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Hulk # 08

Por Otávio Niewinski

Uma sala escura. Um lugar onde quase ninguém pode chegar. Aqui, o gênio e seu antagonista estão sentados frente a frente. Como de costume.

— Então, até o momento, tudo está correndo bem. Não acha? — pergunta o gênio.

— Sim. — responde o antagonista.

— Apenas temo que sejamos descobertos antes que esteja terminado... — continua o gênio, acendendo um cachimbo.

— Covarde como sempre. — grunhe o antagonista — Não esqueça que eu posso esmagar qualquer um que tentar interferir.

— Às vezes a violência não é a resposta. — diz o gênio, entre uma e outra baforada — É justamente por esse motivo que sugeri que fizéssemos o que estamos fazendo: acabar com as armas nucleares, antes que elas acabem com o mundo.

O antagonista explode em uma gargalhada gutural.

— Que foi? — assusta-se o gênio.

— Bem, você sabe que eu sobreviveria às bombas. Se há um motivo pelo qual estou ajudando você, não é esse. — responde o antagonista, ajeitando-se na imensa poltrona.

— Eu sei muito bem os seus motivos. Você não quer que a profecia do Maestro se torne realidade. Interessante como, depois de tanto tempo, finalmente concordamos em alguma coisa, mesmo que por motivos diferentes. O que não faz uma bela lobotomia...

— Não é a primeira coisa em que a gente concorda.

— Sei... você está falando dela. Achei que estávamos conseguindo superar isso...

— Hah. Você acha que me engana? — o antagonista inclina seu corpo para frente na poltrona, quase alcançando o gênio — Acha que eu acredito que está parando de pensar nela?

Um instante de silêncio.

— Está bem. — diz o gênio — Penso em Betty a cada maldito minuto. E é por ela que estou fazendo isso. Para que ninguém nunca mais passe pelo horror que ela passou. Para que ninguém nunca mais seja vítima da radiação.

— Falando em vítima... — o antagonista reclina-se novamente.

— O que foi agora?

— Quando vamos contar pro guri?

— "Vamos"? Foi você que acertou o coitado. Você pôs ele em uma cadeira de rodas. Você vai contar pra ele que fez isso, e é bom fazer isso rápido, antes que ele se lembre por si próprio...

— Não! Você conta! Conta ou eu te esmago!

O gênio fita o adversário fixamente.

— Você sabe que dependemos um do outro agora. É por isso que estamos conseguindo deixar as coisas calmas por aqui. Esse assunto vai ser resolvido da forma que eu disse.

— Cai fora daqui. — resigna-se o adversário — Não agüento mais ver a tua cara.

— Certo... até logo, Hulk.

— Não precisa ter pressa, Banner.

A figura do gênio se desfaz aos poucos, deixando o enorme monstro esmeralda sozinho na sala escura. Na sombria mente que ambos, a contragosto, compartilham.

Nova Desordem Mundial

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Banner acorda em um sobressalto. Olha para os lados, ainda tonto pelo brusco despertar. Ele olha para a poltrona ao lado, onde está outro homem. Ele o reconhece imediatamente: Rick Jones.

— Estamos quase chegando. Já tô vendo o aeroporto. — fala Rick.

Ele se debruça por sobre o outro e olha pela janela do avião.

— É mesmo.

A aeronave aterrissa e os dois desembarcam. Banner empurra a cadeira de rodas de Rick e eles pegam sua bagagem. Pouca coisa; apenas o mínimo para que sua missão atual seja cumprida. Um televisor ligado no saguão do aeroporto chama sua atenção.

— ... e o exército da Índia divulgou que duas instalações militares foram atacadas na última semana. Ogivas nucleares foram roubadas, com um modus operandi idêntico ao das recentes invasões a bases militares na China e no Paquistão. Imagens das câmeras de segurança revelaram que as armas foram retiradas da instalação por um imenso túnel subterrâneo, escavado de fora para dentro da base, provavelmente por um terrorista meta-humano. A velocidade e precisão do ataque não permitiu que a segurança da base atuasse a tempo; e a extensão do túnel, mais de 30 quilômetros, tornou mais difícil ainda a busca pelo terrorista, que acabou fugindo sem deixar vestígios. Obviamente o terrorista utiliza um equipamento de indução de imagens, pois sua imagem aparece camuflada nas filmagens, como pode ser visto nesta fita liberada pelas autoridades indianas.

A TV exibe as imagens da câmera de segurança, que mostram alguém que parece ser o palhaço Ronald McDonald amarrando pesadas bombas e, depois, erguendo-as nas costas, como se fosse um fardo de feno, e desaparecendo no túnel.

— Ronald McDonald? — diz Rick.

— Fui eu que escolhi. — responde Banner — Da próxima vez, o Hulk escolhe. Parece que ele vai usar o Charles Bronson. Ele adora os filmes do Charles Bronson.

Robert Bruce Banner e Richard M. Jones saem do aeroporto e tomam um táxi. Eles estão em Londres para garantir um mundo melhor. Ou não?

Na tarde seguinte, em um local ermo no interior da Inglaterra, um pequeno monomotor sobrevoa um descampado. O piloto, bem-humorado, tenta descontrair seus dois passageiros. O mais novo, a seu lado, no banco do co-piloto. O outro, sentado no fundo da aeronave.

— Então, esse é o seu primeiro salto por aqui, senhor...?

— Kenner. Bruce Kenner. — responde o homem do fundo do avião — É, eu sou pára-quedista há um bom tempo, mas aqui na Inglaterra vai ser a primeira vez.

— Sabe, eu alugo o meu avião para o pessoal que salta de pára-quedas faz tempo, mas nunca ninguém pediu para vir pra essa região. Deve ser porque o pessoal tem medo de invadir área restrita do exército... tem uma base que fica alguns quilômetros para lá.

O piloto olha para trás e vê apenas o rapaz na cadeira de rodas.

— Ué, cadê o Kenner? — pergunta o piloto.

— Já pulou... — responde Rick.

O piloto abre a boca para falar alguma coisa quando vê o pára-quedas que há pouco estava nas costas do recém-desaparecido largado no chão do avião.

— Cacilda! Ele vai se esborrachar lá embaixo!

Rick se aproxima.

— Se eu te contar, você jura segredo?

— Como assim? Do que você...

Rick pisca o olho.

— Ah, não brinca! — diz o piloto — Ele é uma meta? Qual deles?

— Bom, eu não posso dizer o nome. — responde Rick — Sabe como é esse negócio de identidade secreta. As paredes têm ouvidos...

— Que é isso! Eu não conto pra ninguém! Dá pelo menos uma pista!

— OK. Ele é mais rápido que uma bala... mais poderoso que uma locomotiva...

Alguns quilômetros dali. Em uma instalação subterrânea indetectável. Em uma sala de controle, onde há imensos telões e vários terminais de computador, cada um operado por um homem uniformizado. Junto a um terminal, outro homem, em um traje Armani preto, colhe informações.

— Novidades, enfim? — ele pergunta ao operador.

— Sim, senhor! O senhor estava correto, como sempre. As evidências de que o Hulk é o meta-humano que está roubando as armas nucleares se confirmaram. Acabamos de rastrear sua energia gama residual na base militar ao norte daqui.

— Perfeito. — diz o homem de terno — Vamos agir.

Hulk aterrissa pesadamente em solo britânico, após ter trocado de lugar com Banner durante a queda. Rapidamente, começa sua operação. Usando sua força descomunal, o monstro começa a escavar o túnel que, ao ser finalizado, desembocará no interior do silo onde são guardadas as bombas gama da base militar. Então, como sempre, levará todas as ogivas para o túnel, onde sairá no mesmo local onde está agora, e com alguns saltos chegará ao oceano, onde manterá as ogivas escondidas até o momento de levá-las ao seu destino final. Ou assim ele espera.

No pequeno aeroporto, Rick Jones desce do avião, auxiliado pelo piloto, que empurra sua cadeira de rodas.

— Eu confiei em você porque achei que você é um cara legal! — fala Rick — Mas não esquece: boca-de-siri, hein?

— Pode deixar, garoto! — responde o piloto — O segredo do teu amigo tá guardado! Eu sou um túmulo!

Eles se despedem e Rick locomove-se até o carro alugado, adaptado para deficientes, que dirigirá até o ponto onde deverá se encontrar com Banner. Enquanto isso, o piloto corre até um telefone e disca um número.

— Alô? Carmem? É o Nigel! Cala a boca, mulher! Deixa eu falar pelo menos uma vez na vida! Você não sabe quem alugou o meu avião hoje! Mais rápido que uma bala! Mais poderoso que uma locomotiva! Isso, ele mesmo! O Homem-Aranha!

Hulk termina a escavação do túnel e adentra o silo, já com seu indutor de imagens ativado. Porém, rapidamente percebe que não está sozinho. Vários homens uniformizados e armados o esperavam. Diante deles, um homem elegantemente trajado.

— Eu vejo gente morta! — diz o homem, olhando para o Hulk, que com o indutor de imagens possui a aparência do ator Charles Bronson — Boa tarde, doutor Bobby. Há tempos não nos encontrávamos.

Hulk imediatamente reconhece seu interlocutor.

— Páris.

— Que bom que ainda lembra de mim! — fala Páris. Logo atrás dele, Hulk nota a guerreira Atalanta, membro do Panteão, a organização comandada por Páris — Sabe, tenho rastreado você desde que escapou da Área 102, meses atrás. Na verdade, e acredito que você não saiba disso, fomos nós que tentamos libertá-lo da base (*). Mas, por alguns erros na operação, acabamos perdendo você. Finalmente nos encontramos novamente.

— Como me achou?

— Não foi muito difícil. — responde Páris, aproximando-se — Ouvi a notícia da sua morte (**), mas entendo o suficiente desse ramo para saber que isso raramente é o que parece. Depois que estes ataques a bases militares começaram, usei minha influência para investigar cada caso mais a fundo, e percebi alguns pontos em comum. Quer saber quais são?

— Não, mas aposto que você vai me contar.

— Com certeza. E não se preocupe, temos bastante tempo. Utilizei meus contatos no exército inglês para garantir que ninguém entrará neste silo até irmos embora. Aliás, eles ficaram muito gratos quando disse, minutos atrás, que eles estariam sob ataque e que eu conseguiria debelar esta ameaça. A propósito, pode desativar este indutor de imagens ridículo. Cuidei para que todas as câmeras fossem desligadas.

Hulk desliga o indutor. A imagem de Charles Bronson gradualmente se metamorfoseia no monstro esmeralda.

— Assim está melhor. — continua Páris — O serviço de inteligência do Panteão relacionou todos os ataques e o que exatamente foi levado. Você sabe, essas informações não são facilmente liberadas pelos governos por aí. Ninguém quer admitir que teve seu poderio bélico reduzido. Mas demos um jeito. E cruzando as informações, descobrimos que a maior parte das bombas roubadas eram...

— Bombas gama. — interrompe o Hulk.

— Exato! E, mapeando os ataques, percebemos que o invasor estava seguindo um "roteiro turístico": China, Índia, Paquistão... e que a próxima base com bombas gama no caminho seria exatamente essa. Então, começamos a monitorar picos de radiação gama em um raio de 50 quilômetros quadrados da base. Hoje, finalmente, tivemos uma confirmação positiva. E aqui estamos. Como vê, é mais difícil se esconder do que parece. Tentamos rastrear também os vôos, mas obviamente você deve estar usando um nome falso...

— Não tenho tempo para isso, Páris. — fala o Hulk — Você sabe que não pode me deter. Saia do caminho antes que eu te esmague, e a todos esses soldadinhos também.

Atalanta movimenta-se rapidamente e aproxima-se de Páris, já prevendo um ataque do gigante verde.

— Calma, doutor. — considera Páris — Na verdade, não vim aqui para detê-lo. Tenho uma proposta interessante para fazer.

— Não estou interessado. Cai fora! — resmunga o Hulk.

— Bem, temos duas opções: ou você ouve a minha proposta na base do Panteão, e nesse caso sairemos daqui juntos e você permanecerá incógnito, ou podemos começar um tiroteio aqui dentro, e você será desmascarado. A mentira sobre a sua morte virá à tona e você não poderá continuar o seu plano.

Hulk encara Páris com olhos furiosos de cima a baixo. Ele considera todos os pontos para tomar sua decisão.

— Muito bem, do que se trata?

— Excelente resposta, doutor. — sorri Páris — Por favor, faça emergir seu alter ego fracote. Se é que isso é possível, pois as suas configurações mudam mais rápido do que consigo acompanhar. Então, ponha um uniforme do Panteão e vamos sair daqui, com você misturado aos demais soldados.

Na saída, Páris reporta-se ao comandante da base, dizendo que a estratégia obteve sucesso parcial: o Panteão conseguiu rechaçar o invasor e nada foi roubado, porém o mesmo não foi capturado. O comandante agradece o auxílio e diz que irá solicitar um relatório em um momento oportuno. Páris concorda e embarca, com os demais soldados, Banner entre eles, no enorme jato que os esperava do lado de fora. Já acomodados dentro da aeronave, Banner pergunta:

— E então? Qual é a sua proposta?

— Espere chegarmos à base do Panteão. Temos antes uma parada a fazer.

O jato pousa próximo a uma estrada localizada entre a base militar e a instalação do Panteão. Lá, um veículo parado, cercado por pick-ups pilotadas por agentes de Páris. Rick Jones é retirado do carro e levado para bordo do jato, onde surpreende-se ao encontrar Páris e Banner.

— Bruce, o que está acontecendo aqui? — pergunta Rick.

— Não se preocupe, sr. Jones. — diz Páris, enquanto o jato decola novamente — Se não concordarem com minha proposta, estarão livres para ir. Se concordarem, tanto melhor.

— Também ainda não sei o que é, Rick, mas pelo bem do plano é melhor que escutemos o que ele tem a dizer. — responde Banner.

De repente, um dos agentes do Panteão aproxima-se de Banner e, com uma sucessão de rápidos movimentos, coloca um dispositivo na orelha direita do cientista, abre uma das portas do jato e arremessa-o em pleno ar, já a centenas de metros de altitude. A despressurização arremessa mais alguns agentes e vários objetos para fora do jato.

— Páris! Eu sabia que não dá pra confiar em você! — esbraveja Rick, assustado, segurando-se o mais firme possível.

— Segurem este homem! — diz Páris, prontamente atendido pelos agentes do Panteão — Eu juro, sr. Jones, que não tenho nada a ver com isso!

Um dos agentes aproxima-se da porta do jato para fechá-la, e antes observa que o cientista já está se transformando em pleno ar.

— Senhor, aparentemente o dr. Banner não corre riscos. — fala o agente, dirigindo-se a Páris — Seu alter ego emergiu.

— Bem, então ele sobreviverá. — responde Páris, ainda visivelmente preocupado — Amarrem este traidor, vamos interrogá-lo para entender o que está pretendendo e para quem trabalha! Enquanto isso, vamos pousar e resgatar Banner!

Um outro agente, que observa um aparelho de radar, interrompe:

— Aparentemente, não será apenas a questão de pousar, senhor... ele está se movendo, e para bem longe de nós!

Todos se entreolham.

— Sigam aquele monstro! — esbraveja Páris.

— "Sigam aquele monstro"? — diz Rick — Que tipo de ordem é essa?

— Por que não te jogaram para fora do jato? — conclui Páris.


A seguir: Hulk esmaga homenzinhos (e gosmas mutantes)! Acompanhe o Hulk até X-Cluded #04 e descubra para onde ele está indo. E volte aqui na próxima edição para conferir o desfecho da história.


:: Notas do Autor

(*) Mais informações sobre a fuga do Hulk da Área 102 em Hulk #06. voltar ao texto

(*) Em Hulk #07. voltar ao texto



 
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