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Vingadores # 02

Por Délio Freire

O Quarto Poder

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Billy Batson anda rapidamente pelo corredor principal da Mansão dos Vingadores quando esbarra violentamente com uma mulher ligeiramente despenteada, apressada, carregando um microfone e seguida por um cameraman negro e gordo. Ambos se entreolham, ligeiramente surpresos e agitados.

— Billy? Não sabia que as rádios também estavam cobrindo a crise nos Vingadores.

— Diacho, Trish. Depois conversamos.

Ele acelera ainda mais o passo, dando um pequeno aceno de despedida. Embora ache Trish Tilby linda e desse tudo para conversar com ela, sabia que era hora de dar prioridade ao trabalho. Iria entrar no ar em poucos minutos e precisava achar um dos novos Vingadores para uma entrevista. Além do mais, é mais fácil seu alter-ego ter qualquer chance com a repórter do que ele, um adolescente. Perdido em divagações, o jovem toma um susto quando vê uma forma humanóide atravessar a parede e se dirigir a ele.

— Pois não, garoto. Em que posso ajudá-lo?

— Err... você é o Visão, certo?

— Normalmente, sou.

— Bem, meu nome é Billy Batson. — ele mostra uma credencial, estende uma das mãos, mas não encontra retorno no cumprimento — Sou da rádio WHIZ e tenho que fazer uma entrevista com um dos novos Vingadores. Todos já chegaram para a entrevista coletiva? Teria como um deles falar comigo antes para a rádio?

Enquanto fala, Batson espera encontrar algum sinal, uma expressão que demonstre os pensamentos do Visão. Não percebe nenhum sinal de vida no rosto do sintozóide.

— O Capitão me pediu para ajudar a imprensa no que for possível. Acompanhe-me, por favor.

Batson repara que Visão flutua ao invés de caminhar, sua capa fazendo uma pequena ondulação devido ao vento, enquanto o conduz para uma das dependências da Mansão, mais precisamente a Biblioteca Central. O Vingador abre a porta e, apontando o caminho com uma das mãos, pede que Billy Batson entre. Em seguida, o sintozóide alça vôo para o alto, atravessando o teto. "Adoraria me acostumar com essas coisas", pensa Billy, acompanhando a sua partida.

O jovem entra com certo cuidado na biblioteca, sem visualizar ninguém a princípio. Subitamente ele vê um homem com os cabelos brancos, jaqueta jeans sobre um uniforme azul, sentado com os pés colocados sobre a mesa e mastigando violentamente um cachorro-quente gorduroso. Os olhares dos dois se cruzam; Billy, sem saber porque, estremece.

— Então você quer fazer uma entrevista comigo? — pergunta Mercúrio, lambendo a maionese dos dedos. — Senta aí, guri.

A cabeça baixa de Thor contrasta com a altivez de sua personalidade. Steve Rogers sabe disso enquanto apóia uma das mãos em um ombro que hoje parece carregar o peso do mundo. De alguma forma, ter visto o Gavião Arqueiro sofrer o acidente no navio petroleiro fez com que o deus do trovão ficasse mais abalado que o habitual.

— É exatamente pelo Clint que devemos continuar, Thor. Ele não gostaria de que abandonássemos tudo agora.

— Não penso em abandonar os Vingadores, Steve. Mas confesso-te que já presenciei as mais inacreditáveis tragédias entre vós, mortais, e nada se compara a ver um irmão em agonia.

O monitor dá um sinal. O rosto de Tony Stark aparece na tela, sem o capacete, mas ainda vestindo a caixa torácica da armadura dourada.

— Steve, estou entrando em contato para dizer que minha decisão é irrevogável.

O Capitão América se afasta de Thor, aproxima-se do monitor e apóia-se nele, enquanto conversa com um Homem de Ferro de rosto cansado, abatido, que parece dizer tudo com grande dificuldade.

— É pena. Você vai fazer uma grande falta na equipe.

— Lamento deixar tudo assim, num momento como este, mas a Stark Enterprises está me tomando bastante tempo. — ele sente uma fisgada no braço quebrado e faz uma careta. — Mas estou muito confiante nesta nova formação da equipe e, como Vingador reserva, sabe que pode me chamar.

— E eu chamarei, Tony. Obrigado.

Quando o monitor é desligado, Henry Peter Gyrich, vestindo um terno Armani e seus indefectíveis óculos escuros, entra na sala abrindo as portas com as duas mãos e faz um barulho tremendo ao deixá-las baterem.

— Rápido! Não temos todo o tempo do mundo! A imprensa nos espera! — ele olha rapidamente para Thor, com desprezo. — Levante a cabeça, lourinho. Lugar de chorar é na cama. E não se esqueçam de levar o escudo e o martelo, sabem como esse tipo de ostentação de poder agrada à imprensa e dá um charme todo peculiar à apresentação de vocês.

— Gyrich, isso não é um show circense.

— Arghhhh, Capitão. Poupe-me de seus comentários. Agora vamos.

Gyrich sai na frente, Thor se levanta e resmunga baixinho, pressionando seu martelo com força:

— Que Odin me perdoe, mas se essa afronta continuar eu o matarei.

— Acalme-se. No fim a gente acaba esquecendo essas coisas.

O copo cheio de Bourbon genuíno já está esvaziando nas mãos da Supermoça. Ela faz menção de levantar-se para pegar mais, porém o Príncipe Submarino, com um gesto das mãos, encaminha-se para servi-la vagarosamente, aproveitando o gesto de cavalheirismo para observar aqueles olhos brilhantes que tanto o encantam. Segurando a garrafa e pegando outro copo entre os dedos, Namor oferece um pouco à Viúva Negra, que não aceita, mas agradece. Ele senta-se em seguida, como se para exibir seu terno bem cortado.

— Não deveria estar tão nervosa, Supermoça. — diz o vingador, sem perceber o sorriso da Viúva Negra enquanto observa o casal conversando. Natasha Romanoff sabe quando um homem se interessa por uma mulher e acredita que em poucos meses a Supermoça não resistirá aos galanteios de Namor.

— Você, provavelmente, é a mais forte entre todos os novos membros e vai contribuir bastante para que revertamos a imagem negativa que o desastre fez cair sobre os Vingadores.

Apenas balançando a cabeça afirmativamente, mas sem muita confiança, a forma de vida protoplasmática chamada Matrix ainda tem dúvidas se está fazendo a escolha certa ao entrar no grupo, principalmente com todas as atenções voltadas para ela e a imagem da equipe em jogo. Recentemente, ela se fundiu a Linda Danvers, num gesto desesperado para salvá-la, mas sua alma já tinha partido. As recordações da jovem impregnam o código genético de Matrix, que agora sofre de uma séria crise de identidade. Quem é ela? Supermoça, uma heroína à sombra do maior herói do planeta? A jovem Linda com seus sonhos e desejos? Um alienígena disforme sem rumo e que busca amparo em um grupo de super-heróis?

— Você está muito aérea, parece estar em outro mundo... — observa Natasha, aproximando-se de sua mais nova companheira. — Gostaria que soubesse que entrando nos Vingadores, a gente vai fazer parte da mesma família.

— Putz, que gata!

A observação do garoto Cliff Baker ao ver a Viúva Negra pela primeira vez quebra o clima de conversa entre os três novos Vingadores. Buddy Baker chega acompanhado de sua esposa Ellen e seus dois filhos, Cliff e Maxine. O garoto, ainda agitado, pede um autógrafo à vingadora.

— Ahnn...oi... desculpe o meu garoto... Ele não mede palavras. — ligeiramente deslocado entre os novos companheiros, o Homem-Animal puxa o filho pela mão para perto de si.

— Ele não me ofendeu. — observa Natasha, enquanto movimenta os longos cabelos ruivos com as mãos e, em seguida, faz uma assinatura no caderno entregue por Cliff. — É um prazer... ter você conosco, Homem-Animal. — ela o olha com alguma curiosidade. Em seguida, olha para a esposa de Buddy, que segura a mão de Maxine. — Todos vocês.

A rápida troca de olhares entre Ellen e Natasha, como duas mulheres que se provocam, é interrompida pela chegada de Vanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate.

— Espero que estejam prontos, faltam dez minutos para o meio-dia. Vamos para a sala de conferência?

O Homem-Animal gentilmente se abaixa, faz um afago na cabeça de Maxine, que sorri para ele. Cliff estala um chiclete, põe as mãos no bolso e faz um jeito de durão, sendo repreendido pela mãe. Buddy Baker havia prometido à sua família que estaria cada vez mais presente, que sua entrada nos Vingadores seria altamente proveitosa para sua carreira; Ellen, a princípio, recusou. Queria que ele abandonasse essa vida, mas percebeu que isso era um sonho que jamais se realizaria. Para ela, Buddy ainda tinha muitas seqüelas de sua vida como herói e sua saúde era o mais importante de tudo.

— Você se lembra do que me prometeu? — pergunta ela, falando baixinho ao seu ouvido, enquanto se despede. Namor, Supermoça e Viúva Negra saem do salão, continuando a conversa que deixaram pendente.

— Sim, Ellen. Eu prometo procurar um profissional, se é isso que você quer...

Ela aperta a mão dele.

— Faça isso por nós todos, não se esqueça disso.

— Você viu o meu irmão, Buddy? — interrompe Vanda.

— Sim, ele...

— Estou aqui. — Mercúrio deixa um rastro de vento atrás de si — Afinal, essa coletiva começa ou não começa?

Jimmy Olsen levanta-se quando a nova equipe dos Vingadores entra no auditório, sua máquina fotográfica tentando pegar o melhor ângulo de cada um deles. Ao seu lado, um Clark Kent preocupado observa o semblante abatido da Supermoça. Talvez devesse ser mais amigo dela nesse momento, mas não encontra tempo para manter um contato mais constante. O Homem de Aço se culpa por isso enquanto ajeita os óculos, observando o perfil dos Vingadores que se apresentam à sua frente e aos seus colegas repórteres. Para ele, é difícil observar o herói de sua infância, que tanto o influenciara a ser quem ele é hoje, passar por um momento tão difícil como o desastre do petroleiro Mysteries. Mas o semblante do Capitão América passa a mesma segurança que Kent admirou na infância, do homem disposto a superar desafios e a si mesmo.

Quanto aos outros Vingadores, o que ele conhece melhor é o Homem-Animal que, ao que parece, está tenso e ainda deslocado. Enquanto pega um bloco de notas, Kent começa a pensar que não deve ser realmente fácil conciliar a vida em família, criando seus filhos, com a de super-herói.

— Bem, às vezes gostaria de estar no lugar dele.

— O que você disse?

— Nada, Jimmy. Nada mesmo.

Quando todos os Vingadores se posicionam à mesa, Gyrich faz um pequeno discurso inicial.

— Senhoras e senhores... Obrigado pela presença de todos e pela oportunidade para esclarecer ao público tudo o que aconteceu durante o resgate do navio petroleiro Mysteries. — ele faz uma pausa, olhando os vários rostos à sua frente. — Sabemos que o incidente causou grande comoção nacional e que muitos chegaram a questionar a atividade dos Vingadores, como o senador Neeke, que sugeriu uma lei para restringir as atividades meta-humanas. Tive uma longa conversa com o presidente e recebi carta branca para agir diretamente em seu nome. Os Vingadores, a partir de agora, irão responder ao Departamento de Operações Extranormais, coordenado por mim. Após um longo debate, — ele abre um sorriso cínico para Rogers — eu e o Capitão América chegamos a essa nova formação dos Vingadores que, lhes garanto, atende à todas as necessidades dos cidadãos americanos. Novamente, espero a compreensão da imprensa de que estamos fazendo o nosso melhor. A partir de agora, estamos à disposição para esclarecer as dúvidas de todos.

Gyrich passa o microfone para o Capitão América, líder da equipe. Clark Kent se levanta.

— Clark Kent, do Planeta Diário. Capitão, em que ponto está a investigação sobre o verdadeiro responsável pelo seqüestro do navio? Há boatos de que a IMA não seria a única responsável pelo que ocorreu e que ainda há muita coisa a se descobrir.

— O FBI está cuidando das investigações, a pedido do presidente. Qualquer coisa que eu disser pode atrapalhar o inquérito.

— Entendo... — Kent, novamente coloca o dedo entre os óculos, ajeitando-os — Mas acredito que há uma urgência em descobrir os culpados, em esclarecer a situação o mais rápido possível. Até que ponto o dano causado ao nome dos Vingadores é irreversível?

— Sinceramente? Não me preocupo com o "nome" dos Vingadores. Há décadas estou do lado de cá, combatendo o inimigo e sei que, por mais que me esforce, nunca é o suficiente, nunca é o bastante. Por mais que eu odeie admitir, sei que não somos infalíveis e maravilhosos como a imprensa gosta de nos pintar. Acima de tudo, somos humanos e cometemos erros. O que mais me preocupa, senhor Kent, é quando esses erros põem em risco vidas humanas.

— Então, o senhor admite o erro na operação, Capitão?

— Não diria isso. Não tínhamos muitas alternativas naquele momento. Ou atacávamos ou deixávamos várias pessoas na mão de seqüestradores que, sabíamos bem, não teriam nenhum escrúpulo em matar.

— Uma negociação mais cuidadosa não resolveria isso?

Gyrich abruptamente puxa o microfone para o seu lado, enquanto um atônito Capitão América o olha.

— O jornalista está conduzindo a entrevista para um caminho inadequado. Não estamos no banco dos réus, neste momento. — ele joga o microfone para um Capitão América estupefato.

— Mas deveriam estar! — grita uma voz no meio da multidão.

Gyrich, vermelho de raiva, levanta-se e grita:

— Quem... disse... isso?

— Em nome de Poseidon, Gyrich, acalme-se... — sussurra Namor, ao seu lado. — Só vai piorar a situação!

— Por favor, uma última pergunta, Capitão. — todos os olhares se voltam para Clark Kent. — Não pensou em abandonar o comando dos Vingadores em nenhum momento?

— Por que deveria fazê-lo? Essa equipe sempre foi importante pra mim, sempre me possibilitou a cumprir com o meu dever. Seria injusto abandoná-la justo quando ela pede a minha ajuda. Abandonando os Vingadores, estaria abandonando a mim mesmo e a vida continua. Tem de continuar.

"Era o que eu gostaria de ouvir", pensa Clark Kent, satisfeito, enquanto agradece a atenção e senta-se. Ele olha para o lado e vê Olsen emprestando uns rolos de filmes para um colega do Clarim ligeiramente agitado e suando muito. Assim que pega os filmes novos, o jovem sai correndo para bater outras fotos.

"Boa, Parker. Coisa de gênio!", pensa consigo mesmo Peter Parker, enquanto começa a rondar a sala toda. "Você chega atrasado, esquece os rolos de filme e ainda não consegue as melhores fotos pro chato do Jonah. O que mais falta agora?"

— Anthony Mingle, Washington Post. — um homem franzino, de sobrancelhas grossas e respirando com dificuldade começa a entrevista, olhando fixamente para Steve Rogers. — Por que o Homem-Animal? Se for pra chamar alguém com poderes ridículos podem convocar o Homem-Aranha.

O som das risadas dos repórteres ecoa pelo ambiente, irritando ainda mais Parker. "Muito obrigado, Tony. O clima da noite já beira à perfeição..." Alguns colegas irritam Peter mais facilmente, como o almofadinha da TV, Jack Rider, que, entre todos, tem a risada mais estranha e é o mais feroz no ataque aos Vingadores. Sem se apresentar, ele começa a berrar no microfone, como se estivesse no palco de seu show da TV.

— Sabem que sou famoso por esclarecer o povo do seu verdadeiro papel diante dos meta-humanos! Nada de indulgência! Nada de clemência contra esses criminosos fantasiados liderados por uma arma-viva imperialista! Vocês são as verdadeiras ervas daninhas da sociedade! — ele soca o ar.

— Senhor Rider, acalme-se ou eu mandarei a segurança retirá-lo.

— Não precisa. — rapidamente, Mercúrio corre em direção a Rider, retirando-o do salão aos berros enquanto rasteja pelo chão.

— Isso, calem a imprensa que está ao lado do povo contra a ameaça dos superseres. Vocês me perseguem por que sabem que o povo está do meu lado e que aqui tem café no bule!

"Deus, o que mais eu tenho que agüentar", pensa Gyrich, passando um lenço sobre a testa.

— Vá em frente, Sage. — Lopez, o cameraman, faz um sinal positivo para o repórter, iniciando o mesmo batente que faziam há mais de seis meses; hoje, porém, é a última vez em que trabalham juntos. Lopez está sendo deslocado temporariamente para um telejornal em Gotham City. Para Sage, com certeza, não era o adeus de um dos seus melhores amigos, mas um até logo. "Hoje vou pagar aquela rodada de cerveja que fiquei te devendo, amigo", pensa Sage, segundos antes de iniciar a gravação.

— Vic Sage. Jornal das Oito. O que os Vingadores estão fazendo a respeito do derramamento de óleo? Há rumores que o próprio Príncipe Submarino está cuidando disso?

— Sim, pessoalmente estou conduzindo o tratamento das águas para amenizar o dano. A Oracle organizou um grupo de especialistas sob a minha ordem para restaurar o meio ambiente. Acredito que a presença do Homem-Animal, que deve partilhar de minha visão ecológica, trará um grande debate sobre o tema.

— Namor, é verdade que você é um seguidor de Poseidon, o deus dos mares? Como vê esse retorno ao culto dos deuses gregos?

— Acho que essa é uma questão pessoal e não vem ao caso no momento; já dei algumas declarações à imprensa sobre minha orientação religiosa e não fui compreendido.

— Uma última pergunta. Seu estilo de vida como milionário excêntrico...

Antes que Vic Sage possa continuar, um raio surge do nada, iluminando o ambiente e circundando os corpos dos superseres, que começam a brilhar de forma intensa. A reação dos Vingadores é de surpresa. Vanda visivelmente tem um ataque de vômito antes de desaparecer por completo, junto com todos os outros. Gyrich fica sozinho, olhando para as cadeiras vazias ao seu lado, sem saber o que dizer enquanto câmeras, flashes fotográficos e vozes uníssonas se voltam em sua direção. Tudo indica novos e preocupantes problemas com o desaparecimento dos Vingadores.

No próximo número: O Admirável Mundo Novo dos Skrulls

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