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Batman # 13

Por Leonardo Araújo

Fora de Controle
Parte I

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Noite sombria em Gotham. A lua encoberta deixa a cidade mais escura do que já é. O vento sibila, rasgando por entre os arranha-céus. Porém, há poucos minutos a cidade ainda estava mais escura, pois, no momento, Gotham acaba de se recuperar de um blecaute.

Passadas firmes no corredor da mansão Wayne se aproximam da entrada secreta da caverna. Alfred aborda seu patrão ainda num dos intermináveis corredores.

— Presumo que as duas jovens senhoritas são aquela modelo, srta. Guerevich — a morena — e a jovem e desejada estrela ascendente de Hollywood, srta. McCarthy — a loura.

— Isso. Providencie que elas não estejam aqui quando eu retornar de minha ronda.

— Colocarei-as para fora agora. Direi que estão detetizando o imóvel.

— Acho que não conseguirá acordá-las em menos de três horas.

— Senhor, francamente, dar soníferos às damas... vou deixá-las, como diria, descansando. A propósito, levarei um lanche ao senhor enquanto examina os arquivos em sua mesa. Tomei a liberdade de imprimir alguns para facilitar a análise. Versão sobre...

Bruce já desce em direção a caverna enquanto responde ao seu velho amigo:

— Laboratórios L&C. Com os acontecimentos dos últimos dias, não pude tratar devidamente do assunto.

Num tom sarcástico, Alfred pergunta, enquanto se retira para não ter de ouvir a resposta:

— Trabalho de Bruce Wayne ou do Batman?

Após 45 minutos, Batman já analisou a maioria dos arquivos que obteve, em conjunto com Oráculo, sobre as recentes atividades dos Laboratórios L&C. Doze das mentes científicas mais brilhantes do planeta estavam trabalhando, de alguma forma, para a empresa investigada. Cinco destes cientistas estavam trabalhando em Gotham, diretamente na empresa. Havias outros cientistas, sem maiores projeções, mas todos no mínimo promissores. Eletrônica, computação e física eram seu foco. Técnicos de currículos invejáveis completavam o corpo de pesquisadores.

Cerca de oito meses atrás foi erguido um grande e moderníssimo complexo de pesquisa numa zona periférica da cidade. Toda esta equipe técnica está trabalhando nesses prédios. Construíram, junto ao complexo, um condomínio para abrigar boa parte dos empregados. Os cientistas, diretores e boa parte dos técnicos estão lá.

— Não parece ser ação social. Caracteriza um isolamento, uma forma de preservar o sigilo. — pensa o morcego.

Há vários relatórios de compras diretas e indiretas de material de última geração. Supercondutores, grandes geradores, equipamentos laser, etc. Há indícios até de contrabando de matéria similar.

— Definitivamente estão escondendo algo. — pondera o homem-morcego — Muitas vias para uma classe pouco abrangente de material. A aquisição direta formal é pequena, visando não parecer suspeito. Têm um contrato de fornecimento de energia elétrica descomunal. Deve ser o maior da história. Mesmo assim, há compra de vários geradores industriais de alta potência. Não é à toa que estivemos tendo tantos blecautes. A análise dos relatórios da concessionária de distribuição de energia elétrica deixa claro que há uma sobrecarga provocada pela excessiva demanda de energia da L&C.

Com a finalidade de comparar as construções que constam na planta do complexo de pesquisa com possíveis recentes modificações, um pequeno planador, remotamente controlado, sobrevoa as edificações da L&C e filma o local.

O fim da noite é dedicado a levantamento de informações. Usando um disfarce, o detetive freqüenta alguns bares noturnos, perto do porto, onde bêbados e prostitutas contam tudo por bebida ou dinheiro. Em uma mesa no fundo do bar, há três prostitutas e três homens.

— Cara, como aquilo pesava. Depois eu fui saber o porquê: era um gerador enorme, um não, uns dez. — afirma um falastrão bêbado enquanto o detetive, agora disfarçado como o malandro Fósforos Malone, lhe enche o copo.

— Meu chefe precisa de material de primeira, supercondutor, esse tipo de coisa. — Malone joga com as palavras.

— Tem sim, cara. Ali tinha de tudo. Do jeito cabreiro que estavam "mocando" a carga, eles vão vender por baixo do pano. Era muita coisa e não tem nem duas semanas. — afirma o outro bêbado da mesa.

— Meu amigo, traz mais uma rodada! — Malone se dirige ao rapaz que traz as bebidas — Mas onde eu acho os caras?

— Ué, na L&C, na Black Fox... tinha outra também! — responde uma das moças.

— Tem certeza?

— Gatinho, depois de descarregarem, eles passaram por aqui pra comemorar, hehehe. — responde a ruiva, enquanto pega um cigarro — E você, tem fogo?

Com as informações levantadas e confirmadas, Batman agora tem certeza de que houve material elétrico e eletrônico de grande porte adquirido pela L&C e mais algumas quatro empresas menores. Duas destas Batman lembra que constam da lista com empresas laranjas que Oráculo o enviara. As outras duas também devem ser. Uma rápida investigação apontará o fato, assim que retorne à caverna.

Já são seis horas da manhã quando o ronco do batmóvel é silenciado no interior da caverna.

O homem-morcego salta do carro e apanha na bandeja algo preparado por Alfred para comer. O mordomo está à sua espera.

— Senhor, antes de tudo, gostaria de informar que foi impossível...

— Alfred, preciso que inicie uma pesquisa para mim. Pediria a Oráculo, mas é algo pequeno que pode desviá-la de atividades mais urgentes. — interrompe-lhe Bruce.

— Claro, patrão. Mas devo alertá-lo que...

— Estou digitando o nome das duas empresas que espero achar relação com a L&C, embora eles provavelmente tenho tentado ocultar. — instrui Bruce, enquanto se dirige para a entrada da mansão.

— Entendi. Insisto em...

— Vou tomar um banho quente e... — subitamente, ao olhar para uma das imagens do sistema de segurança que monitora a mansão, Bruce pergunta a Alfred — Não era pra estas duas estarem longe daqui? — refere-se às duas beldades em seu quarto, as mesmas do inicio da noite anterior.

— Era isso que eu vinha tentando lhe dizer, senhor. Foi impossível demovê-las da idéia de aguardar o senhor de sua caminhada sonâmbula.

— "Caminhada sonâmbula"?

— O que o senhor queria que eu dissesse quando elas me perguntaram, as cinco e meia da manhã, "onde Bruce foi?" A primeira coisa que me veio à cabeça, além de "ele está vestido de morcego pendurado em algum prédio da cidade" foi que o senhor tinha rompantes de sonambulismo e, por vezes, ia de um quarto para outro durante algumas noites.

— Tudo bem, tudo bem!

— Seu roupão, senhor.

— OK! Quanto à pesquisa...

— Não se preocupe. Eu a farei. Pressinto que o patrão demorará. Não se apresse por minha causa, mas sugiro que termine de se alimentar, afinal, é muita atividade, até mesmo para Batman e Bruce Wayne juntos.

— Sem piadas.

— Piadas? Só as faria se alguém aqui, além de mim, tivesse senso de humor. A propósito: aquela mancha de batom no seu uniforme... (*) deve tomar cuidado para não encontrar as manchas de batom dos seus lençóis. É melhor começar a fazer uma agenda para isso.

— Tchau, Bruceee!! — ecoa as duas vozes femininas na sala. Uma delas tem o dedo indicador entreabrindo a boca, numa atitude provocante. É meio-dia quando Alfred leva as senhoritas até o táxi na porta da mansão.

— Pensei que iriam transpassar a tarde. O senhor não tem a noção da quantidade de fotógrafos que acham estar escondidos nos jardins da mansão. Sua fama de playboy está salva, patrão. O senhor falou com a srta. Diana?

— Diana é uma mulher fantástica, Alfred. — Bruce Wayne ajeita a gola do roupão e refaz o nó em sua cintura — E a pesquisa?

— É impressionante como o "sorriso e beijinhos" de despedidas das senhoritas se transformam neste ar sombrio. Pergunto-me se me acostumarei a isso algum dia. A pesquisa está concluída: as empresas acobertam compras e pagamentos de funcionários da L&C. Mas deu muito trabalho. Definitivamente, eles não queriam que isso fosse descoberto. Lembro da reunião às 16 horas.

— Almoçarei e me retirarei aos meus aposentos por alguns minutos. Preciso fazer um pequeno relaxamento para recuperar as horas sem dormir.

— Alguma preferência para o almoço, senhor? Eu indicaria algo leve como uma salada caesars e frango com alcaparras. Para acompanhar, teria um purê de maçã verde e, de sobremesa, pêra ao vinho com chocolate. — quando Alfred termina de citar o cardápio pelos corredores da mansão, Bruce Wayne fecha a porta do quarto — Ah, patrão Bruce, as maçãs estão divinas!

Quando a noite se aproxima, Batman dedica uma atenção maior às cargas que entram e saem do porto. Verifica todas que foram às empresas coligadas à L&C, inclusive a própria.

— Oráculo, terminou a pesquisa na rede interna dos Laboratórios L&C? — pergunta Batman pelo comunicador.

Sim, só estou terminando de organizar os arquivos. A primeira leva está sendo enviada eletronicamente neste instante. O restante segue em cinco minutos.

— Algo interessante?

Muito. Como era de se esperar, a segurança é altíssima. A busca mostra que existe uma pesquisa central de alta relevância, o carro-chefe deles. Eles a denominam "projeto Gráviton". Há, inclusive, interesse do governo federal, com pesados investimentos.

— As fontes governamentais são limpas? — pergunta Batman.

Tentaram dissimular. São diversas e de variadas fontes. O mais interessante eu ainda não disse. A segurança é tanta que há uma rede interna, desconectada fisicamente da rede principal do laboratório, com os dados sobre o projeto Gráviton, chamado por eles de PG.

— Mande os arquivos com um resumo para Ray Palmer. Quero-o informado, caso precisemos dele.

OK! Precisa de apoio?

— Que apoio?

Dinah está em Blüdhaven, posso pedir que vá até Gotham.

— Eu posso resolver sem a Canário Negro, Bárbara.

OK!

Ao acabar suas instruções e troca de informações com Oráculo, Batman concentra-se no estudo do filme, da planta do complexo de pesquisa e da doutrina de segurança da empresa. Após memorizar parte das instalações, decide ir pessoalmente aos prédios.

É madrugada quando o detetive esconde-se nas sobras das instalações, levantando todos os pontos de segurança externos e áreas varrida por câmeras. Há rondas feitas com cachorros, a fim de farejarem estranhos. Mas o homem-morcego pouco se move no chão.

O morcego verifica cabos que saem de cada residência, provavelmente um monitoramento de segurança: deixa um pequeno analisador de sinal junto a esses cabos. Grampeia os telefones das residências dos cientistas e deixa escutas onde a possibilidade de serem achadas é remota.

Usando passagens de ar, forros e a habilidade de deslocar-se silenciosamente pelas sombras, o detetive consegue mapear também boa parte do complexo em sua parte interna, principalmente os sensores de presença. Já passa das cinco da manhã quando Batman se vê forçado a evadir-se do local usando a rede de esgotos.

Na caverna, Batman analisa a coleta de informações que fez. Uma coisa ficou clara: quanto mais perto do "bloco zero", uma instalação central no complexo de prédios, maior é a segurança. Um plano de invasão do ambiente começa a ser elaborado. É necessário ter mais informações, mais precisas e objetivas.

— Deus do céu! Que fedor asfixiante. Ainda bem que aquelas senhoritas estiveram aqui ontem. Hoje elas já teriam indo embora só de o senhor adentrar a caverna! — exclama Alfred, enquanto remove o uniforme sujo — Devo queimar, patrão Bruce?

Não dando vazão ao humor ácido de seu mordomo, o homem-morcego lê seu correio eletrônico. Batman constata um recado de Oráculo afirmando que interceptou quinze arquivos dos colaboradores externos da L&C. Estavam com uma codificação como ela nunca encontrara. No momento, o trabalho dela estava focado em decodificar a criptografia dos arquivos.

A análise das imagens e as demais informações adquiridas nas últimas semanas indicam que os moradores do condomínio interno raramente saem. É tudo pedido e trazido da cidade para eles por uma firma terceirizada.

Descartada a hipótese de seguir alguns diretores ou cientistas, o maior detetive do planeta resolve verificar as terceirizadas. A lista é muito curta, são poucas as tarefas feitas por pessoas não ligadas diretamente à empresa. Os funcionários que atuam no complexo da L&C passam a ser objetos de análise.

O dia é distribuído entre algumas aparições públicas de Bruce Wayne, treinamentos e analise da lista de funcionários. No fim da tarde, Ian Matternes é escolhido como o disfarce a ser adotado: tem o perfil físico e social adequado. É um "supervisor de agente de limpeza".

Na casa do senhor Ian Matternes, o telefone toca e sua esposa o chama.

— Alô.

Gostaria de falar com o senhor Ian Matternes. — saúda a voz com sotaque inglês do outro lado da linha.

— Ian falando. — responde o homem, intrigado.

Senhor Matternes, aqui é Adolf Parks, da agência de turismo Comodoro Ltda. Tenho excelentes notícias: seu telefone foi sorteado e o senhor acaba de ganhar uma viagem de três dias, com tudo pago, por três capitais européias que escolher. — fala-lhe a voz ao telefone.

— Sério? Mas eu não me inscrevi em...

Nos estamos fazendo uma promoção, senhor. Em parceria com a L&C, sorteamos alguns funcionários. Não precisa se preocupar com os dias ausentados do trabalho, pois já foi informado ao RH.

— Mas...

O embarque é as 22:30 de hoje. Devo confirmar o embarque?

— Mulher, faça as minhas malas que vou viajar! — grita Ian, euforicamente, para a esposa.

O senhor tem direito a um acompanhante. — completa a voz.

— Faça as suas também! — grita Ian, agora sem muito entusiasmo.

Um dos nossos motoristas o apanhará em três horas, com as passagens e roteiros.

A voz do outro lado do aparelho, disfarçada, era de Bruce Wayne. O sr. "Adolf" deixa Ian seguro de que serão três dias maravilhosos na Polinésia Francesa.

Agora, é só se disfarçar de Ian, um funcionário calado, reservado e com pouco tempo na empresa, para adentrar os prédios investigados da L&C.

Naquela noite, o apartamento dos Matternes recebe, furtivamente, a visita do vigilante noturno da cidade, que pega uniformes, crachás, identidade e tudo relacionado às atividades de Ian junto a L&C.

Ainda naquela noite, Batman percebe que os grampos telefônicos nada revelarão sobre o projeto secreto investigado.

Batman! — exclama uma voz num dos falantes da caverna. É Oráculo.

— Pode falar. — ele responde.

Tive sucesso com um dos arquivos criptografados. Já pode ler em seu computador. — o som do dedilhar das teclas acusa que Bárbara acaba de enviar o e-mail — Não entendi nada.

Um breve silêncio se estabelece enquanto Batman lê parte do arquivo.

— Envie ao Palmer. É um moderno e profundo estudo sobre gravidade quântica. Até alguns poucos anos era física teórica, fundamentada, mas sem possibilidade de comprovação com a tecnologia que possuímos.

Arquivo enviado.

— Desligo!

— Patrão Bruce, no fim da noite aquelas suas duas novas amigas voltaram, trazendo mais duas. Tive de dizer que o senhor viajou, senão elas ainda estariam aqui. — informa-lhe Alfred.

— Fez bem, meu amigo! Diga isso a todos, até que eu informe o contrário. Não estou pra ninguém. — responde Bruce.

Enquanto consulta suas notas, o detetive reflete:

"Há uma visita de executivos do governo ao laboratório L&C agendada para hoje. Isso talvez ajude, pois parte da segurança ficará focada neles. O senhor Ian terá um longo dia..."


Continua.


:: Notas do Autor

(*) Confira na edição anterior. voltar ao texto




 
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