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Justiceiro # 06

Por Délio Freire

Na edição Anterior: Vimos a morte do Coruja pelas mãos de Frank Castle. E vimos o passado nebuloso envolvendo o início da carreira criminosa do Coruja e do Pingüim matando seu antigo capo, Dom Giuseppe Marco, e roubando sua preciosa estátua conhecida como Falcão Dourado. Mas, após desaparecer na década de 70, o artefato ressurge nos dias de hoje em um leilão clandestino em Gotham. Cabe ao Justiceiro descobrir o que está acontecendo.

Eu Acho Que Vi um Gatinho
Parte Final

Eu Vi! Eu Vi Mesmo um Gatinho!

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Aeroporto de Nova York — Hoje — Apertem os Cintos

— Ó, Deus do céu! — a cabeça abaixa-se rapidamente, pegando o saco de papel para mais uma de suas intermináveis sessões de vômito, para se refazer alguns segundos depois — Espero que me desculpe...

Hummpf...

— É constrangedor, realmente. Se quiser eu posso ir para outro assento...

— Não se preocupe.

— É que vôos sempre me fazem mal, entende? Meu nome é Campbell, advogado — ele estende a mão para o homem ao seu lado; não encontra retorno.

— É um prazer, Advogado Campbell. Que seus problemas estomacais sejam passageiros.

— Obrigado. — o homenzinho recolhe a mão estendida inutilmente — Está indo a Gotham a passeio, senhor...

Doffer. John Doffer. A trabalho.

— Ah, sim. De que ramo?

— Limpeza pública.

— E é uma boa área?

— Muito boa, Advogado Campbell. Não me surpreende a eterna capacidade do homem de fazer sujeira; minha função é exatamente dar um fim a ela.

— Estamos decolando... Eu não sabia que o serviço de limpeza pública de Gotham precisava de algum tipo de consultoria. Imaginei que tivessem o melhor da América.

— O melhor? Exagero... O pessoal de lá tem muita propaganda e pouco resultado. A sujeira prolifera em um ritmo desordenado por lá; a gestão atual, extremamente omissa, apenas joga o lixo para debaixo do tapete — pela primeira vez, John Doffer direciona seus olhos frios para Campbell — Eu o elimino.

— Anhh... — o advogado gorduchinho bate os dedos um no outro, ligeiramente assustado sem saber o porquê — Vai ficar muito tempo em Gotham?

— Uma ou duas semanas. Tentarei passar despercebido pela concorrência.

As pernas do rapazinho com o walkman, sentado na primeira fila, não param de tremer. Em sua mente, uma sucessão desordenada de manchetes de jornais imaginários, mulheres seminuas ao seu redor, estrelas disputando seu papel no principal blockbuster da semana. Tudo depende apenas dele. De suas palavras iniciais. De fazer valer seus quinze minutos de fama. Ele se levanta.

— Fiquem calmos! — ele segura o que aparenta ser uma granada de mão — Se não tentarem resistir, irão sobreviver. Eu estou tomando posse desse avião em nome do Movimento...

"Amadores" — pensa consigo mesmo John Doffer, ou Frank Castle, também conhecido como Justiceiro — "São definitivamente o pior tipo. Os que mais oferecem trabalho por sua imprevisibilidade, maior risco aos civis e nem um pingo de diversão para mim".

— Tem um lápis, Advogado Campbell?

— Céus... Eu não vou agüentar... — enquanto põe uma das mãos sobre a barriga, tentando conter o incessante vai-e-vem estomacal, o advogado passa um lápis para Frank.

— Ei, por favor, guri! — Frank o chama com autoridade.

— Cale a boca! — o aprendiz de guerrilheiro ameaça puxar o pino da granada.

— Preciso ir aí? — o ex-fuzileiro ameaça se levantar.

— Não. Droga. Merda foderosa... — ele caminha com passos pesados, como uma criança contrariada — O que diabos...

— Escute. Hoje estou bem-humorado. Pode, por favor, me entregar essa granada de quinta categoria e voltar a se sentar em seu lugar? Estou com pressa e meu novo amigo aqui não está passando bem.

Vá se foder! Em nome do Movimento...

O lápis sai diretamente da manga direita de Frank Castle e vai em direção ao olho do garoto; em questão de segundos, o Justiceiro pressiona o braço com extrema força em um movimento de alavanca com o lápis ainda dentro do olho que, num movimento rápido, salta de sua órbita e vai para o chão, quicando uma ou duas vezes.

Em meio a um grito mudo de desespero e dor, o garoto vai ao chão, buscando debaixo das poltronas o seu olho perdido.

— Alguém, por favor, poderia imobilizá-lo? — Frank joga a cabeça para trás, buscando algum comissário de bordo — Estamos em pleno vôo e quero chegar hoje ainda em Gotham City.

— Você arrancou o olho dele...

— Não se preocupe. Ele ainda tem o outro.

Campbell despeja uma enorme quantidade de vômito em um outro saco plástico, sua cabeça começando a latejar.

Gotham City — Hoje — Manson

À meia-noite em ponto, Frank Castle encontra-se na porta de um galpão onde se dará o leilão da peça conhecida com o Falcão Dourado, onde estariam presentes o falecido Coruja e o Pingüim. Duas batidas rápidas na porta.

— Quem é você?! — um homem com nariz adunco mostra parte de seu rosto em uma brecha retangular na porta..

— Gostosuras ou travessuras?

— Quê?

— Sou o representante do Coruja. O filho dele.

— Não fomos informados que ele mandaria representantes.

— Ah, eis meu cartão de visitas.

O cano da arma automática intimida o guardião, que não vê outra solução a não ser abrir a porta. Assim que põe os pés no galpão, Frank guarda sua arma. Suas vestimentas estão um pouco mais rasgadas, no estilo grunge, seu cabelo possui um corte diferente ligeiramente espetado e um cavanhaque em seu rosto dá o toque final para interpretar o imaginário filho do Coruja.

— Sou John Doffer. Filho do Coruja; vim aqui para adquirir o Falcão Dourado. Enquanto o criminoso começa a revistar o visitante e a desarmá-lo, os olhos do Justiceiro percorrem o ambiente, percebendo como é hermético e de difícil invasão. Caso necessário, a única saída realmente é pela porta principal. Um novo toque na porta é dado, a identificação é feita.

Quááááá... Não toque em mim! — o Pingüim irrita-se, seus seguranças protegem seu roliço corpo e os homens responsáveis pela segurança do leilão sacam suas armas.

— Não sejam rudes... — nesse momento, surge o responsável pelo leilão.

— Sr. Manson, eu presumo. — a ave de rapina deixa sair uma pequena baforada de sua piteira — Vou direto ao assunto: quanto quer pela peça?

— Calma, sr. Cobblepot. Tudo no seu devido tempo. — Manson olha para os lados — Onde está o Coruja?

— Eu o represento. — Frank Castle dá um passo à frente, encarando o outro homem.

— Pena. Gostaria de falar com ele, ao menos.

— No momento... ele está incomunicável.

— Que seja. Você dará meu recado a ele, então.

Uma fuzilaria de rifles e submetralhadoras atingem eficientemente os capangas do Pingüim. Aos seus pés, um mar de sangue e corpos perfurados. Do alto, uma tropa de elite paga por Manson aponta suas armas para as cabeças do Pingüim e do suposto filho do Coruja.

— É hora de vocês me pagarem. Lenta e dolorosamente.

Gotham City — Hoje — Asfalto Selvagem

A tremenda dor da nuca vem acompanhada por uma imensa vontade de vomitar. Nesse momento, Frank Castle se lembra do Advogado Campbell. Mas, nesse momento, seu companheiro de viagem atual é o Pingüim, que, como ele, possui uma tremenda dor de cabeça ao se levantar. Estão em meio a uma enorme rua sem saída. Do alto de um prédio, uma voz ressoa em um alto-falante.

— Reconhece isso, senhor Cobblepot? — Manson mostra o Falcão Dourado, o artefato de ouro com olhos cravejados de diamantes — Sabe o que isso representa para mim? Morte, traição, solidão. E vocês dois são responsáveis por isso.

— Não sei do que está falando.

— Eu falo de morte e vilania! De traição orquestrada por duas aves de rapina contra meu pai!

Quá! — o Pingüim aperta seus olhos para enxergar melhor o interlocutor no alto do prédio — E quem seria seu pai?

Dom Giuseppe Marco.

A piteira cai da boca do Pingüim.

— Sim. Depois de quase 30 anos, superando a miséria e a falência de minha família, superando a perseguição dos ex-aliados da Máfia e reconstruindo toda minha vida, chegou a hora de me vingar de você, Oswald Cobblepot, e da família do Coruja. Eu vi você e o Coruja matarem-no. Uma criança em meio à vegetação, assistindo impassível à execução de seu pai. Após vocês saírem, tratei de cavar a cova e de retirar o artefato. Muito me custou preservá-lo em meio à pobreza... mas cada sacrifício vale a pena neste momento.

Pressionando uma alavanca, Manson abre duas garagens que dão direto para a rua sem saída, fazendo surgir dois homens gigantescos e monstruosos. O primeiro a sair possui a pele escamosa, esverdeada, um andar arrastado e um queixo proeminente. O segundo veste uma espécie de roupa de malha acinzentada, seu corpo é largo, porém extremamente ágil; um único chifre sai do centro de sua testa.

"Merda" — pensa consigo mesmo o Justiceiro — "O Crocodilo e Rino."

Matem-os! — ordena Manson, segurando com uma das mãos o artefato que matou seu pai.

Correndo como um imenso lagarto, o Crocodilo parte para cima do Pingüim que, sem alternativas e condições de enfrentá-lo, corre pateticamente em direção oposta, segurando sua cartola. Ofegante, ele tenta dialogar.

Quá... Uhff... Quá... Crocodilo... Não jogue anos e anos de parceria fora...

— Não somos parceiros! — em um movimento rápido, o Crocodilo pula sobre o pássaro e aplica-lhe uma gravata — E estou sendo muito bem pago.

— Eu pago o dobro.

— Não.

Quá!!!!! — a pressão em seu pescoço é insuportável — Quá....!!! Quá...!!! Quatro vezes mais!!!!

— Feito! — o Crocodilo levanta-se e puxa o braço do Pingüim, ajudando-o a se levantar — Eu lhe mostro como sair daqui, "chefe".

O rosto de Manson fica cheio de surpresa e fúria. A possibilidade de que um dos homens pudesse traí-lo não lhe passava pela cabeça, e agora ela se tornava um fato para enchê-lo de fúria. Só lhe resta assistir à morte do homem que ele pensa ser o filho do Coruja.

— E você? — Rino está com os braços largos, as plantas dos pés firmemente plantadas ao chão para um eventual impulso contra seu adversário — Você vai me oferecer quanto para poupar sua vida?

— A única coisa que merece.

O Justiceiro corre em direção ao monstruoso ser, aproveitando sua guarda aberta, e aplica-lhe um soco no rosto; em sua mão fechada, está uma pedra para que seu golpe ganhe em potência.

A cabeça de Rino apenas balança para o lado. Um filete de sangue sai de seus lábios. Ele sorri.

— Gostei. Agora é a minha vez.

Abaixando a cabeça como o animal que lhe batiza, Rino avança como uma verdadeira locomotiva e num abraço mortal quase consegue cravar seu chifre no estômago de Frank que, como um toureador, esquiva-se do adversário segurando seu pescoço por debaixo da axila. A manobra não o impede de ficar à mercê do adversário, que lhe joga contra a parede. Uma vez. Duas vezes. Em seguida, Rino afasta-se.

Com a mão sobre uma das costelas, possivelmente quebrada, Frank Castle sabe que está indefeso e que terá que dar um fim à luta o mais rápido possível ou será morto. Ele retira o par de sapatos suavemente, quase de forma imperceptível.

Rino prepara um novo ataque. Seus pés batem no asfalto como se tivessem cascos e impulsionam seu corpanzil para frente. Frank, mais preparado, deixa seu corpo ligeiramente encurvado, os pés descalços e as mãos para trás. Quando o novo ataque vem, o Justiceiro esquiva-se para o lado como em um bailado; com rapidez e maestria, ele maneja as duas facas de lâminas pequenas que estavam na sola de seus sapatos.

As duas lâminas atingem a jugular de Rino, porém apenas uma fica cravada em seu pescoço. Surpreso, o enorme homem ajoelha-se de dor, tentando estancar seu sangue com as mãos. O Justiceiro aproveita e aplica à faca movimentos circulares de vai-e-vem, de baixo para cima. Em meio ao sangue e completamente desacordado, Rino cai ao chão.

— Não será isso que vai matá-lo, monstro. É preciso muito mais. Mas hoje é seu dia de sorte.

Frank Castle olha para cima, a figura assustada de Manson foge. Mas a caçada começa agora.

Gotham City — Hoje — Fim de Jogo

Momentos depois, o resultado da caçada está definido. Acuado ao chão, a presa joga os pés em movimentos sucessivos e desordenados contra seu agressor. Com uma das mãos, o filho de Dom Giuseppe Marco segura o Falcão Dourado.

— Não adianta se debater. — Frank aponta uma arma que havia encontrado durante a perseguição para Manson

— Por favor... Eu posso pagar a você... Você matou todos os mercenários que contratei. O dinheiro que eu ia dar a eles, dou para você. Eu não sei quem é, mas aquele idiota do Coruja não teria um filho igual a você.

— Se isso te alegra, saiba que o Coruja está morto. Eu o matei.

— Eu posso pagá-lo para... — Manson tenta convencê-lo.

— A vingança é mesmo uma merda.

Seis tiros são descarregados no peito de Mason pela arma do Justiceiro. Ligeiramente cansado, ferido e com as costelas precisando de cuidados médicos, Frank joga a arma para o lado e pega o Falcão Dourado.

Pássaros, que estão na beirada de uma janela, revoam para bem longe ao sentirem a aproximação da aterrorizante figura de Frank Castle. Ainda que ferido e cambaleando, seu semblante e postura se assemelha a um felino prestes a atacá-los.

Gotham City — Hoje — Banquete de Mendigo

Com cuidado, o mendigo joga as latas de lixo para o chão e começa a revirá-las. Seu cotidiano, sua vida, é uma interminável sucessão de mau cheiro, sujeira e tristezas. Às vezes, a chuva vem trazendo um pouco de alegria e limpando tudo o que ele tem de mau. Os dias chuvosos são os dias preferidos do mendigo.

Em meio a preservativos usados, meio pedaço de pão velho. Ele o pega e mastiga rapidamente. Revira o lixo mais um pouco e encontra uma velha edição da Playboy. Ele a guarda debaixo das axilas; desde cedo ele aprendeu que não se deve recusar uma dama. Revirando mais um pouco, para sua felicidade, encontra meio pedaço de bolo de chocolate com uma barata fazendo as vezes de cereja. Ele mastiga o bolo com extrema satisfação, ouvindo o som crocante ao mastigar a "frutinha".

Em meio ao escuro convidativo do latão, o mendigo observa uma peça reluzente. De um brilho enorme, quase cegante, para suas vistas cansadas. Ele enfia a mão mais fundo em meio ao lixo e puxa o artefato para si. Suas mãos tremem diante da beleza daquela peça, o lixo parece não ter maculado o dourado límpido e nem alterado o porte do falcão que tem seus olhos de diamante fixos no mendigo.

Envolvendo a peça totalmente em um papel de jornal, o mendigo sai entre pulos e lágrimas de alegria. Para ele, hoje era um dia especial. Um dia de chuva.


Na próxima edição: Um inusitado confronto entre o Sonho Americano e a Realidade das Ruas. Capitão América versus Justiceiro.



 
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