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Jonah Hex # 02

Por Marcelo Augusto Galvão

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O sufocante calor daquela madrugada fazia gotas de suor brotarem na testa de Jonah Hex. Na penumbra da varanda da casa de Cedric Bellows, seu atual empregador, Hex vigiava a propriedade, procurando por alguma pista que o tirasse daquele beco sem saída em que se encontrava.

Cinco dias atrás, o pistoleiro fora contratado por Bellows, antigo comandante do exército confederado e agora candidato pelo Mississippi ao senado, para descobrir quem havia invadido sua propriedade há algumas semanas, matando animais da fazenda e provocando outros danos. Na opinião de Bellows, aqueles acontecimentos faziam parte de um plano armado por inimigos políticos para assustá-lo e tirá-lo do páreo. Porém, a busca de Hex por alguma pista ou trilha que o levasse ao suposto responsável revelou-se infrutífera.

Mas desde ontem, os empregados da fazenda, alguns negros para quem o fim da escravidão no sul tivera pouco efeito na prática, reclamavam de estranhos rondando com freqüência o lugar e que sumiam antes de serem interpelados. Assim, Hex decidiu ficar de tocaia na varanda, o melhor lugar para vigiar qualquer um que ousasse invadir a casa. E se esse alguém fosse suficientemente esperto, não tentaria enfrentar o pistoleiro.

Do alto de uma colina, um homem de roupas escuras e barba por fazer mirava a residência de Cedric Bellows. Seus olhos faiscavam com inveja e rancor, ao ver aquele lugar tão bonito e, que ele sabia, fora construído às custas das vidas de vários homens bons. Respirando fundo, ele deixou a raiva de lado, substituindo-a pela certeza de que o grande dia finalmente chegara, depois de dez anos.

Dez anos era um longo tempo. Durante todos esse período, aquele antigo soldado sulista poderia ter voltado para a fazenda de seus pais em Atlanta e constituído uma família, enquanto via os negócios prosperarem e os filhos crescerem. Ao invés disso, ele resolveu vagar pelo país, dedicando-se a procurar um meio de vingar-se do homem que arruinara sua vida e as de outros seis homens.

Mas para aquele veterano de guerra, não bastava acabar com a vida de seu traiçoeiro ex-comandante. Era preciso primeiro que ele sofresse. Seu plano estava funcionando, do jeito que idealizara, pois Bellows, de tão desesperado, havia contratado um pistoleiro para protegê-lo. "Como se isso pudesse ajudá-lo em alguma coisa", pensou o veterano, sorrindo e alisando uma estrela de cinco pontas que levava em volta do pescoço.

Jonah Hex não era o único acordado na casa. Sentado em uma poltrona na sua sala preferida, Cedric Bellows massageava, sob a camisa do pijama, o coto que lhe restara do braço direito, numa tentativa de diminuir a dor no "membro fantasma". Normalmente, ele já teria tomado as pílulas de ópio, mas estas inevitavelmente o fariam dormir. E a última coisa que queria no momento era dormir, pois finalmente, após semanas de intensos pesadelos, ele entendeu o significado daqueles terríveis sonhos que o levavam a acontecimentos do passado. A dor no braço era tão incômoda que Bellows nem percebeu o quanto o aposento havia esfriado, repentinamente. Quando se deu conta, ele apenas viu uma silhueta ameaçadora aproximar-se diante de seus olhos.

O grito abafado de Bellows chegou aos ouvidos de Hex. Sacando as armas dos coldres, o pistoleiro entrou correndo na casa, sentindo o ar frio ao seu redor. O corredor principal encontrava-se às escuras, mas ainda assim Hex conseguiu distinguir duas figuras de cinza, aguardando-lhe. Ambas pularam em cima dele, agarrando seus pulsos. Hex tentou se desvencilhar, mas seus agressores eram mais fortes.

Sem desistir, ele desferiu um chute mas viu, inexplicavelmente, seu golpe errar o alvo, ainda que a distância fosse pequena. Pelo canto do olho, o pistoleiro viu outra figura surgir. Esta agarrou um dos bibelôs que decoravam a residência, levantando-o e descendo com força atrás da cabeça de Hex, levando-o a inconsciência.

Hex abriu o olho lentamente, seu crânio latejando de dor. Logo viu que estava na sala, iluminada por uma solitária lamparina. Encontrava-se sentado no sofá ao lado de Bellows que encarava, perplexo, um homem com barba por fazer, carregando um medalhão no formato de uma estrela de cinco pontas. O desconhecido, carregando na cintura as armas de Hex, aproximou-se dele.

— Bem-vindo de volta, senhor Hex. Pensei que meus camaradas tivessem batido no senhor com muita força.

— Tenho cabeça dura. — Hex replicou, esfregando a nuca, olhando em volta e não achando seus agressores. O homem, ele notou, tinha o típico sotaque arrastado da Geórgia — Quem é você?

— Meu nome é Arthur Sullivan e, como todos aqui nessa sala, servi aos Estados Confederados. — ele se apresentou — Sinto muito envolver o senhor neste reencontro com meu ex-comandante.

— Ex-comandante? Num sabia que eu ia participar de uma reunião de veteranos.

— Não, não se trata de uma reunião. Trata-se mais de um ajuste de contas. Mas creio que ele pode explicar melhor.

Mas Bellows nada disse.

— Ora, que timidez é essa, capitão? — Sullivan zombou — Não vai contar ao senhor Hex como traiu o seu exército em troca de dinheiro ianque?

— Do que cê tá falando? — perguntou o pistoleiro, desconfiado. Sullivan aproximou-se.

— Estou falando de como o capitão Cedric Bellows, comandante de uma das unidades de reconhecimento do exército Confederado, e da qual eu fazia parte, vendeu informações sobre a movimentação de nossas tropas para os Ianques! — ele falou, para em seguida completar, exaltado — E quando o resto da unidade não aceitou fazer parte do seu negócio, ele simplesmente decidiu eliminar o problema, matando a todos!

— O que você esperava que eu fizesse? — explodiu Bellows, finalmente se manifestando — Aquela guerra estúpida estava arruinando o sul. Veja só o que ela fez comigo! — e apontou para o que restara do seu braço.

— Isso é verdade? — Hex virou-se para Bellows — Matou seus soldados?

— Nem todos. — Sullivan respondeu pelo outro homem, que voltou a calar-se — Ainda consegui escapar, ferido e vendo meus companheiros morrerem pelas mãos do inimigo e com a ajuda do meu próprio comandante. Mais tarde, Bellows disse que fomos emboscados e que eu havia desertado. Como a palavra de um capitão valia mais do que a de um soldado, tive que passar o resto da guerra escondido.

Hex ouvia tudo atento. O veterano soldado, andando em volta do sofá, continuou:

— Jurei a mim mesmo vingar a morte de meus irmãos de armas. Fiquei vagando pelo país todo, até achar a maneira ideal de realizar minha vingança. Depois de muito tempo, finalmente descobri, através de antigos rituais de magia, como invocar os espíritos de meus camaradas de volta à este mundo.

— Cê tá dizendo que pode conversar com fantasmas, é isso mesmo, moço?

— Exato, senhor Hex. Mudei-me para Hills Grove há algumas semanas e resolvi colocar meu plano em prática. Queria atormentar o capitão Bellows, para fazer ele pensar que estava perdendo a razão. Chamei meus camaradas para assombrarem os sonhos do capitão Bellows. Depois, os fiz atacarem a casa e os animais. — Sullivan explicou, olhando com desprezo para Bellows e em seguida para o pistoleiro, que ouviu tudo aquilo com um discreto sorriso — Mas vejo que o senhor ainda não acredita em mim.

— Nada disso. — Hex replicou, balançando a cabeça, enquanto procurava por cigarro e fósforo nos bolsos — Só acho que cê tem tomado muito uísque pra ficar conversando com fantasmas.

Arthur Sullivan nada disse. Afastou-se alguns passos do pistoleiro, cerrou os punhos e começou a sussurrar algo. O murmúrio aumentou de volume, transformando-se em frases estranhas misturadas ao hálito condensado que saía dos lábios do ex-soldado, como se fosse inverno dentro da casa.

Um zumbido preencheu a sala e, quando o cigarro recém-aceso de Hex apagou com uma lufada de vento, sombras apareceram nos cantos do cômodo. Lentamente, elas dirigiram-se ao redor de Sullivan, ganhando substância e formando os perfis de seis distintos homens de faces macilentas e tristes, vestidos com os uniformes cinzentos de soldados Confederados.

— Estes são meus irmãos de guerra! — Sullivan falou, acercando-se novamente de Hex e mostrando os soldados cujos olhos brilhavam de ódio. Em seguida, voltou-se para Bellows — Aguardei dez longos anos por esse momento, capitão.

— Espere, por favor! Podemos resolver isso como homens civilizados! — gaguejou Bellows, olhos arregalados ante as aparições. Trêmulo, ele se dirigiu à uma gaveta, de onde tirou uma pequena caixa de madeira. Acomodando-a sob o coto direito, retirou dela um maço de notas verdes. Desesperado, agitou-as para Sullivan — Pegue esse dinheiro! É todo seu, mas não me machuque, por favor!

A resposta do veterano soldado veio rápida, na forma de um escarro no rosto de Bellows. Este abaixou a cabeça, limpando o rosto e devolvendo o maço para a caixa. Depois, com um gesto rápido, tirou do fundo dela uma pequena pistola prateada de um tiro só, apontando-a para Sullivan e disparando. O projétil atingiu o estômago do homem que, surpreso, cambaleou para trás e desabou no assoalho. Ao mesmo tempo, Hex viu os espíritos dos seis soldados, aparentemente desorientados, desvanecerem no ar como fumaça.

Bellows jogou a derringer (*) descarregada de lado e aproximou-se de Sullivan, que agonizava.

— Nunca deveria ter deixado este bastardo escapar. — o ex-comandante disse, fôlego recuperado. Em seguida, virou-se para Hex — Você entende que eu fui forçado a fazer aquilo tudo, não é, Hex? Minha família estava quase na miséria, eu precisava do dinheiro que os ianques me ofereceram! Nós íamos perder a guerra de qualquer maneira!

O pistoleiro não respondeu, apenas encarou duramente o outro homem. Na sua opinião, um traidor como Bellows, que matara seus soldados em troca de dinheiro, não merecia compreensão.

— Que decepção. — Bellows suspirou, retirando da cintura de Sullivan uma das armas de Hex — Você teria um grande futuro ao meu lado. Pensei até em lhe dar um emprego de capataz aqui na fazenda. Mas agora que sabe desse segredo do meu passado, não posso correr o risco de você abrir a boca e manchar a minha reputação perante o povo de Hills Grove. — e engatilhou a Colt, apontando-a para o pistoleiro.

Mas ele não completou o gesto. Uma terrível dor gelada atacou repentinamente o coto do seu braço direito, levando Bellows a urrar. Hex viu a manga direita da camisa de Bellows, até então dobrada na altura do ombro, agitar-se como se tivesse vontade própria. O tecido da camisa foi rapidamente tomando forma e volume, preenchendo o espaço outrora vazio para moldar um perfeito braço que, ante o olhar perplexo do seu dono, agarrou a pistola na mão esquerda de Bellows, jogando-a no chão com um safanão.

Uma risada soou atrás de Bellows. Sullivan levantava-se com dificuldade, o sangue jorrando do seu ferimento enquanto balbuciava algo em uma língua estranha. Bellows sentiu os pêlos do seu corpo arrepiarem quando os seis soldados reapareceram de repente ao seu redor, caminhando em sua direção.

— Saiam daqui! — ele gritou, sem resultado, o círculo de espíritos se fechando mais e mais. Logo Bellows viu-se acuado em um canto da sala e, com seu braço esquerdo imobilizado pelo forte aperto do seu "membro fantasma", gritou para Hex — Faça Sullivan parar com isso, por favor! Fique com todo o meu dinheiro, mas me ajude!

Jonah Hex, conseguindo acender o cigarro dessa vez, disse:

— Só vou pegar o que cê me deve. Pode ficar com o resto. — e retirou um maço da caixa de madeira jogada no chão — Se bem que, para onde cê tá indo, dinheiro vai ser a última das suas preocupações.

Mas Cedric Bellows já não escutava mais nada.

O pistoleiro, após recolher suas armas, caminhou na direção de Sullivan que, com um débil sorriso, morrera, vendo sua vingança finalmente cumprida. Hex deixou a sala e, selando seu cavalo, partiu o mais rápido possível de Hills Grove, a fim de evitar maiores problemas.

Um pouco antes do amanhecer, cavalgando por uma estrada de terra batida, Jonah Hex teve a estranha sensação de que era espionado por alguém. Virando o corpo, viu sete pálidas figuras vestidas de cinza na beira da estrada, o observando com atenção. Balançando a cabeça, o pistoleiro cravou as esporas no cavalo, apressando a marcha em direção ao oeste.

No próximo número: Não deixe de acompanhar as aventuras de Jonah Hex pelas pradarias mais empoeiradas e assombradas do Velho Oeste.

:: Notas do Autor

(*) Usada por John Wilkes Booth no assassinato do presidente Lincoln, a Derringer é uma pequena pistola de antecarga criada pelo armeiro Henry Derringer Jr. Eventualmente, era usada por assassinos do Oeste por sua facilidade em ser escondida por debaixo da manga da camisa.



 
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