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Homem-Aranha # 36

Por Eduardo Regis, sobre um plot de Eduardo Regis e Conrad Pichler

O Sonho de Ícaro
Parte II

Curly O'Malley veste o traje esmeralda. Ele se olha no espelho e sorri. Por anos ele esperou algo grande acontecer na vida dele. Agora, finalmente estava acontecendo. Nada mais de Curly, o ajudante. Ele agora seria a atração principal. Um novo abutre, uma ave de rapina!

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Peter acaba de devorar uma torrada quando MJ entra na cozinha. Ainda de camisola, ela se estica para alcançar uma estante mais alta e sua calcinha aparece.

— Sabe, MJ... desse jeito eu vou querer voltar agora pra cama com você e fazer um irmãozinho pra May. — Peter sorri.

— Nem pense nisso. A família Parker parou de crescer, por enquanto. — MJ ajeita a camisola e mostra a faca para Peter, em tom de ameaça.— Aliás, o senhor deveria estar indo atrás do Abutre.

— Acho que vou desistir. Já tô procurando o Toomes tem duas semanas e nada! Ele desapareceu! Vou me concentrar nos traficantes de novo.

— Bom, você é quem sabe. — MJ rouba uma torrada de Peter. — Mas não esqueça dos ladrões! — ela ri.

— Adoro ser casado com uma comediante!

Uma sombra verde rasga os céus de Nova Iorque. Nas ruas, cidadãos intrigados observam com estranheza. "Que diabos será isso?", eles se perguntam. A sombra continua a circular os prédios até que mergulha em direção ao solo. Sua velocidade assombrosa só permite aos transeuntes a reação do susto. O Abutre agarra uma mulher e ganha altura com ela em seus braços.

— Me larga, seu louco. Socorro! — grita a jovem raptada.

O abutre apenas sorri enquanto olha para a sua vítima. Quando O'Malley volta sua atenção para a cidade novamente, ele é atingido em cheio por um chute. O golpe é forte o bastante para fazê-lo soltar a jovem de suas mãos. Ele rodopia pelos ares enquanto vê sua vítima caindo em segurança numa grande rede de teia.

— Meu Deus! O Abutre comprou uma peruca! É o fim dos tempos! Corram para suas casas! — o aracnídeo lança um fio de teia na direção de O'Malley, mas o vilão reage cortando a teia com suas asas afiadas.

— Agora sim, o show começou! — O'Malley grita enquanto estabiliza seu vôo.

— Ok. Você não é o abutre! Então... Você deve ser o dublê dele! Uau! Finalmente estão fazendo um filme sobre mim! — o aracnídeo pára em um prédio próximo.

— Sim, eles farão. E o título será: "Como o novo Abutre matou o Homem-Aranha". — o Abutre dá uma investida em direção ao Aranha, que salta do prédio na hora exata em que as asas do vilão vão em sua direção, deixando o criminoso atingir uma janela, que é totalmente destruída.

— Ih, novo Abutre... Que nome horrível! Tem que ser algo "pop"! Tem problema não, o titio aranha te dá um nome novo! Vejamos... O Atrapalhado Pavão Encapetado! — girando seu corpo no ar, o Homem-Aranha lança um fio de teia e se balança em direção ao Abutre.

— Não vai ser tão fácil quanto bater num velho, Aranha! Eu tenho treinamento das forças armadas! — O'Malley se defende de um soco.

— Mas ainda não sabe usar essa geringonça direito. — o herói aracnídeo agarra o Abutre em pleno ar e o arremessa para longe. O Abutre tenta estabilizar o vôo, mas sua pouca habilidade fica evidente e ele se choca contra um prédio.

— Não pense que eu não treinei, Homem-Aranha. — usando o prédio como apoio, o Abutre toma impulso. Ele estica os braços para frente do seu corpo e suas asas formam duas pontas afiadas que voam rapidamente na direção do aracnídeo. — Sem falar no meu instinto assassino!

— Sabe, quando o Abutre começou, ele deu uma sorte: eu também tava começando. Agora eu não sou mais tão besta. — o Homem-Aranha se desvia do golpe, rodopiando em sua teia.

Em um rápido ataque, o Abutre gira um de seus braços e acerta em cheio o tronco do aracnídeo com uma de suas asas. O uniforme do aracnídeo se rasga e o herói é arremessado para trás.

— Mas Toomes não era um guerreiro. Eu sou!

O aracnídeo lança um fio de teia, que se prende em O'Malley. Com a força de sua queda, ele começa a puxar o abutre para baixo também. Usando a força da bateria em seu traje, o abutre começa a ganhar altitude. O Aranha se balança na teia e se joga para cima do vilão, surgindo por trás dele em pleno ar e atingindo-o com um soco na cara.

— Ó, ó, ó, toma essa Curió! Gostou do "jingle"?

Desorientado, o Abutre começa a cair. O Aranha o prende com sua teia e começa a puxá-lo para perto de si. Com uma mão, o aracnídeo o agarra pelo traje e com a outra começa a prender seus braços e asas com teia.

— Vamos abrindo o bico, Abutre do Paraguai. Onde está Toomes? O que ele fez com o diamante?

— Eu não sei nada do Toomes!

— Tá bom! Eu já percebi que o sindicato dos abutres mandou você dizer isso. Mas, olha só, você vai ganhar um sacão de alpiste se me contar a verdade!

O'Malley sorri para o Aranha.

— Vai ter que fazer melhor do que isso. Passei por piores no exército.

— Eu não levo jeito mesmo pra esse negócio de interrogatório, né? — o Aranha conclui.

— Não! — O'Malley sorri de canto de boca.

O Aranha enche a boca dele de teia.

Reprovei essa matéria na universidade dos super-heróis, mas eu conheço um cara que passou com "A"! Agora fecha os olhinhos vai.

Twiip!

O Abutre tem os olhos cobertos pela teia do Aranha.

Cozinha do Inferno, algum tempo depois:

O Demolidor vem trazendo O'Malley de dentro de um beco. Ele continua amarrado nas teias, mas o rosto e boca estão descobertos.

— E aí? Ele falou? — o Aranha pergunta.

— Falou. Toomes não saiu e nem vai tentar sair do país. — o demônio explica.

— Sério?

— Sério. E os incêndios realmente foram obras do Abutre. Ele armou uma boa distração para a cidade. Ainda há uma chance de pegá-lo, parece que ele iria ficar na cidade ainda um tempo, de acordo com o amigo dele aqui. Resolvendo umas questões de testamento.

— Ah não! — o Aranha bate com a mão na cabeça.

— Acalme-se, ainda é possível resolver. — o Demolidor fala.

— Eu sou muito burro!

— Perdeu, Aranha! — Curly fala em deboche.

Twiip!

A boca do novo abutre é fechada com teia novamente.

— Cara chato! — o Aranha resmunga. — Eu já sei o que o mau velhinho tá aprontando. Eu sou muito burro mesmo!

— Tem certeza? — O Demolidor pergunta.

— Tenho. Joga esse traste na polícia pra mim, por favor. — o Aranha se balança pela cidade. — Ei, você me chamou de burro, não foi? — o aracnídeo grita.

O Demolidor apenas sorri.

Um pouco mais tarde...

O Aranha entra em uma cafeteria. Todos os clientes do estabelecimento se entreolham incrédulos. Ignorando-os, o Homem-Aranha senta em um banco junto ao balcão. Do outro lado da rua, um senhor de boné e casaco se aproxima, entra na loja e se senta ao lado dele.

— Você me perseguiu até aqui... — Toomes fala baixo.

— Pelo visto meu recado funcionou. Você é o cara safado mais decente que eu conheço, Toomes. Eu fui muito burro de não ter vindo aqui antes. Por isso você voltou não é? Por isso o novo assalto... Só para eles.

— Eu estava muito bem no Caribe, mas tudo que é bom parece ter que durar pouco. Os malditos federais bloquearam minhas contas e tentaram me pegar, mas eu fugi. Voei do Caribe até a Florida. Cheguei exausto na costa, não agüentava mais nada, nem um passo. Fiquei em um hotel por uma semana, passando mal o dia inteiro. Dor e falta de ar. Resolvi ir a um médico e descobri o que havia de errado: cardiomegalia. Meu coração está do tamanho de uma bola de futebol americano, e em breve ele vai parar. Eu não tenho muito tempo, Aranha. Depois que descobri isso, as coisas mudaram. Eu só pensava no que vai ser do meu neto. O que vai ficar pra ele? Meu filho é um idiota que não tem nada. O garoto vai crescer sem um tostão.

— Ele é uma criança esperta, Toomes. Vai ser um homem bom, diferente de você e do seu filho.

Uma mulher negra sai da cozinha, enxugando as mãos no avental. Ela se aproxima do aracnídeo e de Toomes. Seu semblante não esconde o cansaço e a preocupação.

— Ramona — o aracnídeo fala — Obrigado por ter passado o recado, mas eu vou ter que levá-lo, você sabe.

— Eu sei. Eu disse pra ele que isso aconteceria. Eu falei que ele estava fazendo tudo errado de novo. A polícia já veio aqui antes. Colocaram gente vigiando.

Mas não é fácil pegar o velho abacate voador. Não é, Toomes? — o aracnídeo fala olhando para o Abutre.

— Ele vai ter médicos na prisão, Homem-Aranha? — Ramona pergunta aflita.

— Com certeza!

— Ah, meu filho se casou com uma mulher de coração mole demais. — Toomes se levanta. — Cuide do meu neto. Diga a ele que eu tentei muito vê-lo. — Adrian Toomes ajeita o boné em sua cabeça.

— Vamos, Bubu. — O Aranha o leva para fora da loja. — É isso aí pessoal, o cara vestido de Homem-Aranha está indo embora, podem parar de tirar fotos!

Já na rua, o Homem-Aranha olha para Adrian Toomes. Por dentro da máscara Peter inspira aliviado.

— Eles sabem que você se preocupa com eles, que você os ama. Você está fazendo a coisa certa, está ajudando eles. Quer fazer melhor ainda? Diga aos policiais onde está o diamante e você vai deixar uma boa lição pro seu neto e ainda vai poder vê-lo toda a semana.

— Eu não o vejo desde que fui para o Caribe, e isso me dói. Eu simplesmente nem lembrei deles quando voei pra lá. Só queria saber de gastar o dinheiro em besteiras. Quando cheguei aqui, morrendo de culpa e vontade de vê-lo, já não pude ir na casa dele, os policiais estavam por toda a parte. Foi aí que eu parei pra pensar. Esse cerco e a notícia pelas ruas que você estava atrás de mim, tudo isso me fez planejar uma maneira de garantir que tudo desse certo dessa vez. Sabe, aranha, você ainda não entendeu o motivo de eu ter aceitado o convite de me encontrar com você, entendeu? Só você neste mundo todo tem ou a capacidade, ou a vontade de estragar todos os meus planos! Por isso eu vim aqui, para resolver isso de uma vez por todas! — Toomes fala ao dar um salto para trás e se desvencilhar do aracnídeo — Você tem sorte de eu estar sem as lâminas do uniforme, mas ainda assim eu estou longe de ser inofensivo! — Toomes começa a levitar. — Os anos exposto a radiação do meu traje me garantiram algumas surpresas a mais! Um pequeno presente de consolação pela maldita cardiomegalia!

Ramona sai da loja correndo ao ver Toomes subindo pelos ares.

— Por Deus, Adrian... Pare!— ela grita.

— Eu não queria isso, mas não vou apodrecer em uma cela nos meus últimos momentos de vida... Eu vou terminar isso agora! Vou destruir o Homem-Aranha! — Toomes puxa uma arma de dentro do casaco e aponta para o Aranha.

— Não seja ridículo, Bubs! Você sabe que eu me desvio de balas com um pé nas costas e outro na sua cara! — o aracnídeo se arqueia preparando-se para saltar, mas em um movimento rápido, lança um fio de teia que tapa o cano da arma de Toomes. — E eu achei que você tinha tomado jeito!

— Seu lunático! Deixe-me em paz! Não entende que eu estou morrendo? — Toomes esbraveja enquanto sobe mais e mais e cada vez mais rápido, em um dado momento, a levitação se transforma e passa a ser vôo. O aracnídeo salta no prédio e começa a escalar para acompanhar a subida do Abutre.

— E-eu sinto muito... Mas você tem que pagar por tudo que fez! Ainda há tempo para você se redimir! — o Aranha estende a mão para Toomes, tentando alcançá-lo, mas ele está deixando o herói para trás — Não se esforce. Lembre-se do seu problema! Toomes, assim você pode acabar morrendo!

— Eu não me importo! Eu preciso me livrar de você, sempre me atrapalhando! Sempre fazendo minha vida miserável! — em um movimento ágil, Adrian Toomes investe contra o Homem-Aranha e começa a sufocá-lo com as mãos em volta de seu pescoço.

— Too...too...mes, eu não quero enfiar a mão...em.. — o Aranha agarra as mãos do Abutre e as solta de seu pescoço — você, mas eu vou fazer se for preciso!

— Venha com tudo! Vai ser melhor ainda se você me matar! — o vilão tateia por dentro de seu casaco novamente e puxa outra arma. — Eu me precavi! — Toomes atira duas vezes contra o Aranha. A primeira ele erra, a segunda bala passa de raspão pela perna do herói.

O Homem-Aranha prepara um soco, mas se contém. Ele continua desviando dos tiros do Abutre. "Como detê-lo, se a cada movimento eu posso matar o homem?"

— Pare de girar e faça alguma coisa! -Toomes grita.

Antes mesmo que o herói aracnídeo possa reagir o Abutre arregala os olhos e leva as mãos ao peito. O esforço da subida em alta velocidade e o estresse da luta castigaram demais seu corpo, exigiram demais de sua saúde. Ele aponta o dedo para o Aranha e balbucia algo antes de desfalecer e começar a despencar.

O Homem-Aranha se joga e agarra o corpo do Abutre no ar, aproveitando o impulso ele se balança até o hospital mais próximo.

Depois, na casa dos Parker:

Peter Parker se senta na cama. Sozinho. Mary Jane chega no quarto e acende a luz.

— Gatão, desculpa. Não tinha te visto aí.

— Sem problemas, MJ.

— Que cara de perdido é essa?

— Peguei o abutre.

— Que ótimo! Então aí que eu não entendi mesmo o desânimo.

— Não é desânimo. É tristeza.

— Como?

— Eu corri com ele no colo. Levei Toomes até o hospital. Mas... Você sabe. Não fui rápido o bastante.

— Ele morreu? Ah, Pete... — Mary Jane se aproxima do marido e acaricia seus cabelos.

— É estranho. Eu deveria ficar aliviado. Nada mais de abutre voando por aí. Deveria, pelo menos, me sentir indiferente, mas não dá. Ele morreu e levou muito de mim junto. Sabe quais foram as últimas palavras dele? Enquanto morria ele olhou pra mim, apontou seu dedo na minha cara e disse: "Queime no inferno".

Mary Jane se espanta.

— Deus, MJ. Nem o Abutre merecia morrer desse jeito, praguejando... Odiando.

— Gatão, não foi culpa sua. Você sabe que o abutre era um homem com problemas sérios e...

— Eu sei. Eu sei. — Peter corta MJ — Mas, no fim do dia, é duro ser enterrado no coração de um homem com tanto ódio. Mesmo que tenha sido o mais perto do certo que eu possa ter feito, quero dizer, impedir todas tramóias do Abutre esses anos todos... Mesmo que isso tudo tenha sido certo, veja só, estragou a paz de duas pessoas.

A pequena May começa a berrar no outro quarto.

— Será que você podia tomar conta dela essa noite, MJ? Eu... Não estou com muita paciência.

— Claro.

Mary Jane sai do quarto e apaga a luz.

Em outra parte da cidade:

Um menino brinca com a luz de seu abajur. Suas mãos projetam a sombra de um pássaro voando.

Voando livre.




 
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