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Flash # 11

Por Délio Freire

Ah, Ser um Grodd!
Parte I (*)

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Quando o pequeno televisor da cozinha de Jay Garrick transmite a imagem de um sorriso cinicamente simiesco, o primeiro Flash quase corta o dedo enquanto faz o jantar com sua esposa. Os passos de um dos inimigos mais perigosos que Wally West, o terceiro Flash, possui estão cada vez mais largos, abrangendo um raio de ação anteriormente insuspeito.

— Joan, venha cá. Você precisa ver isso.

— O que foi, querido? — responde a senhora, limpando as mãos no avental — Você sabe como eu odeio noticiários sobre basquete e...

Joan abaixa a cabeça, apertando os olhos por cima dos óculos, para tentar acreditar no que realmente vê. Ela coloca a mão no ombro do marido.

— Isso não é um bom sinal, não é verdade, Jay?

Garrick emudece. Há poucos meses, numa bem orquestrada disputa judicial que envolveu as melhores empresas e os melhores advogados, o Gorila Grodd foi posto em liberdade. Mas isso apenas foi o começo. Logo depois, o nome de Gorila Grodd foi visto em vários cartazes e sua imagem, que antes levava o horror, começou a ser vista com simpatia pela população de Keystone City.

Garrick resolve aumentar o volume para ouvir a tentativa sem sucesso da repórter Trish Tilby em conseguir uma declaração a respeito da expedição de Grodd com a própria celebridade.

— O que representa a expedição aos picos do Himalaia, sr. Grodd?

A câmera procura insistentemente Grodd, mas este se recusa a ser filmado, a expressão visivelmente irritada, tentando conter uma certa indisposição com as câmeras, deixando o que aparenta ser o seu porta-voz falar em seu nome. O gorila, bem como os membros de sua expedição, vestem um conjunto de roupas esportivas, casacos e toucas cobrindo suas cabeças. Todos da marca Grodd, com o logotipo de um filhote de gorila sentado de lado, o corpo levemente curvado lembrando a grafia estilizada de um "G".

— É apenas um sonho que se realiza, Trish. — diz o assessor — Queremos provar a essa cidade e ao mundo que Grodd não apenas mudou, mas tem muito a oferecer para nossa sociedade.

— Diversos brinquedos e seus acessórios são vendidos aos milhares, esgotando rapidamente. — continua a repórter — Bandas de rock de todos estilos começam a compor verdadeiros hits referentes ao Gorila Grodd. Seria isso o início de uma Groddmania?

O assessor sorri.

— Não vamos exagerar. Meu cliente é apenas alguém arrependido, amargurado e com um grande senso de empreendimento comercial. Parece que isso acaba atraindo a simpatia de um bom público.

— Sim, é verdade. Soube que Hollywood quer aproveitar esse público. É verdade que os direitos para a realização de um filme, onde o personagem principal seria construído em computação gráfica e o ator teria seus movimentos capturados em estúdio, foram vendidos?

— Bem, isso é novidade para mim...

— Dizem que o roteirista de cinema e escritor de quadrinhos, James Robinson, já fez o primeiro tratamento do roteiro.

— Você está mais bem-informada do que eu...

— Quem gostaria que fizesse esse papel? James Gandolfini?

— Jimmy é um bom amigo do senhor Grodd... o conheci recentemente, e tenho certeza de seu talento para o papel; mas, insisto, não há nada ainda confirmado.

— Como tem encarado as pessoas e advogados que definem o senhor Grodd como "a pior criatura do mundo"? Acredita que ele não voltará à prisão?

— Uma falha do sistema judiciário norte-americano foi não ter contemplado todos os aspectos que envolvem o drama em torno dos superseres que, diante de dilemas incomuns aos mortais, se voltam para o crime. Apenas fomos em busca de justiça e ela foi feita. Sem mais declarações, no momento.

— Mas precisamos de uma declaração do senhor Grodd... senhor Grodd! Senhor Grodd!

Trish Tilby não consegue nenhuma declaração da estrela, mas, ainda assim, a entrevista com seu assessor é mais do que satisfatória. A câmera se afasta, indo procurar um dos alpinistas que fez parte da equipe de Grodd para tentar receber uma nova declaração, mas todos se recusam a falar. A imagem de um deles é enfocada, a camisa por debaixo do casaco está visível, com a imagem estampada de um Grodd furioso, a bocarra escancarada e batendo no peito.

— Groddmania... — Garrick deixa os afazeres de lado — Como ele conseguiu isso? Como a trilha de destruição que esse monstro deixou foi substituída por uma febre da mídia?

— Fique calmo, Jay. Imagino como está se sentindo, mas essa situação não será duradoura. Nunca é, não é mesmo? Vocês sempre vencem no final.

— É diferente. Inimigos que interagem assim com o povo, com atividades empresariais como fachada para atrair a simpatia popular, são mais dissimulados, mais difíceis de se pegar. Já ouviu falar em Lex Luthor? E em Wilson Fisk? Ainda não conversei com o Wally a respeito disso.

Sua esposa afaga seu rosto.

— Eu não culpo Linda.

— O que você quer dizer com isso?

— Nada...

Ambos voltam a cozinhar, a conversa flui naturalmente e Joan começa a se sentir um pouco mais à vontade pelos assuntos passarem longe do alter ego de seu marido. A recente descoberta de que Jay Garrick jamais poderia usar sua supervelocidade sem comprometer a saúde e sem ter um ataque cardíaco (**) mudou a rotina da casa. Isso a faz feliz, pois o tem mais junto de si; porém, ela tem consciência de que seu marido é e sempre será um soldado que atende pelo nome de Joel Ciclone.

Subitamente, uma dor forte atinge o coração de Joan Garrick, que põe a mão no peito. Ao seu lado, um assustado ex-super-herói sente-se impotente diante do que está prestes a acontecer. Tentando apoiá-la, o marido mal consegue mantê-la em pé, o corpo enfraquecido pendendo fortemente para o chão. Ele acompanha seus movimentos, apoiando-a e sentando-se no piso da cozinha para um último amparo.

A expressão de choque, as lágrimas e a dor da perda só viriam depois. Depois de ter a consciência de que sua esposa estava realmente morta.

"É óbvio que odiamos ir a enterros, mas são inevitáveis para a última despedida. Não podia, de forma alguma, deixar de acompanhar Jay Garrick nesse momento difícil. Assim que o caixão é baixado, uma procissão de amigos e familiares vão ao seu encontro para algumas palavras. Max Mercúrio a todo momento fala ao ouvido de Impulso para se controlar; o garoto não pára de chorar um minuto. Afinal, apesar dos poderes e coisa e tal, ele é simplesmente um garoto."

"Lamentável que perca a esposa num ataque fulminante do coração, sendo que ele mesmo vem inspirando cuidados quanto a esse problema... fico o tempo todo ao seu lado e vejo surgir alguns amigos da velha e aposentada Sociedade da Justiça. Sem eles, talvez nós não existiríamos. Além da ex-SJA, estão presentes os poucos integrantes ainda vivos dos Invasores originais, Capitão América e Spitfire. Impressionante como ambos não envelhecem com o tempo (***). Há muito tempo que Jay Garrick não vê ou troca algumas palavras com os dois; apesar de o momento não ser dos mais agradáveis, visivelmente ele está agradecido pela presença de todos os velhos amigos que fez nos tempos difíceis da Segunda Grande Guerra."

— Meus pêsames, Jay Garrick.

"Se você é um desses sortudos que nunca ouviu a voz do Gorila Grodd, pode ficar sabendo que te invejo. E muito. Sabe a sensação que a gente tem, ainda garoto, quando vai ao cinema, assiste Star Wars e ouve pela primeira vez a voz grossa e rouca do Darth Vader? Pois é por aí."

"Os flashes fotográficos, as câmeras de televisão e a mídia em geral quer eternizar esse que, segundo eles, é um momento único para Keystone City. A confraternização entre o primeiro Flash e o Gorila Grodd. Bem, eu não imaginaria pior hora pra se lucrar em cima da tragédia alheia; há coisas que, por mais que se tente, não mudam em um homem ou, no caso, em um gorila."

— Gostaria que soubesse que pode me considerar como um amigo.

"Ainda não me acostumei com a visão de um gigantesco símio vestindo terno escuro e gravata. Meu velho amigo Jay Garrick em nenhum momento perde a elegância e aceita cordialmente as condolências, sendo o mais educado que se pode ser numa situação atípica como essa."

"Acho que vi uma velhinha sendo retirada por seguranças de Grodd enquanto tentava pedir um autógrafo para o novo queridinho da mídia. Diante da impossibilidade de se evitar que aquilo que deveria ser uma respeitosa despedida se torne um circo, Jay Garrick despede-se de alguns amigos e caminha sozinho para casa."

"Quando tento tomar impulso para acompanhá-lo, uma mão pesada cai sobre meu ombro. E lá vem o Darth Vader de novo."

— Gostaria de ter uma conversa em particular com você, Wally West. Acho que seria bem interessante para nós. Aqui está o meu cartão.

"Eu o pego, guardo no bolso e nos cumprimentamos apenas com gestos de nossas cabeças, olhos fixos um no outro. Ele deve se sentir como eu, com o espírito armado, como se o combate entre nós fosse irromper a qualquer momento."

"Mas vamos embora sem que nada aconteça. Ao menos por enquanto. Eu sou o Flash, o homem mais rápido do mundo, e realmente preciso ter uma conversa com o Gorila Grodd."

— Senhor Grodd, Wally West.

"Hummm. Uma bela secretária particular. Às vezes dá gosto ser novamente solteiro e estar no mercado. Quando retorna, aproveito para observá-la ainda mais."

— Seu nome é...?

— Lucy.

— Muito obrigado, Lucy.

— Pode entrar, senhor West. Ele está à sua espera.

"Engraçado como ela encarou com naturalidade o fato de eu me apresentar uniformizado. Certas mulheres, daquele tipo que ainda não acredita que o homem foi à lua, já pensaram que eu era algum tipo de tarado de roupas vermelhas... mas tudo bem... isso tudo deve ser natural para quem trabalha para um gorila falante."

— Fico feliz que tenha aceito o meu convite, Wally.

— Meio difícil de recusar, não é mesmo?

— Por quê? A curiosidade de como se deu minha ascensão é tão grande assim?

"Não deixo de ficar surpreso com o autocontrole dele."

— Um belo prédio particular, empregados, advogados, equipe de marketing... onde quer chegar com tudo isso, Grodd?

— Mudança de perspectiva. — "ele anda e, equilibrando o corpo com os braços, vai até a estante e pega um livro" — Meu livro de auto-ajuda está no topo da lista dos mais vendidos. Já o leu?

— Não.

— Se o tivesse feito, teria descoberto como se deu o meu insight. — "ele recoloca o livro na estante e olha novamente para mim" — De que me adiantaria continuar lutando contra tudo e contra todos se através da violência não atingia meu objetivo? Meus poderes telepáticos de nada serviram quando me confrontei com você, Flash. Bati de frente com você e sua sociedade. E o que eu queria? Um sonho insano de conquistar meu povo. O que tive? Anos e anos de luta e aprisionamento. Apenas me cansei disso.

— E por que deveria acreditar em você, Grodd?

— Não, não deve. — "ele se dirige à janela, onde a vista da cidade é plena" — Mas acho que deveria escutar mais o que diz Keystone City. Ela já me perdoou, Flash. Será que seria possível você fazer o mesmo?

— É. Você tem uma equipe de marketing ótima. Mas será que é apenas isso?

— O que quer dizer?

— Sabe, andei conversando com um amigo orelhudo lá de Gotham... — "percebo que Grodd franze o cenho, tentando entender onde quero chegar" — Você deve conhecer bastante o Espantalho, não? Sabe que ele fabrica um soro que causa medo e mexe nos pesadelos das pessoas? Perguntei ao meu amigo orelhudo se, em tese, não seria possível reverter o efeito desse soro até se chegar a uma fórmula que pudesse causar empatia e alimentasse sonhos.

— E o que disse seu amigo?

— Sim, em tese, é possível.

— Você possui alguma prova de que fiz isso, Flash?

— Nada. — "odeio admitir isso para ele" — Meu amigo já examinou uma amostra do reservatório de água, examinou as comidas que você vende, os tecidos de sua grife, seus bonecos. Fez um verdadeiro pente fino para encontrar vestígios desse soro...

— E?

— Nada.

— Não pode admitir que divide a atenção do povo comigo, não é mesmo? Ou que, simplesmente, as coisas mudam, meu amigo?

— Olha, se você realmente está limpo, tem o respaldo da lei para andar por aí e gerenciar um negócio honesto e rentável. Não irei impedí-lo. Mas isso tudo não explica por que me chamou para essa conversa.

— Negócios.

— Negócios?

— Sim, negócios. — "ele aperta um botão e um imenso gráfico surge numa tela em frente à mesa" — Keystone City me adora e consome meus produtos maravilhosamente bem. Mas veja os gráficos. Veja as outras cidades. Meus analistas me informam que não sou um produto vendável para outras cidades, para outros estados, e a expansão dos meus negócios está comprometida.

— Você já tem seus marketeiros, ué.

— Não adianta. Minha aparência animalesca e meu passado como vilão são um entrave para meus negócios. Os Estados Unidos não me aceitam, é como se eu apenas pudesse ser uma espécie de fenômeno local.

— Tipo aqueles políticos popularescos que agradam os habitantes de uma cidadezinha?

"Não sei como ele não me dá um murro."

— Keystone City não é uma cidade pequena. Com meu novo livro, abrem-se as portas para minha religião ser fundada. Mas meus negócios precisam se expandir antes.

— E novamente eu pergunto: e eu com isso?

— A minha equipe de marketing sugeriu que se criasse a imagem de... de... de um sidekick (****). Um companheiro de aventuras para mim, um que fosse mais humano, mais bem-humorado e confiável.

"Fico alguns segundos tentando entender o que ele quer dizer com isso tudo. Até que a ficha cai e a gargalhada vem naturalmente em seguida. Ele ainda tenta me convencer dos benefícios econômicos que eu teria, mas apenas me despeço dele, achando que o assunto está encerrado. Mas, embora não queira admitir, sei que essa história do Gorila Grodd ainda não está terminada."


No próximo número: Escândalos sexuais! Bestialismo! Fanatismo! Paparazzis! Queda nas vendas! Matérias sensacionalistas! Quando um escândalo sexual chega às manchetes de jornais, Keystone City assiste a Groddmania chegar ao seu momento mais difícil!


:: Notas do Autor

(*) Confira a lista de músicas para a trilha sonora nesta edição. Você pode baixá-las em seu programa de buscas preferido:

"The Monkey" — Manu Chao
"Shock The Monkey" — Peter Gabriel
"Double Bass" — Gorillaz
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(**) Como você pode conferir em Flash # 07, aqui no Hyperfan. voltar ao texto

(***) A personagem Spitfire rejuvenesceu até a idade de 16 anos quando recebeu o sangue do primeiro Tocha Humana, em uma transfusão que salvou sua vida. Isso foi visto em uma aventura de Namor publicada no Brasil na revista Hulk # 144 (editora Abril, 1995). Já o Capitão América não envelheceu desde a década de 1940 porque... ah, você sabe por que, né? Não vamos explicar isso de novo! :-) voltar ao texto

(****) "Sidekick" é a palavra em inglês que designa os parceiros, normalmente adolescentes, dos super-heróis. Essa moda surgiu na Era de Ouro dos quadrinhos, quando praticamente todos os heróis tinham um companheiro de aventuras, mas hoje está em completo desuso. Bucky, Robin e Rick Jones são exemplos clássicos de sidekicks famosos da Marvel e DC. voltar ao texto



 
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