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Wolverine # 08

Por Rafael Borges

O quarto é tão escuro que quase não é possível perceber que as curtas madeixas da garota ainda mantêm a coloração artificial. Normalmente, as mulheres usam tinturas no cabelo para melhorar sua aparência. Mas, quando a cor escolhia é o verde limão, fica claro que a idéia era simplesmente chamar a atenção das pessoas.

Seu nome é Kristin. Ela vivia em East Village com o namorado, até o dia em que ele finalmente decidiu dar cabo de sua existência, após anos preso na cadeira de rodas. Clive nunca se recuperou de verdade do infeliz incidente que o tornou paraplégico.

Era hora, então, de Kristin dar continuidade à sua vida. Ao contrário de seu companheiro, ela nunca se deixou abater pelos problemas. Não seria agora que isso iria mudar.

Alguns meses se passaram até que a garota conseguisse olhar para outro homem com qualquer tipo de interesse romântico. Mas isso mudou quando Freddy entrou pela porta do Terceira Visão, o bar em que Kristin trabalha como garçonete nos últimos anos.

Freddy era um rapaz de aparência marcante. Filho de uma famosa advogada de Manhattan, ele tinha família rica, mas não deixava que isso lhe subisse à cabeça. Na verdade, ele tinha até um adorável jeito de bobo que foi o que conquistou Kristin logo de cara. Ela detestava homens que se achavam espertos demais.

O envolvimento do casal foi ardente, talvez pela carência de ter perdido o antigo namorado. O fato é que terminaram logo entre os lençóis, no apartamento do prédio em que Kristin é síndica.

O detalhe é que Wolverine é um dos proprietários de residência naquele edifício. Atualmente, o imóvel está ocupado por Jubileu. E foi ao velho canadense que Kristin recorreu quando precisou se vingar de Freddy. Agora, ela aguarda pacientemente que Logan lhe traga o ex-amante.

Vivo ou, de preferência, morto.

Negócios de Família

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A fechadura range de maneira sinistra para anunciar a porta que se abre, deixando a luminosidade invadir o quarto vazio. Wolverine entra ofegante e sem camisa. Ele se senta à mesa antes de começar a falar:

— Gata, você devia ter me contado!

— Faria alguma diferença? — retruca a garota de cabelos verdes.

— Não, mas seria a coisa certa a se fazer. Quer dizer que você teve uma filha com o tal Freddy de quem falou? Desculpa não ter trazido presente para o batizado. Talvez se você tivesse lembrado de me mandar um convite...

A simples menção da criança tira Kristin do sério.

— Eu estava envergonhada, ok? — esbraveja. — Eu me separei do Freddy antes da minha filha nascer. Ela poderia ter tido tudo, mas ia ter de aprender a se virar feito a mãe. Estava condenada a ser como eu durante toda a vida!

— Existem destinos piores. — responde o mutante, sem se deixar abalar pela instabilidade da amiga. — Sabia que, depois que vocês se separaram, o cara acabou se casando pra valer.



— Claro que sabia. Ele e a mulher passavam os finais de semana com a minha filha.

— Sabia que a mulher dele se chama Cristine? — prossegue Wolverine. — Ela é muito parecida com você, tirando o cabelo verde.

Kristin hesita por um instante. Ela entende as insinuações de Logan e não gosta nem um pouco de pensar nisso.

— Eu nunca a vi... — responde, finalmente.

O mutante se levanta e caminha decidido pela porta. Quando retorna, ele carrega uma mulher inconsciente sobre o ombro e a coloca cuidadosamente no canto do quarto. Há marcas de luta em seu corpo e, no rosto, um grande hematoma indicando que ela foi trazida à força.

— Essa é a Cristine. Na noite em que tudo aconteceu, ela teve uma séria discussão com a sua filha. — explica Wolverine, como se fosse necessário recapitular toda a história para aceitar os fatos — Era impossível pra ela não se sentir enciumada, convivendo com o fruto do relacionamento anterior do Freddy.

— Eu sabia que ela sentia ciúmes de mim, mas nunca pensei... — Kristin não consegue concluir o raciocínio.

— A briga foi feia, gata! — prossegue Wolverine, fitando inclemente os olhos da amiga — Ela espancou a garotinha até perder a consciência. Por isso, eu não tive dó de fazer, com ela, a mesma coisa. Acredito que a vida faz com a gente o mesmo que fazemos com os outros.

Não há resposta.

Kristin fita a madrasta de sua filha com ódio no olhar e lágrimas que caem irrefreáveis.

Wolverine aproveita o silêncio para deixar a sala novamente. Desta vez, ele retorna carregando um homem amarrado e amordaçado. Trata-se de Freddy, que interrompe suas tentativas fracassadas de gritar e de se libertar quando reconhece a garota que o aguardava no quarto escuro.

— Aqui está quem você me pediu, gata! — o velho canadense recupera o fôlego e retoma a conversa de onde parou. — O idiota do Freddy aqui se desesperou quando a garotinha, que havia apanhado da madrasta, desmaiou. Ele pensou que a menina estivesse morta. O cara nunca foi muito esperto, não é?

— Você não entende! — Intervém a garota — Freddy tinha um bom coração. Foi a mãe dele que nos separou. Ela nunca pôde aceitar que o seu filho pudesse se interessar por alguém como eu.

— Cada coisa ao seu tempo! Nós vamos chegar lá, menina! — argumenta Logan. — Desesperado, o nosso amigo Freddy aqui fez o que qualquer mauricinho faria: ligou pra mamãezinha dele. E isso nos leva à próxima convidada que eu trouxe pra nossa festinha.

Pela última vez, Wolverine deixa a sala escura. Não há necessidade de carregar a mulher que o acompanha de volta ao quarto escuro. Apesar das algemas nos pulsos e de seus lábios estarem selados por fita adesiva, ela não se deixa abalar nem quando é empurrada pelo X-Men para o chão, no canto do cômodo.

— Essa aqui é Rosalynd Sharpe, uma das mais importantes advogadas do país. — explica Wolverine. — Nós já nos conhecemos de outras tretas.

A senhora não responde. Mesmo que pudesse, não o faria. Seus olhos, entretanto, disparam altas doses de desprezo como fossem flechas incandescentes.

— Por que você trouxe essa mulher aqui? — indaga Kristin, visivelmente abalada.

— Porque, quando o filhinho telefonou e disse que sua primeira neta, de quem ela tinha tanta vergonha, estava morta, Rosalynd Sharpe teve uma idéia genial, não é mesmo? — Wolverine se abaixa e fita diretamente a advogada. — A idéia era simular uma invasão ao apartamento de Freddy para servir de álibi.

Rosalynd vira seu rosto, para não olhar o mutante de frente. Ele aperta com força sua mandíbula e a força a encarar o que vai ser dito.

— Mas, pra essa idéia sensacional ficar perfeita, faltava o toque de gênio! — exclama Logan — Faltava terminar o serviço, jogando a garotinha pela janela do décimo andar.

Kristin abaixa sua cabeça contra a mesa. Apesar de não conhecer os detalhes, ela já sabia do desfecho trágico daquela história. Foi justamente a morte da filha que a fez procurar Wolverine em busca de justiça.

— Que tipo de pessoa faz isso com a própria filha? — questiona Wolverine, voltando-se para Freddy, que jaz amarrado ao lado de sua esposa e de sua mãe. — Eu nunca fui o pai que devia ter sido pra minha filha, mas jamais seria capaz de tocar num fio de cabelo dela.

— Pra que tudo isso...? — clama a garota dos cabelos verdes, perdida entre lágrimas.

— O que ninguém tinha como saber é que esse caso ia virar um circo como só os repórteres da TV sabem montar! — continua Logan. Cada vez mais nervoso, ele não se importa com as súplicas da amiga. — A polícia desconfiou logo de cara dessa história de invasão e, agora, os legistas provaram que a garota ainda não estava morta quando foi arremessada do apartamento. Tudo isso por nada!

— Pra que...? — repete Kristin.

— Tá na hora de você me dizer a verdade, garota! — esbraveja o mutante, batendo contra a mesa. — Pra que você me chamou aqui? O que você quer que eu faça com essa gente?

O silêncio repentino parece pesar uma tonelada sobre os ombros de todos naquele quarto escuro. Lentamente, Kristin limpa as lágrimas de seus olhos arregalados e toma a decisão de mais importante de sua vida:

— Todos eles! — ela diz, aparentemente mais calma. — Mate todos eles! Faça justiça de uma vez por todas, Logan! Mate todos eles, como eles mataram a minha filhinha!

Quando a garota começa a se exaltar, é interrompida por um tapa de Wolverine, que acerta seu rosto em cheio. A mão pesada, com ossos revestidos pelo metal conhecido como adamântium, deixa um vergão.

— Eu pensei que a morte de Clive tivesse te ensinado alguma coisa. — diz o X-Man, em tom de desaprovação. — Você me procurou pedindo por justiça e foi isso que eu te trouxe. Tem uns velhos amigos meus do Departamento de Polícia de Nova Iorque em frente ao prédio. Eles estão com as gravações das confissões e vão jogar esses três na cadeia que é o lugar deles.

Wolverine se levanta para deixar o quarto escuro pela última vez. Mas, antes de passar pela porta, ele se volta para a atônita Kristin e explica:

— Demorou demais pra eu controlar o animal dentro de mim. Eu não sou a máquina assassina que quiseram me tornar e preciso lembrar disso todos os dias da minha vida.


:: Notas do Autor

Kristin e Clive, os vizinhos de Logan em East Village, foram criados por Larry Hama no curto período em que Logan foi morador daquele bairro. Clive sempre foi mostrado como um homem amargurado por estar condenado à cadeira de rodas, mas nunca foi revelada a razão de ele ter perdido o movimento das pernas. Acredito que o personagem servia para nos ensinar que não importam as dificuldades de nosso passado, mas sim a forma com que as superamos. No caso de Clive, ele nunca superou. Então, achei plausível que ele tivesse se matado.

Rosalynd Sharpe foi criada por Karl Kesel em sua pequena, porém marcante, passagem como roteirista do Demolidor. Sharpe é a verdadeira mãe de Foggy Nelson, o sócio de Matt Murdock, e se revelou uma mulher tão arrogante que nunca aceitou seu filho. Nada impede que ela tenha tido outro filho, um que ela teria reconhecido como legitimo. E duvido que ela aceitaria se ele se relacionasse com uma garçonete de cabelos verdes, muito menos que tivesse uma filha com ele.

Essa história é visivelmente baseada em um fato real recente, envolvendo a morte de uma menina na cidade de São Paulo. Depois de meses de exploração, por parte da mídia, do sofrimento de todas as pessoas envolvidas, achei que escrever sobre o assunto seria a melhor maneira de exorcizar todos os pensamentos ruins que as pessoas parecem querer alimentar quando mantém esse terrível drama em destaque.




 
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