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Batman # 34

Por Leonardo Araújo

Anjo e Demônio

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É pouco mais de meia-noite. Estamos no centro de Gotham, a rua não é muito larga e estaria bem iluminada se não houve três lâmpadas quebradas. Chove forte, relâmpagos cortam o ar da cidade. Um sedan está parado, mal estacionado, pois uma das rodas está em cima da calçada. A porta aberta e a chave na ignição denunciam uma situação incomum:

— O dinheiro, quero todo o dinheiro!

As palavras são ditas por um homem alto, branco, cabelos grandes e cacheados. Seus olhos estão vermelhos e ele está muito agitado.

Em um rápido movimento, ele bate com as costas da mão no homem a sua frente.

— Isso foi por demorar. Anda logo.

— Por favor moço, não faça mal ao meu marido.

— Cala a boca, vaca. Eu faço o que eu quiser.

Um choro assustado pode ser ouvido.

— Se não fizer essa menina ficar quieta, eu mesmo faço.

— Querida, olha pra mamãe. — a mulher limpa as lágrimas nos olhos — Vai dar tudo certo, não se preocupe.

— Me dá o relógio. Anda com isso. — o assaltante ordena à mulher.

O marido sangra pela boca e tenta se levantar.

— Fica no chão, seu puto! — o marginal chuta violentamente o homem.

— Calma querida, calma. — a mulher fala desesperada para a criança, que não contem o choro.

— Papai, papai... — a criança grita enquanto a mãe tenta acalmá-la.

— Eu disse que ia fazer essa vadiazinha ficar quieta se você não fizesse, não disse?— ele engatilha a arma e encosta na cabeça do homem, quase inconsciente, que tem parte do corpo apoiado na parede.

— Por favor, por favor moço... pega o relógio, aqui está meu cartão de crédito... — a mulher estende sua mão oferecendo os objetos, em meio a muito tremor — pega moço, por favor e nos deixe...

A mãe fecha os olhos enquanto segura sua filha com uma mão e oferece seus objetos pessoais com a outra.

— Já era, vocês já ... — a arma é atingida por um objeto escuro, muito rápido, fazendo-a saltar para longe do assaltante, a mais de cinco metros.

— Não na minha cidade. — uma voz fala em tom ameaçador.

— O que? Quem é? — ele gira a cabeça procurando o foco da voz — Vou te matar, desgraçado. — uma corda enlaça o cabeludo pelo peito e o puxa para a rua, por sobre o carro. Pode-se escutar o baque do corpo no asfalto.

— Mamãe, o que está acontecendo? — a mulher, ajoelhada, olha para o marido que esboça um sorriso.

— Um anjo minha filha, um anjo.

Atrás do carro barulhos de ossos se partindo pode ser escutado. Gritos e apelos também.

— Nãoooooo, aaaahhg ... por favor não... meu joelho....

O barulho continua. São quase cinco segundos de selvageria.

— Você ameaçou os pais na frente da filha.

— Ahhhg... meu braço ... aahhhh

Por fim, um baque seco põe fim à gritaria.

— Vocês estão bem?

Uma sombra grande e negra pergunta do outro lado do carro.

— Obrigada, obrigada... — repete a mulher compulsivamente.

— Tem material para vocês recolherem na Rua Time, 500. Há feridos. — diz Batman falando em um comunicador sem sair de sua posição.

Um raio ilumina o ambiente e elas podem ver o sombrio homem encapuzado. As gotas de chuva escorrem por seu rosto. Sua expressão é fechada. O vigilante observa o homem, vítima do assalto, tentar se levantar.

— Fique sentado. Deve ter quebrado algumas costelas no chute. Não se mexa, uma ambulância está a caminho.

De forma súbita, ele parte: uma corda o puxa para o terraço do prédio em frente à tentativa de assalto. Ele observa a família de longe, aguardando a chegada da ajuda.

A cena foi muito parecida com a que ocorreu quando ele tinha oito anos. Subitamente, seu comunicador vibra. Ele o apanha e verifica o display para identificar a chamada.

— Como foi de viagem, Leslie?

Está ai fora, na chuva, não está? — diz a dra. Thompkins.

— Você me conhece bem. — ele observa a chegada da viatura da polícia no local que estava, na rua abaixo.

Bruce, querido, você precisa vir aqui.

— Prometo que vou amanhã, durante o dia.

Não, Bruce. Você vai querer ver isso esta noite.

O lugar é pobre, bem pobre. As ruas não estão limpas, os prédios são velhos. Vidros quebrados destacam-se na vizinhança. Algumas vezes, caixas tampam a abertura onde havia um vidro para impedir o ar frio ou a chuva de entrar. Os carros estacionados têm mais de 10 anos de uso, alguns mais de 20. Não se ver outdoor, lojas de grandes redes, supermercados, ou bancos. O comercio é discreto, feito em pequenas casas comerciais aqui e ali. Pode-se ver alguns bêbados nas ruas.

— Boa noite, Leslie. — as pessoas ficam congeladas enquanto o Homem-Morcego entra na sala.

O consultório tem as paredes manchadas, o piso é antigo, muito antigo: há décadas não se fabrica mais o modelo de cerâmica. Mas está limpo. Vê-se as prateleiras cheias de remédios e observa-se alguns bons equipamentos no lugar: cortesia da Fundação Wayne.

— Paul, cuide de Filipe. — diz a doutora Leslie Thompkins ao chamar um dos voluntários e passar a criança de seu colo para o rapaz, enquanto a mãe observa.

— Pode deixar, doutora.

— Venha! Está apavorando meus clientes. — chama a médica — Eles acham que você é algum tipo de demônio.

Batman a segue pelo corredor principal e, depois, por um secundário. Ela abre uma porta de ferro.

— Aqui está. — pelos contornos que o lençol faz sobre a mesa é possível perceber que há um corpo encoberto.

Ele posiciona-se na lateral da mesa, enquanto ela pega o lençol na extremidade correspondente à cabeça e descobre parcialmente: há um cadáver, sem decomposição aparente, com um largo sorriso macabro nos lábios.

— Sabe quem é? — pergunta o detetive.

— Não, ele já chegou gargalhando, trazido por desconhecidos. Entre entrar e morrer não foram mais de cinco minutos.

— Não tinha documentos, recibos, alguma coisa nos bolsos? — Batman pega um pequeno aparelho no cinto.

— Não.

O vigilante pega o polegar da mão direita do cadáver e o pressiona contra o aparelho.

— Deve ter os bancos de dados da policia, do FBI e da CIA ai neste... nesta coisinha.

— Estou enviando para o computador da caverna. — ele retira alguns pequenos tubos do cinto e passa a colher amostras das unhas, cabelos, sola do sapato, calça e jaqueta. Recolhe, também, uma pequena amostra de sangue e saliva. Durante o processo, o aparelho de recolhimento de digitais vibra. Ele lê a identificação.

— Goldfrey Jr, Samuel. 35 anos. Procurado por roubo, latrocínio, formação de quadrilha, etc.

— Algum acerto de contas do Coringa?

— Talvez.

Leslie cobre o rosto do cadáver. A seguir fala:

— Obrigada por ... — ela percorre a sala vazia com o olhar.

São quase 5:30 da manhã. O característico som do motor do batmóvel é evidente na caverna.

Após sair do veículo, ele, apressadamente, vai até uma mesa com tubos de ensaio, reagentes, espectroscópios, microscópios e outros aparelhos. Do cinto, saca as amostras que recolheu do cadáver no consultório da dra. Thompkins. Ele sapara os resíduos dos tubos e prepara uma série de ensaios para avaliar possíveis indicativos de onde aquele homem estava quando foi morto.

Com o canto da vista, percebe o monitor principal da caverna pulsar tons de vermelho: era um alerta que o detetive gostaria de não ver. Dirigindo-se para a mesa onde estava o teclado, ele sabia que o Coringa havia feito nova vítima. O alerta era devido a um novo vídeo na Internet cuja referências feitas pelos internautas eram idênticas às referências feita ao vídeo em que o palhaço matava o prefeito.

— Meus bons amigos de Gotham, espero que apreciem este julgamento. — o Coringa estava de preto e pouco aparecia do ambiente.

Ele, calmamente, compulsa um livro em sua mão.

— Aqui, achei. Deputada Estadual Valéria Cramer Drees. — a câmera sobe e vai para esquerda do "juiz": uma mulher de meia idade, loira, está amordaçada — Vejamos seus crimes. Câmera!!!! — grita o insano, fazendo-se o centro da filmagem novamente — Aqui diz que a senhora compra eleitores, pagando contas de gás, luz, nas vésperas da eleição. É verdade?

Ele fica olhando para a câmera, sua feição muda para enfurecido. Faz pequenos tiques com a cabeça para o lado esquerdo. A câmera vota à deputada.

— Huuummm, humm....

— Quem foi o idiota que não removeu a mordaça? Alguém pode me dizer como alguém vai falar amordaçada? Será que eu preciso fazer tudo aqui? — ouve-se um tiro e um grito. A câmera treme. Uma mão surge por traz da política, removendo a mordaça.

— Pronto, chefe. — ouve-se, quase num sussurro.

— Por favor, eu imploro: me solte! — fala a mulher em meio ao choro.

— A senhora só pode falar quando o juiz, no caso eu, lhe ordenar.

— Mas... aaai — ele acerta um tapa nela, que chora.

— Calaboca. — acerta outro tapa — Vou repetir a pergunta: a senhora compra eleitores, pagando contas de gás, luz, nas vésperas da eleição?

— Não, não, por favor!

— Beeeeeeeeeeeeep, resposta errada. — ele aperta um botão e a mulher grita: uma corrente elétrica lhe percorre o corpo por cerca de dois segundos.

— Aaaaaaahhg...

— Hahahhahha... Aqui estão fotos, recibos e tudo que comprova sua compra de votos. Vou repetir: a senhora compra eleitores, pagando contas de gás, luz, nas vésperas da eleição? Pense bem antes de responder. — ele, sorrindo largamente, fica com o dedo sobre o botão de acionamento.

— Sim. — diz chorando compulsivamente.

— Respeito à corte. — ele olha para ela que chora — Calaboca. — acerta outro tapa.

— Por fav... ai, ai, aai — uma seqüência se tapas no rosto da vereadora seguido por "calabocas" é deferido.

— Acho que a ré está disposta a colaborar agora. A segunda acusação diz que a senhora nomeava "fantasmas" para seu gabinete e ficava com o dinheiro destes supostos assessores. É verdade? — ele fala, junto à câmera, sorrindo.

— Sim. — as lágrimas lhe escorrem.

— Estou gostando de ver. Confessar faz bem à alma, hehehehehe. Aqui tem uma relação de desvios de dinheiro de obras, favorecimento a licitações, cobrança para facilitar tramite de documentos, etc, etc e etc. Tudo o que um moderno político faz, não é mesmo? A senhora é culpada?

Ela o olha, as lágrimas caem.

— Olha aqui: gravações, assinaturas, tudo isso é comprovado. Culpada?

— Sssim!

— Viu povo de Gotham. Se não sou eu, quem vai salvar vocês destes abutres? Batman? Hahahahaah. A sentença: — ele levanta a mão e uma música tem o som elevado abruptamente.

Pode-se ler nos lábios dela um "Por favor", mas, assim que a musica tem o volume reduzido, o Coringa chuta um banco aos pés da deputada, fazendo-a ficar pendurada por uma corda no pescoço. Ele balança as pernas e agita o corpo. Usando este bizarro e tétrico pano de fundo, o palhaço fala exibindo parte da corda na mão:

— Se vocês soubessem como as tripas daquele banhudo deu uma bela corda — ele exibe a corda de couro trançado — já teriam usado aquele inútil como matéria prima para cabos a muito tempo. Hahahahaha!

A corda que enforcava a deputada era feita do couro dos intestinos do prefeito.

— Cumpri minha promessa. Estou enforcando os políticos um nas tripas dos outros. Hehehehe. Se os donos da cidade querem parar este show, é só me darem meu dinheiro e pronto. Lembrando: um milhão de dólares em espécie, cinco milhões de euros, três milhões em diamante e dois em ouro.

Ele sorri e pisca para a câmera.

— Quase esqueço: o local. Heheheh. Coloquem tudo num iate na Marina Orca, tanque cheio, à 23 horas do próximo sábado. Nada de policiais, helicópteros, perseguição, estas coisas cafonas. Levarei três reféns. O primeiro morre assim que eu perceber que estou sendo seguido. Fui claro? Se não me derem meu dinheiro, hahahahhahah, domingo tem mais show!

O vídeo macabro termina.




 
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