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Mulher-Maravilha # 03

Por JB Uchôa

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Prólogo

Areópago, o tribunal do Deus da Guerra. O recanto sagrado de Ares.

Em meio a gemidos afoitos, urros, silvos e gritos de prazer, encontramos o deus da guerra entretido com uma mortal. Uma mundana, como ele mesmo gosta de chamar seus brinquedos sexuais. Depois que se satisfaz, o poderoso deus se levanta e passa a andar pelo quarto entretido em pensamentos.

— Poderoso Ares, você sabe mesmo satisfazer uma mulher. Será que o Todo-Poderoso Zeus se equipara a tamanha disposição?

— Não gosto de falar depois da cópula, mundana, se tivesses um pouco de sapiência saberia que só estás aqui porque assim eu permiti. — A frieza e rudeza nas palavras e ações são habituais de Ares. Afinal, ele é um deus. Nasceu para ser adorado e temido e mortal algum deve resistir aos seus caprichos.

— Nossa, milorde! Porque a grosseria? Não sabes que estou aqui apenas para servi-lo? — Maria Madalena não sabe como foi parar naquele lugar, nem ao menos tem noção de que se encontra fora do tempo e do espaço. Ela brinca com Ares na inocência de que realiza a fantasia de um desconhecido que encontrou na agitada noite grega, onde gritava bêbada clamando pelos deuses. Entretanto, o tom de ironia e graça não agrada ao deus da ira encarnada.

— Como ousa se dirigir à mim nesse tom? Cadela do Ocidente, sua gente não teme mais a personificação da guerra? — antes que Maria Madalena possa responder com uma gargalhada, Ares some. O riso some de sua face. Calmamente ela se levanta e caminha para a janela. Súbito, depara-se com o vazio e então tem certeza de que não está em um motel vagabundo em Atenas.

Destinos Traçados

Hermes corta os céus segurando a mão da princesa Diana. O feixe que separa o mundo da suntuosa morada dos deuses mescla o Caos e a Ordem. A princesa sempre lembra da primeira vez que pisou no Olimpo, lar dos deuses, do sabor da ambrosia e do néctar e das regalias que teria se tivesse aceitado a dádiva de permanecer no papel de Deusa da Verdade. Talvez pudesse fazer mais pelo mundo como deusa, mas apenas talvez... Em meio à colunas dóricas do Olimpo, Diana pode ver o poderoso deus dos deuses sentado em seu trono ao lado de sua fiel consorte Hera, a mais ciumenta das deusas.

— Lorde Zeus... — A Mulher-Maravilha ajoelha-se para saudar o poderoso Zeus e Hera.

— Levante-se criança. Vejo que continuas muito bela. Sê bem-vinda à morada dos deuses. — O gracejo de Zeus não agrada sua rainha, dona de um ciúme intempestivo, muitas vezes despejado contra mortais que foram alvos das escapadas de Zeus, e de seus filhos bastardos. Mas com Diana é diferente. Apesar do ciúme que sente da beleza da princesa, Hera nutre grande carinho pela filha de sua rainha amazona. E sabe que a única coisa que Zeus pode esperar da jovem é adoração.

Ares chega atrasado, ainda ajeitando a capa e segurando o elmo sob o braço. Já de pé, a Mulher-Maravilha lança apenas um olhar para o deus da guerra e sente um estranho calafrio.

— Ora, ora... a poderosa Mulher-Maravilha resolveu ascender ao Olimpo, ou ainda continua apaixonada pelos mortais? Soube que você e seus asseclas são adorados na Terra como deuses. E pela sua beleza você pode estar ocupando o cargo de Afrodite.

— Cale-se, Ares! A princesa veio aqui convocada por Zeus. — Afrodite não tem medo de Ares. Seus comentários abalam a vaidade da deusa da beleza e do amor, mas o deus da guerra é incapaz de levantar um dedo contra a ex-amante desde que ela voltou aos braços de Hefesto e deu um fim ao caso entre os dois.

— Claro... continue, pai. — Apesar das palavras de obediência, o rosto por trás do elmo esboça um sorriso jocoso.

— Princesa, você muito nos honra entre os mortais, reacendendo a glória do Olimpo. Entretanto os deuses precisam de sua ajuda.

— Minha ajuda? Eu sirvo ao Olimpo, majestade. Dá-me tuas ordens e elas serão executadas por mim e minhas irmãs amazonas.

— Eu sei disso. Por isso, quero que você prepare o mundo para nossa volta. Os mortais de toda a Terra deverão adorar os deuses gregos novamente. — Diana se assusta. Ela sabe que será uma tarefa impossível. Quando Hermes esteve em Boston, todo o alvoroço em torno de uma divindade grega na cidade acabou em piada.

— Criança... sei que podemos contar com você para ser nossa embaixadora. — As palavras de Zeus delegam a responsabilidade de uma tarefa em que a princesa certamente falhará. — O Deus Uno deve estar cansado, ou então finalmente chegou ao consenso de que a humanidade tem outras necessidades. Os Olímpicos reinaram por eras a fio e o período de latência deve cessar.

— Não foi uma decisão somente de Zeus, criança. A presença de Hades e Netuno confirmam o poder do triunvirato. — A deusa Atena fala calmamente, como se por meio de seu semblante sábio fosse fazer Diana processar a idéia, e continua. — O Deus Uno mandou seu filho para viver entre os humanos, pregar paz, amor e o mundo parece ter convergido para a podridão em apenas dois mil anos.

— Os humanos não precisam de um único deus, princesa. — Com o tom de voz mais alterado, comum daqueles que têm o ímpeto da guerra nas palavras, Ares não tenta explicar, mas impor os motivos que levaram os deuses a tomar tão ousada decisão. — Eles clamam pelo seu Messias em meio a guerras, em meio ao amor, em cerimônias de adoração... Os humanos precisam dos deuses, onde cada um detém um poder. Não se pode clamar pelo mesmo Deus em momentos tão divergentes como a guerra e a paz.

— A volta dos deuses, princesa Diana, precisa da sua ajuda. Celebraremos com música esse novo amanhecer. Como nossa filha, nossa ardorosa campeã, essa tarefa cabe somente a você. Compreende?

— Sim, Lorde Apolo.

Os demais deuses vão deixando o salão. Apenas Ares ainda lança um olhar e um esboço de sorriso para Diana. Ela se pergunta se ele sabe do artefato que está em Themiscyra.

— Piedosa Atena, posso lhe falar um momento?

— Claro, princesa.. Acompanhe-me. — Em meio aos corredores e salões que compõem o Olimpo, onde nenhum parece levar a lugar algum, a princesa chega à sala de armas da deusa da sabedoria. Atena senta-se em um trono de ouro e pede que ela diga o que a incomoda.

— Piedosa Atena, sinto incomodar-te com um assunto incerto. Sei que a vi na cidade que protejo, no mundo dos homens...

— Sem rodeios, princesa...

— Encontrei um artefato que acredito ser themiscyriano. Banha-me com tua sabedoria para encontrar a verdade.

"Que o fruto do teu ventre seja o preço. Ó poderoso Deus da Guerra, conceda imortais eras de paz... sob tua semente."

— Parte dos dizeres! O que eles significam?

— Basta, princesa... agora parta! — Com um gesto da deusa e a sensação de vertigem, a Mulher-Maravilha reaparece na Ilha Paraíso. Sem prestar atenção à gruta perto de si, Diana começa a caminhar de volta para casa.

Mostra de História Greco-romana, Gateway City

— Já disse que não, Cassie! Você não vai fazer ronda sozinha!

— Mas mãããe... com a Diana fora da cidade, quem vai tomar conta de Gateway City? Dos crimes que acontecem? E se o Coringa aparecer, ou então o Pingüim? Ou então a Hera Venenosa?

Cassandra! Pára! Se eles aparecerem a gente chama o Batman, ou a UCE! — Helena Sandsmark já está uma pilha de nervos com a aproximação da inauguração da mostra de história greco-romana, e para preocupá-la ainda mais existem os novos poderes que sua filha ganhou de Zeus e a excitação de ser uma super-heroína. — Lembre-se, Cassie, eu proíbo você de fazer rondas sozinha.

— Mas manhêeeeeeeeee...

— Pegue para mim aquele arquivo. Você vai me ajudar estando aqui e não voando sobre minha cabeça. *

Ilha Paraíso

Entrando no palácio, a Mulher-Maravilha nota que Hipólita não está na sala do trono.

— Philippus! Onde está minha mãe?

— Nos aposentos, Diana. O que aconteceu no Olimpo?

Mal Philippus diz onde se encontra a rainha e a Mulher-Maravilha voa de encontro aos aposentos reais. Ela pára em frente ao quarto e escuta vozes. Com um chute, arromba a pesada porta.

Diana? O que está acontecendo? — A princesa fica atônita quando vê apenas sua mãe no quarto. — Filha? Você está bem?

— Ouvi vozes, mãe, pensei que você estivesse em perigo.

— Filha, o que aconteceu no Olimpo? O que os deuses queriam? Você voltou tão tensa. — A rainha Hipólita abraça sua filha querida com medo de que algo de ruim tenha acontecido na morada dos deuses.

— Mãe, eu vi a deusa Atena no mundo do patriarcado e minha principal razão de ter retornado para casa no momento em que mais a Liga precisa de mim, depois dos ataques dos N'Garai, da convocação dos novatos... não foi apenas saudades. — Ao mesmo tempo em que fala, ela se afasta da mãe e puxa da sacola que trouxe o artefato que pediu a Helena Sandsmark. — Essa peça, mãe, tem inscrições em themiscyriano! Que relação nós temos com Ares?

Hipólita empalidece, pega o artefato nas mãos e pergunta onde Diana o conseguiu. Toda a história é contada em meio a lágrimas e vergonha.

— Filha, este é o artefato perdido. Eu o joguei no mar muitos anos atrás. Prometi a Ares uma peça de adoração e um oráculo se ele trouxesse paz ao nosso lar. Contudo, Ares não honrou o pacto. Foi na época que Herácles nos humilhou realizando um trabalho imposto por Hera, que estava doente de ciúmes. Um dos doze trabalhos de Herácles, como você bem sabe, era roubar o cinturão de Gaia da rainha amazona. Naquela noite, Ares me apareceu e distorceu o pacto. Cega pelo ódio, sua tia prometeu a Ares um filho em troca de vingança. E como ela morreu, Ares quer que eu honre o pacto.

A Mulher-Maravilha nada fala, apenas se abraça com a mãe e chora.

— Eu não permitirei, mãe, nem que eu tenha que desafiar os deuses.

— Não blasfeme! Os deuses devem ser adorados, não desafiados! Saia, Diana, uma rainha tem um peso a arcar para com seu povo.

Naquela noite, a princesa anda sem destino depois de ter conversado com suas irmãs em volta da fogueira. Ela riu um pouco mas não esqueceu o que a preocupa. Olhando para os braceletes prateados, ela vê sua imagem refletida e se orgulha deles, do que representam e da história que carregam consigo. E o mais importante: como fazer Ares declinar da promessa de sua tia?

— Estás linda sob o luar, princesa.

— Ares... — Sem ao menos se virar para trás, Diana sabe com quem está falando. — O que quer?

— Um filho, princesa, um semideus que carregue em seu sangue o poder da guerra. E quem mais digna senão a poderosa princesa amazona, presenteada com dádivas dos próprios deuses?

— Você me diverte, Ares. O pacto morreu com minha tia. Se você quisesse mesmo, teria honrado sua parte. Herácles não está morto. A vingança de minha tia não foi completa, você apenas a fez cruzar o rio Estige mais cedo.

— Seu senso de honra a perturba. Sua tia foi morta por ser burra demais. Proponho uma troca, princesa. Nos meus termos.

— E quais seriam eles?

— Uma luta justa, e deixo você escolher as armas. Amanhã, ao anoitecer, quero minha resposta.

— Não aceito, deus da guerra. Tenho uma difícil tarefa a cumprir em nome de Zeus. Não tenho tempo para perder com você.

— Bastante confiante, princesa... determinada. Não se preocupe. Ao amanhecer, Themiscyra e a Ilha Paraíso serão minhas! — Assim como veio, o arrogante deus da guerra se vai. "Ele pensa que me engana", pensa a Mulher-Maravilha. "No entanto, colocar toda a Ilha Paraíso em risco seria ousar demais. Mal reconstruímos Themiscyra do ataque doentio de Darkseid."

Epílogo

Poseidonis, uma metrópole imersa sob o Pacífico, comandada pelo rei Orin, o herói conhecido por Aquaman. O rei dorme um sono conturbado, talvez pela presença de sua consorte, a rainha Mera, que retornou para proclamar o que é seu por direito, o usufruto do trono. Quem pensa que Aquaman deixa Poseidonis nas mãos de seu primeiro-ministro para bancar o herói em terra firme está enganado. A soberania do trono e seus feitos como membro da LJA são resultado de muito trabalho, esforço e horas sem sono.

Os sonhos de Arthur nunca foram plácidos. Muitas vezes ele sonha com seu filho morto, das guerras atlantes com o bárbaro Attuma e do peso da coroa sobre sua cabeça. Mas às vezes ele sonha com Diana, a princesa guerreira de Themiscyra e sua colega de equipe. Nem ele sabe o que os une, essa estranha atração que o direciona ao encontro dela. Hoje porém, o sonho é especial. Arthur está em guerra, comandando seus pares em defesa dos portões de seu reino, quando ouve seu nome ser chamado baixinho por uma voz forte e serena como o oceano.

— Rei Orin de Poseidonis, receio ter de atrapalhar seus sonhos de conquista.

— Não são sonhos de conquista, velho deus. Aliás não tive nem tempo de compreender o que se passava.

— Achas estranha essa convocação? — Poseidon, o poderoso deus das águas, fala mansamente como se não quisesse impor nada, fato que causa estranheza a Arthur, já que todos os deuses são arrogantes. — Garanto-lhe que não é um sonho, Orin, mas esta foi a maneira mais fácil de podermos dialogar. Os deuses gregos estão voltando...

— Esse problema é da alçada de Diana. Não entendo o que podes querer comigo.

— Diana... a bela princesa amazona. Gostas dela, não?

— Dê-me seu recado ou eu acordo desse sonho estúpido!

— Há! Há! Há! Há! Seu ímpeto condena sua resposta. Vim falar-lhe para erigir um templo em homenagem a mim. E em troca concedo-lhe uma dádiva.

— Não sei porque gostaria de um templo. As amazonas não atendem mais suas expectativas? Não quero nada em troca porque não erguerei templo algum. Nossa homenagem ao poderoso deus do mar está no nome da cidade.

— Não gostaria de poder alcançar a mente de todos os seres vivos? Passar mais tempo sem necessitar de água? Ter sua mãe de volta? — Com essas palavras Poseidon cria uma imagem de Porm na frente de Arthur, na certeza de que ele irá concordar com qualquer imposição que queira.

— Vá embora, ancião! O peso do séculos o deixou senil? Como ousa macular a memória da mais doce criatura que nadou em suas águas? — Aquaman nutria por Porm o amor de filho. Ela o criou, o ensinou. Ele lhe deve tudo o que é, seus conceitos de bem e mal, de certo e errado. Porm deu a Aquaman uma base de caráter, seu presente mais precioso. — Saia de meus sonhos! Me deixe em paz!

— Te arrependerás por tamanha desfeita... rei Orin.

O sono do rei continua conturbado, até que ele acorda afoito e anda até a janela de seu quarto para vislumbrar a imponente Poseidonis dormir.

— Maldito deus... será que foi mesmo um sonho?

:: Notas do Autor

* Leia Justiša Jovem # 06



 
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