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Justiceiro # 05

Por Délio Freire

Eu Acho Que Vi um Gatinho
Parte I

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Nova York — Hoje — O Último Vôo

Os pequenos olhos do homem conhecido como Coruja olham para o seu adversário caído, hematomas redefinindo o rosto que outrora já havia conquistado as mais belas mulheres. Segurando o homem, estão os responsáveis pelos ferimentos, dois de seus assistentes mais confiáveis dentre toda sua legião de assassinos; uma pequena família em meio ao gigantesco sistema podre que corrompe a Grande Maçã.

— Café? — oferece o sarcástico Coruja

O corpo do homem está moído e seus dentes quebrados impedem uma resposta mais clara a seu inimigo, porém ela chega aos ouvidos do Coruja:

— Váaa... si.... ooodê — um sorriso torto surge em meio ao sangue de seu rosto.

— Não. — o líder criminoso interrompe um dos seus aliados após este sacar da arma e apontar para a cabeça do seu ofensivo inimigo — Não aqui; meus móveis são novos. Levem-no e executem-no.

Arrastado e deixando um pequeno rastro de sangue em seu carpete, o que causa uma careta de insatisfação do Coruja, o seu desafeto é levado para um passeio sem volta. Com passos lentos, o criminoso dirige-se ao interfone:

— Debbie, chame alguém para limpar isso aqui. Imediatamente.

— Sim, senhor.

Massageando o nariz como se quisesse aliviar alguma espécie de dor, o Coruja senta-se por trás de sua escrivaninha, administrando seus negócios escusos como um executivo de primeira linha. Há anos está no ramo; não é hora de se dar um pouco de atenção e tentar ser reconhecido com o devido valor que tem? Ele ajeita-se em sua cadeira, balança-se para um lado e para outro até que um pequeno envelope chama sua atenção.

"Não o havia visto antes. Esquisito.", pensa consigo mesmo o Coruja, enquanto sua mão abre o envelope e lê a carta, deixando escapar uma expressão de surpresa.

PREZADO SENHOR,
SE RECEBE ESTA CARTA É POR QUE POSSUO ALGO VALIOSO NO QUAL ACREDITO TER GRANDE INTERESSE. O FALCÃO DOURADO ESTÁ À SUA ESPERA EM GOTHAM CITY MEDIANTE O PAGAMENTO DE UMA QUANTIA QUE SERÁ ESTIPULADA EM UM LEILÃO ENTRE POUCOS AMIGOS. CASO A PEÇA SEJA DE SEU INTERESSE, ENTRE EM CONTATO SEGUINDO AS INSTRUÇÕES ESCRITAS NO VERSO.
CORDIALMENTE,
SR. MANSON

Uma mistura de satisfação e temor percorre o corpo todo do homem; quem estaria de posse do Falcão Dourado e, mais ainda, quem poderia saber do laço íntimo que envolve seu passado e o artefato precioso em forma de ave de rapina? Quem é esse Sr. Manson? Evidentemente, quem escreveu a carta sabe que essa é uma proposta irrecusável e que ele fará de tudo para adquirir a peça.

"Definitivamente tudo", a mão levemente retorcida amassa a correspondência.

De súbito, ele ouve um pequeno toc-toc na enorme vidraça às suas costas; ele se vira rapidamente e seu corpo começa a se retorcer e a dançar continuadamente pela rajada de balas que atravessa o vidro e o retalha sem piedade. Seu corpo ganha uma forma dantesca, exalando fumaça e um mau cheiro característico. O Coruja está morto.

Vestindo roupas de um limpador de vidros, Frank Castle inclina seu corpo para trás até jogar seus pés sobre a vidraça em péssimo estado. Em poucos segundos, seu corpo arrebenta o pouco que havia e entra no escritório do criminoso. Rapidamente ele ajeita-se e corre até a porta, trancando-a para iniciar a revista do ambiente.

Praticamente tudo é jogado ao chão. Em algumas gavetas ele encontra papelotes de cocaína, talões de cheque e algumas moedas antigas de colecionador, até chegar ao que realmente lhe interessa. Ele retira um conjunto de documentos que podem incriminar pelo menos meia dúzia de sócios do Coruja. Material farto que irá cair em breve nas mãos das autoridades como um presentinho pessoal do Justiceiro.

Frank aproxima-se do corpo do homem. Ele observa o cabelo com corte ligeiramente erguido nas laterais, relembrando o animal que lhe dera nome, as roupas verdes berrantes e os olhos assustadoramente abertos. Com cuidado, o Justiceiro fecha os olhos do outro; em seguida, repara no cartão que está preso em suas mãos e o retira.

Após ler cuidadosamente a mensagem, seus pensamentos começam a questionar se o convite que o Coruja recebeu merece uma investigação. Interrompendo seus pensamentos, a porta do escritório é arrombada e alguns capangas armados surgem para vingar seu líder morto. Com a habilidade que lhe caracteriza, Frank Castle aponta a sua submetralhadora Heckler & Koch MP5-A2 para eles e atira.

Nova York — Anos 70 — Dois Perdidos numa Noite Suja

Grogue com a pancada que recebeu na cabeça, o jovem negro Jeremiah Blackmore ainda tenta se recuperar quando leva um tiro no braço que o faz cair no meio da rua. Um braço pequeno mas com uma força maior do que se poderia imaginar, o ajuda a levantar antes que seja novamente atingido pelo fogo cruzado.

— Quá! Quá! — encostado contra a parede, Oswald Cobblepot, o Pingüim, tenta retomar o fôlego, enquanto observa o seu aliado xingando ininterruptamente.

— Filho da puta! É um desgraçado filho da puta! Branquelo de merda!

— Ei — com um tapa, Cobblepot tenta fazê-lo se acalmar. — Você corre na frente do cara, igual a um maratonista, e espera o quê? Não te disse que deveríamos matá-lo rápido?

— Porra, Pingüim! — Blackmore estanca o sangue com uma das mãos — Tenho que ir ao hospital! Porra!

O homem baixinho de fala engraçada e com roupas ligeiramente carcomidas pelo tempo saca sua arma e aponta para o outro ombro ainda inteiro do jovem negro.

— Ou ficamos aqui e esperamos nossos amigos terminarem ou nada feito. Algo contra?

— Não — o ódio começa a percorrer Jeremiah Blackmore ao encarar o Pingüim.

Cobblepot abaixa a arma, volta a se recostar contra a parede e fica envolto em pensamentos; sua carreira do crime está começando e é uma das mais promissoras. Seus aliados no momento formam a equipe de elite do grande chefe do crime Giuseppe Marco. O que Dom Marco pede, Cobblepot e seus amigos fazem. Foi sempre assim desde o começo e será até o fim. Mas para Cobblepot e um de seus amigos, o fim do império de Dom Marco está cada vez mais próximo.

Em meio à rajada de balas, se ouve um grito seguido de grunhidos que parecem a agonia final de um homem. Os tiros cessam e Cobblepot cuidadosamente sai de seu canto para ver a cena: o Coruja, um de seus aliados, está em pé segurando alucinadamente uma faca. Ao chão, um rio de sangue sai da garganta do líder da quadrilha inimiga e vai até o ralo.

A alguns metros, os homens que se opuseram a quadrilha de Dom Marco saem correndo até sumirem das vistas de seus adversários.

— Criminosos de baixo nível são como gado solto correndo no pasto. — o Coruja limpa a faca em um lenço branco — Corte a cabeça do chefe da manada e o bando todo se dispersa.

Nova York — Anos 70 — Pam Grier's Disco Music

Casais com camisas coloridas e calças boca-de-sino requebram e ensaiam passos ao som da disco music que domina a pista de dança. Afastados da coreografia estão dois homens pequenos e agitados.

— Por que diabos aqui? — pergunta o Coruja, nervoso com o barulho.

Quá! Quer melhor lugar do que esse? — o Pingüim aponta para o redor — Essa multidão se agita e nós conspiramos...

— É verdade o que me disse? — os dedos gorduchos do Coruja remexem as pedrinhas de gelo dentro do Whisky.

— Claro. O que achou da idéia?

O Coruja fica calado por alguns minutos e estufa o peito como se fosse buscar a coragem em algum lugar escondido.

— O tempo de Dom Marco chegou ao fim; eu estou com você.

— Eu não esperava menos de quem considero tanto quanto um irmão — Cobblepot ergue o copo em um brinde — À nossa aliança! Que ela gere os mais doces frutos! Saúde!

O tilim-tilim dos dois copos faz os dois criminosos sorrirem.

— Mais alguém sabe? — pergunta o Coruja, a cabeça ligeiramente caída — Não sei se poderemos confiar em todos do grupo.

— Na minha opinião — Cobblepot acende uma cigarrilha — não podemos confiar em ninguém.

— Mortos?

— Todos eles? Não... Não temos condições e nem tempo pra isso. Apenas devemos dar um sumiço nos mais novos, nos que estão mais apaixonadamente nos negócios. Os veteranos ficarão do nosso lado; já viram a sorte mudar de lugar e a liderança sair de uma mão para a outra diversas vezes.

— Blackmore...

— Sim. Blackmore é impulsivo, jovem e tem uma dívida de gratidão com Dom Marco. Vai ser um dos que teremos que executar.

— Deixe por minha conta — o Coruja mostra a sua faca afiada e ela brilha em meio às luzes da discoteca.

— Esconda isso! Quá!

O Pingüim segura a mão do Coruja e o obriga novamente a deixar a arma branca escondida em meio ao seu capote.

— Terá como mostrar sua habilidade na hora adequada. — Cobblepot solta uma pequena baforada — Vai ao encontro de sábado à noite?

— Dom Marco te chamou também?

— Sim, claro.

— E o que ele quer?

— Sei tanto quanto você. — o Pingüim se aproxima do outro, a mão em seu ombro — Acho que é mais um favorzinho que ele quer de nós... Só eu, você e ele.

— Talvez seja a hora mais indicada pra nós...

— Foi o que eu também pensei. Teremos uma semana até lá e poderemos planejar a forma de nos livrarmos dos empecilhos. De acordo? — o Pingüim estende a mão para seu aliado.

— De acordo — o Coruja aperta a mão estendida.

Nova York — Anos 70 — O Falcão Dourado

A imponente figura do Falcão Dourado, feita com ouro maciço e cujos olhos estão incrustados de diamantes, parece criar vida diante dos surpresos Oswald Cobblepot e Coruja. Ambos mal percebem o sorriso de satisfação no rosto de Dom Giuseppe Marco que olha para eles como um pai satisfeito em dar o brinquedo certo para seus estimados filhos.

— Não disse? Não é maravilhoso? Uma obra com grande valor artístico, afetivo e comercial. Uma peça rara fabricada em Colônia, na Alemanha, e comprada por uma fortuna por meu avô. É herança de família.

— E quer que fiquemos com ela? — o Coruja parecia não acreditar; aparentemente seu chefe tinha mais confiança nos dois do que demonstrava.

— Não exatamente. Quero que me acompanhem a um local predeterminado por mim para deixar a salvo essa peça tão valiosa.

— E porque não o faz sozinho, Dom Marco? — pergunta o Pingüim.

Dom Giuseppe Marco, no alto de seus setenta e poucos anos, mostra o próprio corpo magro, quebradiço e aparentemente frágil.

— Sou um homem da cosa mentale... Ação ou força bruta não são comigo; Deus sabe que o pouco das últimas forças que me deu foram usadas para fazer meu pequeno garoto. — ele segura os próprios testículos — Isso eu tenho de sobra! Colhões!

— Não duvidamos disso. — Cobblepot sorri — Seu garoto será um homem forte!

— Por isso, meus amigos — Dom Marco põe seus braços sobre os ombros — Preciso que me ajudem nesse favor pessoal. Acompanhem-me até o local que escolhi para enterrar o meu Falcão Dourado.

Nova York — Anos 70 — Cova Rasa

O carro pára em meio a um terreno arenoso e de vegetação rasa; a pequena luz em frente ao assento do volante é acesa, recaindo sobre o rosto fechado do Coruja. Ao seu lado, o Pingüim recurva o corpo para o banco traseiro, acendendo um cigarro para Dom Marco.

— Grato, Cobblepot. — o velho criminoso deixa escapar uma pequena baforada de seu cigarro — Não esqueça que, assim que deixarmos essa preciosidade na cova, vocês receberão, cada um, uma gratificação à altura de seus feitos.

— E o que nos impedirá de querer roubá-lo? — Cobblepot aponta para o Falcão Dourado.

Dom Marco deixa escapar uma risadinha de assentimento e, com um gesto das mãos, pede aos seus dois homens que saiam do carro. Assim que as portas se fecham, os dois capangas se dirigem até o porta-malas e retiram duas pás.

Caminham por uns dez minutos em direção ao norte, com passos lentos como se estivessem em um passeio em família. Cobblepot e Dom Marco conversam animadamente alguns passos à frente do Coruja que, meio distante, os segue com seu olhar, a pá caindo sobre seu ombro.

Em um determinado ponto, o italiano ergue a mão que segura o cigarro.

— Cavem aqui.

Sem discutir as ordens de seu chefe, os dois homens cavam com suas pás e abrem naquele terreno arenoso um espaço suficiente para abrigar o Falcão Dourado. Cobblepot faz o seu trabalho com alguns intervalos para descansar, porém o Coruja demonstra uma resistência física maior e uma mórbida obstinação em realizar a sua tarefa.

Quando terminam, observados por Dom Marco, eles pacientemente aproximam-se de seu líder.

— Ótimo trabalho! — mais um cigarro aceso; ele começa a desembrulhar a ave preciosa envolta em um tecido grosso — Aqui está, senhores. Devem guardar isso com a própria vida, pois este Falcão Dourado não tem preço para mim; é meu amuleto da sorte, tudo que tenho devo a essa peça que passou de geração à geração.

As mãos do Coruja tremem quando segura o objeto; o Pingüim observa os dois e para seu chefe abre um largo sorriso, enquanto balança a cabeça repetidas vezes para os dois como se apenas significasse que concordasse com as palavras de Dom Marco.

Mas o Coruja entende. Ele ergue o Falcão Dourado acima de sua própria cabeça de modo veloz e inicia o segundo movimento, golpeando com força sobre a cabeça do líder mafioso, que não percebe de onde vem o primeiro impacto.

Caindo sobre a presa frágil pela idade, o Coruja imprime um ritmo cadenciado às sucessivas pancadas sobre a cabeça do velho que, em meio a esguichos de sangue que respingam sobre as roupas do Pingüim, não abre a boca, morrendo completamente em silêncio, ouvindo apenas o baque surdo do objeto sobre sua têmpora.

— Quá! Quá! Pare! — Cobblepot se aproxima do aliado — Não vê que ele já está morto?

Com o corpo ligeiramente caído sobre o velho e arfando muito, o Coruja levanta-se, a pequena estátua dourada manchada de sangue. Ele lança um olhar injetado para o Pingüim.

— E agora?

— Vamos manter a última vontade de Dom Marco... Vamos deixar a peça aqui e deixá-lo vigiando seu próprio objeto da sorte. Após assegurarmos o controle de todos os homens dele e seus negócios, vamos voltar e rachar esse que, a partir de agora, é nosso pé de coelho.

Displicentemente, o Coruja joga o Falcão Dourado sobre o buraco e começa a cavar mais e mais.

Nova York — Anos 70 — April

É mês de abril quando o buraco, exposto tal qual uma ferida, está vazio. O Falcão Dourado havia voado para bem longe agora, algumas semanas depois que os dois criminosos dominaram alguns dos territórios gerenciados pelo seu ex-líder. Com um gesto rápido, o Coruja segura o Pingüim pelo colarinho e pressiona seu pescoço de forma ameaçadora.

— Você! Você me enganou!

— Quá! O que está dizendo, homem! Acha que sou idiota a ponto de roubar a estátua e vir aqui para ficar ao seu lado?

— Seria a melhor forma de não levantar suspeitas! — a mão do Coruja parece ficar fora de controle, pressionando ainda mais — Diga onde está o Falcão Dourado! Diga!

— Me solte, desgraçado! — com um gesto brusco com as mãos, ele afasta o outro. Ambos se entreolham furiosamente, enquanto suas mentes não conseguem encontrar uma resposta para a cova vazia que não seja a traição um do outro. Mesmo o corpo de Dom Marco não está mais lá; nem um sinal do morto ou de seu objeto que lhe era tão precioso em vida.

— Tanto trabalho que tivemos para dizimar a escória que cercava Dom Marco... — Cobblepot morde a ponta de sua cigarrilha — E agora você joga tudo para o alto como se não tivéssemos construído nada! Seu maníaco filho da puta!

Quando Cobblepot faz menção de pular em direção ao seu mais novo desafeto, o Coruja saca de seu punhal.

— Eu vou embora, Pingüim. Mas saiba que, enquanto você viver, ficará me devendo essa estátua. É uma questão de honra.

Enquanto ambos se afastam, cada um se dirigindo ao seu próprio carro, a tensão que paira pelo ar é tanta que mal percebem soluços e choros em uma vegetação rasteira, a alguns metros do buraco onde o corpo de Dom Marco estava. Sentado desajeitadamente, segurando o Falcão Dourado e impedindo o choro compulsivo de começar, está um pequeno adolescente que sente que seu amadurecimento chega mais cedo, porém acompanhado com o gosto amargo do desejo de vingança.

No próximo número: Após Frank ler a carta endereçada ao finado Coruja, decide ir a Gotham para dar um sumiço em alguns vilões que o leilão do Falcão Dourado pode vir a reunir e, entre rajadas de balas, confronta-se com Pingüim, Rino e o Crocodilo.



 
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