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Wolverine # 06

Por Rafael Borges

Do Clarim Diário, edição matutina:

Assassino serial livre após três anos em instituição psiquiátrica


Linus Dorfmann, o adolescente assassino que se tornou conhecido devido a sua obsessão pelo exótico animal carcaju, foi liberado hoje, após cumprir apenas três anos de sua sentença. Dorfmann, que chegou a confessar 13 dos 18 assassinatos atribuídos a ele, foi declarado incapaz de responder por seus atos e colocado sob custódia para tratamento psiquiátrico.

No último ano, ele esteve sob a supervisão direta do Dr. Batholomeu Wolper, um dos maiores especialistas no tratamento de criminosos mentalmente desequilibrados e diretor interino do conceituado Asilo Arkham de Gotham City.

"Linus é um rapaz adorável e está completamente curado de seus pequenos problemas psiquiátricos", afirma o Dr. Wolper, sem dar maiores detalhes sobre que tipo de tratamento seu paciente foi submetido. "É tudo muito técnico, mas posso garantir que o garoto está plenamente apto à convivência com a sociedade."

Uma vez que não possui parentes vivos, Dorfmann será encaminhado ao amparo social. A Assistente social Jane Tyler, ficará responsável por ajudar eu seu retorno ao convívio da sociedade, ajudando a encontrar um trabalho e uma residência para o ex-detento.


Figura Paternal

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Brooklin, Nova York

— Não sei, não, Senhorita Tyler! — resmunga o zelador, observando de canto de olho o pretendente a inquilino.

— O que há para não saber, Senhor Perry? — responde a assistente social. Mesmo com o discreto terninho cinza que ela está usando, não dá para esconder que se trata de uma linda morena. Seus longos cabelos negros contrastam com a tonalidade extremamente alva de sua pele. — E pode me chamar de Jane, como todo mundo.

Mais uma vez, o homem hesita. Ele não conseguiu tirar os olhos de Linus Dorfmann desde que a garota os apresentou. Há algo de estranho no garoto, algo que não inspira confiança.

— Olha, Dona Jane... — prossegue, ainda sem muita segurança. — Se a senhorita tá dizendo que ele não é presidiário, eu acredito! Porque ninguém quer se meter com quem já esteve em cana, não é?

Enquanto eles conversam, no canto do quarto apertado, Linus encara o chão como se fosse escapar do alcance de seus pés. Ele mexe com as mãos de forma nervosa, estalando os dedos compulsivamente.

— Eu posso te garantir, Senhor Perry. Linus não passou nenhum dia na prisão. — responde a assistente social — Como comprovam os documentos que eu já te mostrei, ele era um garoto muito doente. Foi tratado e, agora, está melhor. O senhor não tem com o que se preocupar. Linus é perfeitamente capaz de morar sozinho neste apartamento.

Antes que o zelador possa responder, a atenção do silencioso Linus é subitamente desviada para uma barata que corre pelo assoalho. Os olhos do rapaz acompanham seus movimentos aleatórios.

— Ainda tem uma coisa! — insiste o velho. Como todo descendente de família italiana, ele parece falar com as mãos, tamanho o gestual que utiliza. — Esses retardados, me perdoe o termo, costumam ter problemas com a higiene, se é que a senhora me entende. Como eu vou saber que não vou encontrar o moleque todo cagado qualquer dia desses?

Jane Tyler é uma profissional experiente. Já se acostumou a encontrar todo o tipo de resistência em seu trabalho de recolocação de pacientes psiquiátricos no convívio da sociedade. Mas é sempre desconfortável se deparar com o preconceito.

Nesse momento, Linus surpreende a dupla que discute sobre sua nova casa, batendo forte com o pé direito. A barata havia se aproximado demais e ele não a deixou escapar. Percebendo que matou o inseto, o garoto dá um olhar assustado à assistente social.

— Como pode ver, Senhor Tyler. — retruca Jane, voltando-se para o zelador mais uma vez. — Linus Dorfmann é um garoto extremamente preocupado com a sua higiene.

Semanas depois:

Linus joga a carcaça ensangüentada sobre o balcão com violência.

Jane — ela sempre insiste em ser chamada pelo primeiro nome — não poderia tê-lo arrumado um emprego melhor. No frigorífico de um açougue, o garoto mostrou habilidade no uso do cutelo. Além de ajudar no carregamento dos animais mortos, ele os fatia com impressionante destreza.

Enquanto desempenha suas tarefas, sozinho na sala refrigerada, Linus ostenta um misterioso sorriso. Seria alegria por finalmente ter encontrado seu lugar na sociedade ou a simples satisfação de cortar em fatias os animais mortos?

Enquanto sua lâmina atravessa a carne fria, Linus se recorda de sua infância. Da forma que seu pai costumava tratá-lo. Sua mãe havida morrido quando ele ainda era bebê e seu pai sempre foi duro, mas sabia demonstrar o amor pelo filho.

Sua mente divaga para o passado. Recordações de uma tarde ensolarada, quando Linus foi apanhado com o gato do vizinho. Não bastasse esfolar o animalzinho, o garoto estava tentando queimá-lo vivo em uma fogueira improvisada no fundo do quintal.

Um castigo se fazia necessário.

— Eu só estou fazendo isso porque te amo, filho! — disse o pai.

Com as mãos e pernas amarradas a uma árvore, o garoto recebia as chibatas sem soltar um som.

No início, foram apenas vergões. Mas vieram outros gatos, cães ou quaisquer outros animais que ele pudesse encontrar. Outros corretivos se fizeram necessários. Os incidentes foram tornando-se cada vez mais freqüentes e os castigos cada vez mais rígidos.

Logo, o sangue de Linus voava quando o chicote cortava sua pele.

— Faço isso porque eu te amo! — Insistia o pai.

As lembranças de Linus são interrompidas pelo som estridente emitido por um rato. Entre os pedaços das carcaças que restam pelo chão do frigorífico, o pequeno animal corre despreocupado. Sua ousadia é tanta que ele escala parte de um boi dilacerado para chegar até o balcão que o garoto usa para seu trabalho.

Com olhar inquisidor, ele observa o roedor fixamente. Por um segundo, seus olhares se cruzam e Linus desfere um golpe fatal. O rato é cortado ao meio sem piedade.

Depois de admirar a agonia do animalzinho, os olhos de Linus voltam a se agitar. Ele perscruta todos os cantos da câmara frigorífica, como se procurasse alguém. Nervoso como se esperasse um castigo que nunca chega.

Semanas depois, sob o ar noturno do verão novaiorquino:

Linus chuta o animal com toda a força.

Não há viva alma naquele quarteirão para ouvir o ganido do pobre cão, que corre para longe de seu agressor. O garoto se preocupa, mais uma vez, em olhar ao redor. Dessa vez, entretanto, não há nervosismo em seus olhos. Ele sabe que a punição não virá de parte alguma e isso o angustia.

Quando chega às escadarias do prédio antigo em que reside, o zelador o aguarda á porta.

— Votou cedo do trabalho? — ele pergunta, notando que o rapaz ainda está trajando o jaleco que usa no açougue. — Você tem visitas, garoto!

Linus não se preocupa em responder. Como de costume, mantém-se calado e parece nunca encarar outra pessoa nos olhos.

— É aquela dona gostosona! — prossegue o velho italiano — A tal Senhorita Tyler. Queria eu receber uma visita dessas de vez em quando!

Uma gargalhada despudorada se segue ao comentário.

Linus ignora o homenzinho e sobe os quatro lances de escadas que levam ao seu apartamento vagarosamente. Jane, ele pensa para si. Ela gosta de ser chamada de Jane.

— Linus, que bom que você veio! — Assim que o garoto chega ao hall, a assistente social inicia a conversa. — Você faltou à sua consulta esta semana! Você sabe que o juizado concordou com sua liberdade assistida com a estrita condição de que mantivesse o acompanhamento com o Doutor Wolper!

Enquanto fala, a mulher não perde seu charme natural. Mais parece uma fada do que um ser humano, tamanha a leveza de seus movimentos. Mesmo de maneira desconfortável, Linus não consegue deixar de admirar o azul suave daqueles olhos.

— Você entende que isso é muito importante, não é? — ela toca seu ombro com sua mão de dedos delicadamente pintados de vermelho. — Você não vai mais faltar à suas consultas, certo?

Finalmente o sentimento que crescia em seu peito o sufoca e não há alternativa a não ser dar vazão a ele. Linus saca, de dentro do bolso do jaleco, o cutelo afiado que usou durante todo o dia. Ainda há marcas de sangue fresco em sua lâmina.

— O que você está fazendo? — surpreende-se Jane Tyler. Ela dá dois paços para trás, percebendo tarde demais que a parede à suas costas a deixa encurralada. — Abaixe essa faca, Linus!

Revigorado, o garoto finalmente fixa seu olhar na face petrificada da assistente social. Ele ergue o cutelo com seu raquítico braço direito, preparando-se para o ataque.

— Jane. — ele diz hesitante — Eu... Só estou fazendo isso... Porque eu te amo!

Quando Linus se aproxima lentamente para o golpe fatal, a vidraça da única janela do minúsculo apartamento é repentinamente estilhaçada. Pela abertura, Logan arremessa seu corpo para dentro da sala, surpreendendo o garoto com uma entrada veloz.

— Eu sabia que valia a pena ficar de olho em você, guri! — diz o mutante, retirando os pedaços de vidro que perfuraram seu rosto. — Era só questão de tempo pra você voltar a aprontar das suas!

Por um instante, Linus fica imóvel. Seus olhos alternam entre o ameaçador Wolverine, de pé no canto da sala, e a Senhorita Tyler, abaixada em posição de defesa à sua frente. Dando-se conta de sua situação, porém, ele deixa a hesitação de lado e parte para o ataque à mulher desamparada.

— Não! — grita a assistente social, quando os golpes de cutelo fazem cortes profundos em seus antebraços.

Sem dizer palavra alguma, Wolverine salta sobre o garoto, levando-o ao chão. Não é preciso nem ejetar suas garras, seu oponente é facilmente desarmado e recebe um vigoroso golpe na boca do estômago, que o incapacita.

Quando percebe que Linus está derrotado, Logan volta-se para a mulher ferida. As lágrimas que escorrem por seu rosto se misturam ao sangue que jorrou dos ferimentos.

— Eu vou te levar pra um hospital, dona! — exclama o mutante.

— Não... — contorcendo-se no chão, Linus mal é capaz de sussurrar. — Volte aqui! Me castigue!

Enquanto ajuda a mulher a se levantar, Wolverine olha com desprezo para o garoto, que continua suplicando.

— Você tem que me castigar! — insiste, aumentando o tom de voz!

— Cala a boca, guri! — responde Logan, irritado. — Eu não sou seu pai!


:: Notas do Autor

Linus Dorfman é mais uma das criações da época em que Larry Hama e Marc Silvestri eram os responsáveis pelas histórias do mutante canadense. Sua primeira aparição foi mostrada no Brasil na edição de número 36 da revista Wolverine publicada pela Editora Abril em fevereiro de 1995.

Mais tarde, o personagem retornou na edição 63, de maio de 97. A história, escrita por Hama e ilustrada por Adam Kubert, usava a cobertura televisiva da prisão de Dorfmann como pano de fundo para um dos mais memoráveis confrontos entre Wolverine e Dentes-de-Sabre.

O polêmico doutor Bartholomeu Wolper foi criado por Frank Miller para o clássico "Batman: O Cavaleiro das Trevas". O personagem fez sua estréia no Hyperfan na minissérie Delírios e Sonhos no Asilo Arkham, estrelada pelo Doutor Samson.

A assistente social é uma homenagem à banda americana Aerosmith. Seu primeiro nome é retirado da clássica música Jane´s Got a Gun, lançada em 1989 no álbum Pump. O sobrenome, obviamente é o mesmo do vocalista da banda, Steven Tyler. A descrição da garota foi feita conforme as feições de Liv Tyler, filha do cantor e protagonista do inesquecível clipe Crazy, ao lado de Alicia Silverstone. O detalhe é que, desta vez, Jane não tinha uma arma para se defender.

O zelador, por sua vez, foi batizado em homenagem ao guitarrista do conjunto, Joe Perry, apesar de seu primeiro nome ser omitido.




 
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