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Imagine Miles

Por Délio Freire

A Maconha da Mamãe é a Mais Gostosa ou
Malandragem ou Arrancando as Tripas do Samba

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"Eu juro que tentei enxugar as lágrimas dela. Tá. Eu confesso. Eu fui sacana o suficiente pra ter outras intenções do que apenas consolá-la naquela noite. Queria mais. Queria fazê-la esquecer. Queria esquecer também. Mas como fazer esquecer a morte? A morte é o 'pequeno orgasmo', dizem os franceses. Bacana. Bacana e blasé, como os próprios franceses. Pode ser um pouco por aí mesmo. A alma, catapultada para fora, pode não valer mais do que um jato de porra. Quem liga?"

Negro filho da puta! Não sabe ler, cachorro?

"Ela não pára de chorar em meus braços. No banco de trás do carro, o corpo pequenino, imóvel. Eu olho para trás e sua filha parece querer sorrir; parece querer dizer pra mim e pra sua mãe que acabou. Que está tudo bem. A dor já foi embora."

Galactus, caralho! Acho que é assim que se chama... ou sei lá qual a desgraça da porra de nome desses alienígenas escrotos... quem disse que precisamos de super-heróis?! Quem disse que eles valem a merda que cagam?!

"Escuro. Abissal. Completamente perdido. Ela parece que não vai parar de chorar; com um gesto rápido, a mulher fecha os olhos ressecados da filha."

— Ela parece feliz.

— Ela está.

— Queria ter certeza.

— Alguém tem certeza de algo?

— Mas eu queria.

"Ela pede mais um abraço. Queria que ela me batesse, queria que ela retirasse esse gosto amargo da minha boca. Ela podia. Não. Ela devia me odiar."

"O braço estendido parecia ser incomensurável. Era só o que eu podia ver dele. Helicópteros. Aviões. Tropas policiais. Amadores. Um corpo imenso, desacordado, trânsito impedido. Violência e tensão gratuita. Neve. É Natal. Jesus morreu. Ou nasceu? Quem sabe? O cassetete policial em meu estômago é mais forte do que o cara pode imaginar. É humilhante."

"Eu sorrio pra ele. E mando se foder. Ninguém, policial ou Galactus, fica em meu caminho."

"Eu caio no chão. Mas não há neve alguma. Eu choro."


— Música.

— O que tem?

— Ela sempre gostou de música.

— De que tipo?

— Qualquer uma. Mas acho que ela sempre gostou de música estrangeira.

"Eu tento não perceber os tiques nervosos enquanto ela fala da filha. Lágrimas caem. Maduras. A boca retorcida. O nariz empapado pede um lenço. Eu o pego."

— Boba, ela. Não conseguia nem acompanhar. Não entendia nada, mas gostava de fingir que sabia a letra. Criava uma língua própria. Se achava esperta. Sabe como é, coisa de criança.

— Sei.

— Obrigada. Vou precisar de muitos lenços. Não fique assim. A culpa não é sua.

— Eu não devia estar aqui. Não no caminho de vocês.

— Você nos ajudou. Foi tão forte.

— Eu não queria.

"Sentir sua mão acariciando meu rosto, enxugando minhas lágrimas, me conforta. Mas é assim mesmo. Ninguém sabe quando é a vez de quem. Quando é a vez de ajudar a quem. Novas lágrimas caem de seu rosto. Quid pro quo."

"O céu azul sobre minha cabeça está me chamando. Quando eu vou morrer? A sirene da polícia está alta demais, parece o canto da sereia me avisando de minha hora. O policial esconde a gargalhada, sua figura parece saída de um daqueles vídeos retorcidos que passam na MTV, totalmente cômica e distorcida, brandindo um cassetete. Minha pele negra é couraça. Fortaleza. Ele se contém pra não me chutar. Até quando um homem pode resistir?"

— Música linda. Mas que língua é essa? Espanhol?

— Não. É português. É bossa nova brasileira. Samba. Eu curto música do mundo todo. É meu trabalho.

— Qual o nome da cantora?

— Cássia Eller. O nome da música é Malandragem.

— Linda. Olha, ela está sorrindo.

— Quem?

— Ela! Minha garotinha...

"As unhas bem cortadas enterram-se em minha carne. Não, ela não sorri mais. Ela está morta. Eu a matei. E o deus Cronos (existe algum outro?) me come vivo."

"White Blood Cells. Isso prova que ainda há gente que acredita nos anos 70! Mas o som é gostoso, despretensioso, puro blues eletrificado. Adorei a Meg. Ela joga no meu time, toca em minha banda e está convidada pra sair comigo a hora que quiser. Bela baterista. White Stripes mexe comigo."

"O carro do meu pai é cinza. Na verdade, posso dizer que meu pai também é cinza. É só um empréstimo, pai. Só ir lá, entrar em estúdio, tocar com a banda e estou de volta. As cidades não são distantes assim. Não vai demorar. Às vezes nenhum amigo pode te ajudar, pode te dar uma carona. Antigas amantes, nem pensar. Já estou de volta, quando eu..."

"A morbidez da situação é constrangedora. Percebo que ela está tão puta comigo que nem se tocou do que acabou de perder; em algumas horas ela vai querer me matar, me agredir."

"Ouço um toque no vidro do carro. A mulher nem nota, seus olhos ainda fixos na garota. Olho para trás e vejo um belo sorriso vindo de uma moça de feições suaves e bem definidas. Eu sorrio de volta."


VVVRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

"Freio. Brusco. A cabeça bate e volta para trás, violentamente. Um corte na têmpora. Uma pequena cicatriz em meu caminho. A mulher chora. A criança fica quieta."

"Saio do carro sem dizer uma palavra. A ajudo, o corpinho quente e a respiração difícil quase me fazem cair de joelhos. Ela está morrendo e eu sou o culpado. A mulher ao lado parece não sentir a minha culpa. O que posso dizer? Que isso me humilha, me perturba ainda mais? Será que ela pensa que não sou digno do seu ódio, se ela perder a garota?"

"Entramos no carro, após deixá-la no banco traseiro. Nos encaramos pela primeira vez. Não dizemos uma palavra; ela se vira para cuidar de sua filha."

"Giganteforme, um superser entrou em meu caminho, me responsabilizando pela morte de uma menina. Devorador de mundos."

— Tem certeza?

— Sim.

— Poderia ir mais rápido.

— Desculpe, estou fazendo o que posso. Olha, eu...

— Não se desculpe.

— Eu sou o...

"A cacofonia de sirenes começa a perturbar a cabeça de Lionel Murphy, policial há beira da aposentadoria que cultiva um imenso bigode; em sua imaginação, aumenta sua autoridade. A quantidade de helicópteros, voando como moscas o impressiona. O que diabos se faz numa hora dessas?"

"Impotente. É como me sinto. A mulher ao meu lado está maníaco-depressiva; seus sentimentos vão indo e voltando da compreensão ao desespero. Há alguns sons que eu não consigo discernir logo à frente. Quanto mais vou seguindo em direção, eles se tornam nítidos. O cheiro de cigarro cada vez mais forte. Placas. Estou no centro do furacão. Centauros. Dezenas deles. Pisoteando sobre minha cabeça."

"Algum idiota liga Spiritualized ao máximo. Não sei de onde vem. Eu olho para trás e ela está segurando a mão da garotinha. Não me lembro da conversa. O centauro se chama Murphy. A espada do ser metade homem, metade cavalo levanta-se em minha direção. Em uma língua estranha, sou agredido e pisoteado por ele."

"A grande quantidade de curiosos incomoda o policial, que tem sua pressão arterial aumentada, seus batimentos cardíacos cada vez mais rápidos. Um garoto leva um tapa na orelha. Todos querem ver o gigante. Correndo, em cima de seu cavalo, Lionel não discerne entre o controle da situação e a agressão bruta."

"Percebo que não estou chorando sozinho. Levanto-me e me dirijo até a mulher. Não há mais nada que se possa fazer. Não há mais local para ir. Não há salvação para ela. Eu entro no carro. Ela me olha, a cabeça pendendo para o lado."

— O coração parou.

"E os olhos de Galactus se abrem. A multidão agita-se, as mãos gigantes se contraem, trazendo consigo um punhado de asfalto. Nada disso importa. Mas eu juro que tentei enxugar as lágrimas da mulher."




 
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