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Batman # 33

Por Leonardo Araújo

Teatro

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"Reconheço: o cheiro de churrasco deixa as pessoas felizes. Claro, tem sempre os vegetarianos! Não suporto vegetarianos."

— Billy.

— Senhor. — responde um brutamonte loiro com voz trêmula, um tanto receoso.

— Os vegetarianos são covardes, não são?

— São covardes, sim. — Billy esbugalha os olhos.

— Uma vaca pode correr. Os animais correm se estiverem ameaçador. — o homem gesticula para dois outros que seguram um franzino de terno, que chora copiosamente. O homem é libertado.

— Corre! — ordena um de seus algozes. O homem dispara a correr e podem se ouvir lamentos e pedidos de "Por favor, não me mate!" em meio a choro. Uma rajada de metralhadora o derruba, silenciando-o. Uma sinistra risada irrompe a seguir.

— O que eu falava... Ah, sim: e as plantas? — ele cheira uma flor em seu bolso — Elas não podem nem correr! Covardes, detesto vegetarianos.

Novamente ele ri e, ao olhar para os quatro homens que o acompanha, os vê sorrindo. Gargalha de lacrimejar. Ele vira seu olhar para um ônibus parado a direita e entra no mesmo.

— Imagine as alfaces levantando as perninhas, hahaha, e correndo, hehehehe... as cenouras, hahahaha, o repolho, hahahaha... — ele segue em direção a um ônibus.

"Todos sorrindo. Dá ate para ver os dentes. É o churrasco:, o cheiro deixa eles doidos. Doidinhos, malucos. Ficam morrendo de vontade, morrendo mesmo!!!" — um sorriso largo estampa em sua face.

— O cheiro de churrasco é ou não é de matar qualquer um? Hahaha... Eu adoro!

O Coringa gargalha enquanto caminha entre corpos carbonizados no interior do ônibus que incendiara. O calor intenso do incêndio consumira as vestes e peles de quase todos que estavam no ônibus. Devido à carbonização completa da epiderme dos lábios e bochechas, as arcadas dentárias estavam expostas, exibindo um sorriso macabro.

Minutos depois, Batman testemunha a bizarra cena: o ônibus tinha uma placa, improvisada, fixada na sua frente com os dizeres "Bem-vindo à Gotham!".

— 41 vítimas: 22 homens, 14 mulheres e 05 crianças. — relata um policial à Gordon.

O Cavaleiro das Trevas caminha pelo corredor fétido do ônibus:

"Demente."

Sua face se contrai e ele chega a refletir sobre as pessoas que condena a cada vez que deixa o Coringa vivo. O detetive passa a analisar a situação, circunstâncias, vítimas, método, etc. Ele observa um policial pegar alguns uniformes policiais deixados perto de um posto. Há apitos de trânsito também.

"Um ônibus de rotina, com pessoas sem qualquer projeção relevante socialmente", conclui da análise dos dados que um palm top exibe na tela.

Ao descer do veículo, retira um pequeno cilindro do cinto e borrifa seu conteúdo ao redor do veículo incendiado: alguns pontos exigem cor contrastante à lente especial que ele leva aos olhos.

"Gasolina."

Passa a observar a área isolada pela polícia. Alguns curiosos param ante a cena sinistra. Novamente, consulta o palm top o qual lhe revela que aquela via secundária não é rota de nenhuma autoridade, carregamento financeiro, ou algo que possa ser bloqueado por um ônibus quase atravessado na pista.

— Nada parece incomum. Apenas loucura.

— Comissário — o detetive se aproxima de Gordon — sabemos que o Coringa não age apenas movido por loucura. Há algo nesta ação.

— Aqui não há nada, Batman.

— Precisamente.

— Nada???

— "Aqui". O local; isto é uma isca.

A residência do prefeito está repleta de policiais. Viaturas ainda chegam ao local e disputam espaço com as que já se encontram estacionadas. As luzes cintilantes dos carros brilham a distância.

— Oito mortos. — diz o comissário.

— Dez. — Batman surge às costas de Gordon — O jardineiro e o segurança que saía do turno estão no esgoto.

— Deus, que carnificina. Já são 51 mortos. — ele retira os óculos e limpa suas lentes -Não achamos o prefeito.

— Ele foi seqüestrado. — o maior detetive do mundo opina — O Coringa o queria vivo.

-Certeza?

— A esposa está morta. Dado ao estado da cama, ele dormia com ela no momento da ação. Todas as vítimas foram baleadas e não há sangue que indique qualquer outra vítima que não tenhamos contado.

Gordon olha ao redor, analisando o procedimento dos peritos. Em seguida, aponta um monitor interno e diz:

— As filmagens de segurança foram interrompidas minutos antes da ação: a luz foi cortada e as baterias e gerador de emergência foram sabotados.

— Havia monitoramento externo.

— Sim, uma empresa particular.

— Suponho que simularam o circuito fechado de segurança para o sistema externo. — conclui Batman, com um binóculo, observando da janela os cabos telefônicos na saída da mansão.

— O que me diz?

— Eles devem ter instalado um HD repetindo um breve período de imagem. Pela hora, não era esperada movimentação diferenciada na casa.

O vigilante observa uma mensagem chegar pelo seu comunicador.

— As baterias e geradores foram sabotados por alguém de dentro.

— Ou alguém que se infiltrou sorrateiramente. Mas isso pouco ajuda. — o Homem-Morcego analisa o ambiente — Jim, mande seus homens investigarem a presença de algum veículo de porte médio ou grande, que pudesse carregar um gerador.

— Acha que eles supriram a casa de energia? — Gordon questiona.

— Não tenho dúvidas. A ação foi rápida. O segurança interno estava com o rádio na mão, mas não pode usá-lo. Jim, temos de achar o prefeito.

— A mansão fica isolada. Não há filmagem das ruas. As câmeras de segurança particular da vizinhança, provavelmente, estão distantes demais.

— Eles devem ter trocado de veículos. Temos de buscar pistas em carros recentemente abandonados.

— É buscar uma agulha no palheiro.

— Quero ver os primeiros policiais que chegaram aqui.

O comissário chama um sargento ao seu lado e ordena:

— Chame Paul e Krauss.

Três minutos depois os policiais chegam à sala onde Gordon e Batman estão.

— Krauss, cruzaram com algum carro quando chegaram aqui?

— Não senhor, comissário. Uma moto apenas. — responde o ruivo.

— O que, exatamente, viram antes de chegarem aqui, na vizinhança?

Paul parece nervoso. Ele está intimidado pelo interlocutor. Já ouviu muito sobre Batman, mas jamais o havia visto.

— Acalme-se, homem. — diz Gordon — Responda com calma.

— Na esquina anterior, um golf cruzou nossa pista.

— Descreva o carro. — fala o detetive.

— Era prata, tinha os vidros transparentes. Acho que havia um casal nele. — diz o homem negro.

— Depois viemos, até parar a viatura junto do portão. — completa o ruivo.

— Mais nada.

— Havia três bêbados. Um carregado pelos dois. Estava mal, mas a chamada era nossa priorid...

— Foi assim que tiraram o prefeito. — conclui Batman.

— O bêbado carregado? — pergunta o comissário, enquanto Krauss e Paul se entreolham.

— Vocês não tinham como saber. — Batman dirige a citação aos jovens policiais.

— Como sabe? — pergunta Gordon.

— O celular do prefeito está com uma tentativa de ligação seis minutos e sete segundos antes dos policiais avisarem a central que estavam na porta da residência.

— Para onde ele ligou? — o velho policial observa o aparelho.

— O pavor o fez iniciar a chamada antes de concluir o número do telefone que pretendia. O número registrado foi 91.

— 911! (*) — exclama Krauss.

Quase seis horas depois, um vídeo começa a circular na Internet. Ele inicia com a carta "curinga" do baralho.

— O que? Já estamos no ar? Ah, claro, hehehe. Olá, afortunados cidadãos de Gotham. Suas esperanças de um futuro melhor podem retornar: seu protetor está aqui. — aponta para si mesmo.

Era o Coringa. Ele sorri, dá alguns passos e beija a câmera. A imagem fica ligeiramente embaçada.

— Adoro vocês. Smac, smac — ele solta beijos no ar — O que? Hã? Ah sim, hehehe, me desculpe — ele caminha em direção a câmera embaçada e começa a limpar com a manga da camisa — é que fico descontrolado quando penso em vocês.

Ele retorna para o enquadramento original e gira para a câmera com as sobrancelhas franzidas, mãos nos quadris e o pé direito batendo em alta freqüência contra o tablado do chão.

— Assim como vocês eu estou enojado com os nossos políticos. Quem não está. São corruptos, roubam o dinheiro do povo, pegam estagiárias, orgias com garotas de programa, alguns preferem garotos... Só estão preocupados com eles mesmos: não servem a vocês, mas se servem de vocês. Isso é preocupante, é nojento.

Ouvem-se barulhos de palmas.

— Tomei uma decisão: chega! Alguém falou... — sua expressão facial é de questionamento — como era mesmo... — ele mete a mão no bolso e puxa um papel manuscrito, bem amassado — quem foi mesmo?

Sorrindo para a câmera, faz uma bolinha amassando o papel e joga sobre o ombro.

— Não importam quem disse o que, mas tenho certeza que vocês concordam comigo: quero ver o último político enforcado nas tripas do... do... penúltimo! — estampa um sorriso na cara.

Ainda sorrindo, caminha de lado até uma cadeira, gira e mesma: o prefeito está amarrado a ela.

— Apresento o prefeito! — ele para e procura alguma coisa e, em seguida, grita — Cadê as palmas?

Novamente, palmas são ouvidas.

— Ah, melhorou. Onde estávamos? Sim, nosso convidado de hoje. — ele aponta com as duas mãos, palmas para cima, como quem recebe alguém num palco — Prefeito, como está se sentindo neste momento?

— S-e-n-t-i-n-d-o? — fala como se estivesse sonolento.

— É! Como está se sentindo? Responda homem — ele passa o braço sobre as costas do prefeito, como quem o abraça — o povo quer saber.

— Eu estou... bem. — sua voz é arrastada e seus olhos estão semi-serrados.

— Bem? Bem? Veja pessoal: ele passou três anos roubando na prefeitura e está só "bem". — o Coringa coloca a mão junto ao ouvido, em forma de concha, e gargalhadas são ouvidas.

— Bem, estou... bem.

Repete o homem, de maneira abobalhada, amarrado na cadeira.

— Não desliguem, não parem o arquivo. Eu prometi e vou cumprir. — ele inclina para frente e coloca a mão espalmada junto do canto da boca, como direcionando a voz — Não sou como uns e outros por ai, entendem? — aponta com o polegar da outra mão para o político.

Ele dá dois passos, para em frente ao prefeito, rasga sua blusa expondo uma barriga branca enorme. Então, o palhaço pega dentro do bolso interno do paletó um pequeno objeto que, depois de retirado de seu invólucro, pode ser identificado como um bisturi.

— Máscara.

Uma mulher trajada de enfermeira coloca-lhe uma máscara de cirurgião.

— Luvas e avental.

A mesma mulher lhe calça as luvas e amarra o avental enquanto ele diz:

— Tem algum outro político nesta sala? — ele pergunta girando a cabeça como quem procura algo. — Ok, preciso de tripas, haha, haha, haha... ôôô, aqui nesta barriga gorda tem muitas tripas. Achei minha fonte!

Ao som de sua estrondosa gargalhada ele corta a base do abdômen do prefeito. O sangue jorra, mas o homem não parece sentir dor. O Coringa faz sinal para a câmera se aproximar e fala, como uma confidência:

— Ele está com anestesia local! Não vai atrapalhar minha performance. — cantarolando algo, ele mete a mão dentro da barriga do político e expõe um pedaço do intestino.

— Morra de inveja, "Plantão Médico"! Hahahahaha...

Ele levanta com parte das tripas na mão e enlaça o pescoço do prefeito.

— O último político... urrg — faz força apertando os intestinos ao redor do pescoço — na tripa do... urrg — os olhos do prefeito começam a inchar, como se fossem saltar, sua língua sai da boca — ... Vocês sabem....

Em meio a sons, devido à força que faz, e pausas breves para sorrir para a câmera, ele termina o enforcamento.

— Sou ou não um homem de palavra, heim? Sou mesmo bom nisso. — uma gargalhada ressoa no ambiente. O Coringa remove a máscara de cirurgião.

— Se os políticos governantes desta cidade quiserem que eu retire minha promessa, é só providenciar um milhão de dólares em espécie, cinco milhões de euros, três milhões em diamantes e dois em ouro. — ele corre para a câmera, forçando um close — Um homem de palavra custa caro. Mas um político desonesto custa mais, heheheh...

A mão suja de sangue mancha a lente da câmera, impedindo mais imagens, mas ainda se ouve claramente sua voz:

— Vocês têm dois dias para conseguirem meu dinheiro. Aguardem que digo como vão me entregar.

Na batcaverna.

— Oráculo, sabe a fonte do arquivo? Deve ser de um cyber café.

Exato. Rodovia Oeste, quilometro 12.

Rapidamente, Batman entra no carro e sai da caverna. Vinte e dois minutos é o tempo que ele leva para chegar ao cyber café.

Trancada.

Há uma corrente com cadeado trancando o recinto por fora. Após rápida análise, com um violento golpe, o Cavaleiro das Trevas faz as hastes que estavam presas nas correntes soltarem da porta.

Vou cobrar todas estas mortes de você, Coringa.

Havia duas crianças e três adultos mortos, com um largo sorriso estampado na face. Ele retira um comunicador do cinto.

— Jim, preciso que mande peritos para a Rodovia Oeste, quilômetro 12, Cyper Café Rodovia. Traga muito material para fazer moldes de gesso, há muitos rastros de veículos. Vamos cruzar os moldes com os carros abandonados que foram recuperados.

Ok Batman, equipe a caminho!

Como sempre, o palhaço foi experto. O lugar é muito freqüentado. As pistas ficam num mar de vestígios falsos. — Batman observa que as fitas de vídeo que gravavam a movimentação interna foram destruídas.

Subitamente, o detetive para:

Há pessoas aqui. Felizmente, sempre posso contar com o ódio do Coringa por mim!

Cinco homens adentram o recinto de forma abrupta: eles estão armados e são bem fortes. Usam máscaras de palhaço.

As rajadas de metralhadora vão destruindo toda a decoração interna. Batman se lança atrás de um balcão de concreto enquanto uma nuvem de fumaça se espalha no ambiente, fruto de uma bomba fumígena que o vigilante lançou. Lâminas-morcego atingem braços e pernas. Gritos são ouvidos. Após breve interrupção, os tiros continuam.

Morre, desgraçado! — grita um dos atiradores

Subitamente, Batman surge por trás dos homens. Eles só percebem quando dois caem sem consciência.

— Filho da...

Um soco direto põe em nocaute o autor da pretensa frase. Uma fratura exposta no cotovelo é o resultado da tentativa do penúltimo dos capangas em apontar sua submetralhadora USI para o vigilante. Um chute lateral o derruba antes de expressar a dor em seu braço.

O último corre para dentro do cyber café.

Era o que mais tremia. Esse vai falar logo. O Homem-Morcego adentra o ambiente, pega o capanga e o leva para o banheiro. Lança-o contra a pia, quebrando a mesma. O atirador sangra. Batman diz, quase vociferando:

Fala!

— O Coringa me mat...

O vigilante pega o sujeito pelos cabelos e enfia a cara dele no vaso sanitário. Segura-o por algumas dezenas de segundos. Retira o sujeito que inspira vigorosamente.

Fala!

— Mas...

De volta com o rosto do atirador dentro do vaso, Batman acerta um golpe nas costelas, fazendo ele expirar o ar dos pulmões. Segura-o até perceber que sua presa começou a inalar água.

— Cof, cof, cof, paraparapara.... cof, cof, eu falo, falo tudo.... cof, cof

O Cavaleiro das Trevas joga o capanga num dos cantos do banheiro,

— Fomos contratados ontem. Cof, cof, cof... — água sai do nariz e boca — Era mais de dez da noite. Ele entrou no bar do Pinga e contratou um pessoal. Pagou metade na hora e disse que o resto vinha depois do serviço.

O homem para de falar, abaixa a cabeça e tem uma crise de tosse e choro.

Sirenes são ouvidas. Quando o capanga levanta a cabeça, o banheiro está vazio.


:: Notas do Autor

(*) 911 é o número de emergência, acionando policiais e bombeiros nos EUA. No Brasil, esse número é conhecido como 190. voltar ao texto




 
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