hyperfan  
 

Flash # 12

Por Délio Freire

Ah, Ser um Grodd!
Parte Final (*)

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Flash
::
Outros Títulos

— Em meio a tantas possibilidades, não chegamos a nenhuma que fosse satisfatória o suficiente para subirmos nas pesquisas? Para, enfim, dominarmos o mercado americano como um todo?

O ângulo facial do gorila Grodd torna-se agudo, tenso, preocupado. Há tão poucas coisas que deseje mais do que expandir seus negócios para fora da fronteira de Keystone City. A cidade o adotou, o acolheu e o perdoou pelos seus pecados. Mas ele não quer ser apenas um ídolo em sua cidade. Quer dominar os Estados Unidos e, depois, o mundo; porém, as coisas não estão saindo tão fácil quanto imaginava.

— Senhor, como lhe dissemos, nossa cidade realmente o ama. Não foi tão difícil revertermos a maneira como sua imagem era vista pela população local. — o chefe da equipe levanta-se, vai até um telão onde cenas do passado de Grodd são projetadas — Por outro lado, essa façanha não é tão fácil de se repetir ou se expandir pelo país e muito menos pelo mundo. A marca Grodd realmente vende no país, só que não conseguimos bater grandes empresas como Calvin Klein, Nike ou Coca-Cola fora de nossa cidade. Fora daqui, não somos competitivos o suficiente.

— As imagens de meu passado... — ele olha para elas, renegando-as, como um pai que renega os filhos.

— Sim. Você é um vilão perante o país e o mundo. Sempre será. A menos que...

— A menos que consigamos convencer Wally West a ficar do meu lado! — Grodd caminha, as quatro patas sustentando seu corpo — Ele não responde mais aos meus recados?

— Aparentemente a negativa para sua proposta é definitiva. (**)

— Deixem-me só.

Um a um, sua equipe se retira. Ele não sabe mais o que fazer. Qualquer passo em direção ao Flash não é bem recebido. Subitamente, quando todos saem, uma voz feminina e doce chama pelo nome de Grodd. É uma das mulheres da equipe, uma das poucas que não se retirara. Ele, perdido em seus pensamentos, não a responde. Ela recosta-se nele, abraçando-o por trás.

— Grodd, não gosto de ver você assim, preocupado. Podemos e vamos dar um jeito nisso, pode acreditar. Seus negócios terão o sucesso que tanto almeja.

Ele nada responde, mas agradece pelas palavras de conforto e pelo abraço, pegando as mãos da mulher e levando até os lábios, beijando-as. Aquela bela mulher é uma das melhores companheiras que Grodd já teve em sua vida.

— Ela o quê?

— Estou te dizendo... ela e Grodd, juntos...

— Que isso seja mais uma de suas brincadeiras, JM!

— Não, Keith, não é. Lembra da reunião de ontem à noite? O chefe tava puto com toda equipe de marketing, não queria ninguém, queria pensar em algo...

— Sim. E o deixamos sozinho.

— Bom, segundo a secretária, a nossa amiga não o deixou sozinho. Ela não saiu com o grupo. Na verdade, ambos ficaram várias horas a sós no escritório.

— Deus, isso é nojento! Será que eles...

— Bem, o sr. Grodd é um gorila aparentemente saudável...

— Jesus, isso é degradante, baixo e imoral. Tanto quanto aquela mulher que transava com aquela planta lá da Louisiana! (***)

— Pior, Keith. Essa é justamente a chance que a imprensa precisava para frear a Groddmania, mesmo em Keystone City.

— Você está me dizendo o quê?? — Grodd está em fúria.

— Senhor, me perdoe realmente por interferir em sua vida particular...

— Que eu gostaria que continuasse particular, Keith...

— Mas é um absurdo! Se a imprensa souber de seu caso amoroso...

— O que há de tão estranho nisso? Talvez até isso seja favorável para meu futuro.

Impossível! Vão crucificar você e sua namoradinha. Ela será ridicularizada e perseguida por transar com um animal...

Grodd, em questão de segundos, aperta o pescoço de seu principal assessor.

— Nunca... mais... repita... essa palavra. Está entendendo?

Com dificuldade, o homem balança a cabeça positivamente. Quando é solto, cai ao chão e tenta se reerguer. Seu rosto está roxo e sua voz sai rouca, quase inaudível. Antes de sair da sala, ele fala:

— Você pagará um preço caro por essa sua paixão, Grodd. Seu império não irá se construir dessa forma.

Quando o homem deixa a sala, Grodd rasga suas vestes devido à sua fúria, levanta a mesa, jogando-a para o lado e, com um soco, destrói uma parede. Em poucos instantes, seu acesso de fúria está terminado, mas boa parte do escritório precisa de reforma.

Mais calmo, uma de suas únicas certezas é a de que seu relacionamento com aquela mulher dificilmente será descoberto e, caso seja, não lhe trará prejuízo algum.

Grodd sai da água, o corpo encharcado, o sol revigorando seus músculos debaixo dos pêlos. Imediatamente, sua amada companheira surge ao seu lado com uma toalha imensa e a entrega; a nudez do gorila não a incomoda de forma alguma. Naquela paradisíaca ilha italiana, ambos estão completamente longe dos olhos de outras pessoas e isso os deixa tranqüilos. Equivocadamente.

Uma câmera fotográfica digital, pequena, começa a seguir os movimentos do inusitado casal nu. O fotógrafo faz uma seqüência de fotos e em poucos instantes elas rodam o mundo, expondo o relacionamento entre a mulher e o gorila, seus beijos e carícias.

"No estúdio da principal TV de Keystone City, minha intenção é apenas chegar até Linda e não ser alvo de perguntas indiscretas a respeito da minha participação ou não na Groddmania; pelo visto, se o Flash irá participar ou não da empreitada comercial do novo queridinho da mídia ainda é a curiosidade de muitos. Felizmente para mim, uma inusitada escorregada de Grodd faz com que me deixem de lado. Aí consegui finalmente chegar até Linda."

— Wally, o que está fazendo aqui? — "ela está sentada ao pé de uma escada."

— Puxa, acho que ao menos somos amigos, não é mesmo?

— Wally West, você sabe perfeitamente que eu vou sempre direto ao ponto.

— O que houve? Está nervosa? Aconteceu alguma novidade?

— Grodd.

— Ah, Grodd; sempre ele agora. O que foi dessa vez?

— Algumas fotos saíram nos jornais. Ele e a namorada. Uma humana.

— Sério? Não sabia desses gostos dele. — "dou uma piscadinha para Linda" — Mas não o recrimino.

— Agora a imprensa toda quer tentar falar com a moça. Alguns grupos religiosos estão acusando Grodd de ser um novo enviado do demônio, uma besta que veio para corromper as mulheres e crianças do país. Isso foi um golpe para as empresas dele. E você? Não vai...

— Não, não vou aceitar o convite dele. Puxa, Linda, até parece que não me conhece. Eu jamais faria isso.

— Bem, a gente sempre pode se surpreender com alguém que pensamos conhecer.

"Linda Park levanta-se e dá um rápido aceno de mão para mim, despedindo-se. Gostaria de simplesmente ter uma conversa tranqüila e calma com ela; não consegui isso, nem em seu trabalho, nem em seu apartamento. Mas tudo bem, o ligeirinho aqui sabe ser paciente quando necessário."

Grodd faz um pronunciamento em rede nacional com sua amada. Sua intenção é clara: através de um longo discurso mostrando seus sentimentos em relação a ela, reverter a situação delicada em que suas empresas caíram.

O público que assiste à entrevista mostra-se pouco receptivo a qualquer explicação.

No outro lado de Keystone City, Wally West vê um carro vir em sua direção a toda velocidade. Desvia-se dele usando de sua supervelocidade, o motorista vê apenas um borrão contorná-lo e rapidamente surgir ao seu lado, abrindo a porta e empurrando-o para a rua. No cais, o automóvel se precipita para a água. Flash segura o homem pelas roupas.

— Você não é um homem de muita sorte.

— O que quer dizer... — Flash não entende a princípio.

— Ele não está aqui. Não sei como descobriu, mas ele já foi fazer o serviço.

— Ele quem?

— Como assim, "quem"? O franco-atirador que irá matar o gorila Grodd. Não é por estar atrás dele que você está nas docas?

Lado a lado, de mãos dadas, a imagem do casal composto por Grodd e sua amante é transmitida para várias redes norte-americanas.

Um disparo. Um tiro no meio do estúdio. O alvoroço é geral; todos olham para o gorila com o corpo sem vida da mulher em seus braços.

Um relâmpago vermelho surge em algumas imagens da TV. Poucos segundos após descobrir a conspiração ao acaso, enquanto desbaratava a chegada de armas clandestinas na cidade, Flash chega até a cena do crime, mas tarde demais. A mulher já está morta.

As mãos do vigilante escarlate estão segurando o sobretudo do assassino com força. Ambos estão fora do estúdio.

— Por quê? — Flash questiona, sem esconder a raiva.

— Grodd é o mal, a besta reencarnada! Precisamos detê-lo! Você precisa dete-lo, Flash!

Wally West o ergue, gostaria de esmurrá-lo. Mas se contém.

Quando um Grodd, entre lágrimas, recebe os holofotes e as câmeras de TV em cima dele, o Flash começa a ter consciência de que seu inimigo pode estar mais poderoso do que nunca.

"Vou descobrir se você teve participação nisso, Grodd. A morte dessa mulher não irá passar em branco."

No alto do prédio que conseguiu comprar com seus negócios, Grodd começa a pesquisar em seus aposentos a respeito de seus investimentos. Seus dedos desajeitadamente teclam em seu notebook.

— Uhmmm... ótimo... — o rosto do imenso gorila parece menos tenso do que nos dias anteriores — Minhas ações voltaram a subir e a Groddmania ainda é uma realidade, ao menos em Keystone City. Preciso conseguir agora que Flash venha para o meu lado.

— E eu? Será que terei o destino de minha antecessora?

Uma linda mulher ruiva, seminua, aproxima-se de Grodd.

— Não pense que tive responsabilidade alguma com a morte de minha ex-amada. — ele ensaia uma cara triste, o resultado quase faz sua nova companheira rir.

— Lágrimas de gorila! — diz ela.

— Esqueça isso. Não iremos correr riscos desnecessários e estaremos sempre seguros da imprensa de agora em diante.

Um e-mail chega na caixa postal de Grodd.

Um de seus assistentes avisa que o cheque já foi repassado para a família do franco-atirador; o bem-estar dela será a garantia do silêncio dele.

— Esqueça o serviço apenas por um tempo, Grodd... — diz ela, ficando à sua frente e fechando o notebook com uma das mãos.

Desejando-a mais do que tudo, o gorila Grodd atende aos desejos e recai com todos os seus animalescos instintos sobre a mulher.


No próximo número: Quando Flash acorda, há uma lâmina extremamente afiada muito próxima de seu olho. Wally West entra em contato com eventos e coisas extremamente absurdas, deparando-se com o mundo surreal da dimensão K e a ameaça de um novo inimigo.




Notas do Autor:

:: Notas do Autor

(*) Confira a lista de músicas para a trilha sonora nesta edição. Você pode baixá-las em seu programa de buscas preferido:

"Go Monkey Go" — Devo
"Brass Monkey" — Beastie Boys
"Faust" — Gorillaz
voltar ao texto

(**) Como visto na edição anterior. voltar ao texto

(***) Ele se refere a Abby Cable, em uma saga do Monstro do Pântano escrita por Alan Moore e publicada pela editora Abril na revista própria do personagem, em 1991. voltar ao texto



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.