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Wolverine # 03

Por Rafael Borges

Linhagem de Sangue — Parte III
As Lágrimas do Dragão

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Westchester, Estado de Nova York:

Há alguma coisa relacionada do ato de fazer compras que anestesia a mente de Kitty Pryde. Compras em geral já servem para fazê-la esquecer todos os problemas da vida, mas nada se compara ao prazer de levar para casa uma porção de sacolas com roupas novinhas em folha.

Os cientistas deviam descobrir qual a enzima liberada pelo cérebro feminino durante uma sessão de consumismo explícito e vender na forma de pílulas. Pelo menos é a opinião da garota enquanto caminha pelo centro de Westchester admirando mais uma vitrine.

Distraída, ela não lembra em nada a x-man que já enfrentou as mais variadas ameaças de um canto a outro do universo. Mas seus passos leves por entre as folhas que o outono levou ao chão são interrompidos de repente. As sacolas com estampas de grife são largadas abruptamente e Lince Negra segura a respiração.

— Não se Mexa, Gaijin! — diz o ninja com a espada no pescoço da garota. Sua característica máscara demoníaca encobre sua voz rouca.

Tóquio, Japão. Anos atrás:

— Kitty, desmaterializa! — berra Wolverine.

As afiadas garras de metal atravessam o corpo da garota mutante como se ela fosse um fantasma ao mesmo em tempo que o samurai desfere um golpe mortal de sua katana. Ambos atingem seu alvo com precisão cirúrgica. No mesmo instante em que a espada de Ogun rasga o tórax de Logan, suas lâminas de adamantium perfuram o coração de seu antigo sensei.

Entre os dois guerreiros, e literalmente no centro do violento clímax do combate, está Kitty Pryde. Em sua forma etérea, a garota é atravessada pelos golpes que põem fim à vida de Ogun.

Escondido entre os pilares do andar abandonado do edifício em construção que serve de cenário para o derradeiro combate de meu mestre, eu apenas observo. Como o próprio Ogun salientou previamente, não é meu direito interferir.

Acompanho com o olhar quando Wolverine e a garota deixam o local, deixando o cadáver de meu sensei para trás. Recolho o corpo com dificuldade. Apesar de todo o treinamento, minha força física ainda é limitada pelos meus quatorze anos de idade.

Em seu país, os gaijins se consideram heróis. Mas, aos meus olhos, eles não passam de assassinos. Tudo o que Ogun queria era fazer de Kitty sua nova discípula. Seu único objetivo era encontrar uma parceira para mim.

De volta a Westchester. Hoje:

— Otário! — exclama Lince Negra, com um sorriso nos lábios.

A garota usa seu dom mutante e se desmaterializa, atravessando com facilidade a lâmina afiada que, até segundos atrás, ameaçava sua vida.

— Achou mesmo que não estaríamos preparados para sua chegada, Ogun? — indaga Wolverine.

No exato momento em que Kitty desvencilhou-se de seu atacante, o mutante canadense e sua acompanhante, Yukio, se revelaram diretamente de um beco de onde vigiavam toda a situação.

— Tudo não passou de uma tocaia, maldito! — exclama a ladra japonesa. — Sabíamos desde o começo que sua vingança só seria completa se atacasse novamente a Lince Negra!

O ninja mascarado não responde. Pelo menos, não com palavras.

Emitindo um grunhido animalesco, ele usa sua katana para atravessar o corpo desmaterializado de Kitty, um golpe que serviu apenas como distração. Com velocidade surpreendente, Ogun acerta Yukio com um potente chute que a leva ao chão.

Com sua oponente indefesa, o ninja ergue sua espada uma vez mais para dar cabo da vida da ladra. Felizmente, Wolverine é rápido o bastante para impedir o assassinato de Yukio. Sem desembainhar suas garras, ele desfere um direto de esquerda que, além de derrubar seu oponente, parte em vários pedaços a máscara diabólica que escondia sua face.

Tachikawa, província de Tóquio. Anos atrás:

Algumas vezes, a modernidade das grandes metrópoles japonesas nos faz esquecer como o passado permanece vivo a alguns quilômetros de Tóquio. É só deixar para trás os arranha-céus de metal e vidro da capital para se deparar com um estilo de vida muito mais ligado às tradições orientais.

O garoto caminha desolado até a entrada de um casarão no estilo imperial, onde é recebido aos prantos por uma senhora trajando um luxuoso quimono de cores fortes.

— Finalmente, meu filho! — ela agradece enquanto abraça o garoto impassível — Depois de todos esses anos, você retornou de seu treinamento com o mestre Ogun?

— Ele foi morto, minha mãe! — responde finalmente o jovem, desvencilhando-se dos braços da mulher. — A senhora dedicou minha vida ao mestre e os malditos Gaijins o assassinaram!

A velha se afasta, assustada. Ela jamais imaginou que houvesse alguém no mundo capaz de derrotar Ogun.

— Você compreende minha situação, mãe? — prossegue o rapaz, inconsolável. — O propósito de minha vida era ser como meu mestre. Agora, qual o sentido...?

— Você é que não compreende, filho! — a mulher o interrompe, colocando a mão contra seus lábios — O Mestre Ogun não era apenas o sensei a quem dediquei sua vida. Ninguém nunca soube, mas ele era seu verdadeiro pai!

Naquele instante, toda a desorientação deixa a mente do garoto. Se, há alguns segundos, ele não sabia o que seria de sua vida, agora ele tem somente um propósito.

Não importa quantos anos sejam necessários para se preparar, ele vai vingar a morte de Ogun. Sua vitória será tão completa que nem mesmo os descendentes de seu inimigo conseguirão escapar de sua fúria.

— Marque minhas palavras! — decreta para a mãe — Wolverine vai se arrepender do dia em que pisou em solo japonês!

De volta ao presente. O centro de Westchester:

Caída na calçada de uma avenida, Yukio se surpreende ao ver revelada a verdadeira identidade de quem quase tirou sua vida instantes atrás.

— Amiko! — constata a oriental, deixando todos ainda mais atônitos.

Aproveitando-se da hesitação momentânea de seus pais adotivos, Amiko salta ferozmente contra eles.

— Morra! — ela grita em plenos pulmões.

O golpe de katana, que visava o coração de Yukio, é interceptado pelo braço direito de Wolverine. Quando a lâmina toca seus ossos indestrutíveis, ele sente um arrepio pela espinha. Mas nada comparado à dor de ser atacado por uma menina que ele considera como sua própria filha.

— Amiko... — As palavras faltam à boca deste velho canadense enquanto ele tenta conter a garota que se debate raivosa — Eu juro que vou desfazer isso!

— Tire suas patas de minha filha, animal! — a voz vem do alto de um pequeno barracão nas imediações. Trata-se de Ogun, que finalmente revelou-se para encarar seu inimigo de frente.

O ninja salta sobre Wolverine, aterrissando com a espada contra seu peito. O metal resvala no revestimento de adamantium, mas leva consigo um belo talho de carne.

Enquanto Yukio permanece incapacitada, largada na calçada, Amiko se prepara para auxiliar seu mestre contra o mutante. Pouco mais do que gemidos incompreensíveis partem de seus lábios.

— Calma, garota! — ordena Kitty Pryde, desmaterializando-a. Sua densidade é tão pequena que ambas começam a cair, atravessando o próprio solo em que pisam — Você e eu vamos dar uma voltinha pelo chão pra descobrir qual de nós consegue segurar o fôlego por mais tempo!

Enquanto as garotas saem de cena, o combate entre Wolverine e Ogun se intensifica. Contra a técnica superior de seu antigo sensei, as garras de adamantium são inúteis.

— Animal sujo! — berra Ogun entre um golpe e outro de espada — Finalmente chegou o dia de minha vingança!

Os guerreiros rolam pela rua, atravessando a avenida e deixando um rastro de sangue. Assustados, os transeuntes que insistiam em assistir a essa inusitada cena de carnificina correm para longe quando o combate finalmente chega a um posto de gasolina.

— Eu andei pensando, Ogun! — comenta Wolverine em um dos poucos instantes em que consegue se desvencilhar de seu atacante — Da última vez que eu te matei, demorou sete anos pra tu retornar pra me azucrinar!

Sem nenhuma suavidade em seus golpes, Logan empurra o ninja para longe por um instante e usa suas garras para cortar a mangueira de uma das bombas de combustível.

— Quanto tempo vai demorar se eu te matar pela segunda vez? — o mutante indaga enquanto acende o isqueiro que guardava no bolso.

A explosão é inevitável. As labaredas se espalham pelo tanque subterrâneo, aumentando ainda mais o potencial de destruição. Em segundos, as chamas alcançam metros de altura e Yukio, ferida e chamuscada do outro lado da avenida, se arrasta pelo chão em desespero.

— Logan! — ela grita.

Como que em resposta, o x-man sai do meio do fogo com o corpo todo coberto por queimaduras de terceiro grau e contando com seu poderoso fator de cura mutante para mantê-lo vivo.

Enquanto caminha por entre as labaredas e os destroços que outrora foram um posto de gasolina, ele carrega os restos do corpo de Ogun. O pouco que sobrou inteiro, está totalmente distorcido pela explosão.

Exausto, Wolverine vai ao chão quando se aproxima de Yukio. Ele balbucia algumas palavras, mas não é possível compreender, devido ao som de sua pele crepitando. A ladra é forçada a se aproximar para escutar.

— Pelo amor de Deus, guria! — ele diz coma voz fraca saindo por entre as cordas vocais corroídas pelo calor — Me arruma uma cerva o mais rápido possível!

Epílogo

Quando a noite chega ao Instituto Xavier, o fator de cura de Wolverine já recuperou totalmente o estrago causado pelas queimaduras. Em uma das sacadas da face norte da mansão, ele se aproxima de Yukio, que observa a lua como quem procura respostas.

— Você sempre foi um homem cético, Logan! — comenta a ladra, sem desviar o olhar. — Você acredita mesmo que Ogun é imortal? Acha que ele pode retornar novamente?

— Pelo contrário, gata! Eu já vi coisa o bastante nessa minha vida pra não duvidar de nada! — ele responde tomando a última golada da lata de cerveja — Mas o que importa agora é cuidar da nossa Amiko. Não vai ser fácil reverter a programação que o danado fez na mente dela. Mas se a Kitty foi capaz de superar, nada indica que ela não possa conseguir também.

A oriental apenas acena com a cabeça, em desaprovação. Wolverine amassa a lata e a joga ao chão antes de prosseguir:

— Eu sei que falhei como pai, Yukio! — ele diz — Mas acho que descobri a melhor forma de compensar! Está na hora de assumir de vez a responsabilidade que assumi com a verdadeira mãe da guria, anos atrás.

O mutante tira do bolso de sua jaqueta uma pequena caixa preta. Ao abri-la, revela um par de alianças douradas.

— Eu comprei essas para a Mariko, mas acho que você não vai se importar, né? Já faz muitos anos! — Wolverine estende suas mãos, oferecendo os anéis — Casa comigo! Juntos, podemos dar à Amiko tudo o que ela mais precisa: Uma família.

Muito tempo atrás, eles já foram amantes e reconhecem um no outro um verdadeiro casal de guerreiros.

Os lábios se encontram em um beijo breve, que é interrompido pelo riso de Yukio. Espontâneo, a princípio, mas que vai se tornando mais sarcástico conforme aumenta em volume, deixando Wolverine sem jeito.

— É mesmo verdade? — questiona a mulher — Depois de todos esses anos ausente, você quer me dizer como criar a minha filha?

A mudança de atitude de Yukio deixa Logan sem palavras.

— Eu conheço mestres no Japão que podem curar Amiko com muito mais facilidade do que você poderia! — prossegue a ladra, caminhando para fora da sacada — Amiko e eu partimos essa noite! Já conversei com Tempestade. Ela nos levará ao aeroporto.

Deixado sozinho na sacada fria, Wolverine não consegue entender o que está acontecendo.

— Yukio...? — ele sussurra quase sem perceber.

— Sua presença trouxe apenas ameaça à Amiko! Por favor, não nos procure mais! — antes de partir, há tempo para um último insulto — E nunca mais me ofenda, oferecendo as sobras de Mariko!


:: Notas do Autor

As cenas transcritas do combate entre Logan e Ogun fazem parte da clássica minissérie Wolverine & Kitty Pryde, de Chris Claremont e Allen Milgrom. A história foi publicada pela última vez no Brasil no especial O Melhor de Wolverine, da Editora Abril, de Fevereiro de 1997.

O título dessa edição remete à música mais emblemática da carreira solo de Bruce Dickinson, vocalista da banda inglesa Iron Maiden: Tears of the Dragon, lançada em 1994.




 
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