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Homem-Aranha # 35

Por Eduardo Regis, sobre um plot de Eduardo Regis e Conrad Pichler

O Sonho de Ícaro
Parte I

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— Ícaro, conhecem? — a voz rasgada de um senhor de idade assusta todos os homens na sala. Satisfeito com a entrada impactante, ele entra.

A expressão dos homens não deixa a menor dúvida: nunca ouviram falar de nenhum Ícaro.

— Não esperava mais do que isso. Ícaro era um homem engenhoso, que ficou fascinado pelo sol. Ele construiu asas de cera e voou com elas em direção ao astro-rei. Sua fascinação, porém, foi sua imprudência. Ao chegar perto do sol, suas asas derreteram e ele caiu no mar.

— Cara burro... — alguns riem da história. Outros, simplesmente a ignoram, mascando seus chicletes e fumando seus cigarros. Não ligam para as excentricidades de um empregado senil.

— Vocês sabem por que eu lhes contei a história de Ícaro? — a careca do senhor reflete a luz da única lâmpada que ilumina o pequeno cômodo.

Mais uma vez a expressão de total ignorância toma conta da sala.

— Porque eu pretendo reescrevê-la.

O velho homem puxa um jornal enrolado de debaixo do seu sobretudo surrado, que quando novo talvez fosse negro, mas que agora é de um cinza esquisito.

— Leiam bem aqui: "Diamante Sol-Rei será exposto no centro de cultura Ronald Reagan." Este Ícaro aqui irá atrás do sol e será bem sucedido!

Asas verdes rasgam o sobretudo revelando o uniforme do Abutre.

O Homem-Aranha acaba de prender um criminoso em sua teia. Ele levanta o homem pelos pés e o deixa pendurado de cabeça para baixo em um poste.

— Eu tô testando uma teia nova, sabia? A prefeitura disse que eu tava sujando muito a cidade e me pediram uma teia que dissolve em cinco minutos. Como bom cidadão que sou, topei e estou testando a belezura. Bem, o problema é que pode ser que eu tenha errado e ela pode dissolver a qualquer minuto. E, sabe... Eu não gostaria de ser você agora, a queda até lá embaixo vai machucar bastante e hoje eu acordei com um torcicolo horroroso, tá dificil segurar marginais em queda!

— Pelo amor de Deus! O que você quer? — o criminoso grita esbaforido.

— O nome do safado que te passou essa pérola. Foi o Shell?

— O Shell saiu de circulação....ninguém nunca mais ouviu falar nele, cara. Eu juro! Juro!

— Então quem foi? Desembucha, xuxa!

— Foi um cara do Harlem. O Uberblack!

— Falou! Fica aí quietinho enquanto a polícia chega!

— Ei, mas e se a teia derreter?

— Aí, "Splarght", ué!

O Aranha salta para um prédio próximo, pensativo:

"Já não é o primeiro que fala que o Shell saiu de circulação. O que quer que tenha acontecido com ele, tenho certeza que tem a ver com aquela reunião maluca que eu desmantelei na GrantFarma. Acho melhor eu me preparar, algo me diz que aquilo tudo era só o prelúdio de algo muito pior e que o Osborn tá envolvido nisso até a última fita dupla de DNA! Bem, enquanto o pior não vem, o jeito é tentar limpar as ruas do resto de pérola que ficou! Começando por esse tal de Uberblack."

O aracnídeo se vira para a direção do Harlem e lança um fio de teia por entre o labirinto de prédios da cidade.

Curly O´malley já fez de tudo nessa vida. Ultimamente, no entanto, ele vem se dedicando a uma atividade bastante incomum: ajudar o Abutre. Pelo menos o pagamento é bom, embora o trabalho seja um pouco complicado. A pior parte, dessa vez, já havia passado e agora era só diversão. Dentro de uma van, ele precisa coordenar todas as equipes de ação. Fácil, fácil, principalmente para alguém como ele, que passou anos no exército (até ser expulso por insubordinação). O´malley coloca todas as equipes em posição e aperta o pequeno botão de seu rádio.

— Tudo pronto, Sr. A.

— Então, é hora. — a voz de Adrian Toomes responde.

Após a ordem de Curly, todas as equipes começam a colocar o plano em ação.

O aranha passa por cima de uma movimentada avenida da cidade quando percebe um incêndio se iniciando no último andar de um prédio próximo.

— Santa Padroeira dos bombeiros, Batman! Um incêndio!

O herói aracnídeo desvia sua trajetória em pleno ar e se balança até o andar em chamas. Ele atravessa uma janela, estilhaçando-a, e cai dentro de uma sala de escritório, vazia. As chamas parecem crescer por todo o lugar. Sem pestanejar, ele derruba a porta e começa a explorar os corredores e salas incandescentes. A fumaça começa a formar uma densa cortina, a respiração fica difícil. O calor faz o corpo de Peter suar muito, o uniforme e a máscara colam no corpo, os visores ficam embaçados.

O Homem-Aranha confia no seu sentido de aranha enquanto continua sua busca pelo local. Finalmente, ele termina de verificar o local e, quebrando outra janela, sai em busca de ar livre e de um ambiente menos inóspito. Nenhuma vítima. Ninguém lá dentro.

— Algum curto deve ter causado isso. De qualquer maneira eu preciso fazer alguma coisa para ajudar as pessoas dos andares de baixo.

Após recuperar o fôlego, folgar um pouco a máscara para desembaçar os visores e ajeitar o uniforme molhado de suor, o aracnídeo entra no andar de baixo e começa a ajudar as pessoas a evacuarem o prédio. Um bom tempo depois, ele e o corpo de bombeiros garantem que todos estejam a salvo.

— Ainda bem que não tinha ninguém no último andar. — o Aranha comenta com um dos bombeiros.

— Não sei. Aconteceu algo estranho. Acabamos de receber mais duas chamadas. Dois incêndios nessas mesmas circunstâncias estão acontecendo agora nessa mesma região. Tem cara de ser...

— Criminoso! — o Aranha completa.

— Sim. — o oficial concorda.

— Dá pra passar o endereço dos outros?

Em poucos instantes o aracnídeo entra pela janela de outro prédio em chamas. Sua esperança é de ajudar alguém que esteja preso ou amedrontado demais para conseguir fugir. Mais uma vez ele procura pelas chamas até quase seu limite, e mais uma vez ele não encontra nada.

"Quem quer tenha feito isso sabia bem o que estava fazendo. Ninguém de novo, isso não pode ser coincidência."

Enquanto isso no Centro de Cultura Ronald Reagan...

— Ei, Joe! Vem cá! — um faxineiro chama um dos seguranças para dentro da copa dos funcionários.

— O que houve, Tom?

— Olha esse noticiário. Eles tão dizendo que mais de cinco incêndios tão acontecendo em Manhattan e que todos começaram com mais ou menos dez minutos de intervalo. Estranho né?

— Fala sério! Depois que você vê nego voando por aí... Nada é estranho!

O alarme soa. Joe olha nervoso para Tom. O segurança leva a mão ao coldre da arma, o suor escorre de sua testa.

— Acho que você tem quer ir, cara. Boa sorte. — Tom desliga a t.v.

— Acho que sim.

Pelo rádio o chefe da segurança avisa o exato ponto do problema: salão da exposição de diamantes. Na hora todos percebem a gravidade do problema.

Mais de vinte seguranças se reúnem na sala onde a cúpula do diamante Sol-Rei está quebrada e vazia. A proteção de aço que deveria encobrir a cúpula em caso de violação da área de segurança está arrebentada e tombada. Ao lado dela, os corpos de mais quatro seguranças estão caídos.

— Quem diabos fez isso? — um deles pergunta alto.

— Eu! — a resposta vem do alto do salão.

Do ponto mais alto do teto, por entre as armações de iluminação e ventilação, salta a figura ameaçadora do abutre. Ele abre as asas e solta diversas bombas de gás. Antes de todos os seguranças caírem desmaiados, Adrian Toomes se aproxima de um deles e o agarra pelo colarinho do uniforme.

— Muito obrigado, Joe. Muito obrigado. Sua ajuda para que eu entrasse pelos fundos não será esquecida. — a voz abafada pela máscara de gás que está usando é alta o suficiente para ecoar por todo o salão.

Antes da perda total da consciência, mesmo em um estado semi-desperto, perdidos entre o medo da morte e a vontade de fugir, todos os seguranças jogam seus olhares de ódio para cima de Joe e alguns sussurram juras de maldição que se dissipam no gás sonífero do Abutre.

— Mais 50.000 que continuarão na minha conta. — O vilão alado sai triunfante pelos portões da frente.

O Homem-Aranha faz uma grande rede de teia para segurar os destroços de uma parede que caiu, fragilizada que foi pelas chamas de um dos incêndios.

Pelo rádio dos bombeiros ele ouve que outros heróis já ajudavam em outros locais, e essa mobilização aliada ao grande trabalho dos bombeiros, já garantira o fim de todos os incêndios, mas ainda não os tirava de um estado de vigília. Afinal, a qualquer momento mais chamas poderiam começar a arder.

Foram todos embora, mas o Homem-Aranha fica ali. Bem em cima de Times Square. Durante horas, até o chegar da noite e bem depois. Só pra ter certeza de que mais nada aconteceria. Quando o cansaço se torna forte e sua intranqüilidade dá lugar a uma sensação de alívio, aí então, ele volta para casa.

Peter entra direto no banho. Tira o suor acumulado, o cheiro de fumaça e alivia a pele maltratada pelo calor. Após a chuveirada, ele se senta na cama e deixa o corpo cair.

— Estou morto.

— Percebi. — M.J. responde enquanto arruma umas gavetas.

— Acho que vou tirar férias.

— Há!Você não conseguiria! Se fossemos pro México, eu aposto que o Galactus ia cismar de tirar uns dias de férias lá também, só pra estragar as nossas!

— Bem provável. Já reparou que sempre usamos o Galactus como exemplo?

— Não usamos não. Eu falo do Rino e do Gibão também. — M.J. segura o riso.

— Fala nada. Sempre o Galactus. Acho que é o balde na cabeça. Ei, eu podia usar um balde na cabeça também! O sensacional Galacto-Balde-Aranha!

— Que tal a Latvéria?

— Hein? Você nem riu da minha piada! — Peter levanta um pouco a cabeça e olha para Mary Jane com cara de quem tá estranhando.

— Pras suas férias. Aposto que o Doutor Destino ia arranjar alguma coisa legal pra você fazer por lá.

— Ah, Fala sério! — Peter enfia o travesseiro na cara. — Ele nem liga pra mim! A paixão dele é o Reed (graças a Deus)!

— Eu tô falando sério!

Peter enfia mais o travesseiro e responde um (não tão) sonoro:

— Hummmmph...

Na manhã seguinte:

M.J arranca o travesseiro da cara de Peter.

— Gatão, gatão!

— Quê?! — Peter levanta rápido, assustado.

— Olha a manchete do Clarim! "Abutre rouba um dos diamantes mais caros do mundo."

— Ah não! Ah Não! — Peter enfia o travesseiro na cara de novo. — M.J, lembra quando eu te disse que você era como um sonho? Esquece... me acordando assim você é um pesadelo!

— Também não é pra tanto! E levanta pra pegar o Abutre! Vai lá, Gatão!

— Eu odeio perseguir um velhinho voador...é ridículo demais...até pra mim! Ei! O abutre tava fora de circulação! Achei que ele estava com uma grana boa de um assalto que ele fez um tempo atrás. Coisa esquisita.

Em algum lugar de Nova York:

Curly O´malley abre uma maleta de dinheiro e passa um envelope de papel pardo para Adrian Toomes.

— Está tudo arranjado, como você pediu. Procure esses caras e eles vão te resolver o problema.

— Você fez um trabalho excelente, Curly. Coordenou a equipe. Subornou as pessoas certas e até conseguiu um esquema da segurança do diamante. Pelos seus excelentes serviços, eu tenho um presente pra você. Um extra. Uma coisa que eu não vou precisar mais. Está dentro daquele baú. — Adrian aponta para um baú próximo à janela do quarto.

Curly dá um sorriso amarelo, ainda sem saber o que esperar da surpresa. Cauteloso ele abre o baú e se choca com o que vê.

— Para onde eu vou isso não terá serventia. Faça bom proveito. — Adrian Toomes sai do pequeno quarto.




 
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