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Liga da Justiça # 11

Por Fernando Lopes

Decisões
Parte I

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Torre de Vigilância da Liga da Justiça, cinco dias atrás

— E então, coronel? Conseguiu?

— Lamento, Super — Nick Fury deixa evidente o desconforto com as notícias que é obrigado a transmitir — mas a resposta é não.

— Posso saber o motivo? — a frieza na voz do Super-Homem demonstra sua frustração.

— Bom... — Fury se ajeita na cadeira, tentando achar uma posição. Seu inseparável charuto dança de um lado para o outro em sua boca — Eu poderia dizer que eles ainda estão putos com a história da MIR e com a carnificina que o canalha do Savage promoveu só pra pegar vocês (*) que eu não estaria mentindo. Mas a coisa vai mais longe. Os caras estão usando essa merda toda pra ganhar no grito o que não conseguiram no Conselho.

— Como assim?

— Não sei se você se lembra, mas os russos foram contra a indicação do Faraday (**) para a chefia da Comissão de Assuntos Meta-Humanos da ONU, junto com os chineses e os ucranianos. Ficaram ainda mais mordidos quando a SHIELD deixou de ser apenas americana e passou a responder diretamente ao Conselho de Segurança, ainda mais comigo no comando. E só sancionaram o status mundial da Liga porque a opinião pública apertou. — Fury puxa uma longa baforada do charuto — Agora eles estão tentando dar o troco, manipulando a opinião pública contra vocês.

Mas isso é um absurdo! — o Super-Homem demonstra irritação pela primeira vez — Eles não podem nos culpar pela loucura de Vandal Savage, e muito menos pela destruição de Ninji-Novgorod!

Ei, pega leve que eu tô do seu lado! — Fury levanta a voz, sem se importar com o poder de seu interlocutor, com quem conversa por um videolink via satélite. Sua segurança não vem dos milhares de quilômetros que o separam do Homem de Aço, mas de uma longa vida de batalhas e da consciência de ter sob suas ordens a mais poderosa agência de manutenção da ordem em todo o mundo — Eu também acho isso tudo uma merda, mas não posso fazer nada. Os russos proibiram a Liga ou qualquer meta-humano estrangeiro — principalmente americano — de pisar em território deles enquanto Vandal Savage não for entregue às autoridades de Moscou para ser julgado pelo massacre de Ninji-Novgorod.

— Desculpe, Fury — a irritação dá lugar à amargura no semblante do último filho de Krypton. — É que, para mim, é difícil de acreditar que não podemos tentar ajudar aquela gente por causa de política.

— Sei exatamente como se sente — responde Fury, mais calmo. — Bem-vindo ao meu mundo. Eu aviso se tiver alguma novidade. Até mais.

— Adeus.

O rosto de Nick Fury desaparece do monitor, deixando o Super-Homem imerso em pensamentos sombrios.

— Droga... — diz o herói em voz alta para si mesmo . — Isso não pode ficar assim. Não é justo!

Após alguns segundos de indecisão, o Homem de Aço deixa a sala de comunicações cabisbaixo rumo aos teleportadores. Uma diminuta figura, que ouvira incógnita a toda a conversa, acompanha seus passos com o olhar. "Tem razão, Super. Não pode e não vai", pensa Eléktron.

Hospital Geral de Little Rock, Arkansas, EUA, noite passada — 2h37

Angelo Gabrielli tenta, em vão, acertar o colarinho do uniforme policial, que insiste em apertar seu pescoço. "Diabo de sujeito magrelo", amaldiçoa, pensando no verdadeiro dono da roupa, que jaz numa das máquinas da lavanderia, com uma bala calibre 9 mm no cérebro. "Podia ao menos usar o meu número."
Desde que entrou para a Máfia, ainda garoto, Gabrielli se acostumou a tratar a morte como algo corriqueiro. Desta vez, porém, a coisa é diferente. Não por causa do policial morto minutos antes — afinal, não fora o primeiro e dificilmente seria o último -, mas em virtude de seu verdadeiro alvo, internado no quarto 1307. Esta noite, Angelo Gabrielli cometerá o crime que o transformará no principal assassino da Máfia de Gotham e o fará cair nas graças das Cinco Famílias. Esta noite, ele matará a Caçadora.

O pistoleiro percorre os corredores da Unidade de Terapia Intensiva rápida e silenciosamente, mas da maneira mais natural possível. Passa por médicos e enfermeiras de cabeça baixa, evitando discretamente ser filmado de frente pelas câmeras do circuito interno de TV, até finalmente chegar a seu destino, na área de segurança. Despreocupado, o sentinela de plantão levanta-se da cadeira para passar o turno àquele que julga ser seu substituto.

— Cacete, estava na hora! Pensei que eu ia ter que dobrar de novo. Ué, cadê o Murphy?

— Ele não pôde vir — responde o assassino, com um sorriso. — Por que não vai fazer companhia a ele?

O som do disparo à queima-roupa da Beretta 92fs é abafado pelo silenciador. Gabrielli agarra o corpo antes que ele caia no chão e abre a porta do quarto às escuras, jogando-o para dentro e entrando em seguida. O tempo, agora, é crucial para o sucesso da missão. O assassino fecha os olhos por alguns segundos, a fim de acostumar-se mais rápido à falta de luz. Em seguida, aproxima-se da cama, onde lençóis e cobertores estão embolados sobre o que aparenta ser sua vítima.

— As Cinco Famílias lhe mandam lembranças, putana. Arrivederci.

O pistoleiro esvazia o pente da arma na direção da cama. Súbito, a porta do banheiro contíguo se abre, iluminando o ambiente. Os olhos de Helena Bertinelli e de seu pretenso assassino se cruzam, para surpresa de ambos. Durante um segundo que parece durar uma eternidade eles se encaram, estáticos, tentando entender a situação. A compreensão do contexto em que se encontram os atinge como uma descarga elétrica, desencadeando uma onda de movimentos frenéticos e aparentemente sincronizados. De um lado, Gabrielli descarta o pente vazio da Beretta e busca desesperadamente por outro em seu bolso; de outro, a Caçadora esforça-se em alcançar sua balestra, que repousa sobre o criado-mudo do lado oposto da cama. Os dois predadores atingem seus objetivos e voltam a se encarar, disparando quase simultaneamente.

Interlúdio 1 — Apartamento de Eel O'Brien

Ele corre pela planície branca, mesmo sabendo que é inútil. Não olha para trás, pois tem certeza de que ela está lá. O hálito gelado em sua nuca o faz tentar ir mais depressa, mas o chão macio prende seus pés como uma amante submissa e insaciável. Mesmo assim, ele não desiste. Aperta o passo para ir a lugar algum, pois a imensidão branca se estende até onde a vista alcança. Não há para onde fugir, nem onde se esconder. Apesar disso — ou talvez por isso mesmo — ele prossegue em sua corrida desesperada e fútil, perseguido implacavelmente pela face pálida da morte.

A perseguição continua por uma eternidade, até que o abraço gélido o envolve. Ele sente o gelo paralisar suas pernas, impedindo-o de correr. Seu tronco desaparece sob a fria carapaça cristalina. Erguidos para o céu, seus braços parecem inutilmente invocar a ajuda divina. À beira do fim, só lhe resta gritar. Mas nem um som deixa seus lábios congelados, fadados a permanecerem eternamente implorando clemência. Tudo o que se ouve é um silêncio infinito, tão insondável quanto a alva imensidão da planície. Branca como a neve. Branca como o gelo. Branca como a morte.

Patrick Eel O'Brien acorda gritando, seu corpo elástico distendendo-se por todo o quarto. Gotas de suor gelado escorrem pela sua testa, descendo pelo rosto e pescoço até o peito arfante. Em seu íntimo, ele sabe que tudo não passou de um pesadelo. Apenas mais um, dos muitos que o têm atormentado desde que Nevasca, sob as ordens de Vandal Savage, o aprisionou em um bloco de gelo na Rússia, semanas atrás.(***) Por mais de 18 intermináveis horas, o mundo do Homem-Borracha resumiu-se ao frio avassalador e ao infinito silêncio de seu túmulo branco.

O'Brien enfrentou a morte incontáveis vezes desde o acidente que lhe deu seus incríveis poderes. Mais do que alterar seu corpo, o banho de produtos químicos durante um assalto modificou sua mente, sua forma de ver o mundo. Para ele, a vida tornou-se um desenho animado eterno, desenrolando-se diante de seus olhos. Desta vez, porém, algo deu errado. Não há nada de engraçado em ficar confinado num esquife de gelo, apenas esperando pela dádiva de uma morte rápida. Assim como fez quando descobriu seus novos poderes, Patrick O'Brien se pergunta se não é hora de mudar de vida.

Interlúdio 2 — Madrugada, a poucos quilômetros da fronteira entre a Ucrânia e a Rússia

(scriiiiiiiiic) < — Lobo Vermelho Dois, aqui é Lobo Vermelho Um. Algum sinal do seu "OVNI"? > (scriiiiiiiiic) (****)

(scriiiiiiiiic) < — Negativo, Lobo Vermelho Um. Deve ter sido algum defeito no radar. > (scriiiiiiiiic)

(scriiiiiiiiic) < — Ou aquela vodka barata que você anda tomando, Vassily... > (scriiiiiiiiic)

(scriiiiiiiiic) < — Deixa de palhaçada, Mikhail! Eu poderia jurar que vi uma luz brilhante vindo rápido nesta direção... >

(scriiiiiiiiic) < — E tinha o formato de uma garrafa? Talvez fosse um coquetel molotov gigante, feito com aquela porc... > (scriiiiiiiiic)

(scriiiiiiiiic) < — Vá a merda, Mikhail! Vamos voltar. Não ganho pra ficar ouvindo suas babaquices. Aliás, ultimamente a gente não ganha nem pra sair do hangar. > (scriiiiiiiiic)

Os dois caças se afastam rapidamente. Centenas de metros abaixo, dois homens respiram aliviados.

— Tem certeza de que é uma boa idéia, Eléktron? Isso vai dar o maior bode...

— Invadir o território russo sem licença, desafiar uma ordem expressa do Conselho de Segurança da ONU e fazer tudo isso sem o conhecimento do Super-Homem? O que poderia dar errado? É claro que as coisas ficariam mais fáceis se eu não estivesse acompanhado por uma tocha olímpica ambulante, mas nem tudo é perfeito.

— Ei, o que é que você quer que eu faça? — Ronnie Raymond coça a cabeça, preocupado. Ele não esperava voltar a colocar os pés na Rússia novamente, ainda mais daquela forma. — E agora, o que faremos?

— Antes de tudo, transforme-se novamente em Nuclear. Continuaremos até chegarmos às ruínas de Ninji-Novgorod. Isto é, se conseguirmos ser um pouco mais discretos...

Ronnie Raymond dá lugar à figura brilhante de Nuclear.

— ... o que, particularmente, acho que vai ser meio difícil. — suspira Eléktron.

— E depois?

— Vamos tentar remediar um pouco a tragédia causada por Savage.

Hospital Geral de Little Rock — 3h45

A dor excruciante no abdome já é uma velha conhecida. Pela primeira vez, porém, é sentida com alegria. "Sinto dor, logo, existo", pensa a Caçadora. O ardume no pescoço, entretanto, é novo para ela. Helena passa a mão no local e percebe o curativo, ligeiramente úmido. Percebe também que não está mais no chão, mas de volta à sua cama. Ao seu lado, uma enfermeira mais parecida com um sargento folheia distraidamente uma revista. Quando nota a movimentação da paciente, levanta-se e tira sua temperatura.

— Como se sente?

— Como um chiclete mascado — responde a vigilante, azeda. — E o outro?

— No necrotério. Você é mesmo boa com essa coisa — a enfermeira aponta para a balestra. — Meteu a flecha bem no meio da testa do sujeito.

— Eu estava mirando no ombro...

— Então errou feio. Sorte sua, azar o dele.

— Pareço sortuda para você?

— Só se considerar estar viva uma sorte. Ex-namorado?

— Presidente do meu fã-clube. — Helena sorri com a conversa boba, mas até o sorriso lhe traz dor. "Droga, o Morcego vai ficar puto com essa história", pensa a vigilante, antecipando a reação de Batman. "Bem, paciência. Ele nunca foi mesmo com a minha cara."

— A polícia tá doida pra te fazer umas perguntas.

— Imagino. Tenho como fugir disso?

— Para todos os efeitos, você ainda não acordou. O doutor O'Malley está tentando entrar em contato com seu pessoal. Eles devem dar conta disso quando chegarem.

— Espero que sim.

Gotham City — 3h58

A luz vermelha piscando no painel do Batmóvel indica alguém tentando contatá-lo no canal prioritário. O rosto de Barbara Gordon, ainda inchado de sono, aparece na tela do videocomunicador.

— Fale, Oráculo.

— Bom dia pra você também. Temos problemas, para variar. Fóton me ligou da Torre. Tentaram matar a Caçadora no hospital.

— O quê?

— É isso aí. Mas ela está bem, só levou um tiro de raspão no pescoço.

— E o assassino?

— Morto. Com uma flechada na testa.

— Diabos!

— Parece que ela não teve escolha.

— Talvez. Mas não posso me preocupar com isso agora. Precisamos colocá-la sob vigilância. Podem tentar novamente.

— Não devem fazer isso tão cedo. O lugar está cheio de policiais agora. Fóton estava tentando contatar o Super-Homem.

— Mantenha-me informado. Vou ver o que descubro nas ruas.

— Certo. Oráculo desligando.

"Não é difícil imaginar quem está por trás disso", raciocina o Homem-Morcego. "Desde que começou a agir como Caçadora, Helena tem sido uma pedra no sapato das Cinco Famílias. É óbvio que eles resolveram aproveitar a oportunidade. Só me resta saber quem foi o mandante. E acho que sei onde descobrir."

Na próxima edição: Enquanto Batman bate de frente com a Máfia em Gotham, Eléktron e Nuclear tentam minimizar os efeitos da tragédia de Ninji-Novgorod, ainda que tenham de enfrentar a Guarda Invernal para isso. O destino da Caçadora nas mãos do Doutor Estranho e a uma decisão que vai mudar a vida de Eel O'Brien.

:: Notas do Autor

* Em Liga da Justiça # 07, do Hyperfan;

** King Faraday, ex-chefe do Departamento de Operações Extranormais dos EUA, foi escolhido chefe do Conselho para Assuntos Meta-Humanos da ONU pouco tempo depois de Massacre quase destruir Nova Iorque. Preocupada com o aumento dos confrontos com meta-humanos, o Conselho de Segurança da ONU acabou aprovando a indicação de Faraday. Na mesma época, a SHIELD passou a responder diretamente ao órgão, deixando de ser uma agência governamental americana.

*** Ainda em Liga da Justiça # 07;

**** Traduzido do russo.



 
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