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Batman # 37

Por Eduardo Regis

Uma História de Sangue — Parte I
Cena de Crime

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Robert Argento está mais do que acostumado a visitar e inspecionar cenas de crime. É seu trabalho e, em Gotham, é um trabalho bem agitado e constante. Como sempre, entra no apartamento vestindo seu macacão e carregando sua maleta, esperando que as coisas não sejam diferentes das últimas vezes: corpo, sangue, digital. No entanto, assim que pisa no quarto da vítima, ele toma um susto. Uma figura pousa agachada ao lado do corpo, obscurecida pelas sombras da noite sua aparência perturbadora faz o coração do perito forense acelerar. Uma lufada de vento joga a capa da figura para trás, revelando o corte em forma de asas de morcego. Subitamente, o misterioso ocupante do quarto se vira para Robert, e esse reconhece a máscara do Batman.

— Não quero você contaminando a cena do crime. Volte em dez minutos.

"Nem precisa pedir duas vezes..."

— Ok, é só que me mandaram verificar e...

— Verifique lá fora. — o Batman se coloca à frente de Argento. Sem nem pestanejar, o perito sai do apartamento enquanto pensa em que desculpa vai dar aos outros policiais.

À primeira vista, a cena não possui muitos elementos. O corpo de Lenny Canto está caído perto da cama. Dois tiros nas costas. O armário está aberto e revirado. Alguns livros estão caídos pelo chão. Batman examina os livros. Alquimia, magia negra e assemelhados.

— Robin, eu quero que consulte "Lionel Canto" ou "Lenny Canto" nos arquivos do computador e da polícia. — o morcego fala através de um minúsculo comunicador estrategicamente acoplado à máscara.

— Certo, Batman.— responde o menino-prodígio.

Agachando novamente, ele liga uma pequena lanterna e começa a examinar o corpo. A morte é recente. O sangue ainda está secando. Nada de notável, nada fora do esperado, pelo menos. Ele desvia sua atenção para outra coisa: as cápsulas das balas. As duas estão no chão, próximas à entrada do quarto. Ele pega uma e guarda no cinto.

— Por que estamos investigando esse cara? — Tim pergunta pelo comunicador.

— Assassinado.

— Bem. Nada consta sobre ele nos arquivos. Parece que esse nunca saiu da linha.

Inspecionando mais o local, Batman encontra dois fios longos de cabelo, que certamente não são de Lenny — tanto o tamanho quanto a cor não batem -. Cuidadosamente ele os acondiciona em um envelope de papel. O Batman encontra um pequeno caderno de anotações aberto em cima do móvel de cabeceira, e o guarda no cinto. Por fim, ele pega outra lanterna e a liga, jogando o feixe de luz cuidadosamente por cima de onde o assassino pudesse ter posto suas mãos. Algumas digitais aparecem. Com precisão, o detetive as recolhe. Só por precaução, o morcego também recolhe as digitais do falecido.

O homem-morcego se dá por satisfeito e sai pela janela do apartamento. Em instantes o Batmóvel cruza a cidade em direção à caverna.

Robin olha curioso para a cápsula que Batman trouxe da cena do crime.

— É calibre .45 com certeza.

— Concordo, Tim. — Bruce aprova a conclusão do Robin.

— Você acha que foi latrocínio?

— Parece. O assassino revistou o armário de Lenny e, pelo que parece, pegou um livro. Um livro de misticismo.

— Ocultismo? Esquisito...

— Achei esse caderno de anotações na cabeceira da cama. Na data de hoje, está escrito um nome: Papa Vincent. Parece que é um começo, vou ver o que descubro sobre este homem.

— E eu? — Tim pergunta.

— Você vai fazer outra coisa. Já que as digitais eram do próprio Lenny, veja se dá para fazer o DNA deste fio de cabelo e se bate com algum do banco de dados dos criminosos. Comece procurando pelas mulheres.

— Palpite? — Tim observa o fio de cabelo recolhido.

— Tintura.

Papa Vincent está sentado à mesa de sua sala. Ele é um senhor de idade, negro e obeso. Sua camisa de botão listrada é uma tentativa fracassada de tentar disfarçar a proeminente barriga. Vincent coça sua cabeça careca enquanto tenta mexer num aparelho de celular.

— Droga, esta coisa não foi feita para os velhos mesmo!

O Batman aparece na janela.

— Precisamos conversar sobre Lenny Canto.

Papa Vincent quase enfarta. O celular cai em seu colo.

— Pelo amor de Deus! Não me assuste desse jeito!

— Lenny Canto foi morto e seu nome estava anotado num bloco de anotações em seu móvel de cabeceira.

— Eu não matei ninguém! Eu fiquei o dia todo com meus clientes.

O Batman entra na casa e fica de pé ao lado da mesa. Os olhos brancos da máscara não permitem que Papa Vincent veja a direção do olhar do Batman, mas o velho homem sente o calafrio de um inquietante olhar penetrante, ainda assim.

— Eu sou um papa do vudu. Você não faz idéia de quantas pessoas me procuram por dia. Eu arranjo desde o amor da sua vida até a morte de seu desafeto. É só pedir, há um trabalho para tudo. Então, imagine, eu tenho gente o dia todo batendo na minha porta. Além do mais, Lenny era meu amigo. Eu e ele éramos chegados, sabe? Ele me trazia coisas, ervas e bichos.

— E você não foi vê-lo hoje?

— Não, mas um garoto esquisito passou por aqui hoje. Pele branca, cabelo punk e cheio de piercings. Todo vestido de preto. Ele queria saber o que eu sabia sobre trazer os mortos de volta.

— Ressurreição?

— Isso, mas eu não sei nada sobre isso. O negócio do vudu é que até dá pra fazer isso, mas aí estamos falando de zumbis. E o cara disse que isso não interessava. Então, quando se quer saber de coisas mais estranhas ainda o jeito é procurar um especialista. Dei o telefone de Lenny.

— Quem mais poderia saber sobre essas coisas?

— Doug Allen.

O Batman salta da janela e desaparece.

— Ei, mas você conhece Doug? — Papa Vincent corre até a janela, mas nada vê senão os prédios esguios e amontoados de Gotham. Seu celular toca. Ele toma outro susto. O Batman escuta um palavrão ecoando do apartamento do qual acabara de sair.

— Então, você está achando que o assassino de Lenny está atrás de um modo de reviver alguém?— Robin pergunta.

— Parece que sim. O assassino deve ter encontrado o que queria com Lenny, mas ainda não sei por que ele foi morto.

— Talvez ele tenha se recusado a entregar o que tinha.

— E como o assassino sabia o que procurar? — o Batman questiona a hipótese.

— Lenny deve ter falado algo antes de morrer. Mencionado o livro.— Tim retruca.

— Talvez. Talvez ele tenha se virado para pegá-lo e foi aí que o assassino atirou. Mas ainda não consigo entender a motivação.

— Dinheiro? Talvez o assassino não pudesse pagar o preço. — o Robin vai até ao computador— Imagino que esses caras cobrem caro por informações tão exclusivas.

— Pode ser. Ou pode ser que não quisesse mais ninguém sabendo dos detalhes que ele foi obrigado a contar ao Lenny. Talvez um simples assassinato chame menos atenção do que boatos, afinal.

Tim fica tentando imaginar o que Bruce estava querendo dizer, às vezes era muito difícil, até para ele, acompanhar seu raciocínio.

— Acabou a busca no banco de dados, Bruce. O DNA não bate com o de ninguém. Quem quer que seja essa mulher, não tem passagem recente pela polícia.

— Sendo assim, amanhã pela manhã farei uma visita.

"Eu me lembro de Doug Allen. Uma jovem morta em seu apartamento. Os olhos arrancados e servidos em um cálice. Eu cheguei tarde demais para salvar a garota, mas Doug foi condenado à prisão perpétua. Alegou insanidade. Possessão demoníaca. O bom comportamento e avaliação psicológica favorável ao longo dos anos o puseram numa cela de segurança mínima da instituição. Trabalha de dia na padaria de Arkham e passa o resto do tempo em sua cela. Pela hora, já deve estar de volta à cela."

O Batman pára em frente às barras de ferro da cela de Doug. O franzino homem está sentado em sua cama, rabiscando algo em um caderno de anotações barato.

— O que você sabe sobre a morte de Lenny Canto?

— Nossa! — o homem se assusta, mas se aproxima das barras — Lenny?! Eu não sei de nada. Nem mesmo sabia que ele estava morto. Como poderia saber? Estou há anos nesta jaula.

— Alguém o procurou perguntando sobre como reviver os mortos. Quem foi?

— Como você sabe disso?

— Diga logo, Allen.

— Está certo, pelo Lenny. Eu falarei o que sei, mas você tem que pegar quem fez isso com ele. Quatro dias atrás veio uma mulher até a padaria, não sei como ela sabia meu nome ou quem eu era. Aliás, nem sei como ela entrou aqui dentro. Enfim, ela me perguntou sobre ressurreição. Eu fingi que não sabia de nada e fui embora, fui pro meu almoço. Sabe, não quero mais me envolver em confusão...

— Mas você sabe...

— Algumas coisas, mas não dá para ser específico sem um livro em mãos...

— Qual livro?

— Vários. Mas se você quer saber o que eu recomendaria... Eu recomendaria a obra de John Dee e Edward Kelly, mas não aquela baboseira que vendem nas livrarias. A coisa de verdade.

— Onde consigo isso?

— Em Gotham? Lenny Canto, mas parece que ele é que está precisando do livro agora...pobre Lenny.

— Como era essa mulher?

— Branca, muito branca. Tava de chapéu, não consegui ver o cabelo direito. Eu não falei com ela direito, virei logo o rosto, não prestei muita atenção no resto.

— Se me permite senhor, acho que deveria consultar seus colegas místicos. — Já é tarde da noite e Alfred ajeita uma das luzes da caverna.

— Alfred tem razão, Bruce. Talvez o Senhor Destino, ou o Doutor Estranho. — Tim completa.

— Nada disso. Até agora não temos razão para acreditar que forças místicas reais estejam envolvidas nesse caso— Bruce coça os olhos— Tim, eu quero que tente achar esse livro de Dee e Kelly. Precisamos saber o que o assassino pretende fazer.

— Mas... como vou encontrar um livro desses?

— Tente pelo acervo digital da biblioteca nacional do Reino Unido. Alfred, descubra para mim o nome de quem esteve no portão de Arkham na última semana, um pouco antes do almoço.

— Certamente, patrão.

— Eu vou ficar em ronda e esperar por qualquer movimento desse assassino.

O sinal do morcego ilumina a noite e o alarme da caverna toca, avisando o vigilante de Gotham de que ele é necessário uma vez mais.

O Batman se revela no telhado e encara o comissário Gordon.

— Dois raptos. Nada de corpos, nada de resgates. As testemunhas dizem ter vistos uns garotos e garotas "darks". Uma gangue talvez. Eu e os rapazes estamos atolados e, francamente, perdidos nessa. — Jim Gordon estende a ficha do caso para o Batman— Pegue, é uma cópia.

— Vou dar uma olhada.




 
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