hyperfan  
 

Liga da Justiça # 10

Por Fernando Lopes

Se Eu Quiser Falar com Zeus*

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Liga da Justiça
::
Outros Títulos

Torre de Vigilância da Liga da Justiça, Lua

— Como está a situação, J'onn?

— Piorando. — o Caçador de Marte tenta dar conta dos inúmeros dados que chegam simultaneamente — O número de confrontos religiosos cresce ao redor do mundo, como se alguém os estivesse incitando. As bolsas de valores de todos os países ficaram malucas. O clima também parece estar ficando descontrolado, provavelmente devido a interferência dos deuses no movimento das marés, ciclos de chuvas e ventos. Temos protestos estourando de todos os lados: de empresários a trabalhadores, de ambientalistas a comerciantes. Os sistemas de comunicação estão ficando sobrecarregados. Acho que é questão de tempo para que as coisas fujam completamente do controle, Super-Homem.

— Obrigado, J'onn. — o semblante do Homem de Aço demonstra toda a sua preocupação quando ele se volta para seus companheiros de equipe, que o aguardam na sala de reuniões. Capitão Marvel, Flash, Aquaman, Homem-Borracha e Fóton esperam, apreensivos, por novidades. — Não sei por quanto tempo mais poderemos esperar Diana convencer Zeus da insanidade deste retorno. Se as coisas continuarem se deteriorando desse jeito, seremos obrigados a intervir.

— Você quer dizer, peitar os deuses? — os olhos de Eel O'Brien arregalam-se até ficarem do tamanho de tampas de bueiro — Quer dizer, sair no braço mesmo?

— Esperemos que não chegue a isso, Homem-Borracha. — responde Aquaman, soturno — Mas se for preciso...

— Vamos esperar. — contemporizou o Super-Homem — Dar mais um tempo a Diana. Talvez ela...

O símbolo holográfico de Oráculo surge no meio da sala, sobre a mesa da sala de reuniões.

— Lamento, Super-Homem, mas acho que não vamos poder esperar. — a voz de Bárbara Gordon parece aflita — Acho que as coisas engrossaram de vez.

— O que houve, Oráculo?

— Os satélites meteorológicos detectaram uma súbita tempestade formando-se sobre a capital do Afeganistão.

— Afeganistão? — pergunta o Flash, confuso — Mas e daí? Espera um pouco! Não foi lá que...

— ... bombardearam um templo de Zeus. — complementa o Arqueiro Verde — Acho que o sujeito não gostou muito da brincadeira.

— Meu Deus! Vocês acham que...

— Sim, Fóton. — o Caçador de Marte entra na sala — Pelo visto, Zeus perdeu a paciência.

— Então não nos resta alternativa. — analisa o Super-Homem — Temos de agir.

Cabul, Afeganistão

Desde que ascendeu ao poder, em 1996, a milícia fundamentalista islâmica Taliban governa o Afeganistão com mão-de-ferro, através da implacável observância à Sharia, o rigoroso código legal muçulmano. Em março deste ano, por ordem do governo, todas as estátuas do país — entre elas duas gigantescas imagens de Buda com mais de 1500 anos de idade, construídas em Bamyian, próximo à capital — foram destruídas por serem consideradas ofensivas ao Islã, apesar dos protestos internacionais. Há poucas horas, unidades de blindados do exército afegane repetiram a dose, reduzindo a escombros um templo em homenagem a Zeus que surgiu do nada em pleno centro da cidade.

Agora, os soldados vasculham as ruínas em busca de objetos de valor. Embaixo de um banco de mármore, o cabo Mohamed encontra a cabeça de uma estátua de Zeus ainda em perfeitas condições. "Lixo pagão", pensa o soldado, enquanto levanta a imagem acima da cabeça. "Não vai mais afrontar a glória de Alá."

— Como ousam?

Mohamed se assusta com a voz estrondosa, que parece ecoar em todas as direções. Ele não entende as palavras, mas o tom ameaçador não carece de tradução. A voz torna a ecoar.

— Como ousam atacar um símbolo da glória onipotente de Zeus?

Os militares procuram pela origem da ameaça, as armas em punho. Súbito, um grito atrai sua atenção. Paralisado, Mohamed olha para a cabeça da estátua em suas mãos. Um olhar devolvido por olhos de pedra fria, que o encaram furiosamente. Lábios de mármore se movem para expressar a fúria do senhor do Olimpo.

— Insetos insolentes! É assim que me agradecem pela chance que lhes dou? É essa a saudação que guardam para o Pai dos Deuses?

Mohamed finalmente larga a cabeça da estátua, que não chega a tocar o chão. Desafiando a gravidade, ela flutua acima dos soldados, que observam a tudo, estupefatos. Aos poucos, a imagem de Zeus começa a se materializar diante de seus olhos, o ar crepitando ao seu redor. O céu escurece e responde à fúria do deus olímpico.

— Pois saibam que ninguém desafia o poder de Zeus e sobrevive para se gabar!

Os relâmpagos agora cortam os céus em todas as direções. Os soldados, que até então permaneciam estáticos, repentinamente começam a esboçar reação. Mas não de medo, como seria de se esperar. Recuando para posições protegidas, eles se preparam para enfrentar o deus grego com o ímpeto que só a fé cega pode conceder.

< — Vamos mostrar a esse demônio pagão que ninguém pode se opor à vontade suprema de Alá! Ao meu comando, homens, abram fogo!> (**)

Os blindados afeganes manobram para colocar-se em posição e disparar contra Zeus, que permanece impassível, exceto pelos olhos faiscantes.

— Tolos! Sintam agora a ira de Zeus!

O imortal olímpico ergue o braço direito e dispara uma rajada de energia contra as tropas afegãs, que abrem fogo em resposta. Nenhum dos disparos, entretanto, atinge os alvos. O relâmpago de Zeus explode no peito do Super-Homem, enquanto os disparos dos blindados são interceptados por Fóton, Capitão Marvel e Caçador de Marte.

— Parem!

— Quem ousa interferir nos desígnios do Senhor do Olimpo?

— Você sabe quem somos, Zeus. — responde o Super-Homem, flutuando à frente de seus companheiros.

— Ah, sim... Os aliados da princesa Diana. Como se atrevem a interferir?

— Estamos aqui para impedir que faça algo de que possa se arrepender depois.

— Cuidado, criatura impertinente! Não pense que sua ligação com nossa protegida o livrará da fúria de Zeus!

— Não estamos aqui para confrontá-lo. — o Homem de Aço mede cuidadosamente as palavras antes de prosseguir. — Mas não podemos deixar que destrua estes homens. Eles estão apenas defendendo sua crença e seu território.

— Estes... insetos destruíram meu templo, rejeitaram minha oferta generosa e afrontaram o poder do Olimpo. Merecem a punição que terão.

— Não pode castigá-los por defenderem sua crença. Eles vivem aqui da mesma maneira há centenas de anos. Você não pode querer que renunciem a tudo em que acreditam de uma hora para a outra. Muito menos querer forçá-los a adorarem um deus que não reconhecem.

Antes que Zeus responda, porém, uma voz furiosa interrompe o diálogo:

— Pois eles vão reconhecer a soberania de Zeus. — grita Hércules ferozmente. — Nem que o Leão do Olimpo tenha de abrir a cabeça deles um por um!

O príncipe do Olimpo arremessa um carro contra os soldados, que até então apenas observavam. O veículo é destruído em pleno ar por Fóton, que se coloca entre o atacante e seus alvos. Em resposta ao desafio, as tropas afegãs preparam-se para rechaçar o ataque iminente. "Essa não", pensa o Super-Homem, "esse cabeça-quente vai pôr tudo a perder!"

— Flash, desarme os soldados. Borracha, detenha-os. Marvel, tente segurar Hércules. Fóton, dê cobertura.

Antes mesmo que as ordens do Homem de Aço tenham terminado de ecoar, os membros da Liga da Justiça estão em ação. Flash recolhe as armas dos soldados tão depressa que eles não se dão conta de estarem desarmados até o momento em que tentam reagir ao abraço do Homem-Borracha, que envolve a todos. Os ocupantes dos blindados têm suas mentes controladas pelo Caçador de Marte, que lhes ordena que se juntem aos demais. O comandante da tropa ainda tenta pedir reforços, mas seu comunicador é trespassado por uma flecha. Do alto de um tanque, o Arqueiro Verde aponta uma nova seta na direção do militar, abanando a cabeça num sinal negativo.

— Calma, Hércules! — o Capitão Marvel coloca-se à frente do semideus com os braços estendidos — Podemos resolver esta situação pacificamente!

— Cale-se, seu tolo! A honra do Olimpo será lavada com sangue!

— Lamento, mas não posso permitir isso.

— Pois lamente isto, idiota!

O soco arremessa o Capitão Marvel na direção de um dos muitos prédios em ruínas no centro de Cabul. A construção, semidestruída por anos de batalhas, desmorona ruidosamente sobre o mortal mais poderoso da Terra.

"Não posso vacilar diante desse maluco", pensa Marvel, saindo dos escombros. "Ele é, no mínimo, tão forte quanto eu e tem milênios de experiência em combate, enquanto eu só tenho uns poucos anos. Se não tomar cuidado, ele mói todos os meus ossos."

— Pare, Hércules, eu não quero brigar com você!

— Então é melhor cair logo, mortal. Do contrário, não sobreviverás para ver um novo amanhecer.

Os dois titãs se chocam em plena rua, cada golpe ecoando a quilômetros de distância.

— Caia, maldito! Caia ante o príncipe do poder!

— Seu idiota! Não vê que não vamos chegar a lugar nenhum?

— Nisso tens razão, mortal. — Hércules dá um sorriso — Não irás a lugar algum.

Um novo golpe arremessa Marvel como um foguete contra um dos blindados afeganes, destruindo-o por completo. O instante de silêncio é rompido pelas gargalhadas de Hércules.

— És um fraco, Marvel. Não é a toa que te chamam de "Capitão Fraldinha". (***)

O som de metal retorcido interrompe as bravatas do olimpiano. O tanque começa a levitar, até ser partido em dois por um furioso Capitão Marvel.

— Eu tentei apelar para a sua sensatez, seu fanfarrão arrogante. Mas vejo que a única linguagem que essa sua cabeça-dura entende é a da ignorância. Que seja, então.

Voando a supervelocidade, o Capitão Marvel desfere uma saraivada de golpes contra o semideus grego, que mal tem tempo de ver o que o atingiu. Apesar do vigor e resistência invejáveis, o Leão do Olimpo finalmente cai diante do ataque furioso do oponente. Triunfante, o protegido do mago Shazam arremessa o corpo aos pés de Zeus. E voa para junto do Homem de Aço.

— Reconsidere, Zeus. Desista desta vingança tola. Deixe estes homens viverem de acordo com suas crenças. Pela força, você jamais irá convertê-los.

O Senhor do Olimpo observa as poderosas criaturas à sua frente, ponderando sobre as palavras do Super-Homem e avaliando a situação. Um confronto com os heróis agora não o beneficiaria em nada. Ao contrário, o colocaria em rota de colisão com todos os meta-humanos da Terra, um poder que mesmo Zeus não ousa subestimar.

— Bah! Que seja. Que estes insetos continuem a rastejar em sua existência medíocre, orando para um deus que não lhes dá atenção, matando-se uns aos outros, padecendo de fome, frio e miséria. As graças do Olimpo são bênçãos com as quais eles só sonharão em vida, e que jamais alcançarão na morte.

Com essas palavras, Zeus retira-se do campo de batalha, levando consigo o corpo desacordado de Hércules. Os soldados afeganes passam a comemorar a inusitada vitória, enquanto os justiceiros respiram aliviados pela primeira vez em horas.

— Putz, por um instante pensei que íamos ter de encarar o sujeito... — diz o Homem-Borracha, depois de libertar os soldados.

— Foi por pouco. — responde Fóton.

— É melhor partirmos. — alerta o Caçador de Marte — Embora tenhamos ajudado estes homens, somos tão bem-vindos a este país quanto Zeus.

— Tem razão, J'onn. Vamos nos retirar. — determina o Super-Homem — Nosso trabalho aqui acabou. Vamos esperar que não tenhamos de repetir a dose.

— Ei, Marvel! Você detonou mesmo o Hércules, hein! — brinca o Flash — Mas por que essa cara? Só porque ele te chamou de Fraldi...

— Eu já mencionei — interrompe o Capitão Marvel — que odeio esse maldito apelido?

— Hã... Lembrei que eu tenho um compromisso em Keystone em cinco minutos. — desconversa o Flash — Tchau mesmo!

Novo Olimpo, Gateway City

Zeus está há uma hora trancado sozinho em seus aposentos. Centenas de questões passam por sua cabeça. Seus pensamentos são interrompidos pelo som de batidas na porta.

— Milorde, — diz Hermes — há alguém aqui querendo vê-lo.

— Quem é?

— Sou eu, Zeus. — Zauriel adianta-se, para embaraço do deus-mensageiro — Gostaria de conversar.

— Deixe-nos a sós, Hermes.

Quando o protetor dos comerciantes e ladrões sai da sala, o Senhor do Olimpo interroga seu inesperado visitante.

— O que faz aqui, anjo? Não temes represália de teu senhor? Afinal, não podes servir a outro deus...

— Outro deus? Que outro deus? Eu não vejo nenhum...

— Cuidado, anjo! Teu poder não sustenta a tua arrogância!

— Eu poderia dizer o mesmo de você, Zeus, mas vim como amigo.

— Amigo?

— Sim. E como tal, gostaria de lhe dar um conselho: desista desta loucura. Você é poderoso, mas também é sábio. O bastante para saber que seu tempo neste plano já se foi, e que há instâncias superiores em ação aqui.

— Os mortais estão cansados, anjo. — Zeus olha fixamente para os olhos vermelhos de Zauriel — Cansados da ausência de seu Deus. Eles pedem por atenção, e qualquer migalha os faz acreditar. E a fé dos mortais aumenta nosso poder.

— Não é tão fácil quanto você pensa, como você viu hoje. — Zauriel percebe de imediato o desconforto de Zeus — Sim, eu fiquei sabendo do que ocorreu há pouco. Também por isso vim lhe avisar. Deixe o plano mortal. Volte para o Olimpo. Desfrute de seu lugar na história. É o máximo que terá.

— Senão?

— Isto não é uma ameaça, Zeus. Apenas um conselho. Mas digamos que outros agentes podem ser menos... sutis caso a Presença decida que sua permanência no plano mortal é prejudicial a seus desígnios. O Espectro, por exemplo, costuma ser mais contundente...

A simples menção do nome da Ira Encarnada de Deus é suficiente para colocar uma sombra de preocupação no semblante do olimpiano.

— Já basta, anjo. Disseste o que querias dizer. Esta reunião acabou.

— Está certo. Tenho certeza que sua sapiência sobrepujará seu orgulho. — Zauriel dirige-se para o portal dourado e prepara-se para sair — Fique com Deus.

O anjo bate as asas porta afora, deixando atrás de si um furioso e pensativo deus olímpico.

Confira tudo sobre a Volta dos Deuses em Mulher-Maravilha # 06

:: Notas do Autor

* Não, não foi o Josa que bolou este título.

** Traduzido do afegane.

*** Capitão Fraldinha foi o apelido dado ao Capitão Marvel por Guy Gardner quando ambos fizeram parte da Liga da Justiça Internacional. Como foi visto nesta edição, é melhor que ninguém o chame assim...



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.