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Batman # 38

Por Eduardo Regis

Uma História de Sangue — Parte II
Caveira e Ossos Quebrados

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As ruas frias de Gotham acentuam a tristeza estampada nos olhos caídos de um velho vendedor de flores. Sua barraca de rua, improvisada de um amontoado de caixas e tiras de madeira, vende rosas brancas e vermelhas por alguns poucos dólares. Todos os dias, centenas de pessoas vão e vem, passando pelo vendedor. Quase ninguém o nota, menos pessoas ainda se interessam pelas suas rosas. Com sorte, no fim do dia ele conseguirá cinqüenta dólares. E com cinqüenta dólares por dia, não se vive com dignidade em Gotham. Aliás, ele se pergunta, será que se vive com dignidade em Gotham?

No caminho de volta para casa, todas as noites, o vendedor se vê obrigado a desviar de certas ruas. Cruzar com algumas gangues seria pedir para perder muito mais do que seu suado dinheiro. Embora miserável, sua vida ainda é algo de valor para ele. E então, ao invés de fazer o percurso mais rápido para casa, ele demora vinte minutos a mais andando, vinte minutos que castigam seus joelhos desgastados pelo tempo, tempo esse que cansa seu coração enfraquecido. Tudo por um pouco mais de segurança. Mas em Gotham, é uma questão de tempo.

Três homens, trajando roupas no estilo gótico, atravessam a rua em direção ao vendedor. Sem razão aparente, eles param em frente ao senhor.

— Rosas para os mortos. — um deles fala enquanto tira uma das mãos do bolso, revelando um soco inglês. Seu cabelo negro escorrido e sua maquiagem roxa e vermelha emulam um tom vampiresco.

— Precisamos de um enterro, velho. De um corpo e de um caixão, precisamos trazer de volta o salvador!— Esse, possui muitos piercings e brincos e usa roupas que parecem de veludo. Os góticos começam a cercar o velho homem.

— Você pode até gritar, vovô. Mas veja...são três contra um!— fala o terceiro, vestindo um sobretudo vermelho e usando óculos escuros.

O pobre senhor fecha os olhos e recita uma velha prece que aprendeu quando menino.

— Ó senhor, que tudo vê nas alturas, de sua justiça virá o bem, e de nossa fé será feito o céu na terra...

— Corta essa, velho. Deus ri de Gotham. Isso aqui é o chiqueiro do mundo! — o jovem gótico de vermelho empurra o senhor, que desequilibra e cai.

— Vamos levá-lo vivo ou morto? — pergunta o cheio de piercings.

— Morto. — o maquiado saca uma faca. — Ou, pelo menos, desacordado.

O velho homem chora.

— Não há o que temer na morte, velho! –grita o que segura a faca.

— Mas há o que temer em Gotham. — uma voz rasgada ecoa pela rua. Os três marginais procuram assustados pela estranha presença.

— É o morcego! Vamos cair fora! — o de vermelho se assusta.

Com sua capa aberta, o morcego cai à frente dos três. O semblante fechado, a máscara soturna. Ao invés de agir com rapidez, Batman espera a reação dos oponentes.

O de vermelho corre. Um bataranque atinge suas pernas, ele cai e rala a cara no asfalto. O usando piercings parte para cima de Batman, com um movimento rápido das mãos, o vigilante o joga para o lado e acerta um chute em sua cara, arrancando alguns dos piercings e desmaiando-o. O terceiro agarra o velho e o ameaça com sua faca.

— Eu mato esse velho viado!

Batman olha para o criminoso, ajeita a capa e dá um passo em sua direção.

— Porra, cara... porra... porra!

O morcego dá mais um passo adiante.

— Eu tô falando sério! É sério!

Batman pára e por debaixo da capa uma de suas mãos alcança um pequeno objeto.

— Solte-o. Agora. — fala o homem-morcego.

O gótico vacila com a faca, abaixando-a por um instante. É tempo suficiente para que Batman jogue um batarangue que o atinge na testa. O jovem maquiado cai. Rapidamente, o morcego chuta a faca para longe e pisa na mão do delinqüente, os ossos dos dedos se quebram.

Batman vai até o gótico de vermelho que tentava escapar se arrastando furtivamente. Ouve-se um soco e, logo depois, o morcego desaparece nas sombras. Misteriosamente, a polícia encontra todos os criminosos sem um de seus sapatos.

Na caverna, Batman bate o sapato de um dos góticos em cima de uma bandeja. Com uma espátula ele começa a retirar todos os resíduos de terra.

— Pisou em algo inapropriado, patrão? — Alfred surge.

— Essa gangue gótica parece que vai dar problemas, Alfred. Melhor eu atacar enquanto ainda está em proporções menores. Como ainda são poucos na gangue, é difícil achá-los pela cidade, e o padrão dos ataques não sugeriu um lugar em específico.

— Sim, patrão. Ataques na zona oeste e leste da cidade. Extremos opostos. Acesso a qualquer lugar.

— Certo. Olhe para o que eu retirei dos sapatos deles: folhas, terra e cera. Todos eles apresentaram terra e folhas nos sapatos. Duvido que estejam passeando no parque.

— E a cera, patrão?

— Parafina, parece. Deve ser de vela. Um cemitério. E essas partículas de areia, terra e restos de grama vão me dizer exatamente em qual cemitério eles estão escondidos.

— Patrão Bruce, tem certeza de que conseguirá saber o cemitério exato desta maneira?

— Com certeza, Alfred. Os três cemitérios da cidade estão localizados em regiões diferentes, o solo difere e o tipo de grama que é plantada é diferente em um deles. A única coisa em comum são as passagens subterrâneas que os ligam pela cidade, utilizadas antigamente para transportar os corpos. Mas a prefeitura as selou em vários pontos. Eles não podem usá-las para se locomover, mas para se esconder, com certeza.

— Suponho que o patrão já tenha coletado amostras dos três cemitérios e verificado os mapas subterrâneos.

— Ainda não. Pode me passar aquele livro de sistemática vegetal que está em cima da centrífuga? — Bruce liga seu comunicador — Tim, vá pegar amostras de solo e vegetação dos cemitérios antes de voltar para a caverna. Pegue das partes sul, norte, leste e oeste dos cemitérios. Seja discreto, e se vir algo incomum, comunique-me.

OK, Batman. — Robin desliga seu comunicador.

— Aqui está, patrão. Mas, desculpe perguntar, por que não usou a velha técnica do interrogatório? — Alfred pergunta.

— Eu não quero que eles saibam que eu estou indo atrás deles, Alfred. Não os quero arranjando outro esconderijo. Já garanti que esta noite eles não terão ninguém para matar, agora é preciso trabalhar rápido para atacá-los na próxima.

Batman tira a máscara e coloca um pouco da terra e pedaços de folhas do sapato do criminoso em cima de uma lâmina de microscópio. Com cuidado ele a leva a uma grande lupa e começa a examinar. Acoplada à lupa, uma máquina digital tira fotos de tudo que ele analisa.

— Fascinante, patrão. De onde veio essa idéia?

— Do livro de memórias de um dos mais respeitados peritos forenses da Interpol, Alfred.

— O senhor sempre sabe escolher o livro de cabeceira apropriado, patrão.

— Obrigado, Alfred. O homem é um mestre em perícia criminal. Foi só um livro, mas ele me deu boas idéias novas de técnicas em botânica, entomologia e até microbiologia. (*)

— Ah, por favor, diga-me que não vai começar a criar insetos na caverna.

— Para dizer a verdade, já consegui algumas larvas. Esperava que você fosse bondoso o bastante para dar de comer aos pequenos de vez em quando.

— Conte com meu amor pelas baratas, patrão. Achou algo?

— É difícil saber. Ainda preciso examinar as amostras dos cemitérios e depois comparar as fotos uma a uma para tentar achar um padrão parecido. Aí sim, saberei em qual cemitério eles estão reunidos, e até, quem sabe, em qual parte do cemitério.

— Sua precisão me assusta, patrão Bruce.

— É o poder da ciência forense, Alfred.

— Devo supor que não sou necessário nesta divertida atividade?

— Nesta não, Alfred. Mas em outra, certamente.

— Posso perguntar o que seria, patrão?

— Consiga-me algo para comer, por favor.

— Sanduíches, patrão Bruce?

— Sempre, Alfred. Aliás, já conseguiu o nome dos guardas de Arkham?

— Eu deixei em um envelope junto do computador, patrão.

— Obrigado, Alfred.

Uma figura trajando um hábito vermelho, adornado com um crânio e ossos cruzados, aproxima-se de um mausoléu. Ao seu redor, homens e mulheres, totalizando seis pessoas, o acompanham com garrafas de vinho e livros na mão. Um dos góticos toma à frente e discursa.

— Vamos dar a morte a mais um homem. A morte, nossa boa mãe, aquela que nos livra do sofrimento e desgosto de viver na imunda Gotham.O único escape dessa deterioração constante do espírito! Vamos! Vamos dar a mais um afortunado esse presente!

O morcego se esgueira entre os túmulos. No comunicador da sua máscara, a voz de Alfred lhe fala.

— Um discurso muito charmoso.

— É isto o que este ambiente corrompido faz aos jovens, Alfred. — o morcego fala enquanto se aproxima sorrateiro.

O homem no hábito vermelho tira uma chave de um cinto. Calmamente ele abre a porta do mausoléu e espera um a um, que todos os góticos entrem, para, só então, entrar também.

"Este hábito e estes detalhes de caveira e ossos..." Pensa o morcego enquanto se aproxima. "O Monge."


:: Notas do Autor

(*) Entomologia é a ciência que estuda os insetos e a microbiologia estuda os microorganismos. voltar ao texto




 
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