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Mulher-Maravilha # 10

Por JB Uchôa

A Incrível Batalha das Filhas da Mãe Pelo Jardim do Éden
Um Maravilhoso Conto de Natal

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Superboy, Superboy e Superboy. Todo o quarto da Garota-Maravilha está empestado (como diz sua mãe, Helena Sandsmark) de pôsteres do herói.

— Ai... e se ele vier aqui e descobrir que eu gosto dele? — Cassie está deitada na cama, olhando as paredes do quarto e escutando Lady Marmalade. — Mas e se eu tirar os pôsteres e ele nunca descobrir que eu gosto dele? E por que o Natal deixa a gente desse jeito?

Cassandra! — Chama Helena, da sala.

Já vou, mãe! O que foi que faltou dessa vez pra eu ir comprar? — Ao caminhar do quarto para a sala, ela se depara com a mulher alta, cabelos negros, olhos azuis, de vestes gregas e capa púrpura. — Hipólita! — A garota abraça a mãe da Mulher-Maravilha como se fosse uma tia distante.

— Olá, Cassandra! Como você está? Tenho acompanhado por Diana seus grandes feitos! — Apesar de Hipólita ser a matriarca das Amazonas, uma rainha que arca com todas as responsabilidades e o peso da coroa, treinada em todos os combates mortais e defensora da memória da Grécia antiga, é uma pessoa adorável e mãe zelosa.

— Bem, majestade...

— Hipólita, Helena. Não faça cerimônias comigo, por favor. Dispenso todas e quaisquer formalidades. Afinal, eu deveria me desculpar por aparecer sem avisar. Mas lembrei da comemoração do Natal e pensei em passar com minha filha. Como é de costume entre vocês, trouxe presentes. — Helena agradece os presentes e a presença da primeira Mulher-Maravilha em sua casa. Ela também fica encantada com o colar de ouro e safiras, e manda Cassie agradecer os brincos de rubi em forma de estrela.

— Bem, Hipólita, Diana deve chegar a qualquer momento. Se a senhora... se você me dá licença, terminarei a nossa ceia.

— Precisa de ajuda? — Pergunta Hipólita.

— Em absoluto! Fique conversando com Cassie, aposto que ela tem muito o que conversar.

— Quer ouvir uma história? — Pergunta Hipólita, enquanto Helena sai para a cozinha. A garota acena sim com a cabeça e cruza as pernas no sofá. — É sobre a Guerra de Tróia.

— Ela não é lenda?

— Claro que não! Eu estive lá! Tudo teve início um certo dia, numa data muito especial, tanto para os habitantes da terra como do céu, pois era celebrado o casamento entre Tétis e seu amado mortal, Peleu.

— Quem era Tétis? — Pergunta a Garota-Maravilha, já encantada e se perguntando como uma conto de guerra pode começar com um de amor.

— Tétis era a ninfa do mar, adorada e respeitada por todas as divindades. Todos os deuses haviam sido convidados para a festa, menos Éris, filha de Ares, e deusa da discórdia, que mesmo assim acabou justificando o motivo de sua indesejável presença. Sedenta de vingança pela negligência dos noivos, ela lançou um pomo dourado gravado com a inscrição "à mais bela", fazendo-o cair propositadamente na frente de três vaidosas deusas: Hera, a rainha dos deuses, a sábia Atena e Afrodite, a senhora do amor. Como era esperado, as três alegaram ser a verdadeira merecedora do fruto e seu título. Para piorar, foram juntas a Zeus, para que decidisse o impasse.

— Não entendo — balbucia Cassandra. Hipólita ergue a sobrancelha esquerda, esperando que ela conclua o pensamento. — Não é a história da Guerra de Tróia? O que o casamento de uma ninfa tem a ver com isso?

— Tanta coisa, pequenina... Uma guerra é um conflito de interesses. No caso da Guerra de Tróia, o casamento de Tétis e Peleu foi o estopim. Deixe-me continuar e você vai entender.

— Desculpe — diz Cassandra, enquanto Hipólita apenas sorri.

— Zeus sabia que se escolhesse uma deusa iria se indispor com outras duas, o que seria péssimo. Então delegou a um mortal, o príncipe troiano Páris, a difícil tarefa de arbitrar sobre a questão.

— Coitado! Zeus simplesmente jogou a batata quente pra esse Páris? — Pergunta Cassandra já aflita, com a mão na boca.

— Isso mesmo. Aliás, isso sempre foi muito comum, pois os deuses, apesar de soberanos, possuem todas as falhas humanas, assim como as virtudes — explica Hipólita. — Então Páris se viu num dilema, já que cada deusa ofereceu a ele um dom magnífico em troca de sua preferência. Diante disso, acabou escolhendo Afrodite como a mais bela entre todas e, portanto, merecedora do pomo dourado. Ela havia garantido a Páris o que ele mais desejava na vida: o amor da rainha Helena, esposa do rei de Esparta, Menelau, por quem Páris nutria um amor incondicional, mas não correspondido. — Ao ouvir as palavras de Hipólita, Cassie pensa no Superboy. Em como seria lindo alguém fazer isso por amor...

— Que lindo! E ele amava de verdade a rainha Helena?

— Amava, Cassandra, mas o amor tem que ser natural, nunca comprado. Com isso, Páris atraiu para si e para todos os seus compatriotas troianos a inimizade e a declaração de guerra de todos os chefes gregos, pois ao raptar para Tróia uma concessiva Helena sob a influência divina de Afrodite, havia ultrajado a honra de toda a Grécia.

— E como as amazonas entraram na guerra? — perguntou a Garota-Maravilha, já aflita.

— Tenha calma, menina! — Hipólita ri da impetuosidade da pupila de Diana. — Só lhe adianto que as amazonas foram obrigadas a entrar na guerra. Continuando, a peleja durou dez longos anos. Ambos os lados contaram com a ajuda de divindades e de guerreiros valorosos. Zeus e Apolo pendiam tanto para um lado como para o outro no campo de batalha, como tentando agradar a gregos e troianos.

— Ahá! — Berra Cassie. — Foi daí que surgiu a expressão "agradar a gregos e troianos!" — Hipólita sorri e continua a história.

— No auxílio exclusivo dos gregos estavam o deus dos mares Posêidon e as deusas Hera e Atena, ofendidas por terem sido preteridas na escolha de Páris. Nas fileiras gregas destacavam-se, além do ultrajado rei Menelau, o irmão dele e rei de Micenas, Agamêmnon, o agigantado e corajoso Ájax, o sábio rei Nestor, o astuto rei de Ítaca, Odisseu, e os grandes amigos Pátroclo e Aquiles, o maior e mais temido herói de toda a Grécia. Aquiles era filho da ninfa Tétis, e para justificar sua fama de homem poderoso, não apenas mostrava sua coragem e capacidade inata de guerreiro, mas também um providencial dom concedido pela mãe logo após seu nascimento. Mergulhado por ela nas águas do encantado rio Estinge, adquiriu para toda a vida a invulnerabilidade do corpo, exceto no calcanhar, por onde havia sido sustentado por uma das mãos de sua mãe.

— Quer dizer que Aquiles era invulnerável?

— Era, menos no calcanhar.

— Sinistro!

Hipólita, sem entender exatamente o que Cassandra acabara de dizer, pigarreia e continua:


— Bem, a favor dos troianos, além da deusa Afrodite, estava Ares, na época um amante dedicado dela.

— Que babado! — Berra Cassie novamente. — Afrodite tinha um caso com Ares? Não acredito!

— É verdade — concorda Hipólita, segurando-se pra não rir das caras e bocas que Cassie faz. — Dentre os mortais que lutavam por Tróia estavam Páris, lógico; Príamo; seu pai e rei da cidade, o heróico Enéias, filho de um mortal com Afrodite; Sarpédon, filho de Zeus e da mortal Europa; e principalmente Heitor, irmão de Páris e o maior herói troiano. Os troianos ainda contavam com a aliança com as amazonas e Ártemis.

— Espera aí! Eu pensei que vocês ficariam no lado de toda a Grécia! — Exclama a Garota-Maravilha, indignada.

— Na verdade nós não pretendíamos entrar no combate, mas Zeus me levou ao monte Olimpo para observar os campos de batalha. A luta era sanguinária. Ártemis, que não havia se envolvido no julgamento de Páris, era considerada neutra. Ela me pediu para que as Amazonas e nossas espadas servissem de mediadoras da paz.

— Paz? As Amazonas não dizimaram várias tropas gregas?

— Você já deve saber que na maioria das vezes a paz só é obtida sob o calor da espada — explica a rainha das amazonas, calmamente. — Além disso, Themiscyra estava em risco. Não podíamos pender para o lado de Afrodite, Hera ou Atena, porque corríamos o risco de nos indispor com as deusas mães de nossa raça. A escolha de Ártemis era a mais acertada, pois somente no fim da guerra é que foi percebido que nós pendemos mais para o lado de Tróia. Fui eu quem levou a Aquiles a armadura divina confeccionada por Hefesto, e Aquiles era do lado grego. Aquiles conseguiu a armadura pois sua mãe, Tétis, intercedia por ele junto a Zeus, que tinha por ela grande apreço. Muitos heróis pereceram na guerra. Pátroclo foi morto por Heitor, que por sua vez foi inspirado por Apolo.

— Mas Apolo não é o deus das Artes? — Pergunta Cassie, curiosa.

— Sim, mas os gregos são um povo guerreiro, que não foge ao combate — explica Hipólita, pacientemente. — Aquiles, indignado, espalhou o terror entre o inimigo, contando com Atena como sua guia. Ele abriu ferozmente grandes buracos entre as fileiras inimigas, até encontrar e matar vingativamente Heitor. Após matar Heitor, Aquiles, ainda levado pela fúria cega da vingança, arrastou com sua carruagem o corpo seminu da vítima, dando várias voltas em torno das muralhas de Tróia, numa boçal e humilhante demonstração de poder a seus inimigos, que permaneciam aterrorizados no interior da cidade. Com essa atitude covarde, Aquiles trouxe para si o desagrado de todos os deuses, que não permitiram a Tróia e à família de Heitor um funeral honrado de seu mais amado herói. Ironicamente, Aquiles foi morto por Páris, que teve uma ajuda de Apolo, que guiou uma flecha certeira em seu calcanhar, seu único ponto fraco.

— Que horror! Ele arrastou o corpo de Heitor por toda Tróia? Bem feito ter morrido! Hunf! — Indignada, Cassie cruza os braços.

— Aquiles ameaçou Themiscyra. Tivemos uma batalha épica contra os gregos. Minha espada brandia firmemente contra a dele. O sangue. O calor. A paixão. Todos os elementos estavam ativos naquele momento, meu ódio e minha espada lembravam do dia em que Herácles massacrou as amazonas. Aquiles e sua tropa foram expulsos por Ártemis, que salvaguardou nosso Paraíso, nosso Éden. Como uma das deusas-mãe da Ilha Paraíso, Ártemis desceu do céu em uma carruagem de fogo e dizimou as tropas de Aquiles. Depois disso, mais ainda nossos corações e nossas armas penderam para o lado de Tróia. Entretanto, em vista de todos os acontecimentos, a guerra encontrava-se num empate, sem dar o menor sinal de quem sairia vencedor. Com a morte de Aquiles, os deuses decidiram deixar a batalha se levar por si só, sem interferências. Então os Gregos armaram uma engenhosa armadilha que viria a pôr fim ao conflito.

— O cavalo de Tróia!

— Isso mesmo, Cassandra. O imponente cavalo de Tróia. Ele era belíssimo. Nesse momento da guerra as amazonas já estavam na Ilha Paraíso, fora do conflito, pois Zeus nos liberou da promessa de sermos mediadoras da paz. Sob a liderança do ardiloso Odisseu, os gregos construíram um gigantesco cavalo de madeira, com o interior oco, colocaram-no bem próximo das inexpugnáveis muralhas de Tróia e, em seguida, simularam a retirada de suas tropas, dando a impressão proposital de estarem desistindo do longo sítio à cidade, que já durava dez anos. Porém, dentro do cavalo, estavam escondidos dezenas de soldados. — Nesse momento a Mulher-Maravilha entra voando pela janela.

— Mãe? O que faz aqui?

— Filha! Vim visitá-la! — Hipólita abraça a filha, mas logo é repreendida pela embaixadora das amazonas.

— E Themiscyra? Como pôde deixar a Ilha Paraíso depois dos ataques de Darkseid quase arrasarem a idade?

— Diana... — Fala firmemente Helena. — Acho que sua mãe é bem adulta para tomar uma decisão que só cabe a ela. Desculpe me meter, mas acho que a vinda da rainha Hipólita é motivo de júbilo. — A Mulher-Maravilha engole em seco as palavras de Helena, ainda de avental e com um longo garfo na mão.

— Você está certa, Helena. É que...

— Entendo, filha. É perfeitamente compreensível sua preocupação com nosso povo. — Ao ouvir essas palavras, Diana sorri e abraça forte a mãe.

— Aproveite que sua mãe está terminando de contar uma história pra Cassie e venha me ajudar na cozinha! — Helena leva Diana pelo braço para a cozinha e Cassie puxa a barra da capa de Hipólita, pedindo para continuar a história.

— Onde estávamos? Ah, sim, no cavalo de Tróia... Os troianos acreditaram que os gregos haviam batido em retirada e que o cavalo era um presente em reconhecimento à valorosa e inquebrantável resistência troiana.

— Presente de grego... Outro ditado que foi tirado dessa época! — Cassie fica admirada com os termos que estão na moda desde a antigüidade.

— Verdade, Cassandra. É deveras curioso. Porém o sacerdote Laocoonte foi contra a aceitação desse presente dos gregos. Apolo, então, enviou duas serpentes que estrangularam o sacerdote e seus filhos. Os troianos viram tal acontecimento com um sinal divino contra a calúnia de Laocoonte.

— Mas os deuses não se retiraram do campo de batalha?

— Alguns. Apolo, Ares, Atena e Afrodite continuaram à frente da batalha, intercedendo por suas cidades. Tróia festejou aos pés do cavalo naquela noite. Bêbados e cansados, os soldados troianos foram facilmente derrotados e massacrados. Dessa forma, Tróia foi tomada pelos gregos, que por fim resgataram Helena. Terminava assim a guerra de Tróia. Os vencedores sobreviventes logo trataram de retornar com seus respectivos líderes às suas cidades-estados. Dentre eles, Menelau e sua disputada esposa Helena foram os únicos que, de volta a seu reino, conseguiram governá-lo em paz durante o resto de suas vidas. Para os outros as águas do destino não foram tão generosas...

— O que aconteceu? Muita coisa ruim? — Pergunta Cassie, aflita.

— Digamos que foram reservados infortúnios que ficaram famosos por várias gerações. Para o astuto Odisseu, os deuses reservaram numerosas e fabulosas aventuras até que conseguisse retornar para Ítaca, seu reino, e para junto de sua amada e fiel rainha, Penélope.

— Fabulosas aventuras? Conta! Conta! — Os olhos de Cassie brilham com a oportunidade única que está tendo.

— Fabulosas aventuras, Cassandra... — fala firmemente uma séria Helena — Você vai ler nos seus livros depois da ceia, que já está pronta. Já para o seu superbanho, "Garota-Maravilha"!

— É pra já, "espartana" — Rapidamente, a garota sai voando pelo apartamento, enquanto Diana e Hipólita caem na risada.

— E sem voar pela casa! Essa menina... — As três mulheres se abraçam, formando um elo entre mortais e imortais, entre humano e divino, entre heróis e a humanidade.

— Paz na Terra... — Diz Hipólita.

— Aos homens de boa vontade! — Completa Helena.

— E Mulheres! — Sorri Diana, complementando a frase ainda mais.

:: Notas do autor

Fiéis leitores de Mulher-Maravilha e Titãs, eu desejo com toda a esperança e sinceridade do humilde coração desse escritor, um Feliz Natal e um ano novo repleto de realizações. Que Deus, pai de bondade (ou Zeus ;)), sempre proteja nossas famílias e amigos. Até 2002!



 
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