hyperfan  
 

Homem-Aranha # 27

Por Eduardo Regis, sobre um plot de Eduardo Regis e Conrad Pichler

Penitência

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Homem-Aranha
:: Outros Títulos

Peter abre os olhos. A dor passou. Ele está deitado em sua cama, vestindo só a calça do uniforme e embaixo de um cobertor térmico. Bolsas de água quente se acomodam entre seu corpo. Ele mexe o braço atingido pelo raio de gelo e sente os movimentos. Lentamente ele tira o cobertor e inspeciona seu corpo, que parece bem, apesar do braço completamente roxo. Peter respira aliviado.

"Obrigado, MJ"

Ele se levanta e estica as pernas. Olha ao redor procurando a esposa, mas só acha um bilhete preso no espelho do quarto.

"Peter, dessa vez foi demais. Você anda muito alterado. Ontem, fiquei assustada por você, por mim e pela nossa filha. Você já parou pra pensar o quanto essas coisas podem fazer mal para a criança?E se ela fosse mais velha?Ela ficaria muito abalada se o visse daquela maneira, como eu fiquei. Não posso permitir que isso afete a vida dela. Ela merece crescer em um ambiente normal, ser uma criança normal.

Enquanto você não resolver esses problemas, eu e a pequena May ficaremos na casa da minha Tia Anna. Procure ajuda, há algo de muito errado acontecendo.

ps: A Tia May perguntou sobre os barulhos de ontem, eu disse a ela que você havia caído e se machucado. Ela quase entra e descobre tudo. Você deveria reconsiderar a sua decisão. Ela deve achar que eu e você estamos em crise no casamento, e por isso as coisas andam complicadas. Pense nisso.

M.J."

"Caramba! Eu pisei na bola feio, me perdoe..." — Peter amassa o papel e senta na cama. "Você está enganada, você não entende o que é ser o Homem-Aranha. Como poderia? Eu deixei meu tio ser morto por ter sido irresponsável. Não foi você quem cometeu um erro tão grotesco. O Aranha precisa existir acima de tudo. Custe o que custar, e já custou muito. Por causa dele, nossa filha é uma mutante. Ela vai sofrer discriminação, nunca vai ter uma vida normal. A culpa, no entanto, é minha. Eu fui um irresponsável, jamais deveria ter me casado com você. Eu não soube lidar com as coisas da maneira correta. Talvez eu mereça mesmo viver enrolado pra sempre na minha própria teia, sem enroscar mais ninguém comigo. Eu queria tanto que você me perdoasse, meu amor. Só que acho que tudo isso é demais pra você, e talvez, pra nós também."

Coçando a cabeça, Peter começa a ficar irritado. O sangue sobe à sua cabeça, o tempo começa a passar mais devagar. Ele começa a sentir coceira pelo corpo. O barulho da rua o irrita, ele fecha a janela e chuta o criado-mudo, quebrando uma das gavetas.

"Mas nada pode ser fácil para o Aranha. Até quando eu preciso da minha esposa, ela está longe! Até ela! Isso vai ter que mudar. Ela vai ter que me perdoar, voltar para cá e tudo vai ter que ficar certo. Afinal, grande coisa ficar em casa me esperando. Difícil mesmo é levar soco na cara do Duende e choque do Electro. Eu que faço o trabalho sujo, ela só precisa é levantar meu ânimo. Ela vai ter que me perdoar. Eu preciso mesmo que ela me perdoe. Preciso dela aqui pra isso. Preciso do seu apoio."

Peter se veste rapidamente e corre para a casa de Anna Watson. Ele para em frente à porta de Anna e começa a bater desesperadamente.

— M.J., Tia Anna, Tia May, abram! Sou eu, Peter.

No entanto, ninguém responde, e Peter começa a ficar muito mais nervoso. Seu corpo fica agitado, começa a suar, seu coração dispara. Os pensamentos vêm e vão numa velocidade incrível. No fim, só há uma conclusão: ele precisa ver a mulher e a filha, precisa ouvir dela que ela o perdoa. Precisa pegar a filha nos braços e sentir que não foi um erro ter se casado com MJ. Ele precisa de seus pilares de suporte de volta.

Peter Parker corre para os fundos da casa, e esperando que ninguém note, escala as paredes até alcançar a visão do quarto de Anna Watson. Pelo vidro da janela ele enxerga MJ ninando May enquanto é consolada por sua tia Anna. Lentamente ele estica o braço para abrir a janela. Sua vontade é de entrar e ter seus amores em seus braços. É uma sensação muito forte, uma necessidade. Quando ele se ajeita para entrar algo o faz parar. Peter dá de cara com sua imagem refletida no vidro. Cabelos desgrenhados, barba por fazer, olheiras e sujeira. Um susto. Ele não se reconhece naquele momento. Peter salta para o quintal e volta para sua casa, em passos lentos.

O carro de Grant estaciona em frente à casa de Anna Watson, no exato momento em que Peter bate a porta da sua casa. Grant salta e faz uma ligação do seu telefone celular.

— M.J., sou eu Paul. Estou aqui na casa da sua tia. Sim, achei fácil, realmente do lado da sua. Será que você poderia abrir a porta? Também acho que precisamos conversar sobre o Peter.

A porta da casa de Anna Watson se abre e Paul entra abrindo um abraço para Mary Jane Watson Parker.

Enquanto isso, Peter pega algumas coisas em seu quarto e coloca em sua pasta.

"Acho que preciso ir trabalhar. O trabalho me acalma e já estou começando a sentir falta daquele energético. Realmente, aquilo melhora muito minha disposição. Talvez me ajude a colocar todas as coisas no lugar e voltar a ser o velho Parker de sempre. Minhas idéias precisam ser colocadas em ordem. Não me sinto confuso assim desde que meu tio foi assassinado."

Peter pega um táxi para a Grantfarma. Lá chegando, ele corre para a copa e toma três rápidas goladas do energético. Quase engasga.

"Ah, bem melhor."

Ele se senta numa das cadeiras e lá fica durante horas. Pensando e bebendo. Ele se lembra das explosões de violência com os bandidos e com a mulher. Lembra-se da luta com o Sr.Frio, da dor e vergonha da derrota humilhante que sofreu. Ele sente que ultimamente algo parece faltar em sua alma, algo que sempre esteve lá, mas que agora se perdeu. Ele simplesmente não consegue dizer o que é, mas sente falta. À medida que pensa na mulher e na filha, seu coração aperta. É tomado por uma vontade arrebatadora de correr até elas e dizê-las que tudo vai voltar a ser como antes, que tudo vai ficar como sempre deveria ter sido. A gigante necessidade de se redimir torna-se pesada demais para ele suportar. A dor em seus ombros mostra-se implacável. Peter faz a única coisa que lhe resta fazer. Ele corre pelos corredores da Grantfarma.

Em poucos instantes a figura do herói aracnídeo surge rasgando o céu noturno da grande maçã. O Homem-Aranha está indo para casa. Ele vai tentar consertar sua vida, vai tentar resistir ao mal que envenena sua alma, seja ele qual for. Não há nada forte o bastante para vencer o aracnídeo, era nisso em que ele e MJ acreditavam. Ele precisa prová-la que tinham razão.

Subitamente, um tiro. Dois. Três. Luzes fortes são jogadas contra o aracnídeo e começa um barulho ensurdecedor de helicópteros. Gritos ecoam por todos os arranha-céus e policiais aparecem em vários prédios nos arredores. O Homem-Aranha se assusta, uma tontura o ataca, ele perde a força nos braços e solta a teia, caindo direto em um telhado próximo. Abalado pela queda, o Homem-Aranha se levanta e, no mesmo instante, ele é iluminado por vários focos de luz. Uma voz rasgada de um megafone grita:

Homem-Aranha, você está cercado pela polícia! Temos atiradores a postos e diversos carros e helicópteros de apoio. Renda-se agora! — o capitão da equipe código azul da polícia abre um sorriso satisfeito. Seu plano de cercar as rotas mais usadas pelo Aranha tinha dado certo. A idéia de vigiar nas últimas noites e identificar as ruas pelas quais o herói mais passa lhe renderá uma promoção, ele acredita.

Peter vinha tão focado, tão nublado pelos pensamentos obsessivos em sua cabeça, que nem notou a arapuca se formando.

Você é acusado de tentativa de homicídio. Um dos caras que você mandou pro hospital pode nunca mais andar, ou viver!

A notícia o atinge como um poderoso golpe. O Homem-Aranha fica paralisado.

Ele leva suas mãos até o rosto e abaixa a cabeça. Helicópteros se aproximam e homens da polícia começam a invadir o telhado onde está o aracnídeo. Os atiradores de elite se ajeitam em suas posições, todas as armas estão engatilhadas.

"Deus, o que eu fiz? O que eu me tornei? Não, eles não podem me levar. Preciso falar com M.J. antes, eu preciso falar com ela..."

Repentinamente, o Homem-Aranha se joga contras os policiais. O herói distribui socos e chutes, derrubando diversos oficiais.

Eu não quero machucar vocês, mas eu preciso ir... eu preciso ir! — o Homem-Aranha grita.

De um dos helicópteros, o megafone responde:

Não hoje. Você é um foragido da lei e deve sofrer as conseqüências como qualquer um, não me importa se você usa uma máscara, ou se pode subir nas paredes.

Não é isso... nada disso. — O Homem-Aranha se defende de alguns socos e quebra as algemas de um dos policiais.

Para mim parece justamente isso. — o policial ao megafone responde — Prendam-no.

Eu avisei! — o aracnídeo grita e começa a lutar incontrolavelmente. Ele acerta um soco em policial, desmaiando-o na hora. Os outros oficiais, assustados, abrem espaço.

— Senhor, ele está descontrolado. Vai nos matar! — um dos policiais no telhado grita no rádio.

O capitão pega seu rádio comunicador.

— Atiradores, preparem-se. Derrubem o homem a qualquer sinal de agressão.

Os policiais se afastam o máximo possível do Homem-Aranha, mas o telhado não é muito espaçoso, e nem é agradável a idéia de ficar muito próximo da beirada. O Aranha está a um salto deles de distância.

O Homem-Aranha se joga para cima dos policiais novamente. No mesmo momento um gatilho é disparado. Uma bala voa do cano de um rifle para o peito do Homem-Aranha.

Arghh! — o aracnídeo grita enquanto cai no telhado, cambaleando.

Cessar fogo! Cessar fogo! Alvo abatido! — o capitão grita do megafone.

— Por Deus, acertaram o homem. — um dos policiais se espanta. Todos se afastam do aracnídeo.

O Aranha leva as mãos ao ferimento. Seu peito pulsa de dor e queimação. O sangue mancha o azul do uniforme.

Alguns instantes antes desse último tiro, em um prédio próximo...

A música do rádio é cortada violentamente pela vinheta das notícias urgentes.

"Atenção! Atenção! A polícia fez um cerco ao Homem-Aranha na esquina da 56 com a Madison. O aracnídeo vem sendo procurado pela lei desde o espancamento severo de vários bandidos. Parece que finalmente a polícia o tem em mãos. Testemunhas afirmam que ele está totalmente cercado e, aparentemente, muito confuso."

— 56 com Madison? Mas isso fica logo ali. Não haverá hora melhor para acabar com isso de uma vez por todas — uma excitada figura masculina corre pelo seu apartamento até um baú encostado em um canto qualquer de seu quarto. Ele levanta a tampa e vislumbra o conteúdo.

— É hora de vestir novamente essa roupa e mostrar quem é que manda!


Continua na próxima edição.




 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.