golpistas. Conseguia imaginar seu novo exército, formado por homens de têmpera, competentes, profissionais trazidos de várias partes do México e dos Estados Unidos. Uma força de invasão e coerção nunca vista.

Havia contactado um sujeito muito especial, conhecido apenas por um pré-nome incomum: Chris. Um pistoleiro assustador. Completamente calvo, roupas escuras e simples. De poucas palavras, mas com bons contatos e um tino para negócios invejável. Prometeu montar uma equipe especial constituída por seis outros especialistas — profissionais como ele — que serviriam como linha de frente para a invasão do palácio. Seria perfeito, mas precisaria de uma pequena fortuna para pagar esses homens especiais e, para tanto, El Aquila — que ganhou esse apelido graças à sua mente estratégica e impiedosa, mas a quem o povo chamava de "La Bestia" pelos mesmos motivos — teve de imaginar um plano para arranjar muito dinheiro rapidamente. O saloon de Fattie Gofoey surgiu como a salvação da lavoura. O último otário, depenado duas noites atrás, havia ganho uma fortuna e pensou que tinha escondido o dinheiro muito bem, na sela do cavalo.

Levantou-se, vestiu as calças e as botas sem se importar com roupa de baixo, pegou o colt 45 e escancarou a porta. Por trás dele, a guria levantou a cabeça sonolenta. Não parecia ter mais de 15 anos, mas em termos de experiência deixava muitas profissionais comendo poeira.

— Vou me lavar. — disse, sem olhar para trás.

— Precisa do revólver pra isso também? — perguntou a menina, enquanto se espreguiçava.

Um único motivo manteve a cabeça da moça com apenas sete buracos naquele momento: Fattie Gofoey, a mãe dela, era muito gorda, e ele odiava fazer o serviço com gordas.

Saiu batendo a porta fingindo não ouvir os risinhos. Desceu as escadas pulando os degraus dois em dois e, antes de sair em direção ao reservado, cinco metros distante da casa, olhou pela fresta da porta principal.

Mais uma manhã de sol. Como se isso fosse novidade.

Saiu confiante, com o cabo do colt bem seguro na mão e o dedo no gatilho.

Percorreu o curto trajeto até a casinha de madeira onde ficava a cloaca e, como fazia todos os dias desde que passou a morar no rancho das Gofoey, parou diante da entrada do cubículo sem dar atenção à dor surda no ventre, contou lentamente até dez e, num repente, escancarou a portinhola, mantendo o revólver em linha reta diante do rosto.

Como sempre, nada. Finalmente relaxou e entrou na casinha. Desafivelou o cinto e deixou a calça cair enquanto urinava, satisfeito. Um leve sorriso despontou enquanto sacudia as últimas gotículas e chegou a fechar os olhos, prazeroso.

Foi aí que a coronha do rifle esmagou seu nariz.

O sangue espirrou como um jato enquanto o homem tropeçava porta afora, com as mãos sobre o rosto. Por trás da parede traseira do reservado, de onde uma tábua havia sido cuidadosamente serrada e encaixada novamente de modo a permitir que um homem adulto enfiasse sem problemas dois braços através da madeira, saiu um sujeito alto, vestindo um uniforme confederado.

Caído e sangrando muito, Melendez tentava se arrastar, mas as calças arriadas funcionavam como algemas para as pernas e, toda vez que tentava se aprumar, acabava estatelado outra vez no chão pedregoso.

O uniformizado não deixou de aproveitar a situação. Com a ponta da bota, acertou cinco chutes entre as costelas do espanhol enquanto gritava.

— Minhas calças, corno desgraçado! Devolve minhas calças já!

Enquanto Lash fazia o general de saco de pancadas, Jonah, com dois revólveres nas mãos, correu para a soleira da casa das Gofoey em direção à porta principal. Ao passar em frente a uma das janelas que ladeavam a entrada, pulou para longe, antecipando o tiro de winchester que veio de dentro.

"Barulhento filho de uma vaca!" — pensou, enquanto buscava proteção atrás do estábulo. Se o outro não tivesse feito um escarcéu batendo no sujeito, Jonah teria conseguido entrar calmamente no rancho, e preparado a armadilha para sua presa principal. É o que dá confiar em instintos. Deveria ter deixado aquele palhaço morrer seco no deserto com um abutre enfiado no traseiro. Se aquele tiro de rifle o acertasse, poderia ter sido partido ao meio.

Dentro da casa, Fattie Gofoey e a filha tinham toda vantagem do mundo. Acostumadas a depenar homens idiotas desde que abriram o saloon em Coyote e passaram a gerenciar a jogatina com a morte de Jedediah Gofoey, as duas estavam com armas e munição suficiente para um cerco de dois dias e, após o treinamento com o oficial espanhol, elas sabiam muito bem como usá-las.

O acordo com o general Melendez havia sido bem proveitoso. Elas deram guarida e prestaram outros "favores", enquanto ele ajudou a aperfeiçoar a jogatina. O saloon em Coyote instituiu um "torneio" federal de pôquer que, em poucos meses, passou a atrair jogadores de todo o país. Aí era uma questão de escolher um deles, de preferência, um desconhecido falastrão, deixar o sujeito ganhar uma bolada, levar para casa e depenar o frango, deixando o deserto cuidar dele depois. Os rangers bem que sabiam disso e já tinham as Gofoey sob vigilância eventual, mas como, na maioria das vezes, elas acabavam eliminado um imprestável, os faziam vista grossa. Se eles soubessem, como Jonah, quem estava por trás das falcatruas, certamente pensariam duas vezes. Mas o caçador de recompensas não suportava os rangers e não seria ele quem daria a dica.

Enquanto balas choviam sobre sua cabeça, o deformado pensava se a armadilha para a Raposa ainda funcionaria.

Dentro da casa, Fattie e Dorothy Gofoey estavam cercadas de cartuchos detonados por todos os lados e pareciam muito empenhadas em transformar o estábulo num queijo suíço, atirando com rifles por duas janelas que ladeavam a porta principal. Todas as manhãs, Dorothy acompanhava em segredo o general pela janela quando ele se dirigia ao mictório por receio que tentasse alguma gracinha ou fugisse com parte do dinheiro que elas estavam economizando. A ordem de Fattie era manter o sujeito sob estrita vigilância o tempo todo e, quando a menina viu o espanhol cambalear sangrando para fora do reservado, não pensou duas vezes: correu até o quarto da mãe e ambas foram, armadas, direto para as janelas do primeiro andar.

Começaram a atirar, mirando exclusivamente em Jonah e perdendo de vista os outros dois homens. Como não tiveram tempo de trocar mais de duas palavras, Fattie não sabia que havia outro forasteiro vestido de azul e tomou um susto danado quando ouviu o barulho de um revólver engatilhado às suas costas.

— Oi, senhora Gofoey. Oi, Dorrie.

Parado em frente à porta dos fundos escancarada, estava Lash, empunhando um revólver com a mão direita e usando Melendez como escudo, seguro por uma gravata. Fattie chegou a levantar o rifle à altura do ombro, mas a entrada de Jonah pela porta da frente a impediu.

Com um revólver encostado às costas de cada uma das Gofoey, Jonah ordenou:

— Larguem.

Ao ver os dois winchesters caídos, Lash sorriu e pensou numa piada, qualquer coisa a ver com vir buscar suas roupas por não agüentar o fedor do uniforme reserva do mercenário, mas não teve tempo. Percebendo que a pressão em seu pescoço afrouxara, Melendez jogou todo o peso do corpo para trás, desequilibrando um fraco Lash que, apesar de dois dias de repouso, ainda não estava em plena forma. Ambos desabaram para trás, com Lash disparando a esmo e jogando a arma longe ao bater com a cabeça no chão.

Jonah viu o espanhol com as calças arriadas alcançar a arma e apontar para a cabeça do outro. Seria um tiro à queima-roupa, que espalharia os miolos de Lash por toda a sala, mas não havia nada que Jonah pudesse fazer para impedir. Se afastasse as armas das costas das mulheres, morreria num segundo, pois os rifles não estavam muito distantes dos pés delas. Não havia saída.

Melendez puxou o cão da arma até travá-lo, encostou o cano na têmpora de sua vítima e sorriu, o sangue que escorria do nariz já seco no rosto vermelho que fazia ressaltar a estranha cicatriz branca em sua testa, encarando Jonah, que torceu o lado direito da boca. O espanhol estava tendo uma ereção!

O dedo do general pressionou o gatilho e, simultaneamente, ouviu-se um assobio.

Pela porta aberta, atrás de Melendez, surgiu um cabo preto, rapidíssimo. Enrolou-se com um estalo no pulso do oficial e puxou-o para trás, com violência. A bala disparada pelo homem nu foi cravar-se na parede em frente e ele voou para fora do campo de visão de Jonah, estatelando-se na soleira. Em seguida, emoldurado pela porta aberta, um cavalo negro imenso passou em galope da esquerda para direita, arrastando o corpo nu do espanhol, que, amarrado pelo pulso, gritava desesperado, pelo chão arenoso.

Ainda imóvel, com as armas pressionando as costas das mulheres, Jonah encarou o dono do cavalo negro enquanto o animal completava a primeira volta pela casa.

— Olá, senõr. — o sorriso cristalino contrastava com a firmeza da voz do estranho, enquanto estendia uma das mãos para ajudar Lash a levantar do chão.

— A Raposa. — grunhiu Jonah.

O galope do cavalo começava a ficar mais audível que os gritos do espanhol. A segunda volta em torno da casa estava completa.

— Quem? — balbuciou Lash.

— A Raposa? — repetiu Fattie, boquiaberta — Eu pensei que você fosse uma invenção do general para nos assustar!

A mancha negra que passava diante da porta antecedia alguns gemidos e completava a terceira volta.

— Você vem comigo. — cuspiu Jonah.

— Em um momento, señor. — e assobiou. Um relincho e o cavalo reduziu a velocidade até parar em frente à porta escancarada. Atrás do animal havia algo parecido com um monte vermelho de carne, em silêncio absoluto.

Olhando rapidamente por cima do ombro, a Raposa apagou o sorriso.

— Está feito. A missão acabou. El Aquila, o último criminoso de guerra, está morto. — e, voltando-se para Jonah, estendeu as mãos envoltas em luvas negras — Agora podemos ir.

Lash, já recuperado, amarrou as Gofoey e recolheu seus pertences. Todos, menos as calças. Enquanto Jonah e a Raposa, já montados, esperavam do lado de fora, não pôde se furtar a uma última gracinha. Voltou alguns passos e beijou os lábios de Dorothy.

— A gente se vê, beleza.

Dorothy cuspiu enquanto sua mãe, chorando de ódio, sussurrou:

— Pode apostar, Lash. Nós vamos nos rever nem que seja no dia do fim do mundo.

Epílogo

— Por que você veio junto? — perguntou Jonah.

— Porque eu sempre quis conhecer o México. Dizem que Benito Juarez fez maravilhas por aqui! — respondeu Lash, olhando em torno.

— Hmmm. Mas não pense que vou dividir o pagamento com você.

A mansão onde os três homens se encontravam já tinha visto melhores dias. As tapeçarias nas paredes ainda deixavam antever a beleza das cores originais, agora desbotadas por anos de poeira e decadência. O pé direito altíssimo parecia querer ombrear o céu e, ao contrário de seus captores, a Raposa se sentia extremamente à vontade. Aquele ambiente era, sem dúvida, familiar.

O som de dobradiças velhas soou no segundo andar e, lentamente, uma figura encarquilhada surgiu das sombras que engoliam a escada principal, forrada por um tapete vermelho gasto pelo tempo.

Sem proferir uma palavra, o velho aproximou-se de Jonah e entregou-lhe um saco pesado. O silêncio era tão grande que o tilintar das moedas ocultas denunciavam sua qualidade. Era ouro, Lash podia afirmar sem dúvida.

Jonah pegou o prisioneiro pelos pulsos atados e colocou-o nas mãos do pequeno ancião.

— Trato feito.

O velho ergueu a mão direita e apontou a porta de saída. O jogador e o mercenário dirigiram-se até a saída e para a rua empoeirada. Ao virar-se para fechar a imensa porta, Lash pôde ainda divisar o velho com uma faca na mão, e o homem chamado Raposa, ajoelhado, mãos estendidas e cabeça baixa.

— Não se meta no que não lhe diz respeito! — vociferou o pistoleiro deformado — Todos aqui estão mortos.

E galoparam rumo ao centro da cidade do México.

Dentro da mansão, já livre de suas amarras, a Raposa mal conseguia conter as lágrimas.

— Está feito, amigo! — disse, abraçando o velho — A vingança é nossa.

O velho mudo sorriu. Agora poderia morrer em paz, sabendo que seu enteado havia cumprido a missão.

Os gritos das Gofoey acabaram atraindo uma dupla de rangers que volta e meia passava por ali, só por via das dúvidas. Depois de soltar as mulheres, foram examinar a carcaça destroçada que jazia em frente à porta dos fundos. Com um pouco de trabalho, conseguiram localizar a cabeça. Na testa, coberta por infinitos arranhões e hematomas, ainda se podia enxergar três cortes profundos, em forma de "Z".


:: Notas do Autor



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.