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Por
Alexandre Mandarino
Os Homens Ocos (*)
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Forma sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
O Que Vamos Fazer Esta Noite?
1944. Fim do ano.
O recruta Jeff caminha com cuidado pela neve. As botas afundam e, como dragas, voltam à tona trazendo uma lama imunda. Ele parece pensativo, a testa franzida gerando estranhos desenhos de interrogação. Finalmente, dispara:
Mas como você terminou como batedor do batalhão? Ninguém me disse que eu podia ser batedor.
Você queria ser batedor? devolve o recruta Kurt.
Sei lá. Mas deve ser melhor que ser recruta.
Eu sou recruta também, Jeff. Só que eu sou cavalheiro e vou na frente pra morrer antes de vocês.
Kurt sorri e espera que a conversa tenha terminado ali. Jeff é obtuso e faz perguntas irrespondíveis, como uma criança. Sem chance:
Kurt... Kurt. Kurt é um nome alemão, né?
O recruta Kurt suspira e responde, com sua voz baixa e grave:
Sim, é. Meus avós eram imigrantes alemães.
Jeff olha de lado, espantado.
Sério?
Jeff, isso não quer dizer nada. Eu nem falo alemão. Ouvia meus pais falarem, mas sabe como é. Quando eu era criança, ainda havia muito rancor por causa da Primeira Guerra. Não me ensinaram alemão. Eu sou americano. Me sinto tão alemão quanto tibetano ou boliviano.
Jeff faz silêncio por cinco ou seis segundos e responde:
De que lado o Tibete e a Bolívia estão na Guerra?
É, a conversa irá continuar. Kurt acende mais um Pall Mall o terceiro em meia hora e vê a fumaça subir em espirais e se misturar ao branco da neve nos galhos das árvores.
Como Kurt nada diz a respeito da posição dos bolivianos ou tibetanos, Jeff retrocede em seu questionário:
Batedor, né? Deve ser legal ir na frente pra ver se a barra tá limpa. Vocês tiveram algum treinamento especial?
Tsc. Nada. Eu treinava com o obus 240 mm.
Nossa! essa é uma arma bem grande, né?
É, sim. A maior peça móvel de artilharia do exército. Ela é transportada em seis peças, cada uma delas arrastada por um trator Caterpillar. o recruta Jeff abre cada vez mais a boca Quando mandavam a gente atirar com ela, tínhamos que montá-la primeiro. Quer dizer, praticamente a gente tinha que inventar aquela tralha a cada treino de tiro. A gente usava umas gruas e macacos para baixar as peças umas sobre as outras. O projétil tinha 24 centímetros de diâmetro e devia pesar uns 140 quilos.
Putz. Como é que vocês colocavam isso dentro da arma?
Trilhos em miniatura, que a gente construía, levavam o projétil do chão até a culatra, que ficava a uns dois metros e meio do solo. O bloco da culatra parecia a porta de uma caixa-forte, dessas que você encontra, sei lá, em uma cooperativa em Peru, Indiana.
Eu já fui a Indiana! Minha prima, Mary Ann, é de lá. Lugar bem bonito. Você gosta de lá?
Não sei, não me lembro de ter ido lá.
Mas você disse...
Bom, Jeff, a gente metia o projétil lá dentro e então colocava sacos e sacos de explosivos. Pareciam uns biscoitos molhados. A gente fechava a culatra e disparava um martelo, que batia em uma cápsula explosiva de percussão de mercúrio, que tacava fogo nos biscoitos. Acho que a idéia era gerar vapor, sei lá. Eu sei que, de tempos em tempos, a gente ouvia uns barulhos culinários. Era que nem cozinhar um peru. No final, o obus acabava ficando inquieto.
E aí? Como era quando disparava?
Você já viu esses desenhos novos que passam nas matinês? Bom, o projétil era expelido com a velocidade de, sei lá, um balão dirigível da Goodyear. Eu acho que se a gente tivesse uma escada, daria pra pintar "Foda-se Hitler" no projétil enquanto ele saía da arma.
Uma arma impressionante!
É... impressionante pra guerra franco-prussiana!
A França e a Prússia estão em guerra também?
Neste momento, Kurt desiste de Jeff e resolve apertar o passo. Afinal, ele é um dos seis batedores da 106ª Divisão de Infantaria a "Divisão das Sacolas de Almoço". Sempre recebem um monte de sacos de comida. Sanduíches de salame. Uma laranja. Treinamento de batedor? Jeff, coitado. Que treinamento? Kurt e os outros escolhidos para batedores marchavam para a sala de recreação todas as manhãs e jogavam pingue-pongue ou algo assim. E quem participa do treinamento com o obus 240 mm não tem tempo sobrando nem pra, sei lá, assistir aqueles malditos filmes sobre doenças venéreas.

1944. A Batalha do Bolsão. A maior derrota do exército norte-americano na História.
Kurt!! Kurt!! Cadê todo mundo? Todo mundo, Kurt!!
Os gritos são de Ted, outro dos batedores. O mais formidável aconteceu: os seis batedores agora procuram não pelo inimigo, mas por sua própria unidade de infantaria. No fiasco da Batalha do Bolsão, o batalhão se desintegrou. Kurt mantém o mesmo olhar, um olhar de quem já viu algumas coisas divertidas, outro tanto de coisas sérias e assimilou.
A fumaça das bombas e a neve que cai formam uma neblina intransponível. Neste circo de horrores, Kurt estreita a visão e tenta encontrar.
O quê? Sei lá, encontrar.

1944. No interior de uma vala.
Kurt e os outros cinco batedores da 106ª Divisão estão reunidos. A vala é tão profunda como uma daquelas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Além dos seis batedores, estão ali mais de cinqüenta soldados, nenhum deles da 106ª. Um deles diz que "talvez a gente esteja em Luxemburgo". De tempos em tempos, alguém mais corajoso estica o pescoço para fora. Nada. Fumaça, poeira e neve. Mas os alemães podem enxergá-los muito bem. A voz ressoa em um alto-falante:
Não tenham esperanças. Vocês não têm escapatória! vomita o aparelho, em um inglês macarrônico.
O grupo de soldados arma suas baionetas. Ficam assim por vários e longos minutos. Kurt pensa que, estranhamente, é bom estar ali. Eles são um porco-espinho, um útero espetado. Coitado de quem se atrever a tentar tirá-los dali.
Mas não é "quem", e sim "o quê": projéteis de 88 mm explodem nas árvores, bem acima do grupo. Os soldados recebem uma chuva de estilhaços de aço. Muitos deles se cortam e gritam de dor. O alto-falante:
Saiam já daí.
Os soldados olham uns para os outros e, como em um comportamento cibernético de formigueiro, começam a sair, cuidadosamente, dizendo, em voz baixa, "Está bem", "Calma".
Os alemães finalmente se mostram. Um estranho grupo, todos vestindo roupas de camuflagem brancas. Um dos recrutas ao lado de Kurt, com sotaque texano, diz:
Putz. Nós não temos nada parecido. Só esse verde-oliva escroto.
Um dos oficiais alemães se aproxima e diz:
A guerra está acabada para vocês. E vocês têm sorte, porque agora podem ter certeza de que sobreviverão à guerra. Na verdade, é uma certeza maior do que a nossa.
Kurt se aproxima e resolve arriscar algumas poucas palavras em alemão que conhecia. "O que vai acontecer conosco?", ou algo assim.
O oficial alemão olha intrigado e responde:
Você é descendente de alemães?
Sim.
Por que está em guerra contra seus irmãos?
Kurt nada diz e consegue segurar uma estranha vontade de rir.
O recruta não percebe, mas logo atrás dele um soldado de cabelos negros observa com olhar curioso o alemão. Ele pensa que o oficial pode estar certo quanto à sorte: dias depois, todo aquele contingente alemão seria exterminado pelo III Exército do General Patton.

1944. No interior de um vagão de carga.
Kurt está em um vagão apinhado. O trem prossegue em ritmo lento, mas estranhamente excitante. O recruta olha em volta. Estes mesmos vagões provavelmente haviam entregue carregamentos de judeus, ciganos, testemunhas de Jeová e outros desafortunados para os campos de extermínio. Seus devaneios são interrompidos por um recruta:
Ei. Com licença. Você é batedor, né?
Kurt olha o homenzinho magro.
Será que... você faz idéia de para onde estamos indo?
Kurt olha para o outro recruta, surpreso por ainda não haver pensado nisso. Ele balança a cabeça negativamente como resposta.
Nas noites seguintes, o comboio metálico é atacado por bombardeiros ingleses. O vagão sacoleja e os recrutas fecham os olhos enquanto o som do motor dos aviões antecede o baque da carga de explosivos sobre o solo. Um dos soldados, um sargento, diz:
São aviões ingleses! Por que estão atacando um trem de prisioneiros americanos?
Devem achar que somos outro tipo de carga. Armamentos, sei lá.
Uma guerra pode ser tudo, menos uma guerra de informação. Ataques acontecem somente com uma boa dose de palpite e improviso, ao contrário do que era mostrado nos filmes sobre a Primeira Guerra. É exatamente quando pensa sobre isso, palpite, que Kurt o nota pela primeira vez.
O oficial britânico, uniforme de sargento, está encolhido em um canto do vagão. Seus cabelos são negros, trespassados por um estranho brilho azulado. Ele parece disperso.
Um sargento inglês. Kurt resolve se aproximar. Acende um de seus Pall Mall e oferece outro ao estranho soldado.
Fuma?
Às vezes, mas não agora. Obrigado.
O sotaque é a coisa mais esquisita que Kurt já ouviu. Marcadamente inglês, mas com ritmos e assovios que remetem a outras terras.
Capturado em Luxemburgo, como quase todos nós?
Sim.
Não sabia que haviam ingleses em operação terrestre por ali naquele momento.
... não haviam.
O que fazia por lá?
O homem levanta os olhos e fita os de Kurt. Então, diz:
Esta guerra vai ser mais importante para você do que pensa. Até então, você tem agido como se estivesse em um filme. Uma defesa. Mas, quando estiver de volta ao seu país, deixe de pensar assim. Deixe a guerra tomá-lo, quando estiver em casa e em segurança. Será melhor para o que tem a fazer.
Kurt, olhos arregalados, balbucia uma quase resposta, mas um recruta em um canto próximo geme de dor. O inglês olha para ele, pára alguns segundos e volta-se para Kurt:
Aquele homem morrerá em meia hora. Sabe no que ele está pensando? Em seu cachorro.
Kurt olha para o moribundo, que sangra bastante.
É, um vira-lata preto chamado Joe. Essa é a imagem que preencherá a última meia hora de vida daquele homem. o inglês fita os olhos de Kurt Você ainda quer explicações? Eu não as tenho.
Kurt traga com vontade seu cigarro e se afasta, fazendo um leve cumprimento involuntário para o homem de cabelos negros.
Quarenta minutos depois, Kurt vê o inglês caminhar até o corpo do jovem recruta americano. Ele arranca suas identificações e patentes e troca pelas do recruta, trocando também de botas e camisas com ele. Minutos depois, a cena está mudada. Quem olhasse, poderia jurar que aquele homem de cabelos negros era um recruta americano e que o morto no chão havia sido um sargento inglês.
Kurt resolve se aproximar e pergunta:
Por que fez isso?
O quê?
Trocou de roupa com o recruta morto.
Para onde vamos, é melhor ser um recruta do que um oficial. Ao menos para mim.
Bom... eu odeio oficiais.
Diga isso de novo daqui a uma hora e meia.
Uma hora e trinta e cinco minutos depois, os aviões ingleses retornam. Desta vez, acertam o alvo. Um dos vagões do trem, que leva todos os oficiais do batalhão de Kurt, é atingido e vai pelos ares. Todos em seu interior morrem.
Dias e consertos depois, o Natal é passado dentro do vagão, com o trem em movimento. De alguma forma, ainda consegue ser um Natal. Nesta data, Kurt repara que o homem de cabelos negros parece estranhamente divertido.

1945. Um enorme campo de prisioneiros na Alemanha.
Kurt está em uma fila de soldados prisioneiros. O que acontece ao fim da fila ele não consegue ver. Mas os presos estão sendo separados em dois grupos. Ele se volta e, para sua surpresa, o homem de cabelos negro-azulados está quase atrás dele. Estão separados por cinco ou seis homens. Ele pergunta para o homem imediatamente atrás, um tenente americano.
O que estão fazendo?
Estão separando os soldados e recrutas dos oficiais subalternos e comandantes.
Por quê?
Convenção de Genebra. responde o tenente Vocês, soldados, têm que trabalhar para se manter. Nós, oficiais, ficaremos definhando na prisão.
Kurt olha para o homem de cabelos negros. Ele está com um leve sorriso.

1945. Dresden, Alemanha.
Dresden é a cidade mais elegante que Kurt jamais viu. Repleta de estátuas, monumentos e zoológicos, uma espécie de Paris alemã, se é que isso é possível. O comboio de caminhões que leva os soldados finalmente pára. Kurt olha para sua nova casa: um matadouro, um estábulo para porcos, recém-construído com blocos de concreto. Nos estábulos, foram colocados beliches e colchões de palha.
E assim passam os dias. Kurt e os outros são acordados de manhã bem cedo e vão trabalhar em uma fábrica de xarope de malte, indicado para mulheres grávidas. Kurt não mais se aproxima do homem de cabelos negros, que agora parece sério e preocupado. Ansioso. Se aquilo fosse um filme, Kurt teria pensado que o inglês pensava em escapar. Mas aquilo não era um filme.
As sirenes da cidade disparam com freqüência. Quando isso acontece, é possível escutar ao longe alguma cidade vizinha receber as bombas. Buuuum, buuum, buuum, como um marcapasso do inferno. Kurt dá graças a Deus por estar em Dresden. A cidade não é um alvo militar, nada importante acontece ou é fabricado ali. A Paris alemã possui pouquíssimos abrigos antiaéreos e nenhuma indústria de guerra somente fábricas de cigarros, hospitais, zoológicos e fábricas de clarinetes. Em seus devaneios mais ousados, Kurt chega a se sentir confortado pelo fato de ser vizinho de fábricas de clarinetes e cigarros. Desde 1936, mais ou menos, fuma um Pall Mall atrás do outro. E clarinetes são vizinhos simpáticos.
Os dias passam e ele pensa em como é estranho que se acostume tão facilmente à condição de prisioneiro. Acordar e trabalhar na fábrica de xarope já é sua nova rotina. Então, um dia, o homem de cabelos negro-azulados senta-se ao seu lado durante a refeição na fábrica, carregando sua tigela de sopa.
Como estão as coisas? ele pergunta, de forma surpreendentemente amigável.
Ahn? Bem... estão como devem ser, não é? responde Kurt Você parece feliz.
Pareço? Não, eu não estou feliz. Mas já vi outras guerras.
Guerras? Você parece ter no máximo trinta anos de idade. Não pode ter lutado na Primeira Guerra.
O homem parece repentinamente alarmado.
Modo de dizer. Você sabe.
Não, na verdade, não sei. O que você quer dizer?
Quero dizer que você deve me escutar e escutar bem.
Kurt fica em silêncio. O homem volta a agir como naquele período dentro do vagão.
Kurt. Essa guerra será importante para você. E, sendo importante para você, será importante para o mundo. Mas lembre-se do que eu vou dizer, porque só vou dizer esta vez. Lição número 1: você não é Frank Sinatra. Lição número 2: escute atentamente ao que Mary O'Hare terá a lhe dizer.
E então o inglês se levanta e sai do refeitório.

13 de fevereiro de 1945. Dresden.
O homem de cabelos negro-azulados adotou um comportamento errático. Neste dia 13, Kurt acorda e o encontra vasculhando o campo de prisioneiros, de forma discreta, como se procurasse algo. O inglês pensa em escapar, agora Kurt está certo disso. Ele se aproxima do estranho oficial e diz:
Perdeu algo?
O homem, sem levantar os olhos do chão, diz:
Sim. De certa forma.
Você não é bem um prisioneiro, é? Não está aqui por causa da guerra. Por que está aqui?
O inglês pára e o encara.
Sou um prisioneiro. Mais do que você é, se quer saber.
Ainda não sei o seu nome.
Wyrd. Owen Wyrd.
"Wyrd". Que diabo de nome é aquele? Subitamente cansado daquele inglês realmente esquisito, retoma seu caminho em direção à fila para o transporte que o levará até a fábrica de xarope.
No meio do dia, uma sirene toca. Diferente das outras, esta parece mais próxima, mais urgente e mais íntima, como se berrasse "Sim, você aí! É com você que estou falando!" Kurt se volta para o prisioneiro ao seu lado, preocupado em manipular tubos com um líquido claro. O prisioneiro está boquiaberto:
Não é possível... é a nossa sirene! A sirene de Dresden!
De repente, acidentes. Kurt e os demais prisioneiros que trabalham naquele setor da fábrica entram em total estado de balbúrdia. Alguns alemães aparecem do nada e os fazem descer dois andares do prédio, em direção à porta de saída. Mas não passam por ela. Continuam descendo as escadas e descem mais dois andares subterrâneos, abaixo da calçada, até um grande depósito de carne.
Silêncio completo. Os alemães parecem mais assustados que os prisioneiros. Em um canto, como um onipresente personagem de cartoon, está Owen Wyrd. Pela primeira vez, Kurt percebe o que talvez seja preocupação no rosto do inglês. De vez em quando, ele parece falar sozinho.
O depósito de carne é imenso, escuro e fedorento. Cadáveres estão pendurados por todos os lados, esperando uma misericórdia já atrasada. Poucos prisioneiros desceram até ali. Além de Kurt e Wyrd, estão presentes cerca de outros oito no pequeno grupo. Os guardas presentes são oficiais subalternos: um sargento, um cabo e quatro soldados alemães. O silêncio e a expectativa parecem incomodá-los.
Então, começa. Os sons das bombas são abafados de maneira quase cômica pelas paredes de concreto acima. Primeiro, explosivos. E, após instantes indefinidos, uma série de bombas incendiárias. Um tempo depois, Kurt acredita escutar Owen, em seu canto, recitar algum poema. Seria latim aquilo? Inglês arcaico?
O fedor dos cadáveres e os sons abafados da destruição formam, com os versos sussurrados de Wyrd, uma grotesca composição. Difícil saber quanto tempo se passou até que os sons terminassem. E mais difícil ainda precisar quando e quem decidiu que deveriam subir.
E nunca uma subida se pareceu tanto com uma queda.

13 de fevereiro de 1945. O Matadouro.
Anestesia. É o que Kurt sente quando observa o sol e, depois disso, Dresden. Leva um susto ao ver que o prédio da fábrica não existe mais. Mas o segundo susto é ainda maior: Dresden não existe mais.
Até onde a vista alcança, tudo o que Kurt pode ver são destroços e cinzas, como se os cavalos de Deus tivessem aplainado o terreno. Os guardas alemães estão em choque. Aqueles homens são meros habitantes de Dresden que haviam se ferido nos campos de batalha e enviados de volta para casa para tarefas fáceis. E agora sua casa não existe mais. Kurt acredita na existência de um limbo: ele fica na Terra e se chama Dresden. A amplitude e força do vazio à volta daqueles homens ecoa em seus cérebros e tudo o que pensam é o nada. Zen e a arte da destruição marcial. A guerra induzindo ao estado de fluxo.
Finalmente, um dos alemães, com a voz embargada, grita com raiva:
Sentido!!
Kurt, Wyrd e os outros ficam em posição de sentido por mais de duas horas. Um oásis de ordem em meio ao nada. Os alemães, olhos arregalados, passam-nos em revista várias vezes e depois conversam entre si. Repetem este ritual por duas longas horas. Wyrd, ao lado de Kurt, parece não estar ali. Os olhos do homem alteram-se, ganhando uma luminosidade quase escarlate, insana. Os olhos de quem perdeu algo que nunca será substituído. Por vezes, Kurt acha que ele irá disparar em uma gargalhada insana ou em rios de lágrimas. Mas o inglês, de alguma forma, se contém.
Finalmente, os alemães, seguidos pelos prisioneiros, começam a caminhar pelos escombros. Kurt e os demais são alojados em uma casa de subúrbio, junto com alguns sul-africanos. As horas passam opiáceas e levam a dias ainda mais morféticos. Toda manhã, os prisioneiros caminham até a região central da cidade e cavam nos porões e abrigos, de onde retiram incontáveis corpos, em uma medida chamada por um oficial de "sanitária". A palavra "sanitária" sai como um escarro, uma lágrima travestida, da boca do alemão.
Kurt e Wyrd entram em um abrigo típico a maioria são porões comuns, sem reforços nas paredes e encontram uma fileira de pessoas mortas, ainda sentadas em suas cadeiras.
Parece um bonde cheio de gente que sofreu ataque cardíaco simultâneo. observa Kurt.
Uma tempestade de fogo. diz Wyrd, sem forças Ela não ocorre na natureza. Os furacões provocados pelo bombardeio criam vácuos e não resta ar no meio deles para que as pessoas respirem.
Os mortos, de todos os abrigos, são levados para fora e colocados em vagões de trem. Depois, são levados para os parques e zoológicos, únicas áreas amplas da cidade que não estão tomadas pelo entulho. Os alemães acendem enormes piras funerárias para queimar os corpos e evitar que cheirem mal e propaguem doenças.
Cento e trinta mil corpos são encontrados sob a terra.
Depois de alguns dias, a cidade começa a feder. Uma nova técnica é então inventada: os prisioneiros passam a entrar nos abrigos, retiram os objetos de valor das pessoas (sem tentar fazer qualquer identificação) e entregam tudo para os guardas. Nesta fase, Kurt percebe que, curiosamente, Wyrd fica mais animado, como se nova esperança tivesse se lançado sobre ele. Depois desse confisco, essa estranha procura por ovos de Páscoa, os soldados alemães entram com um lança-chamas e, junto à porta, cremam as pessoas lá dentro. O ouro e as jóias, empilhados do lado de fora, são sempre guardados. Wyrd observa estes montes com interesse, sem se aproximar muito, mas toda vez retorna com uma expressão de desânimo.
Em uma destas expedições, acontece o impensável. Kurt, Wyrd e Will, um gordo cozinheiro sulista de um batalhão americano, entram no porão do que parecia ter sido uma velha mansão alemã. Moedas, carteiras de couro com marcos, relógios de bolso folheados a ouro, colares, tudo é retirado. Os mortos aristocratas continuam em seus postos, imperturbáveis, no bonde que trafega pela estrada para o outro mundo. Quando os guardas se posicionam com os lança-chamas, Wyrd se volta sem aviso algum e olha para dentro.
Não... ele sussurra. Os guardas começam a despejar seu hálito de fogo Não! o grito de Wyrd parece vir de algum recanto infernal. O inglês corre para dentro da sala, passando pelos guardas.
Wyrd!! grita o gordo Will, tentando alcançá-lo. Kurt segura o cozinheiro e, quando olha para o antigo porão ricamente decorado e revestido com folhas de mogno, vê algo que nunca esquecerá e sobre o qual jamais ousará falar.
Wyrd, em meio às chamas, gargalha. Em sua mão direita, parece segurar um objeto brilhante. As gargalhadas se misturam ao som dos lança-chamas e o brilho do objeto é sobreposto, como em um quebra-cabeças, à terrível luminosidade do fogo. Kurt e Will são arrastados para fora por soldados alemães, enquanto o primeiro grupo continua usando os lança-chamas. As risadas grossas e imperturbáveis de Wyrd continuam, até sumir em meio ao crepitar da madeira.

Dresden foi completamente destruída por um bombardeiro norte-americano em 13 de fevereiro de 1945. Em menos de seis horas, a cidade foi reduzida a nada, naquele que é considerado "o maior massacre na história da Europa". Pelo menos centro e trinta mil pessoas morreram, mas é provável que este número seja bem maior. Uma coisa que todos aprenderam foi a rapidez com que se podia reconstruir uma cidade. Os engenheiros disseram que seriam necessários quinhentos anos para a reconstrução da Alemanha.
Levou menos de dezoito semanas.
A reconstrução de Dresden foi beneficiada pela experiência de um engenheiro alemão de cabelos negro-azulados, que se dedicou em erigir novos prédios e vasculhar os destroços com uma força de vontade que só é vista em quem já perdeu tudo o que tinha. Não se sabe se tal engenheiro existiu ou se era apenas uma motivadora lenda urbana, mas há quem garanta tê-lo visto, o corpo magérrimo e os cabelos negros, falar coisas como "a derradeira esperança merece um túmulo de mármore".
O sargento inglês Owen Wyrd morreu naquele dia onde as chamas falaram mais alto. Bom, o sargento inglês, sim.
O recruta Kurt Vonnegut Jr. escreveu sobre o bombardeio de Dresden em seu romance Slaughterhouse Five (Matadouro Cinco). Kurt se tornou um dos mais importantes escritores americanos de sua geração. Sua sinceridade na descrição dos horrores da Guerra e de Dresden foi elogiada.
"Quando encontrava algum europeu e dizia que havia estado em Dresden, a pessoa ficava espantada e sempre queria saber mais. Depois foi publicado um livro, dizendo que Dresden foi o maior massacre na história européia. Eu disse: ora essa, vi alguma coisa, afinal de contas! Eu tentaria escrever minha história de guerra, quer ela fosse interessante ou não, e tentaria tirar alguma coisa dela. Eu via aquilo como se fosse estrelado por John Wayne e Frank Sinatra. Por fim, uma garota chamada Mary O'Hare, mulher de um amigo meu que também havia estado lá, disse: 'Vocês eram apenas crianças na época. Não é justo fingir que eram homens como Wayne e Sinatra, e não é justo para com as gerações futuras, porque vão fazer a guerra parecer boa'. Aquela foi uma dica muito importante para mim."
"Foi uma coisa fantástica de se ver, uma coisa assustadora. Foi um momento de verdade também, porque os civis norte-americanos e as tropas de terra não sabiam que os bombardeiros americanos estavam envolvidos em bombardeios de saturação. Isso foi mantido como segredo até perto do fim da guerra. A Alemanha ainda estava lutando e esse equipamento para queimar cidades estava sendo usado. Isso era um segredo, queimar cidades, urinóis fervendo e carrinhos de bebê em chamas. Você via um cinejornal mostrando um bombardeador com um MP de cada lado, segurando um 45 engatilhado. Esse tipo de absurdo e, droga, tudo que eles estavam fazendo era apenas voar sobre cidades, centenas de aviões, e derrubar tudo."
"Uma razão para eles terem queimado Dresden é que eles já haviam queimado o resto. Você sabe: 'O que vamos fazer esta noite?'" (**)
:: Notas do Autor
(*) Poema "Os Homens Ocos" ("The Hollow Men"), de T. S. Eliot, de 1925. 
(**) Os trechos entre aspas foram extraídos de uma extensa entrevista que o escritor Kurt Vonnegut concedeu à revista Paris Review. 
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