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Batman # 39

Por Eduardo Regis

Uma História de Sangue — Parte III
Deseje-me Morte

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O cemitério Memorial Finger é uma visão única de Gotham. Combinando perfeitamente com o estilo noir do restante da cidade, as lápides e esculturas evocam a melancolia crônica de quem vive (e morre) sob a sombra da cidade. Não é um lugar de descanso, alma alguma poderia encontrar conforto naquele ambiente. É mais como um purgatório, onde os mortos de Gotham lamentam tudo o que veio e tudo o que virá, e esperam ansiosos pelos que irão se juntar a eles.

Em meio a este cenário macabro, Batman observa de longe quando o Monge e seus góticos entram num mausoléu de mármore, um dos poucos no cemitério.

A pesada porta do mausoléu é fechada, impedindo que qualquer som saia de dentro da construção.

"Eles só podem estar usando as passagens subterrâneas entre os cemitérios."

Batman? — a voz de Tim Drake surge no comunicador — Depois de ficar horas e horas procurando sobre esse livro de Dee e Kelly, não achei nada que fosse realmente relevante. Só aquelas baboseiras esotéricas.

— Ainda assim. Reúna tudo sobre o assunto em uma pasta e deixe na mesa do computador. Vou verificar mais tarde.

Precisa de ajuda com a gangue gótica? — Tim pergunta, ansioso por ação.

— Não. Mas fique alerta. Vá até o almoxarifado e pegue a maleta 37. Ao meu sinal, venha ao meu encontro com ela. — o morcego desliga o comunicador.

Batman se aproxima da porta, abrindo-a lentamente e olhando furtivo para dentro do mausoléu. À frente, uma cripta de mármore, e logo atrás um buraco no chão e uma escada improvisada. As vozes ecoam da câmara abaixo da cripta. O vigilante de Gotham inspeciona rapidamente a cripta, mas nada acha de relevante, e logo desce alguns degraus escada abaixo. Os góticos estão reunidos ao redor do Monge e de uma cova sendo fechada. O morcego adentra na câmara subterrânea, que mais parece um corredor alargado de masmorra interrompido por uma parede de concreto. Silencioso, e se mesclando às sombras, Batman encosta-se à parede da câmara enquanto ajeita dois batarangues em cada mão.

O Monge observa e um gótico grita, enquanto outros jogam mais e mais terra sobre a cova.

— Mais um é mandado ao descanso eterno! Ninguém mais agüenta carregar nos ombros o peso do medo e da sujeira de Gotham! Em breve, o salvador virá e nós nos tornaremos salvadores como ele! Espalharemos o sossego com a suavidade de um beijo!

Os góticos aplaudem.

Ainda envolto em sombras o morcego fala, e sua voz ecoa.

Chega.

Todos se assustam. O Monge salta a cova e toma a dianteira.

— É o morcego! — grita um dos homens.

— Vamos dar o fora! — o outro fala.

Quatro batarangues voam pela escuridão. Dois acertam a cabeça de um gótico e mais dois acertam o pescoço e peito de uma gótica, ambos caem incapacitados. Batman aparece, saindo das sombras e se colocando em frente à saída.

Dos quatro góticos restantes, uma mulher levanta os braços, se entregando, mas os três homens que restam se juntam ao monge e avançam. Um deles segura uma pá e outro um pé-de-cabra. O Monge saca uma pistola de seu cinto.

"Uma pistola?" — pensa Batman, surpreso.

O vigilante corre para cima dos góticos, segurando a pá que um deles carrega com uma das mãos e encaixando um soco com a outra. O gótico sente o golpe e larga o objeto, Batman o acerta com um certeiro chute enquanto gira a pá na cara de outro que vinha com o pé-de-cabra em punho. Dois a menos. O terceiro, e último, dos góticos pára, assustado, e o morcego o acerta com um direto de esquerda que o faz cair desorientado.

Batman encara o monge. A figura rubra aponta com firmeza a pistola para o homem-morcego. Os dois se estudam. O cruzado de capa, gentilmente, leva uma das mãos até o cinto, procurando por um de seus bolsos. O monge percebe a movimentação e dispara. O cheiro de pólvora invade as narinas de Batman enquanto ele sente a dor da pressão da bala na altura do estômago. O morcego joga a capa por cima do tronco e cai no chão de terra. Sua boca se abre, pega ar e solta um suspiro fraco.

O Monge continua com a arma em punho enquanto vai se afastando de Batman, indo em direção à escadaria. Tomando à frente do monge, a gótica que restava de pé corre e sai da câmara. Finalmente, a figura de hábito abaixa a arma e, quando pisa o pé no primeiro degrau da escada, coloca-a no cinto novamente.

Da direção do morcego voa um batarangue certeiro na cabeça do Monge, desorientando-o e fazendo a pistola cair no chão. Tonto, o líder da gangue dos góticos se vira para Batman e se surpreende ao vê-lo se aproximando com um soco armado. O golpe acerta o estômago do Monge, que empurra Batman para longe, tentando recuperar o fôlego. O homem-morcego logo se recompõe e agarra o Monge pelo hábito, levantando-o e preparando-se para jogá-lo contra a parede. Ao levantar o vilão, Batman consegue enxergar por debaixo do capuz e o que poderia ter sido surpresa minutos atrás, agora soa como a confirmação de uma suspeita. O morcego coloca a figura no chão e arranca seu capuz, revelando o rosto de uma jovem mulher.

— Dala.

— Como você ainda pode estar vivo? — Dala não sabe que as placas de kevlar no uniforme de Batman foram fortes o suficiente para conter o projétil.

Batman é surpreendido pelo ataque de um dos góticos. Os golpes não haviam incapacitado o rapaz o bastante. O jovem se joga em cima de Batman, fazendo os dois girarem pela câmara. O vigilante arremessa o gótico na parede e aplica um soco implacável em seu nariz. Agora sim, incapacitando-o. O homem-morcego sobe as escadas correndo, tentando alcançar Dala, que fugira. Não é surpresa, no entanto, que o mausoléu esteja trancado de fora para dentro. Sem dúvidas, ela já havia escapado.

Ignorando momentaneamente a fuga de Dala, Batman desce as escadas novamente para averiguar a câmara. Três góticos estão desmaiados. Ele os amarra com corda e os deixa próximos a escada. Com a pá em mãos começa a cavar, até que encontra o caixão que estavam enterrando. O frágil caixão de madeira treme freneticamente. É óbvio que há uma pessoa viva presa nele, e por isso Batman não esperava. Com uma celeridade ímpar, o vigilante de Gotham abre o caixão. Uma senhora de meia-idade grita desesperadamente. Sua pele está roxa, devido à falta de ar, suas unhas estão todas quebradas e suas mãos e vestido manchados de sangue. Batman a levanta e coloca-a sentada próxima à escada.

— Já retorno.

O morcego sobe até a porta trancada e instala alguns explosivos nela. Protegendo-se atrás da cripta, ele dispara a explosão, que derruba a pesada porta.

Tim Drake está sentado à cadeira perto do computador. Seu semblante sério não intimida Bruce Wayne.

— Sabe o que eu vi quando abri a maleta 37? Duas estacas, crucifixos, alho e uma garrafa cheia de água, que eu suponho seja água benta.

— Do próprio Vaticano, abençoada por João Paulo II. — Bruce responde, enquanto se senta para examinar os papéis que Robin recolhera acerca de Dee e Kelly.

— Vampiros, Bruce? Ora, eu poderia estar lá para te ajudar! Desde quando você desconfiava?

— Eu não fazia idéia até chegar ao cemitério, mas isso não importa. Não estamos lidando com vampiros, não diretamente.

— Como assim? — Tim se espanta.

— Diga-me, Tim, o que você viu sobre ressurreição aqui? — Bruce levanta a pasta — Vamos pular para a parte que interessa.

— Ora, Bruce, só uns rituais sem pé nem cabeça.

— O texto menciona vampiros?

— Você está me deixando confuso. Tem ou não algum vampiro envolvido?

— Sim, mas o vampiro é só a motivação. Para ter certeza do que está acontecendo, você vai averiguar uma coisa para mim agora.

Robin olha as ruas do alto de um pequeno prédio no Brooklyn. Nesta parte da cidade, Nova York se parece bastante com Gotham. Não há pessoas caminhando por ali, de vez em quando passam carros, e, embora ele possa ouvir o som abafado de uma boate próxima, a impressão que lhe dá é que a cidade toda está dormindo. Também pudera, são 3:15 da manhã e Tim só está ali porque Batman lhe disse que seria fundamental conversar com uma certa pessoa.

Usando uma corda, Robin se joga até o outro lado da rua, onde percorre um beco até um galpão.

"É aqui. Agora eu bato e digo o quê? Oi?"

Antes mesmo que Tim pudesse se decidir, a porta se abre. Um enorme homem negro usando óculos escuros, com o peito nu e vestindo uma calça de couro aparece.

— Eu sabia que ele não ia deixar passar barato. É o que dizem, não é? Pise em Gotham e acerte contas com o morcego. Acontece, garoto, que se você veio aqui para me dar bronquinha por ter ido à cidade do teu professorzinho, fala pra ele vir resolver isso cara a cara com o Blade.

Não dá para negar. Blade é muito intimidador, mas o Robin não se assusta fácil e já percebeu que, apesar da atitude, o caçador de vampiros não quer confusão.

— Na verdade, não tem bronquinha. Vim aqui para lhe perguntar uma coisa. Teríamos telefonado, mas você não é um cara fácil de achar.

— Então, entra. Entra, que a nossa conversa é só pra gente ouvir. — Tim adentra o galpão de Blade, e o caçador fecha a porta — Me segue, vou arranjar um sofá pra você sentar. Mas, tem que ser uma conversa rápida, já, já eu vou sair pra pulverizar uns sanguessugas.

— Bem, você tem razão em um ponto, Blade. Não dá mesmo para ir a Gotham sem o Batman saber, mas ele não implica com todo mundo, sabe. Só com quem faz besteira ou se mete no caminho dele. — Robin segue Blade por corredores de prateleiras de metal e de sucatas.

— Eu não vacilo, garoto. E o morcegão não está no ramo dos vampiros, então, passei tranqüilo.

— Por aí.

Eles chegam até um local mais parecido com o que se esperaria de um apartamento. Há um sofá, uma mesa e uma cozinha. Sem cerimônias, Tim senta-se.

— Então... o que o morcego quer? Um relatório do que eu fiz lá?

— Três coisas: você matou um vampiro conhecido por "Monge"?

Blade sorri com o canto da boca.

— Pode apostar que sim, garoto. Enfiei uma estaca bem no meio do coração dele e taquei o miserável no fogo. Esse está mortinho.

— Mas a mulher que estava com ele... Dala, fugiu, não é?

— A safada fugiu mesmo. Mas sem o mestre dela ela não é ninguém, só uma doidinha querendo virar vampira.

— Só que ela resolveu aparecer novamente e está tentando trazer o Monge de volta à vida, ou à não-vida.

Blade coça a cabeça, passando a mão pelos curtos e crespos cabelos.

— Bem... essa mulher é obcecada mesmo. Acho que eu posso te dar umas dicas, garoto.


Continua...




 
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