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Jonah Hex # 03

Por Marcelo Augusto Galvão

A Segunda Chance de um Homem

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— Pai, tem um homem morto na nossa porta! — o menino gritou, entrando na casa e correndo em direção de Frank Webster. Este, trocando um rápido olhar com a esposa, tirou das mãos dela o cutelo que usava para preparar a carne do almoço.

— Fiquem aqui. — e segurando com firmeza o cutelo, dirigiu-se com passos rápidos até a entrada da pequena casa onde ele e sua família moravam, em um rancho simples no Novo México.

Um homem encontrava-se jogado ao solo, de bruços, a poucos metros da entrada, sangue escorrendo de um ferimento da cabeça, empapando os cabelos ruivos encardidos. Sua roupa estava coberta também de sangue, bem como de terra e sujeira. Na cintura, o estranho levava duas Colts. Aproximando-se com cautela e com o cutelo pronto, o rancheiro cutucou com a ponta da bota as costelas do homem, procurando por um sinal de vida. Sem resposta, ele repetiu o gesto, com mais força.

— O que está fazendo? — uma voz soou atrás de Webster.

— Não falei pra vocês ficarem dentro de casa? — ele replicou para a esposa, que, junto com o filho, observava o rancheiro da soleira da porta.

— É melhor levar esse pobre homem pra dentro e...

— Não! — Webster interrompeu bruscamente a esposa — Não sabemos quem ele é, pode ser perigoso.

— Ora, talvez eu devesse ter pensado a mesma coisa sete anos atrás, quando encontrei um certo homem ferido na minha porta, implorando por ajuda.

— Chega! — ele se descontrolou, visivelmente constrangido pela esposa ressuscitar aquele assunto na frente do filho — Tá bom, vamos virar ele. Jake, ajude sua mãe.

Prontamente, o garoto obedeceu o pai para, em seguida, gritar assustado de novo, ao ver as horríveis cicatrizes que desfiguravam a face do estranho, fazendo com que seu olho direito, inútil e desbotado, encarasse o menino.

No meio das trevas, Jonah Hex sentiu algo frio e pegajoso encostar na sua testa. Um calafrio percorreu seu corpo. Com dificuldade, abriu seu olho esquerdo e imediatamente percebeu que estava deitado em algum lugar. Uma mancha indefinida dançava à sua frente, enquanto Hex lutava para lembrar-se do que havia ocorrido. Aos poucos, o borrão se definiu como um rosto angelical de olhos azuis que, num tom suave, disse:

— Puxa vida, como você é feio!

Piscando para limpar a visão, o pistoleiro viu uma criança observando-o com curiosidade.

— Jake, o que você está fazendo com o moço? — perguntou uma voz feminina, surgindo no ambiente.

— Eu só tava cuidando dele, mãe! — replicou o garoto, sumindo de vista e sendo substituído por uma jovem mulher loira, que tirou um lenço úmido da testa de Hex.

— A febre diminuiu. Isso é bom. — ela comentou.

— O que aconteceu? — Hex resmungou, tentando levantar e sentindo um curativo em volta do crânio — Parece que uma manada de búfalos estourou dentro da minha cabeça.

— É melhor ficar deitado. O senhor levou um tiro de raspão, mas mesmo assim perdeu muito sangue. — a mulher falou, ajudando Hex a se encostar no colchão de palha. Acomodando-se, o pistoleiro percebeu que estava em um quarto simples de uma casa feita com troncos, uma típica moradia na fronteira. Também notou que não vestia seu velho uniforme.

— Minhas roupas...

— Elas precisavam de uma boa água. Por enquanto, pode usar as roupas de Frank. Sorte sua que vocês são quase do mesmo tamanho.

— Quem é Frank? — perguntou, ainda confuso.

— É meu marido. Eu sou Amy Webster e acho que já conhece Jake. — e apontou para o menino loiro sentado em um canto do cômodo — Foi ele que encontrou o senhor, dois dias atrás.

— Dois dias?! Tenho muita coisa pra fazer. Num posso mais ficar.

— Seria melhor se consultar com o Dr. Swan, lá na cidade, antes de partir. Ele foi visitar uns parentes no Texas e deve voltar amanhã. Assim, é bom se alimentar primeiro. — e Amy entregou uma tigela com guisado para Hex. O cheiro da comida imediatamente abriu seu apetite.

— Tô vendo que nosso visitante já acordou. — disse um homem alto, de rosto redondo e cabelos rareando no topo da cabeça, entrando no quarto.

Amy levantou-se para apresentar:

— Frank, este é o senhor...

— Hex. Jonah Hex. — o pistoleiro falou, com a boca cheia.

— O que tava fazendo por esses lados, senhor Hex? — o rancheiro perguntou, sem rodeios.

— Tava caçando.

— Verdade? — o rancheiro franziu o cenho — Pois encontrei um appaloosa selado pastando por perto. Acredito que seja seu, mas num vi ele carregando nenhum tipo de caça ou armadilha.

— Eu caço um outro tipo de bicho. — explicou Hex, entre duas colheradas — Sou caçador de recompensas.

Frank e Amy trocaram um olhar preocupado, que Hex não pôde deixar de notar. Não era surpresa: caça-prêmios eram sinônimo de encrenca, sendo raramente bem-vindos em qualquer lugar, muito menos no lar de uma família. Isto ficou claro quando Amy ficou séria e Frank mandou o garoto brincar do lado de fora.

— Tô caçando um bando de ladrões de gado que tá atacando nessa região. — continuou Hex — Tava no rastro deles, mas os bastardos me emboscaram numa ravina perto daqui. Me acertaram e acabei rolando por uma ribanceira. Depois disso, só lembro de me arrastar por um bom pedaço até ver fumaça saindo de uma chaminé. Acho que foi então que o seu menino me encontrou.

O rancheiro trocou outro olhar com a esposa, aparentemente mais tranqüilo, e após alguns segundos disse, secamente:

— Se é assim, espero que fique bom logo. Seu cavalo tá lá no meu estábulo, pronto pra partir quando quiser. Agora se me dá licença, tenho mais o que fazer.

— Peço desculpas pelo meu marido, senhor Hex. — Amy falou, depois de o rancheiro deixar o cômodo — Não temos muitas visitas e estamos enfrentando alguns problemas. Desse jeito, Frank acaba por esquecer os bons modos.

— Num precisa se desculpar. Já tá na hora de eu seguir meu caminho. — o caçador replicou, ao mesmo tempo em que escutou o som de cascos vindo do lado de fora. Em seguida, a voz irada de Frank surgiu:

— O que tão fazendo na minha propriedade? Saiam!

Risos soaram como resposta. Hex, sob os protestos de Amy, caminhou vagarosamente até a janela, o corpo todo dolorido. Espreitando por um buraco no pano que servia de cortina, o pistoleiro viu Webster segurando um forcado, defronte cinco homens montados e armados com revólveres. O rosto de Hex iluminou-se:

— São eles! Os gambás que me emboscaram! — e olhando em volta no pequeno quarto, perguntou — Onde estão minhas armas?

— Meu marido não gosta de armas de fogo dentro de casa. — Amy revelou — Elas estão guardadas em um lugar seguro.

— O quê?!

Lá fora, o líder do bando, um rapaz grande e de pele bronzeada identificado por Hex como Tom Clement, desmontou e deu um passo adiante:

— Deixa de besteira, Webster. Você sabe muito bem que essa terra não é propriedade sua. A gente tá procurando um sujeito alto, cabelo ruivo, vestido como se ainda tivesse na guerra. Ele deve tá ferido e, além disso, é feio feito um cão sarnento.

— Não vi ninguém por aqui! — Webster mentiu — Agora vão embora!

O bando riu de novo, mas o líder ficou sério:

— Você tá começando a me irritar, homem. — avisou, colocando a mão no revólver que levava na cintura — Tô aqui também pra lembrar que a proposta do senhor Klondike se esgota hoje à meia-noite.

— Seu patrão já sabe a minha resposta há muito tempo! — e o rancheiro brandiu o forcado na direção do bandido.

— Sabe, eu poderia te matar nesse mesmo minuto, na frente do teu garoto. — Clement ameaçou — Mas acho que um posseiro como você num vale o preço de uma bala.

Dizendo isto, o rapaz montou seu cavalo e puxou as rédeas, preparando-se para ir embora. Com um gesto rápido, entretanto, desferiu um chute no rosto de Webster, que se estatelou no chão.

— Por outro lado, acho que você vale um belo de um pontapé! — disse Clement, rindo junto com seus camaradas e partindo do rancho numa nuvem de poeira, deixando Frank Webster humilhado em frente a sua família.

Os lábios inchados de Webster doíam em contato com a sopa do jantar, mas ele, orgulhosamente, não demonstrava dor. Ou pelo menos tentava, já que, do outro lado da tosca mesa, o único móvel da humilde cozinha, Hex examinava com atenção o rosto machucado do rancheiro, enquanto limpava o fundo do prato com um pedaço de pão.

— Mais um pouco? — Amy quebrou o silêncio na mesa, indicando a panela.

Hex balançou a cabeça, recusando:

— Cês já fizeram muito por mim. Quero partir pela manhã pra ir atrás do bando de Clement. — e em seguida virou-se para Frank — Mas pra isso eu preciso das minhas armas.

— Elas serão devolvidas, fique tranqüilo. — Webster respondeu — Armas de fogo não me interessam.

— Notei isso hoje de tarde... — Hex replicou, limpando a boca na manga da camisa — Pena que um forcado de nada adianta contra esses arruaceiros armados. Clement não é apenas um ladrão de gado, também é acusado de assassinato. Ele e o bando tão apenas interessados em quem puder pagar mais pelo serviço deles. Esse tal de Klondike, por exemplo. Quem é ele?

Frank Webster permaneceu quieto, sorvendo com cuidado sua sopa.

— É o homem mau que quer a nossa casa! — disse Jake, do seu canto na mesa.

— Quieto, menino!

— Mas, papai, foi você que falou...

— Não vou repetir! — ante a advertência, o garoto se encolheu, abaixando a cabeça.

— É isso que ele quer? Seu rancho?

— Carlton Klondike é o que o pessoal chama de "barão de terras". — Webster explicou, empurrando seu prato para o lado — Ele é um criador de gado que chegou no condado há uns dois anos. Começou comprando as terras dos rancheiros atolados em dívidas com os bancos. Com o passar dos meses, foi aumentando sua propriedade e o gado. Hoje em dia, ele é praticamente dono de todo o condado.

Amy, recolhendo os pratos, continuou a explicação:

— Meus pais vieram pra cá quando eu era um bebê, junto com meus dois irmãos, pra se estabelecer nessas terras cedidas pelo governo. Vivíamos bem, até meus irmãos se alistarem na guerra e morrerem em batalha. Mamãe adoeceu com a notícia e morreu algumas semanas mais tarde. Logo depois foi a vez de meu pai. — ela disse, uma expressão de tristeza no rosto — Acabei sozinha aqui e pensei em mudar para o leste. Mas então encontrei Frank e decidi ficar. — completou, sorrindo para o marido.

— Até a chegada de Klondike, nunca tivemos problemas. Ele fez várias propostas para a compra do rancho, mas nunca aceitamos.

— E agora ele resolveu ameaçar vocês.

O rancheiro concordou:

— Faz uns dias que esse bando apareceu, dizendo que se eu não aceitasse a proposta de Klondike, alguma coisa ruim aconteceria comigo ou com minha família. Não temos a quem recorrer. Ele é uma figura poderosa na região.

— E sem uma arma, cê não pode fazer muita coisa.

— Deixei de acreditar em armas há muito tempo, senhor Hex. Mas não se preocupe, terá suas pistolas amanhã para fazer o que quiser. — Webster assegurou.

Jonah Hex, vestindo novamente seu uniforme cinza, encontrou o rancheiro plantando sementes no solo recém-arado, sob o sol da manhã. Frank Webster interrompeu seu serviço:

— 'Dia, senhor Hex. Acordou cedo.

— Já perdi muito tempo. Quanto mais cedo eu pegar aquele bando, melhor pra todos. — respondeu o caçador. Para Hex, a captura dos bandidos não era apenas uma questão de dinheiro, mas também de orgulho ferido.

— Está certo. Venha comigo. — dizendo isto, Webster atravessou seu rancho, sendo seguido por um lento Hex, mancando devido aos ferimentos. Após alguns minutos de caminhada, chegaram a um casebre, no fim da propriedade.

— Esta aqui foi a primeira casa que os pais de Amy construíram. A terra nessa parte não é muito boa. — ele bateu com a bota no solo, como para provar o que havia dito — Como a família cresceu, eles levantaram aquela outra casa. Agora uso essa como depósito.

Webster entrou e enquanto remexia nas coisas, comentava:

— Eu e Amy cultivamos essa terra, durante esses anos todos. De repente, aparece um homem que nos chama de posseiros, quando na verdade essa terra pertence a Amy e ao meu filho. — e saiu com as duas Colts, entregando-as para seu legítimo dono.

— Um homem como você tem que proteger a família. — Hex falou, conferindo as balas no tambor — Se num reagir, Klondike ou qualquer outro vai tirar tudo que cês tem. — completou, mirando fixamente o rancheiro.

— Não posso. — o outro respondeu, baixando a cabeça para evitar o olhar penetrante do pistoleiro. Aquele era um gesto que Hex vira inúmeras vezes, pois, afinal, não eram todos que tinham estômago para encarar as cicatrizes do seu rosto. Desta vez, entretanto, Hex sabia que era diferente:

— Que estranho. Pra quem assaltou e matou sem piedade tantas vezes, cê mudou muito.

Webster empalideceu:

— Não sei do que você está falando...

— Nessa minha profissão, a gente tem que ter uma memória danada de boa, pra lembrar de tanta gente procurada. — Hex disse, guardando as armas na cintura — Desde ontem que eu tentava me lembrar de onde tinha visto essa sua cara. — indicando o rancheiro, o caçador de recompensas aproximou-se — As pessoas podem engordar, tirar a barba, ficar careca ou envelhecer, mas eu nunca esqueço da fuça de alguém estampada nos cartazes de "procurados".

O rancheiro deu alguns passos para trás, engolindo em seco.

— Frank "Sangue-Frio" McAllister. Era assim que te chamavam, quando fazia parte da quadrilha dos irmãos Williams.

Webster retrocedeu mais um pouco, até encostar numa das paredes do casebre e perceber que estava encurralado.

— Isso foi há muito tempo...

— É, mas os texanos num têm memória curta. Cê ainda tá com a cabeça a prêmio por lá.

— Eu nem sei mais por onde andam os Williams...

— Bom, eles participaram de uma festa em homenagem deles, três anos atrás. Usaram umas gravatas de corda neles perfeitas pra ocasião. Fui eu quem resgatou a recompensa pelos dois. — Hex revelou, mãos no cinturão.

— Eu não sou o mesmo homem de antes! — Webster falou, a roupa encharcada de suor — Aquele rapaz estúpido que machucou tantas pessoas. Minha esposa me mostrou o quanto eu estava errado. Deixei aquela vida de crimes pra trás.

Hex abriu a boca para falar quando o som de estampidos foi ouvido, trazido pelo vento.

— O que é isso? — perguntou Frank Webster. Ele mesmo, no entanto, respondeu sua pergunta — Não! São os homens de Klondike!

E saiu correndo, sem se importar com Hex; sem outra opção, o pistoleiro seguiu Webster, tentando acompanhá-lo e praguejando a cada pontada de dor na perna ferida.

Hex chegou na casa ainda em tempo de ver o bando fugir, disparando tiros para o alto. Caída inconsciente no solo, Amy Webster sangrava, com o pequeno Jake chorando desesperado ao seu lado, enquanto Frank Webster gritava pelo nome da esposa.

As primeiras estrelas surgiam no céu quando Webster e o médico finalmente deixaram a casa, observados por Jonah Hex.

— Fiz tudo que podia fazer, Frank. Sinceramente, não sei se ela passa de hoje. — disse o doutor Swan, guardando o estetoscópio na maleta. Após chegar na casa e ver a mulher sangrando, Hex improvisara um torniquete para estancar o ferimento. O rancheiro, selando um cavalo, correu o mais rápido para a cidade, voltando uma hora depois com o médico, que passara o dia todo ao lado de Amy Webster.

Enquanto o médico voltava para o quarto, Jonah Hex, que até o momento escutara a conversa em silêncio, aproximou-se:

— Sinto muito.

— Foi Amy que mudou a minha vida. — Webster disse, o rosto tenso — Sete anos atrás, eu e o resto do bando fomos surpreendidos por caça-prêmios. Trocamos tiros com eles, fiquei bastante machucado, mas consegui fugir. Cavalguei durante dias até encontrar uma casa. Era esta casa.

Ele fez uma pausa, olhos fixos em algum ponto no passado. Com a voz embargada, falou:

— Amy estava sozinha, mas me abrigou. Éramos só nós dois, ela cuidando de mim e eu cuidando dela, sozinha no mundo. E mesmo quando soube da minha história, ela não me expulsou. Nos casamos e no momento em que meu filho nasceu, percebi que podia ter uma nova chance, numa vida sem crime. Amy me fez prometer que eu não tocaria numa arma de fogo de novo. E agora, ela está... — ele não completou a frase.

— Tenho que ir. — Hex se manifestou, ante o silêncio do homem — Num sei o que Clement e seu bando podem ter aprontado.

— Não vai me prender? — perguntou Webster, surpreso.

Hex balançou a cabeça:

— Cês me ajudaram quando eu precisava. Fico devendo esse favor. No momento, só quero agarrar aqueles safados. — e seguiu, mancando, em direção do seu cavalo.

— Se é assim — gritou o rancheiro — tô cobrando o favor agora! Me leve junto com você, eles precisam pagar pelo que fizeram com minha família. Além disso, você ainda tá muito fraco pra lutar sozinho.

O pistoleiro se virou, ponderando durante alguns segundos as palavras de Webster. Em seguida, sacando rápido a Colt, Hex a apontou para o rancheiro:

— Num abusa da minha paciência, moço. — e virou a arma, colocando-a na mão de Webster. — Vê se num atira na cara dele. Com a fuça estraçalhada, fica difícil eu convencer o xerife de que aquele sujeito é o mesmo do cartaz.

E dizendo isto, Hex se dirigiu ao estábulo.


No próximo número: Acompanhe a ira implacável de dois homens em busca de um acerto de contas violento e definitivo.



 
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