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Batman # 29

Por Leonardo Araújo

O Assalto
Versão 2

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Gotham, sete da manhã. Delegacia central da cidade. (*)

— Jerry, vai entregar isso assim mesmo?

O comissário James Gordon pergunta há um jovem policial que, vestindo trajes comuns, civis, estava preste a deixar a delegacia.

— Comissário! Bom dia, senhor. — ele estende a mão e pega a pasta. Após folhear e ler algumas fichas, ele diz:

— É, realmente deixei passar alguns erros na escrita. Vou corrigir isso.

— Eu falo da última folha.

O policial retoma a pasta que devolvera e vai ao documento.

— Ah, isso. Foi uma bela prisão, caso queira saber, senhor.

— Uma bela prisão?

— Sim senhor, foi o que eu disse.

— Então você não irá mudar nada do que está escrito? — retomando a pasta.

— Não poderia, senhor. Afinal, devo relatar os acontecimentos.

Gordon ajeita os óculos no rosto.

— Você tem quanto tempo de formado pela academia policial?

— Deixa-me ver... — ele levanta os olhos e contabiliza nos dedos — São quase dois meses.

— Quase dois meses. Eu diria que são 49 dias, certo.

— O senhor é bom em contas. É isso mesmo.

— Sou bom, sim. Mas acho que estou ficando ruim em interpretação de texto. — Diz Gordon ao retomar a pasta das mãos de Jerry.

— Se tiver algo em que eu possa ajudar, terei prazer.

— Ajudar? Sim. — o comissário levanta a pasta aberta e aponta para uma página — Você relata logo no início que...

— Eu estava com meu parceiro na viatura, ele passou mal e fui ao posto de saúde.

— Quero saber após sua saída do posto, enquanto "arejava a mente".

O novato puxa uma cadeira e fala:

— Melhor sentarmos.

Gordon se senta. O comissário acende um charuto.

— Fogo? — pergunta Jerry.

Gordon puxa um isqueiro e acende o charuto. Em seguida diz:

— Prossiga com o relato.

— Onde eu estava? Ah, lembrei. Na caminhada, quando eu me aproximei de uma joalheria, vi uma sombra num telhado próximo. Olhando mais apuradamente, percebi que era o Batman. Ele estava distraído e...

— Batman? Distraído?

— É. Tinha um olha vago para o horizonte.

— A que distância você estava dele? — pergunta Gordon.

— Uns 200 metros.

— E pôde perceber a direção do olhar dele?

Jerry lança os olhos sobre o relatório e pergunta:

— Não falei que eu estava de binóculo? Um bom policial está sempre preparado.

— Sei, sei.

— Bom, pensei: vai ver ele, assim como eu, está só arejando a cabeça!

— Estou percebendo que você deve ter lido muito sobre o Batman, certo?

— Sem dúvidas, senhor. Um policial tem de estar bem informado.

Gordon se inclina para frente e questiona quase como uma sugestão:

— Ele deveria estar sorrindo, não? Quase sempre ele faz isso quando resolve "arejar a cabeça".

— Pensando bem comissário, estava sim.

O velho policial inspira profundamente.

— Isso foi antes ou depois de você suspeitar de movimentos estranhos na joalheria?

— Logo antes. Pra dizer a verdade, quando eu guardei o binóculo, uma intuição, destas que vem de dentro, coisa de policial, o senhor sabe.

— Claro, Jerry.

— Pois é. Algo me dizia que havia alguma coisa errada na joalheria. Eu prestei atenção e pimba: tinha alguém lá dentro.

— Foi aí que você sinalizou para o Batman? — um incrédulo Gordon pergunta.

— Exato. Peguei o meu distintivo de policial, que sempre está muito bem polido — ele mostra a insígnia dourada ao comissário — e usei a luz do poste para refletir para o Batman. Supus que ele soubesse código Morse.

— Você mandou uma mensagem em Morse para o Batman, a mais de duzentos metros, usando a luz do poste refletida por seu distintivo?

Orgulhoso, o novato responde:

— Exato.

O comissário fica olhando a expressão do jovem policial, enquanto esse não parava de sorrir. Após três segundo, Gordon estimula:

— E depois?

— Sei que o senhor entende, comissário: o dever me chamava. Independente da conduta que Batman tomaria, eu teria de agir. — esmurra a mesa.

— Claro. — Gordon dá um meio sorriso.

— Eu me aproximei devagar da joalheria, contornando pelos fundos. Estava verificando a situação. Isso é o que ensinam para todos os policiais lá na academia de polícia.

— Foi quando o Batman chegou.

— Estou vendo que o senhor leu mesmo meu relatório.

Gordon sorri novamente.

— Não poderia deixar de lê-lo. É, como posso dizer, muito...

— Inspirador! — fala Jerry, num rompante.

— Eu ia dizer "pitoresco".

— Pitoresco? Isso deve ser muito bom.

— Acho que você pode entender dessa forma.

O novato sorri e continua sua narrativa.

— Eu o percebi chegando. Ele veio na minha direção e disse: "Notei que você é um bom policial, embora bastante jovem. Oxalá todos de nossa valorosa força fossem assim."

— "Oxalá"? Batman falou isso?

— Exato, com estas palavras. Daquele jeitão dele, — Jerry pisca — o senhor sabe.

— Eu pensava que sabia. — sorri com o canto da boca enquanto traga.

— Ele arrematou com: "Parceiro, não quer me ajudar?"

— Pensei que ele lhe pediria ajuda. — brinca o comissário.

— Mas foi quase como um pedido de ajuda.

— Sei.

— Quando entramos na joalheria, tinha uns dez caras, todos armados. Acho que o próprio Ra's Al Ghul estava lá.

— Não sabia que ele era assaltante de joalheria.

— Pois é, né comissário? Também estranhei. Fazer o quê! Talvez fosse parte de um plano maior, um ataque terrorista em que o Batman e eu, ou melhor, eu e o Batman evitamos. Eu não tinha pensado nisso. Talvez fosse melhor reescrever o relatório.

— É, talvez. — diz Gordon, quase murmurando — Mas, por enquanto, continua relatando o que você escreveu aqui. — ele dá uns tapinhas na pasta sobre a mesa.

— Certo. Onde eu estava?

— Prestes a entrar na loja.

— Correto. Lá dentro foi difícil. Tinha gente para todo lado, mais de vinte...

— Não eram mais de dez? — interrompe o comissário.

— Ué, mais de vinte é mais de dez.

— Você tem toda razão.

— Eu e meu parceiro...

— O Batman!

— Sim, o Batman; entramos na joalheria e o pau comeu. Tiros, socos, chutes. Eu disse pra ele...

— "Me dá cobertura que eu vou abrindo caminho!".

— Isso mesmo, comissário.

— Eu li.

— Ele se descuidou umas três vezes e eu cobri as costas dele.

— Você deve lutar muito bem, Jerry.

— Modéstia a parte, o senhor tem toda razão.

— Não entendi como tantos escaparam e vocês só prenderam um dos ladrões.

— Comissário, eu não queria dizer nada sobre isso, pra não estragar a fama do homem-morcego, mas...

— Então, confidencie para mim. Pode deixar que eu guardo segredo.

— Pro senhor eu falo.

— Obrigado Jerry.

— Eram muitos, mas eu vi que o Batman estava cansado. Eu falei pra ele pegar um cara que estava fugindo enquanto eu segurava os outros.

— Os outros são os "mais de vinte", certo.

— Não que eu queira me gabar, mas eram quase trinta.

— Quase trinta.

— Isso mesmo, comissário. Eu distribuí porrada por todo lado. — Jerry fica de pé e gesticula no ar, dando socos — Eles estavam apavorados. Tava tudo sob controle. — o jovem policial senta novamente — Foi quando eu escutei: "Fica quieto, deixa meus amigos fugirem, senão eu mato o Batman!".

— O seu prisioneiro disse...

Jerry levanta repentinamente e fala energicamente ao comissário:

— Comissário, lhe asseguro que aquele homem é um mentiroso. Certamente o senhor acreditará em mim.

— Calma, Jerry. Sente-se. — o novato obedece — Ele disse que quase matou o Batman.

— Disse? É claro... que disse.

— Claro. Deve ter sido essa parte do seu relato que ele se referia.

— Sim, sem dúvidas. Nessa parte da confissão daquele desgraçado o senhor pode confiar.

— Vou considerar isso. E como você salvou o Batman?

— Bom, depois de ter de deixar os outros assaltantes fugirem, eu procurei uma forma de livrar o Batman.

— Posso imaginar a cena: o assaltante dando uma gravata no Batman com um braço enquanto apontava um trinta e oito para a cabeça do coitado. E você encarando ele.

— Era uma quarenta e cinco, senhor.

— Engraçado, se recolhemos um trinta e oito.

— É, talvez fosse um trinta e oito. — diz Jerry.

— E como acaba? — pergunta um risonho comissário.

— O assaltante cometeu um erro: tirou a arma da cabeça do Batman e me apontou.

— Aí o Batman derrubou o cara.

— Não! Quando ele me apontou a arma eu lancei meu cassetete na mão dele, desarmando-o.

— Eles não ensinam isso na academia.

— Não, senhor: eu treino todos os dias em casa.

O comissário levanta, dá a volta na mesa, coloca a mão no ombro esquerdo do jovem policial e diz:

— Você poderia trabalhar em Hollywood, sabia?

— Filmes de ação!

"Roteirista de filme B." — pensa Gordon.

— A última coisa que ele me disse antes de sair foi que... — Jerry é interrompido por Gordon:

— Te levaria para a Liga da Justiça. Eu li.


Na próxima edição: A terceira versão.


:: Notas do Autor

(*) Os fatos aqui descritos estão inteiramente relacionados com a última edição. voltar ao texto




 
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