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Wolverine # 07

Por Rafael Borges

A Filha do Vento

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Tudo começou com uma briga de bar.

Pode ter sido um motoqueiro agressivo que não gostou do modo que um dos bêbados olhou para a sua namorada. Pode ter sido uma simples discussão sobre qual jogador marcou mais pontos naquela temporada. Pode até não ter tido razão alguma.

A questão é que, diferente de todos os outros bares de Nova Iorque, ali estavam duas das últimas pessoas com as quais você gostaria de se envolver em uma briga. De um lado, o corpulento Rino, pesando mais de trezentos quilos de pura agressividade. Do outro, o velho baixinho canadense, que compensa sua falta de estatura com uma selvageria sem igual.

A situação se agravou pelo fato de estarem ambos completamente bêbados.

Depois de toda essa descrição, não é de se estranhar a cena avistada pelos transeuntes em uma vizinhança decadente de Queens: um homem gigantesco, vestido de rinoceronte, atravessa as paredes de um prédio condenado. Montado sobre ele, como um peão faz com um touro bravo, Wolverine tenta deter seu adversário com golpes de suas lâminas.

Se não conseguem cortar facilmente a pele indestrutível de Rino, as garras de Logan começam a fazer um belo estrago e ele começa a desacelerar. Batendo fortemente o chifre que possui, fixado na fronte, contra as construções, Rino pretende usar o impacto das paredes para desvencilhar-se do mutante.

— Desiste, xará! — esbraveja Wolverine, segurando-se ao pescoço de seu inimigo com toda a força de seus músculos.

— Larga! — berra o vilão.

Completamente descontrolado, Rino debate-se em fúria. Os cortes causados pelo x-man já começam a causar uma grande perda de sangue e sua visão fica cada vez mais nebulosa. Ele solta um ultimo e desesperado urro aos céus, jogando seu corpo ao ar na esperança de que seu adversário seja arremessado para longe.

Infelizmente, suas ações não têm o resultado esperado. Ao invés de livrar-se de Wolverine, Rino acaba gastando suas derradeiras energias e perde a consciência. O gigantesco corpo em forma de rinoceronte vem ao chão de uma só vez, soterrando Logan contra o concreto.

Wolverine sente todo o impacto. Mesmo com seu fator de cura e os ossos revestidos com adamantiun, ele se habituou a sentir a dor de cada ferimento. Mas nada poderia prepará-lo para a sensação de estar imobilizado sob trezentos quilos de um rinoceronte-humano.

Ainda aturdido pela dor, ele consegue ouvir passos se aproximando. Um andar leve indica que se trata de uma mulher. Uma menina chegando bem perto daquela cena surreal, em meio a uma construção abandonada. Certamente, é alguma moradora de rua. Uma sem-teto que não tinha para onde escapar quando o combate começou a destruir essa velha construção abandonada.

A garota hesita por um momento. Quando se aproxima do monstruoso vilão desacordado e percebe que há alguém em baixo dele, ela decide revelar os dons que vinha escondendo com tanto esforço nos últimos meses. Com um nível de controle apenas o suficiente para não errar seu alvo, ela dispara de seus dedos enluvados rajadas de plasma colorido.

As emissões não podem ferir Rino, mas fazem com que ele recupere a consciência. Assustado, ele solta mais um urro animalesco e parte, derrubando ruidosamente mais uma parede antes de desaparecer pela noite nova-iorquina.

Ele deixa para trás a garota, assustada pela possibilidade de lidar com o gigantesco vilão, e Wolverine, que se encontra temporariamente incapacitado. Enquanto o seu fator de cura não conseguir recuperar os órgãos internos que foram esmagados, Wolverine não pode se mexer.

— Ai, caraca! — exclama a menina, quando finalmente reconhece o mutante caído à sua frente.

— Fala baixo, Jubileu... — sussurra Wolverine, imóvel. Cada palavra é um esforço descomunal — Assim você acorda até os mortos...

A garota corre para acudi-lo, quando Logan finalmente perde a consciência.

Sala de Perigo, Mansão X. Quatro anos atrás:

— Bang, você está morto! — exclama Gambit, triunfante.

Esta é a primeira sessão de treinamento do mutante cajun. Com seu jeito arrogante, ele escolheu desafiar justamente Wolverine para uma simulação de combate. Normalmente, um novato como Remy LeBeau não teria chance alguma contra alguém tão experiente no combate corpo-a-corpo, mas há algumas circunstancias bem específicas nessa disputa.

Para começo de conversa, os X-Men acabaram de retornar de Genosha, a ilha-nação que escravizava mutantes no Sul da África. Após os conflitos que ficaram conhecidos como Programa de Extermínio, eles conseguiram derrubar o governo comandado pelos Magistrados. No combate final, Logan sofreu ferimentos severos em sua coluna, causados por Cameron Hodge.

Estranhamente, os poderes mutantes de cura têm demorado mais do que o de costume para revigorar o velho canadense. O resultado é que ele perdeu muito de sua mobilidade em combate e não está muito contente com isso.

— Tudo bem, francês, você venceu! — resmunga Wolverine — Agora, sai de cima de mim!

Com um golpe desajeitado, Logan joga Gambit para longe, enquanto as paredes da Sala de Perigo retornam a sua aparência metálica. O programa de combate se encerrou.

— Não há motivo para ficar nervoso, mon brave! Isso é apenas um jogo. — Ironiza Gambit — Além disso, eu não sou francês! Eu nasci na Louisiana.

Cinco metros acima dos dois jogadores, fica a sala de controles. Jubileu, que estava observando o confronto limpa a lágrima que escorreu desobediente por sua face. Depois que se conheceram na Austrália, a garota passou a praticamente venerar Wolverine. Ela nunca havia encontrado alguém que fosse, ao mesmo tempo, tão poderosamente incontrolável e irremediavelmente comprometido com um código de honra rígido formulado por anos de disciplina.

Mas o motivo de seu pranto não é ver o amigo derrotado em combate, mesmo que simulado, por um novato. O problema é que, na iminência de que Wolverine seria vencido, Jubileu resolveu se certificar de que a culpa pela derrota não cairia sobre ele. Fingindo surpresa por um defeito na programação da Sala de Perigo, ela acionou o programa de Lady Letal, que surpreendeu a dupla e acabou sendo crucial para o desfecho do confronto.

Em sua mente ainda inexperiente, Jubileu julga que fez um favor para Logan. Mal sabe que não ajudou nada para evitar a fúria em seu coração por ter sido derrotado.

— E aí, Wolvie? — pergunta a garota, quando finalmente desce ao nível do solo — Nós vamos dar uma volta esta noite? Você bem que merece uma saída pra esquecer esse babaca do Gambit!

— Mereço mesmo, guria! — responde Logan. Com cara de poucos amigos, ele coloca uma camisa com temas rurais sobre o uniforme, preparando-se para deixar o quartel-general dos X-Men. — Mas, hoje, eu não quero nenhuma pivete pra segurar vela! Estou atrás de gente da minha própria idade, se é que você me entende.

Jubileu engole seco e responde na mesma moeda:

— Eu não sei o que você vê naquelas piranhas de Salem Center!

— Não preciso ver nada, se a luz estiver apagada! — ri Wolverine, deixando a sala.

Ajeitando seus óculos cor-de-rosa, a garota se cala. São poucos os momentos em que Jubilation Lee não tem nada para falar. Mas como descrever o vazio que a partida de Wolverine lhe causa?

De volta ao presente. Algumas horas depois:

— Mariko...? — Ele desperta com o nome dela em seus lábios.

Anos já se passaram desde que sua amada, diante de morte certa por envenenamento, pediu que ele tirasse sua vida. Não houve um dia sequer em que Logan não se recordasse dela, principalmente nos momentos mais atribulados. Portanto, não é surpresa alguma que ele tenha sonhado com Lady Mariko enquanto seu fator de cura entrava em ação.

Wolverine passa os olhos rapidamente ao seu redor. Na antiga construção abandonada, quase uma dúzia de sem-teto se amontoam em volta de uma fogueira. Há mulheres e crianças entre eles, mas quem chama a sua atenção é a jovem deitada ao seu lado.

Ela possui um odor ligeiramente diferente do que quando eles se conheceram. Talvez tenha sido o tempo que passou, transformando aquela garota em uma jovem mulher. Mas o mais provável é que seja apenas o fato de que ela parece não tomar um banho decente há alguns dias.

— Jubileu? — ele pergunta, acordando a garota com um suave passar de mãos sobre sua cabeça — É você mesmo, guria? Eu achei que fosse uma alucinação da minha cabeça por causa dos ferimentos.

A garota, de feições asiáticas, desperta um pouco assustada. Com os dedos, ela sinaliza para que o X-Man faça silencio. Não há motivo para perturbar ainda mais seus companheiros. Isso sem mencionar o fato de que, se ela atrapalhar o sono deles, pode ser que não a aceitem nesse lugar novamente.

Os dois mutantes deixam a construção silenciosamente. Chegando ao lado de fora, eles perdem alguns segundos admirando as luzes noturnas de Manhattan no horizonte. A beleza da cidade contrasta drasticamente com a pobreza ao seu redor.

— O que aconteceu, guria? — finalmente questiona Wolverine — Por que diabos tu chegou nessa situação?

— A vida aconteceu, Wolvie. — responde a mutante, apertando os braços para espantar o frio. — Quando nos conhecemos, eu morava num shopping center, lembra? Bom, eu descobri que eles não aceitam mais garotas da minha idade, então tive de procurar outras opções.

— Tu sempre podia voltar pra Mansão X! — exclama o baixinho canadense — O Charlie nunca te negaria abrigo!

— "Negar abrigo?" — repete Jubileu, ironicamente — Eu já fui uma X-Man! Eu fazia parte daquela equipe nos dias de glória, você esqueceu? Porque, pra mim, parece que todos vocês fizeram questão de me esquecer depois que eu deixei a equipe! Parece que ficaram felizes em se livrar da pentelha com poder inútil aqui!

Wolverine se cala.

Ele gostaria de responder que é mentira, que ele valoriza demais o tempo em que ela o acompanhava em suas aventuras, seja com os demais filhos do átomo ou simplesmente nos quebra-paus em que ele sempre se metia.

Mas não dá para negar. Com tudo o que tem acontecido com os X-Men nos últimos meses, eles não tiveram tempo de pensar em como estão passando os antigos integrantes da equipe.

— Olha, não precisa ficar assim. — ele tenta consolar a garota, que também silenciou em melancolia — Eu sempre te considerei como a uma filha...

Antes que Logan possa terminar a sentença, Jubileu vira seu rosto e o fita agressivamente nos olhos. Ela não precisa dizer palavra alguma para deixar claro que está furiosa, mas fala mesmo assim.

— Será que você é tão burro assim? — esbraveja a garota — Eu nunca te amei como a um pai! Eu era apaixonada por você! Eu era uma menininha apaixonada e você ficava me carregando por aí como se fosse um brinquedinho ou sei lá o que! Você achou que eu queria ser o Robin ou coisa parecida?

O mundo de Wolverine vai ao chão. Ele nunca poderia supor.

Aos seus olhos, Jubileu sempre foi uma criança. Ele confiava sua vida a ela, mas não desconfiou nem por um minuto que ela nutrisse qualquer expectativa romântica, ou teria feito questão de deixar as coisas claras desde o princípio.

— Não precisa falar mais nada! — prossegue Jubileu, afastando-se lentamente em direção ao refúgio de seus companheiros sem-teto. — Eu vou ficar bem, tá bom? De um jeito ou de outro, eu sempre me virei.

— Nada disso, guria! — Logan a segura pelo braço, interrompendo sua despedida — Eu ia passar uns dias no meu apartamento em East Village, mas estou percebendo que você precisa muito mais do que eu de um lugar pra ficar sozinha.

Os olhos puxados de Jubileu encaram momentaneamente o molho de chaves na mão do amigo. Mas ela afasta o olhar logo em seguida.

— Eu não quero sua caridade, Logan...

— Quem falou em caridade? — pergunta o X-Man, obrigando a garota a segurar as chaves. — Você vai arrumar um emprego. Um emprego de verdade, tá me ouvindo? E vai me pagar o aluguel todos os meses. Assim, eu tenho uma boa desculpa pra vir te visitar de vez em quando pra ver se tu não saiu da linha!

A garota abre um sorriso avassalador. Antes que possam se dar conta, eles já estão imersos em um abraço.

— Wolvie... — ela sussurra quando as lágrimas começam a cair — Eu não sei como agradecer...

— Eu é que tenho que agradecer, Jubi. Por me lembrar a não perder de foco as pessoas importantes! E por me mostrar, mais uma vez, que não dá pra resolver todos os problemas dessa vida na base da porrada.


:: Notas do Autor

O título dessa edição é uma tradução livre da canção "The Blower's Daughter", do cantor Damian Rice. No Brasil, a música foi popularizada no dueto de Ana Carolina e Seu Jorge, e acabou traduzida de maneira absolutamente frustrante como "É Isso Aí".

O texto da chamada utilizada na capa desta edição e no índice de títulos é uma tradução livre de trecho dessa canção.

Wolverine adquiriu um apartamento em East Village na edição 112 da primeira série de seu título americano. No Brasil, essa história foi publicada discretamente em Wolverine 84, da editora Abril. Na história, escrita por Larry Hamma e desenhada por Anthony Winn, Logan resolve passar um tempo longe dos X-Men e se muda para o bairro de vida cultural agitada, onde ficaria por um curo período.

A seqüência em flashback faz referência a uma passagem publicada no Brasil em X-Men 71, de Setembro de 1994. Na cena clássica, desenhada pelo sensacional Michael Golden e escrita pelo lendário Chris Claremont, é mostrado o primeiro confronto entre Gambit e Wolverine na Sala de Perigo.

Nunca havia sido explicada uma razão para o combate ter sido interrompido pela simulação de Lady Letal. Acredito que a relação platônica de Jubileu por Logan fica perfeitamente exemplificada quando a garota chora ao perceber que o amigo foi derrotado.

Para os mais puristas, gostaria de lembrar que é bastante comum que garotas adolescentes passem a nutrir sentimentos românticos por seus professores, ou demais figuras paternais com idade incompatível a delas. Na minha opinião, o relacionamento de Jubileu e Wolverine sempre foi bastante diferente do que a relação do velho canadense com Kitty Pryde, por exemplo.




 
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