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Jonah Hex # 04

Por Marcelo Augusto Galvão

A Segunda Chance de um Homem
Parte Final

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Uma pálida lua cheia iluminava o rancho de Carlton Klondike, uma propriedade que ocupava vários acres de terra. Uma extensa cerca de madeira rodeava o rancho que abrigava dezenas de cabeças de gado, amontoadas em um curral. Próxima dali, encontrava-se a casa principal, uma construção de um só andar. Suas janelas brilhavam com a luz interior de lampiões, indicando o movimento de seus ocupantes que, sem saber, eram observados por dois homens neste momento.

Escondidos na vegetação que cercava o rancho, Jonah Hex e Frank Webster espreitavam a casa, planejando a melhor maneira de invadir a propriedade, ainda que tivessem motivos diferentes. Hex era um caçador de recompensas que fora emboscado quando perseguia o bando de Tom Clement, um ladrão de gado; ferido, encontrou abrigo na casa de Webster. Este, por sua vez, era um antigo pistoleiro — conhecido como "Sangue-Frio" McAllister — agora convertido em um pacífico rancheiro, que vinha sendo ameaçado por Klondike, interessado nas suas terras. Horas atrás, Clement e seus homens, a serviço de Klondike, haviam ferido mortalmente a esposa de Webster. Atormentado, o homem decidira armar-se outra vez e buscar vingança, deixando a moribunda Amy Webster aos cuidados do filho e de um médico.

Hex, com um curativo em volta da cabeça, virou-se para Webster e falou em voz baixa:

— Vamos emboscar eles. Eu vou pela frente e você pelo outro lado. Assim, eles num vão ter pra onde fugir.

— Primeiro temos que tirar eles da casa. — o rancheiro replicou, com uma voz gélida como o relento que começava a se formar, enquanto segurava novamente uma arma, após tantos anos. Neste caso, a Colt .44 emprestada de Hex. Tal mudança não passara despercebida por Hex, que o encarou com firmeza por um segundo, antes de responder:

— Num se preocupe com isso. Eu já sei o que fazer.

Como todos aqueles que haviam passado a maior parte da sua vida sobre o lombo de um cavalo, Carlton Klondike tinha as pernas arqueadas, uma característica física típica de um cowboy. Durante quase dez anos, ele levara centenas de cabeças de gado entre as diversas trilhas que cruzavam o Oeste, do Oregon até o Texas, passando pela Califórnia e o Kansas. Um dia, deu-se conta de que podia ganhar muito mais dinheiro se, ao invés de guiar gado de outros homens, passasse a roubá-los e vendê-los para os mexicanos. E assim, decidiu montar um bando com outros homens que compartilhavam de sua linha de pensamento.

Em pouco tempo, Klondike conseguiu juntar dinheiro, mas ao contrário de seus outros colegas, que preferiam perder o dinheiro no pôquer ou em um bordel, o ex-cowboy percebeu que o que realmente tornava um homem rico por aqueles lados era terra e gado. Foi quando encontrou aquele condado decadente no Oklahoma, quase na fronteira do Texas, e decidiu diversificar suas atividades. O lugar era perfeito, bem no meio de uma das principais trilhas de gado, passando por vários ranchos em terras que haviam sido cedidas pelo governo durante a expansão para o oeste, e que serviam com perfeição ao seu propósito. Aos poucos, Klondike comprou com seu dinheiro sujo as propriedades de homens desesperados com dívidas de banqueiros gananciosos, tornando-se aos poucos um barão de terras. E quando sua estratégia falhava, ele apelava para os serviços de gente como Tom Clement.

— Fizeram um bom trabalho, rapazes. — Klondike disse, distribuindo todo o conteúdo de uma garrafa de uísque nos copos de Clement e de seus quatro companheiros. Após brindar, continuou — Agora, aquele teimoso do Webster vai aprender a não se meter comigo.

Os cinco homens ao redor do rancheiro riram com satisfação, já levemente embriagados, concordando com o seu patrão. Seus sorrisos, no entanto, murcharam quando um estampido soou lá fora.

— Mas que diabos é isso...? — perguntou o ex-cowboy. Agarrando uma lamparina, ele abriu a porta da casa. Um barulho ensurdecedor, como o estrondo de um prolongado trovão, preenchia o ar. Acompanhado pelos outros homens, Klondike viu uma nuvem aproximar-se: seu precioso rebanho, completamente descontrolado, vinha em sua direção.

— O gado está solto! — gritou, os olhos azuis arregalados, para Clement — Façam alguma coisa!

Um dos homens de Clement obedeceu rapidamente, levantando e balançando os braços como se tal gesto pudesse de alguma forma acalmar os animais. Outro estampido soou e o homem caiu no chão, com o joelho sangrando.

— É uma emboscada! Protejam-se! — alertou Tom Clement — Rick, saia daí! — gritou para o companheiro ferido. Seu aviso, entretanto, perdeu-se no meio do ribombar de dezenas de cascos e da nuvem de poeira que cobriu o corpo do rapaz.

Mais um disparo ecoou na noite e a lamparina na mão de Klondike estourou. Ele e os outros espalharam-se, procurando proteção. Klondike agachou-se, na tentativa de descobrir onde estava o atirador, e viu uma figura a vários metros de distância, iluminada pela lua. Imediatamente, ele reconheceu Frank Webster.

— Aquele posseiro desgraçado tem a coragem de invadir meu rancho! — e, com ódio, o rancheiro sacou seu revólver, pronto para disparar. Mas o gado, passando em frente da varanda, jogou nele pó e cascalho, fazendo-o perder a mira.

Próximo ao curral, Jonah Hex viu a boiada abrir caminho e destroçar tudo pela frente. Como havia previsto, seu plano de assustar o gado com o disparo de arma e depois abrir a porteira fizera Clement e o resto sairem da casa.

Esgueirando-se, o pistoleiro avançou com a Colt em punho até uma árvore próxima dali, aproveitando a nuvem de poeira como cobertura. De lá, Hex localizou um dos bandidos escondido perto de um barril, também tentando descobrir quem estava atacando o rancho. O tiro de caçador foi certeiro e o homem caiu imóvel no chão, sem nunca saber o que lhe havia atingido.

O disparo acabou por trair a localização de Hex e logo balas zuniram ao seu lado. Outro criminoso, encostado na parede dos fundos da casa, descarregava seu revólver na sua direção. Hex contou os tiros, esperando pacientemente a arma silenciar para que fosse recarregada. Então, saltou de seu esconderijo, atirando. Desta vez, a arma do fora-da-lei ficou em silêncio para sempre.

Seu próximo alvo era o homem responsável pelo seu repouso forçado nos últimos três dias. E, como a maioria dos criminosos que Hex conhecera, Tom Clement era um covarde que ao ver-se numa situação desfavorável fugiria sem pestanejar.

Do outro lado do rancho, Webster apontava a Colt fumegante para um rapaz caído no chão.

— Não me mate, por favor... — ele implorou ofegante, o ombro sangrando em profusão. Ao seu lado, repousava o rifle com o qual tentara atingir Webster, sem sucesso.

O ex-pistoleiro mirou fixamente os olhos apavorados do rapaz, mal saído da adolescência. O bandido devia ter a mesma idade com a qual Webster começara sua vida de crimes, muito tempo atrás. Um misto de repugnância e vergonha lhe tomou conta, quando percebeu como se enganara durante todos aqueles últimos anos. Ele havia pensado que seu passado violento fora morto e enterrado graças ao amor de sua adorada Amy, tendo assim uma segunda chance na sua vida; agora, ele via como estava errado.

— Eu não atirei na sua mulher! — o jovem bandido disse — Foi o Tom, eu juro, foi ele! A gente só fez o que o senhor Klondike mandou!

— Onde está Klondike?

— Eu não sei! — o rapaz balbuciou. Webster engatilhou a Colt e o bandido mudou de idéia — E-e-eu vi ele e Tom indo pros estábulos!

Webster estreitou os olhos e encarou friamente o rapaz no chão:

— Vocês trabalham para Klondike. São tão responsáveis quanto ele. — e disparou à queima-roupa no peito do bandido.

Enfiando a Colt no cinto da calça, Webster pegou o rifle caído. Era um Henry de 16 tiros, do mesmo tipo que usara nos seus dias de violência. Verificando que estava carregado, dirigiu-se com o rosto impassível aos estábulos.

O tiro zuniu perto de Hex, arrancando um pedaço de madeira da baia vazia onde o caçador abrigava-se. A luz da lua entrava pela porta da estrebaria, a única entrada e saída, iluminando parcialmente o local. Encurralado no final da construção, Clement atirava. Ao seu redor, os cavalos relinchavam nervosos em suas baias, apavorados tanto quanto ele.

Do seu abrigo, Hex escutou o bandido selar um cavalo, preparando-se para fugir dali. Como não estava disposto a perder o rastro de Clement, Hex pulou por cima da baia e rolou pelo chão. O bandido percebeu o movimento e revidou, mas suas balas apenas abriram mais buracos nas paredes. Hex apoiou-se em um joelho e disparou. Um pequena centelha acendeu-se na penumbra, quando a bala atingiu o cabo da arma de Clement, que a soltou com um gemido de dor.

— Maldito seja, Hex! — ele disse por entre os dentes, segurando o pulso direito — Me deixa em paz!

— Sou que nem um carrapato, Clement: só desgrudo quando vejo sangue! — respondeu, levantando-se. Hex não deu nem dois passos quando sentiu seu único olho embaçar e as pernas tremerem. Com um grunhido, ele balançou a cabeça, tentando clarear a visão e notando que algo estava errado. Clement também percebeu, e jogou-se para pegar de novo sua arma.

Mas Hex foi ligeiro: o Colt berrou três vezes e Clement caiu, fazendo uma pequena nuvem de poeira subir em sua volta.

O caçador respirou fundo, recuperando o fôlego. Algo quente escorria pela sua têmpora, descendo pelo rosto; era o sangue do seu curativo. Hex percebeu, a contragosto, que ainda não estava totalmente recuperado. Depois de recolher a recompensa pelo bando de Clement, ele tiraria uma folga.

Um toque metálico frio na nuca interrompeu seus pensamentos. Hex soube imediatamente que estava sob a mira de um revólver.

Frank Webster caminhou vagarosamente em direção da estrebaria, sentindo o peso do rifle nas mãos. O ex-pistoleiro passou pela entrada, notando os cavalos agitados. Alguns metros adiante, Tom Clement fitava com olhos vazios o teto.

— Fique onde está, Webster, ou seu amigo feioso morre! — Klondike disse, aproximando-se com Hex, o revólver encostado no pescoço dele. O sangue escorria do ferimento, deixando uma trilha vermelha no rosto desfigurado do caçador. Webster olhou primeiro para Klondike, depois para Hex e, após um segundo, voltou a encarar o barão de terras. Em seguida, encolhendo os ombros, replicou:

— Não me importo. Ele é um caça-prêmios e eu não tenho amizade com essa gente. Hex arregalou o olho, sussurando um palavrão. Webster continuou, levantando o rifle:

— Você feriu minha mulher, Klondike. Agora deve pagar pelo que fez.

— Deixe de besteira! — o rancheiro gritou — Nada disso teria acontecido se você não fosse tão cabeça-dura! Saia daqui!

O ex-pistoleiro permaneceu no lugar, encostando calmamente o cabo do rifle no ombro e fazendo mira. Klondike, por outro lado, praguejou e apontou o revólver para Webster, ao mesmo tempo em que empurrava Hex para frente.

Webster disparou e Klondike tombou violentamente para trás, arrebentando uma prancha de madeira de uma baia. O ex-pistoleiro aproximou-se e viu Klondike gemendo e debatendo-se no esterco, próximo de um apavorado cavalo. Seu tiro acertara o lado direito do peito de Klondike, errando Hex por poucos centímetros.

— Seu filho de uma égua, você teve a coragem de me acertar... — Klondike balbuciou, enquanto tentava colocar-se de pé, sem sucesso — Não esperava isso, vindo de um covarde...

O outro homem engatilhou o rifle. Klondike continuou, arregalando os olhos:

— Eu estou morrendo, tudo por sua culpa! Espero que a sua alma apodreça no inferno!

— Pois então diga pro chifrudo que ele me aguarde mais um pouco. — e encostou o cano do rifle na cabeça de Klondike. Pela última vez naquela noite, os cavalos relincharam assustados. Webster voltou-se e deparou-se com Hex.

— Cê podia ter me acertado, sabia disso?

Webster fez um muxoxo:

— Na verdade, eu tinha mirado na cabeça dele. Preciso me acostumar de novo com essa arma.

Dizendo isto, Webster sacou a Colt .44 e a devolveu para Hex, que ao ver aquele homem sair imperturbável do local, concluiu que ele fazia jus ao apelido de "Sangue-Frio".

Faltavam poucas horas para o sol nascer quando os dois homens aproximaram-se do pequeno rancho de Webster. Este seguia na frente, enquanto que Hex, montado em seu appaloosa, puxava dois cavalos carregando os corpos de Clement e seu bando.

A porta da casa se abriu e na soleira surgiu o doutor Swan. Um pequeno vulto passou correndo por ele, avançando em direção do cavalo de Webster. Lágrimas escorriam do rosto de Jake Webster quando ele abraçou com força o pai. Depois de alguns segundos, Webster afastou-se do garoto e aproximou-se do caçador, falando em voz baixa, os olhos marejados:

— Prometo que deixo você me entregar pras autoridades depois que eu enterrar minha mulher. Só peço que não me prenda na frente do menino. Por favor.

Hex o fitou em silêncio. Ele podia prender o ex-pistoleiro agora mesmo e levá-lo para o Texas, onde ele seria enforcado no dia seguinte. Mas aquele homem e sua família haviam salvo sua vida por duas vezes. Além disso, Frank Webster teria a dura tarefa de criar aquele garoto.

— Quero ver se chego no Texas antes que Clement comece a feder. — Hex replicou, escarrando e dando as costas para o rancheiro, seguindo seu caminho por uma poeirenta estrada e esperando que aquela fosse a última vez em que Frank "Sangue-Frio" McAllister mataria alguém na sua vida.



 
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