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Homem-Aranha # 19

Por Conrad Pichler, sobre um plot de Eduardo Sales Filho

Uma Nova Estrela Há de Brilhar no Céu

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Numa sala de espera escura e silenciosa, em uma pediatria dos subúrbios de Manhattan.

— Sra. May Parker?

— Sim, doutor...

— Nasceu...

— Oh! Meu Deus! Eu não imaginava que seria tão depressa...

— É, a equipe toda ficou espantada com tanta vontade de vir ao mundo! — diz o médico.

— Unpf! Se Ben estivesse aqui...

— Desculpe, senhora, como?

— Não é nada, doutor Dikto... muito obrigado...

— Se precisar de algo peça a enfermeira... — o médico sai.

— Ah! Doutor... doutor, por favor?

— Sim, sra. Parker?

— É menino ou menina?

— Menino... e a mãe quer chamá-lo de Peter, Peter Parker...

O médico sorri carinhoso para "tia do dia", deixando-a na recepção. Ela caminha até os pés de um crucifixo e ora, agradecida, pela vinda de seu sobrinho:

— Obrigada, Senhor. Obrigada por nos abençoar com esse menininho que tem tanta vontade de viver. Obrigada por que eu e Ben seremos tios... tios de Peter Parker. Obrigada, Senhor...

Anos depois. Peter está entre May e Ben Parker. Enquanto atrás de suas lentes grossas, por entre as gotas pesadas, nesse dia chuvoso, ele vê os restos mortais de seus pais descendo numa cova fria e úmida.

— Peter, nós sempre vamos estar junto de você, meu sobrinho... não se preocupe... nós te amamos. — diz o tio Ben, segurando firme o ombro de seu sobrinho, que está tão distante dali, como se estivesse perdido, olhando o oceano... as ondas batendo contra seu peito... e lhe encobrindo... tão sereno... tão frio...

Anos mais tarde. Peter, adolescente, acabou de ser picado por uma aranha radioativa. Ele quer ganhar dinheiro... não depender tanto de seu tio e sua tia... quer retribuir... fugir. Quer ser quem ele não é. Ou, talvez, quem ele é agora, mudado, distinto. Mas ele não é mais um garoto, é poderoso, vestido com colant, num ringue, enfrentando grandalhões, numa luta-livre... livre, como só ele é, resolvendo seu problemas.

— Pegue ele! Pega! Rapaz, ajude! — grita um guarda, correndo atrás de um bandido que passa por Peter e lhe sorri malicioso, funesto, criminoso...

— Isso não é problema meu, guarda... você é quem tem que correr atrás dele!

Dias depois. Outro dia chuvoso na vida de Peter Parker. Ele ampara sua tia que treme, suas pernas sem substância não lhe dão firmeza:

— Calma tia, eu sempre vou ficar do seu lado... essa é minha responsabilidade... eu não vou te deixar sozinha...

— Oh, Peter! Ele sempre disse que você era o filho que ele não tinha... você é o meu filho, o menino que eu e Ben não tivemos... oh, Ben... por que você nos deixou sozinhos? Quem faria uma maldade dessas, quem faria?... — o frio cresce e a escuridão também. A noite chega, Peter salta pela janela... ele é o Homem-Aranha.

Agora, em Gotham City.

Num bar sujo perto das docas, três figuras estranhas se sentam e ficam olhando a sua volta. Estão procurando alguém:

— Ei, Octa? Cadê o cara que cê falou?

— Deve tá chegando, se nenhum "morcego" pegô ele, tá sabendo?!

— É, filhinho, tamo em Gotham... a cidade com mais vigilante linha dura por metro quadrado! — diz Ota.

— Bizarro... bizarro...

— Tá falado, Manda! Tá falado!

Nisso, uma figura estranhíssima entra pela porta da frente. Parece uma sombra, vestido de negro, óculos escuros. O som do rock'n roll parece parar. Agora, só se ouve os batimentos agitados dos corações alheios:

— Tommy Monaghan! — diz Manda, apenas... contrariando sua habitual falácia.

— Cê trouxe as foto do Aranha, que eu te pedi, Ota?

— Trazeu... tá aqui, Octa...

Ota mal termina de falar e a figura de Tommy pára diante da mesa dos três espertalhões de Nova York. O bar fica anestesiado, estarrecido. O único barulho que se ouve é de um dos barbudos mal-encarados correndo pela porta, tropeçando e caindo, antes de desaparecer completamente:

— Quem é o Octa? — diz Tommy, equilibrando um cigarro na boca.

— E-eu...

— Fala logo... — ele senta e tudo a sua volta parece ganhar vida de novo.

— Eu e meus amigos trouxemos isso pra você... — Ota entrega um pacote de fotos.

— Esse é o cara? Fraquinho, né?

— Perto de você, Hitman?! — ao falar, Ota sente algo gelado entre as pernas...

— Sabe o que é isso?

— Nã-nã-não...

— É uma .12 engatilhada... é melhor tu não falar mais asneira, faz que nem teu amigo aqui... — diz, colocando a mão no ombro de Manda.

— Esse cara na foto é Peter Parker... trabalha pro Clarim Diário. E faz serviço pro Homem-Aranha. Nessa foto, ele tá aqui em Gotham, tirando foto de você pro Aranha!

Agora. Em Forest Hills, Nova York.

Peter Parker acaba de ler o bilhete:

Peter, a MJ está em trabalho de parto!
Nós estamos no Hospital Central, em Manhattan.
— Tia May


— Deus! MJ... tia May... hospital... — o sempre ágil Homem-Aranha vira de um lado para outro. Procura encontrar a saída, mas não sabe se pega a chave ou veste a roupa escarlate de Aranha — Vou ser pai, pai! — grita ele, consigo.

Mas uma foto cai no chão... ele e seu tio Ben. Ele pega a foto e imediatamente uma imagem, muito antiga, lhe vem à mente: Tio Ben pega-o no colo, ergue-o no ar, deixando o sol lhe encobrir todo e dizendo:

— Peter... tá sentindo? Isso é o sol... tem tanto calor e força que aproxima tudo pra junto dele. Ele aquece e faz desse cantinho gelado, um lugar quente, cheio... cheio de vida... vê Peter? O sol é como seu pai agora, onde ele estiver, sempre vai estar te iluminando e te aquecendo... mesmo que tudo a sua volta esteja frio e distante! — eles se olham e sorriem.

Gotham. Num bar chulo.

Hitman vira-se para o balcão.

— Goose, traz um trago aqui pra mim...

Ota, então, sente o frio metal encostar-se ainda mais na sua pele. Seu desespero soa como um suspiro...

— Que foi, maninho, tá precisando de um refresco? — sorri malicioso o pistoleiro, tomando seu trago — Só me diz uma coisa: por que o frangote tá querendo me pegar?

— Pérola...

— Tá me estranhando, figura?

Ota solta um grunhido fino:

— Nã-não, seu Monaghan... é a droga, chamada "pérola". O Aranha tá fazendo serviço pro Shell, o novo chefe do tráfico de Nova York... sabe cumé? O chefão tá querendo entrar pelas periferias de Gotham e sabendo que tu anda por aqui, ele não quer encrenca... por isso o Aranha pegou um serviço extra... acabar com você antes que te contratem para impedir o negócio.

— E o cara é ladrão?

— Leão-de-chácara! O Aranha já trabalhou com Octopus, Duende Verde... sempre deixou os cara pra ser preso e ficar com a grana toda pra ele... você vê, o Clarim sempre fala isso... mas o tal de Shell percebeu o potencial dele e...

— Tá, é só juntar dois mais dois e fazer quatro, tô ligado, mané!

— Se-se cê qui-quiser, tenho um ca-carro pra te levar pra NY, é só tu querer... — gagueja Ota.

— Falou, malandragem, tô vendo que cê tá com medo o suficiente pra não estar mentindo... tá certo, as dez aqui na porta, cês me levam, agora vou pegar uma dessas tiazinha aí e dar um trato... — Hitman levanta, escondendo sua .12 no sobretudo e saindo com uma baranga qualquer.

— Cara#$@, meu! Quase me mijei todo, Octa!!! — diz Ota, enfiando todo o uísque garganta abaixo.

— Manda, teu truque mental deu certo?

— He, he... bizarro, né?

— Ah, moleque! Ele deve estar achando que o Aranha é o maior vilão de NY e tá atrás dele pro Shell...

— Disse pra você que a telepatia do Hitman deixava mais aberto pro truque mental do Manda?

— Agora, vamo atrás do cara, Ota. O Manda tem telepatia limitada por espaço, se a gente ficar longe o cara fica fora de controle...

Assim, a trupe sai do bar e se perdem na noite de Gotham, atrás de Hitman.

Manhattan.

O Homem-Aranha salta tão veloz. Mas não mais rápido que seus pensamentos. Fora da máscara vermelha, o tempo pára. Peter Parker volta àquele dia de verão, no parque, o tio Ben o segurando no colo:

— Peter, está vendo essa grama verde? Não se esqueça: ela sempre vai estar aqui... firme, mas sempre afável... um carinho e uma certeza. É como a família, querido, estamos aqui firmes, mas sempre com muito amor...

Ben senta na grama e põe Peter no seu colo:

— Um dia, você vai ser pai. — o guri olha nos olhos do tio — Um dia, você vai ser pai e vai lembrar desse dia... vai lembrar que... ser pai é estar tão próximo, tão próximo, que é quase que estar dentro de uma pessoa... essa união não se desfaz com nada e por nada desse mundo! Nem passa quando a gente já passou, se é que a gente passa... hoje, você não entende, Peter... mas quando você for pai e repetir esse mesmo gesto, você vai entender... que seu pai, eu, você, todos, nunca morremos: a gente sempre continua... — ele beija o rosto do garoto — E também crescemos. Quando menos esperamos, nos dividimos... ou melhor, nos multiplicamos!

O tio olha à sua volta:

— Para sempre a gente brilha... lembra do céu a noite? — o menino olha, com olhos brilhantes, para o tio, e balança a cabeça, tranqüilo — As estrelas brilham e sempre brilham... para sempre e em todo os lugares... a gente é assim também, Peter... brilha para sempre, nos olhos dos filhos que a gente não teve! — um abraço caloroso parece durar uma eternidade.

Agora: enquanto Peter veste sua roupa civil no alto do Hospital Central, em Manhattan, ele chora... e olha para o céu, além das estrelas, e pede:

— Deus, tio Ben, pai... fiquem sempre por perto olhando por mim, não parem de brilhar... para sempre me deixem sentir como nos olhos de meu pai.

Ele entra pela porta de incêndio e, logo, está no andar da maternidade... tia May sorri. Tudo parece em câmera lenta, menos o coração de Peter. Ao beijar a testa de sua tia/mãe, a olha nos olhos. Apontam-lhe uma porta... ele entra e no fundo vê Mary Jane. Se no ambiente tivesse música, ele poderia ouvir uma melodia, fosse Bach, Mozard, Verdi ou Chopin... quem sabe, Frank Sinatra, ou Tom Jobim ou Vinícius de Moraes? Para Peter seria a maior canção de todos os tempos.

MJ sorri e chora. Chora de dor e de alegria. Peter, que conhece tanta dor e tristeza, acaba de sentir na pele que MJ é sua maior alegria, agora multiplicada...

— Meu amor, seja forte! Eu te amo!

— Vo-você chegou na hora... pela... pela primeira vez! Ela vai achar que você é pontual! — MJ coloca a mão de Peter sobre sua barriga e sorri.

— É... e-ela... é ela? — Peter debruça e ouve o movimento vivo da criança.

— Sim, Peter, é uma menina!

Eles sorriem juntos e lágrimas caem para ambos os lados... a maca é levada. O papai veste um novo uniforme, desta vez verde, com uma máscara de cirurgião para acompanhar o parto.

Minutos... mais minutos, quase uma hora, depois... de uma luta particular de MJ. Logo, numa expiração profunda e forte, todos ouvem um grito. Peter olha para o médico e ele traz nas mãos a criancinha, ainda sujinha, mas linda!

Ela continua a berrar, tão alto que o médico sorri livremente. Contagiando toda a sala, MJ, ainda com dor, sorri de alívio, extravasada de alegria. Peter não cabe em si, mesmo podendo subir pelas paredes e saltar por todos os prédios do mundo, com superagilidade e tudo. Mas, nada o fez sentir tão grandioso e feliz. Tanto que o riso não lhe cabe nos lábios e acaba lhe roubando lágrimas.

— MJ! MJ! você me fez o homem mais feliz do mundo!!! Eu sou pai, gente! Peter Parker é pai! Eu sou pai!!! Uhuuuuu!!! — ele abraça a filha, a beija, entrega a MJ, dando-lhe um beijo especial. Depois, sai abraçando e beijando toda a equipe médica.

E ninguém vai poder tirar esse brilho do olhar de Peter... enquanto uma estrela brilhar no céu, nesse imenso universo, ninguém vai poder tirar isso dele, ninguém!




 
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