hyperfan  
 

Batman # 16

Por Leonardo Araújo

Identidade Wayne
Parte I

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Batman
:: Outros Títulos

"Sal!!!! Há um gosto salgado na minha boca. Meu corpo dói, assim como minha cabeça. Há um zumbido nos meus ouvidos, mas dá pra perceber barulhos de ondas."

"Será que consigo abrir meus olhos? Parece tão difícil. Uma luz forte... acho que é o sol. É o sol. Areia! Posso sentir quando movimento meus braços e minhas mãos. Lentamente, vou me levantando, algo dentro de mim me diz pra fazer isso... e rápido!"

"Sabe quando você acorda de noite, madrugada, completamente desorientado? Estou pior, pois sei que não estou em meu quarto. À medida que a vista vai acostumando com a claridade, as idéias vão se associando e, finalmente, vejo que estou numa praia. Novamente, uma presença interna na minha mente, inquieta, me manda levantar e sair dali. Como dói minha cabeça."

"As ondas molham minhas pernas. De sentado, passo a ficar em pé. Olho pra mim e vejo que estou vestindo farrapos rasgados e molhados. Uma roupa escura. Acho que isso foi um terno, algum dia. Começo a caminhar para longe da água, em direção ao que parece ser uma estrada. Estou confuso, não me lembro como vim parar aqui... pior, não me lembro quem sou!"

Completamente confuso, o maior detetive do mundo caminha, em passos cambaleantes, por uma praia, buscando algo ou alguém que o ajude. Nada faz sentido: o terno rasgado em trapos que usa, a praia em que caminha, a dor em seu corpo, sua amnésia.

Bruce chega até uma pequena estrada, com pouco movimento. Decide seguir ao longo dela. Sua idéia talvez seja encontrar uma cidade, uma pessoa, ou qualquer outra coisa que possa reconhecer. Mas, para sua frustração, à medida que o tempo passa a situação muda pouco. Apenas a paisagem da estrada vai se modificando, embora nem tanto.

A caminhada é mediana, mas as dores em seu corpo a tornam particularmente exaustiva. A dor na cabeça já não o incomoda muito, está amenizando. Seu esforço em busca de lembranças, quaisquer que sejam, são inúteis e só o deixa mais confuso. Ele sente uma fera escondida em sua mente, algo que rosna e grita para que ele continue. Isso o impulsiona e o faz sentir certo medo.

Finalmente, após quase duas horas andando, uma pequena casa, isolada, aparece a poucas dezenas de metros da estrada. Ele se olha novamente:

"Vestido com estes farrapos, vão pensar que eu sou um mendigo, ou pior, um ladrão. Eu pensaria. Se bem que, na atual circunstância, é uma hipótese possível."

Ele avista um varal, com roupas penduradas. Discretamente, contorna as imediações da casa e aproxima-se pelos fundos, bem devagar e com cuidado, afinal, não gostaria de ser visto roubando roupas. Finalmente, chega ao varal e escolhe uma calça jeans e uma blusa comprida.

Agora, enquanto caminha afastando-se do local, ele aproveita para ir se vestindo. Alguém grita algo, lá na casa. O descobriram, mas ele já está distante. Só tem que se preocupar em correr, afinal há um homem que parece disposto a disparar a espingarda que possui nas mãos. Bruce corre, mas os disparos não vêm. Ele, o dono da casa, deve ter achado que não valia o esforço.

O amnésico cavaleiro das trevas, sem muitas alternativas, continua a seguir a estrada. Em sua mente, imagens surgem como flashes: um grande iate, belas mulheres conversando com um homem, em um ambiente tenso. As imagens se vão.

Escuta um veículo se aproximando. É sua chance de conseguir uma carona. Ele se vira e gesticula caracteristicamente para o carro que se aproxima. À medida que o automóvel avança, Bruce pode notar que é uma picape e há dois homens nela. Pela velocidade inalterada, não parece que vão parar. Quando estão a cerca de cinco metros, ainda com uma velocidade grande, o andarilho desiste de acenar e abaixa seu braço. Menos de um segundo depois o carro é freado bruscamente.

"Parece que minha sorte está mudando!" — pensa.

Ledo engano. Enquanto inicia uma breve corrida até o local onde o automóvel parou, os homens descem do carro e sacam armas. Bruce olha as árvores na margem da estrada. Qualquer outro teria tomado a atitude sensata de correr para o meio da pequena floresta, mas algo lhe domina. Uma força interna, obedecendo a um impulso, como um programa, o faz agir por instinto. Seus olhos observam uma garrafa velha abandonada. O tiroteio começa. Bruce se lança ao ar, girando num mortal, caindo junto à garrafa e arremessando-a, com incrível precisão, no peito de um dos atiradores, que cai após o impacto.

Instintivamente, ele rasga uma das mangas e faz uma máscara, cobrindo seus olhos.

— Demônio! Não há misericórdia para sua alma. — grita o atirador, que está de pé enquanto continua a disparar.

O vigilante reconhece que seu pretenso assassino usa um revólver .45. Estranhamente, ele contou os disparos. Acabou de sair o sexto tiro:

"Ele terá de recarregar ou pegar outra arma! Não vai ter tempo." — diz uma voz em sua cabeça.

O atirador mal saca uma pistola quando é atingido por uma série de golpes, indo a nocaute. Algo dentro de Bruce o faz se sentir bem, quase gargalhando.

"Você está chegando perto!" — é quase isso que uma voz lhe diz, no interior da sua mente.

Mas a preocupação retorna. Por que estão tentando matá-lo? Quem são aqueles homens? Por que fez uma máscara? E, talvez, o mais estranho: como diabos ele sabia como reagir? Sequer sentiu medo.

Algo bom sobrou disso tudo: o veículo. Ele revista, sem saber exatamente por que ou o que procura. Não há nada nos porta-luvas ou no chão do carro. Subitamente, algo o impele a tomar o caminho contrário ao que seguira na estrada. Ele amarra seus agressores afastados da estrada, tira a máscara improvisada, pega a jaqueta e calçados deles, veste-os e segue na rodovia, na direção que foi intuído.

Pela posição do sol, é quase meio-dia. Confere no relógio que pegou com o homem que lhe chamou de demônio. À medida que avança, algo o deixa inquieto. No princípio ele não identifica o motivo, mas depois fica cada vez mais claro: a casa onde pegou as roupas. Seus ocupantes estão em perigo.

Bruce conduz o veículo e se aproxima do imóvel. Percebe que as portas estão abertas. Pára o carro e desce. Cautelosamente entra na humilde residência. Houve uma tragédia: o casal foi assassinado. A mulher levou dois tiros, o homem apanhou e foi executado com um tiro na nuca. Um sentimento poderoso de justiça lhe domina, seu sangue ferve nas veias. Ele sabe que foram seus agressores, foi assim que eles obtiveram a informação sobre seu "destino".

Novamente, a voz interna o incita a abandonar o carro, mas dessa vez ele hesita. Sai do imóvel, entra na picape, dá a partida e segue pela estrada. Quase uma hora se passa. Ele percebe que está ficando sem combustível.

— Idiota. Por que não pegou o dinheiro daqueles dois? Agora poderia parar num posto e abastecer! — fala pra si mesmo.

Ainda dirigindo, Bruce avista um posto abandonado.

"Ótimo, um posto sem combustível para alguém que dirige sem dinheiro e precisa abastecer." — pensa.

Começa diminuir a velocidade para parar. Quando entra no acesso ao posto, sente um pequeno baque na traseira do veículo. Olhando pelo retrovisor, constata o motivo: cerca de 1,75 m, cabelos ruivos e longos, parece ter vinte e cinco anos, cintura fina, seios médios, quadril largo e um par de pernas escultural, alias como todo o corpo. Parece que está chovendo deusas. O rosto é lindo, mas a expressão, fechada. Ela avança no sentido da carroceria e, com um soco, quebra o vidro do veículo. O motorista toma o braço da loira, quase como por instinto, e a puxa para dentro. Mas a ação o faz perder o controle do veículo. O carro derrapa na pista e pára ao se chocar num barranco. Ele sai do automóvel e pergunta à sua nova companheira:

— Por que está tentando me matar? — fala, em posição de luta.

— Matar? Se eu quisesse, você estaria morto agora. Estou tentando salvá-lo. — responde ela, num tom arrogante.

Ele notara a habilidade de sua bela "salvadora". Talvez ele tenha se precipitado. Resolve tentar um diálogo.

— E de que, exatamente, você está tentando me salvar?

— Você ficou louco? — a expressão é de certa raiva — Está se fazendo de idiota?

Um barulho crescente é ouvido pelos dois. A "amistosa" conversa é interrompida. São dois helicópteros, de aparência militar, que se aproximam. Mísseis ar-terra são disparados: ambos correm para longe do impacto. Ele a vê pegar uma besta e disparar sucessivamente contra um dos helicópteros. A aeronave tenta se desviar das flechas e se desestabiliza. Num vôo baixo, acaba por bater um extremo das pás da hélice em uma grande árvore, o que provoca sua queda. Agora ele se considera com sorte por não ter de enfrentá-la. O segundo helicóptero permanece, a boa distância, atirando. São rajadas de calibre .50, capazes de perfurar blindados. Logo, dois caminhões chegam ao local e, ao reduzirem a velocidade, homens armados de fuzis HK descem dos mesmos.

Quando percebe, Bruce já está no meio dos homens armados, em ferrenha luta, e nota que sua nova companheira faz o mesmo. Ele avista o segundo helicóptero pousar e quatro homens sairem dele, vestidos como ninjas. Algo lhe avisa que estes são os reais problemas. Todos aqueles tiros e os homens que enfrentam no momento foram usados para fixa-lo no local.

Um terceiro helicóptero, nitidamente de transporte, se aproxima: cordas são lançadas e mais doze ninjas chegam ao solo.

Quando o vigilante consegue uma folga no combate, percebe estar de costas para a ruiva e esta para ele, como se cobrissem um ao outro na luta. Todos os mercenários armados estão no chão, fora de combate. Quase quarenta homens espalhados numa área de aproximadamente 250 metros quadrados.

— Algo me diz que não devemos enfrentá-los em campo aberto.

— Não seja covarde. Por Atena, vamos acabar com eles. — ela responde.

— Pode ser covardia minha ou burrice sua! — Bruce fala, num tom sério.

Ela pensa um pouco e responde num tom de advertência:

— Dadas as suas atuais condições de combate, vamos evitar, por hora, a luta.

Quando ele se move para se afastar do local, ela o pega pelo braço e o adverte:

— Mas nunca mais me impeça de lutar!

Bruce acha estranho a atitude dela. Ambos correm em direção à pequena reserva florestal, enquanto os ninjas partem em seu encalço. O casal avança floresta adentro, por horas. Quando escutam o barulho de uma cachoeira, param. Se entreolham e procuram escutar o ambiente que os cerca: tudo calmo. Ambos transpiram muito.

— Vamos nos preparar! — involuntariamente, sua voz ressoa de forma diferente com o final da tarde. Ela percebe a mudança do tom.

— Você tinha razão. — ela não o olha — Um combate ali era desnecessário. Eles já se mostraram guerreiros fortes e hábeis em nosso último confronto. — fala, num pedido camuflado de desculpas.

Bruce se dirige ao rio e aproveita para limpar os ferimentos superficiais. Aquela voz interna lhe dá certeza que a noite lhe dará vantagem sobre seus perseguidores. Ele acaba de se lavar às margens do rio, quando olha para a cachoeira e percebe toda a beleza de sua companhia: nua, a ruiva se lava sob as águas, que lhe escorrem pelas generosas curvas. Ele não pode evitar o hipnotismo que o deixa momentaneamente paralisado, mesmo com a aproximação dela. As feições suaves da deusa ruiva se fecham e ela o adverte:

— Preste atenção em sua volta! Eles estarão aqui em breve.

Se ele não tivesse ficado tão sem jeito e desviado o olhar, teria observado um esboço de sorriso no rosto de sua lindíssima companheira.

A tarde cai. O sol, pouco a pouco vai se escondendo. A floresta já está escura.

— Vamos esperar numa posição taticamente vantajosa: no alto. — ele aponta para uma árvore copada, logo à frente de ambos.

A mulher inicia a subida, com surpreendente habilidade. A roupa colante dela favorece a visão dele, revelando mais uma vez um bumbum difícil de não ser contemplado. Bruce a segue até metade da copa, onde se separam, tomando direções opostas na árvore.

A espera é entediante, principalmente para ela que, nitidamente, preferia ir ao encontro de seus perseguidores. Passam-se cerca de quarenta minutos. Da posição privilegiada em que está, ele observa o deslocamento de um grupo na direção da árvore. Ela se prepara para ataca-los, quando ele faz um gesto para a ruiva aguardar. Muito a contragosto, ela recua. Quando tem certeza que este é um pequeno grupo isolado, e não um grupo precursor, Bruce balança a cabeça afirmativamente pra sua parceira e ambos se atiram contra três dos homens que os perseguiam.

Os perseguidores não são surpreendidos, evitando serem atingidos na primeira investida. Provam ter muita habilidade, pois a luta se estende por uma dezena de minutos. A força, a resistência e a destreza singular do casal é fundamental para que vençam a luta contra os oponentes. O morcego instintivamente usa a escuridão como aliado.

— Covardes. Lutam como verdadeiros guerreiros, mas usam as armas de covardes! — diz a ruiva.

Ele percebe que ela tem um arranhão na parte alta da coxa e um corte no braço. Por incrível que pareça, o arranhão é mais grave: está muito vermelho e inchado.

— O que atingiu sua perna? — ele analisa o ferimento de perto.

— Uma seta, mas foi de raspão. Está queimando.

Ele tem certeza que a seta estava envenenada.

— Precisamos cuidar disso e logo. — dito isso, ele a conduz ao rio. Ela lava o ferimento. Assim que ela termina, ele se ajoelha e, com a boca, cobre a ferida. A ruiva se espanta, mas permite. Ele começa sugar com força, sem engolir, com a finalidade de extrair o máximo de veneno. Alguns minutos se passam. Ela senta e pergunta.

— Por que fez isso? O veneno poderia ter contaminado você pela boca.

— Improvável! — ele mostra a seta que achou — Ela não injeta veneno, não tem ponta oca para isso. A ponta da seta foi embebida em veneno. Foi disparado por uma zarabatana, certo?

— Sim. — ela parece intrigada.

— Ele não se arriscaria a botar nada letal no dardo a ponto de contaminar a zarabatana e a si mesmo, por exemplo, se fosse usar na chuva.

— Quem é você? — ela o fita.

— Gostaria de saber. — fala ele, se afastando.

A ruiva faz um curativo rudimentar sobre o braço, cortado na luta por uma espada, e no ferimento envenenado.

— Como assim? Não sabe quem é? — pergunta, terminando um nó com ajuda da boca.

— Não. — responde ele, um pouco distante.

— Não é hora para brincar.

— Não estou brincando. Acordei hoje numa praia, perto daqui, sem saber o que aconteceu. — suas feições acusam que ele busca por memória que não vêm.

— Você está falando sério?

— Sim. — Bruce se vira para a ruiva — Por que me ajuda?

— Você salvou a mim e duas de minhas irmãs na madrugada passada. Não lembra de se infiltrar disfarçado, usando barba e lentes escuras? Não vai dizer que não estava como segurança no iate?

— Eu? Iate?

— Não estou certa de que você fala a verdade. O que está fazendo ai?

Ele, então, surge vestindo o uniforme de um dos homens que eles nocautearam.

— Prefiro roupas escuras. — afirma — Vamos.

— E para onde pretende ir se nem sabe quem é? — ela sorri com o canto da boca.

— Vê aquele clarão nas nuvens? É o reflexo das luzes de uma cidade. Vamos até ela. — diz, ao sair andando em meio a densa mata.


Na próxima edição: Bruce e sua parceira chegam a uma cidade, fugindo de seus perseguidores. A identidade da misteriosa ruiva é revelada após o inicio de um íntimo relacionamento. Batman e ela tentam atrair seus inimigos para uma armadilha, mas o detetive continua sem memória.




 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.