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Homem-Aranha # 38

Por Eduardo Regis, sobre um plot de Eduardo Regis e Conrad Pichler

Obsessão

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"Metálica e grande. Formada por duas partes simétricas e um globo, também metálico, que se interpõe entre as extremidades destas partes. Seu design é bastante elegante e adequado para os experimentos de polarização da radiação. Olhando bem sua forma, é possível entender o que os cientistas que a criaram pretendiam. As duas extremidades, formadas por metal em forma de dínamos, com um disco de Faraday interno, certamente foram desenhadas para que a radiação fosse circundada por um campo magnético capaz de contê-la. Assim, o campo definiria o percurso das partículas radioativas, garantindo o sucesso do experimento e a seguranças dos cientistas e expectadores. Brilhante, porém arriscado."

O Doutor Otto Octavius, bacharel em Física e Doutor em Física das Partículas, durante algum tempo foi considerado o maior especialista no assunto do mundo, rivalizado apenas por Bruce Banner, talvez. Mas isso foi antes, antes do acidente que o transformou no terrível Doutor Octopus. Agora, ele é uma criatura egoísta e egocêntrica que só pensa no seu ganho pessoal e satisfação sinistra. Em geral, não há como entender realmente o que se passa na mente brilhante de um criminoso como ele. Mas, no momento, suas intenções não são nada crípticas. Ele está trabalhando numa maneira de matar o Homem-Aranha.

"Osborn investigou o quanto pode o ponto zero na história do Homem-Aranha. De acordo com suas descobertas, Parker era um aluno brilhante perdido no meio de idiotas ignorantes. Não posso dizer que não me identifico com o rapaz, eu também era assim. Lembro bem como era um martírio ir para a escola todos os dias, ouvir dos professores tudo que eu já sabia e aturar as peças dos outros alunos, que não podiam enxergar nada além de sua própria banalidade. Era difícil para mim, assim como era para o Parker, eu aposto. Certo dia (Osborn conseguiu até determinar o dia certo, mas não me lembro a data) Parker foi à uma exposição sobre radioativade. Eu faria o mesmo na idade dele. Engraçado, após Osborn me passar essas informações quase passei a sentir pena do desgraçado do Aranha. Ainda bem que sou um homem da razão e superei esta fraqueza lembrando-me dos meus objetivos. Enfim, durante a exposição Parker assistiu a esta maravilha de máquina funcionar e foi picado por uma aranha que, acidentalmente, passou por dentro do campo magnético e foi banhada pelas partículas radioativas. O que exatamente aconteceu neste momento? O que fez com que a aranha fosse capaz de passar seus poderes para Peter? Isso é que eu preciso descobrir. Preciso isolar o fator diferencial correto. Só assim entenderei o processo.

"Algumas coisas vêm à minha mente: 1— o design da máquina pode ter criado alguma partícula anormal; 2— o campo magnético pode ter interagido com as partículas e as tornado anormais; 3— a aranha já havia sido alterada por algum outro fator; 4— Parker possuía alguma pré-disposição genética, como um gene mutante. Qual destas possibilidades será a real?"

O Doutor Octopus se afasta da máquina e se dirige a uma pequena mesa. Ele ajeita seus óculos. Sua visão embaça, desembaça e foca a garrafa de uísque. Um dos seus tentáculos a segura e ele leva o gargalo à boca, dando três boas goladas. Um outro tentáculo abre uma caixa de charutos e traz um até o Doutor. Octavius se senta e coça a cabeça.

"A chave para o bom cientista entender os mistérios que o cercam é o raciocínio lógico, a formulação de hipóteses e a experimentação. Não basta afirmar, é preciso demonstrar. A demonstração verdadeira e aceita é a realizada na experimentação científica."

"Lembro-me de um ensinamento. Para provar que um certo agente era responsável por uma doença, Koch definiu postulados. Embora, Koch fosse um homem da biologia, sua lógica pode ser aplicada a qualquer campo. Ele disse, dentre outras coisas, que a prova definitiva viria ao se inocular esse agente em um animal e observar a manifestação da doença. Será que eu vou precisar criar outro Homem-Aranha? E se a máquina não for esta? E se ela não funcionar mais? Antes de tudo, eu preciso saber se este é mesmo o agente. Para tal, formulo o seguinte experimento. Ligarei a máquina e deixarei que uma vespa, ou animal semelhante, seja exposto a sua radiação. Em seguida, inocularei o ferrão da vespa em camundongos, ou macacos. Se a máquina for o agente, os camundongos sofrerão alterações, assim como Parker. Mas...e se os camundongos não forem susceptíveis? E se o nascimento do Homem-Aranha tiver sido uma conjunção de fatores ímpares? De qualquer maneira, é preciso começar de algum lugar."

Octopus se levanta da mesa. A garrafa de uísque já está quase vazia. O charuto queima solitário no chão. Ele anda apressado até a máquina e procura pelo gerador, ou pela tomada. Ele encontra o cabo de força e o liga em um interruptor do galpão. Hipnotizado pela experiência, Otto vai até o painel de controle da máquina. Seu dedo chega a encostar no botão, mas ele para. Um de seus tentáculos se estica e desliga o cabo de força da tomada.

"Não! Tolo! Se excitando como um jovem estudante e esquecendo os princípios básicos. Não posso me arriscar a ser banhando por essa radioatividade anormal. Preciso de contadores Geiger, avental de chumbo, de uma sala fechada. Preciso transformar este galpão miserável num laboratório decente. Preciso ligar para Osborn."

"Já é a terceira noite que não durmo. Passo o dia ansioso. Escrevi mais e mais teorias e hipóteses, formulei mais experimentos. Tudo está fervilhando na minha cabeça, mas preciso de um laboratório adequado para radiação. A obra está quase pronta. Será um laboratório ridículo, mas servirá aos meus propósitos. Osborn garantiu que hoje estaria pronto."

O Doutor Octopus entra no galpão. Uma sala foi montada com módulos recobertos com chumbo, e três homens terminam de montar a nova instalação para os animais de laboratório.

— O que é isso? Já deveria estar tudo pronto! — Octopus se exalta. Seu sobretudo treme, são os braços metálicos impacientes.

— Houve um pequeno atraso. — um dos homens toma á frente e responde.

— Eu não tolero atrasos! — os braços saem de debaixo do sobretudo e empalam os três homens. — Eu mesmo terminarei estas instalações.

"A noite caiu. Eu me sinto tonto. Preciso descansar. O laboratório já está em condições e eu preciso de uma dose de uísque e de uma noite de sono."

Octopus se ajeita em um colchão jogado no chão e sucumbe ao cansaço.

Na manhã seguinte, ele acorda já indo em direção ao avental protetor e ao contador geiger.

"Hora de ligar a máquina."

— Você está horrível, Otto. — Norman Osborn aparece enquanto Otto veste o avental. — Cabelo desgrenhado, barba por fazer, roupas amarrotadas e um cheiro atordoante de álcool.

— Isso não importa. Você não percebe? Estou prestes a realizar uma das maiores descobertas no campo da radioatividade! Vou desvendar como partículas radioativas foram capazes de integrar o DNA de um artrópode no DNA de um ser humano, sem causar anomalias físicas deletérias, nem mentais. E, o melhor de tudo, esta pode ser a peça que faltava para esmagar o Homem-Aranha para sempre! — Otto termina de vestir o avental.

— Fico feliz com seu entusiasmo. Posso acompanhar?

— Fique a vontade. Só não me atrapalhe. — Otto prende o contador geiger no avental. — Você deveria vestir um também.

— Um avental? Não, eu vou ficar do lado de fora, mas eu poderia usar um contador geiger. — um dos tentáculos de Octopus entrega um contador à Norman.

— Por isso não consegui confirmar se a obra tinha acabado. Você matou os construtores. — Norman repara nos corpos amontoados num canto.

— Você pode se livrar deles. — o Doutor Octopus confere a sala especial projetada para conter a radiação.

— Eu não sou seu lixeiro, Otto.

— Você precisa de mim, Osborn. — Octavius olha seriamente para Norman. — Você pode ser o gênio da química, mas não passa de um curioso na minha área. Por isso, você vai me deixar trabalhar como quiser e vai me ajudar em tudo.

— Não abuse tanto da sorte, Otto. Não se esqueça que eu pago as contas aqui. Descubra como essa droga funciona e me avise. Ah, e livre-se você dos corpos! E, de preferência, bem longe daqui!

— Então eles vão ficar aí, fedendo. Eu não ligo. — Otto abre a grande porta da sala e seus tentáculos vão empurrando a máquina para dentro.

— Acho melhor eu ir embora, você não está de bom humor hoje. Ah, tente ficar vivo e sóbrio, em dois dias lhe mandarei o relatório das inoculações. Logo tudo estará pronto.

— Você não ia ficar para assistir? — Otto pergunta enquanto fecha a porta da sala.

— Ia, mas é melhor eu ir antes que você me irrite de verdade. Hoje, alguém passará aqui para se livrar da sua bagunça. Não quero que este lugar chame a atenção por causa do cheiro ruim e das moscas.

— O roto falando do esfarrapado.

— Eu sei quando e onde deve me comportar mal, Otto. Já você... bem, você parece estar se esquecendo das suas boas maneiras.

O estrondo da porta da sala se fechando é a resposta para Osborn. Otto Octavius vai até a janela de acrílico e aperta o botão que ele desenvolveu para ligar a máquina à distância. Faíscas elétricas saem da máquina e iluminam o galpão.

Otto Octavius sorri. O bacharel em física e Doutor em partículas, outrora um homem que se satisfazia com a simples maravilha da descoberta científica, hoje se delicia com a descoberta que serve a um propósito. E nenhum propósito é maior para o Doutor Octopus do que matar o Homem-Aranha.

O paradigma diz que a ciência é demorada. Otto nunca foi um homem preso a paradigmas. Ele constrói sua própria vontade em velocidade relâmpago.




 
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