hyperfan  
 

Super-Homem # 11

Por Josa Jr.

Miracle Monday (*)

:: Sobre o Autor

:: Edição Anterior
:: Próxima Edição
:: Voltar a Super-Homem
:: Outros Títulos

Retirado da última edição do Planeta Diário:

"Foi nosso momento mais negro."

Esta jornalista sabe que usar frases batidas em suas reportagens não é a melhor forma de se conseguir credibilidade no meio jornalístico. Porém, eu acredito que não existe outra frase que expresse tão bem o sentimento de todas as pessoas do planeta ao assistirem às terríveis imagens da batalha entre o Super-Homem e Apocalypse anos atrás. Mas, para o casal Frank e Alice Kudrow, o momento mais negro ainda não era aquele.


"Há alguns dias atrás, Clark sugeriu que eu fizesse uma visita a um casal que ele salvara certa vez. Apesar de sempre se importar com qualquer pessoa da Terra, existem certas "vítimas" que o Super-Homem demonstra atenção especial — acho que sou um exemplo disso. Aproveitando que estamos no mês do terceiro aniversário da morte e retorno do homem de aço, sugeri ao Perry que fizéssemos uma reportagem sobre pessoas que tiveram suas vidas radicalmente alteradas após serem salvas pelo Super-Homem, depois de sua ressurreição. Evidentemente, tudo não passa de um bom motivo para conhecer o casal Kudrow."

"Chego à casa deles por volta das nove horas. Alice abre a porta para mim e na sala encontro Frank brincando com os gêmeos. Ligo o gravador para não perder nada. Uma reportagem não nasce quando uma entrevista começa. Qualquer fato do cotidiano pode se tornar um bom texto, se você tiver talento para a coisa. E Lois Lane não ganhou a fama de melhor repórter do Planeta Diário (além de um Pulitzer e dois prêmios Luthor) à toa."

— Belos bebês. — "começo" — Como se chamam?

— Joshua e Kal-El Kudrow. Acho que você notou que o segundo nome, óbvio, é uma homenagem ao Super-Homem.

— Não sei se sabe, mas o Super é uma parte muito importante de nossas vidas. Graças a Deus por isso. Ele me salvou de uma enchente, anos atrás.

— Não sabia disso, sr. Kudrow. E ele também salvou a vida do casal há algumas semanas, certo?

— Isso mesmo. Só que tem algo que você não sabe. Frank?

— O Super-Homem também é responsável por nosso casamento.

— O quê?

Alice Anapol (34) morou em Leesburg por vários anos, casada com seu primeiro marido, Robert Anapol. Durante a grande enchente de quatro anos atrás, Robert morreu afogado, entre os onze desafortunados que não foram encontrados pelo Super-Homem. Em compensação, Frank Kudrow (36) foi o segundo a ser retirado pelo homem de aço das águas que cobriam a Avenida Central. "Para mim, aquilo representou uma segunda chance. Mal sabia que eu teria mais 'chances' vindo por aí", diz Frank, visivelmente emocionado.

Depois dos efeitos da tragédia não serem mais visíveis na pequena cidade, tudo voltou ao normal. Ou quase tudo, para Alice. Ela precisava de um assistente na cozinha do restaurante em que se tornou chef, pois havia tomado o cargo do falecido Robert. "Fiquei morrendo de raiva quando descobri que a única pessoa que apareceu para o emprego foi um cara sem experiência, chamado Frank." Depois de sua "segunda chance", Kudrow resolvera deixar a estressante e burocrática vida de gerente do banco para se dedicar à sua verdadeira paixão — a gastronomia.

A parceria acabou sendo um sucesso e, depois de provar o delicioso salmão à Printanière, o proprietário do La Bella Vue de Nova York — Alfred Munday, que é natural de Leesburg — encontrou os empregados que precisava para abrir a filial Metrópolis. Quando da mudança para a nossa cidade, Frank já estava apaixonado por Alice e, como ele desconfiava, era correspondido. Porém, ainda demorou alguns meses em Metrópolis para que o casal realmente despontasse. O problema estava na futura senhora Kudrow.


— A Alice sempre foi uma mulher romântica e sonhadora demais, muito apegada a princípios cristãos, de dura cerviz. — "Frank olha sorrindo para a esposa. Como se amasse tanto esses pequenos defeitos que eles se tornaram qualidades invejáveis. Ela retribui com uma careta, como se chamá-la de 'mulher de dura cerviz' fosse uma brincadeira dos dois" — Então, quando o amor de sua vida, sua alma gêmea, a "pessoa certa" morreu, ela passou a acreditar que era da vontade de Deus que ela permanecesse viúva para sempre.

— Como eu poderia dar o lugar de Robert para um irresponsável que troca sua estabilidade financeira e profissional por uma cozinha? — "rebate Alice, sorrindo" — Mas essas dúvidas nem passavam pela minha cabeça. O meu problema era realmente isso que o Frank falou.

— Mas onde o Super-Homem se encaixa nisso? — "preciso saber o que leva um casal da Terra a batizar o filho de 'Kal-El'" — Como foi que esse impasse foi resolvido?

Numa calma noite para o restaurante, mas movimentada e conturbada na vida dos dois, Alice e Frank tiveram uma briga feia, pois ela não agüentava mais as pressões do colega e, ao mesmo tempo, se sentia culpada por estar gostando de outro homem. Chegando em casa, a jovem viúva fez uma oração. "Eu pedi um sinal, algo que fosse meio impossível, para eu ter certeza que deveria ter algo com Frank. Quase um milagre, mas era algo bem específico", ela diz. Porém, o que estava por vir no dia seguinte não era nem um pouco o que ela havia pedido.

"Ninguém estava esperando. Mas eu não sei. Eu senti, depois que tudo aconteceu, uma sensação de inevitabilidade. Era como se todos os heróis estivessem de mãos atadas, mesmo os que auxiliaram o Super-Homem na batalha contra Apocalypse. E eu me senti muito egoísta, mas muito mesmo. Porque enquanto o mundo chorava a perda do maior homem da atualidade, eu chorava a perda do melhor homem a aparecer em minha vida." Frank desaparecera, entre os muitos prédios atingidos pela batalha.

"Este sim", ele conta, "foi nosso momento mais negro."


— Meu noivo, atualmente meu marido, também desapareceu depois da batalha. — "eu digo, relembrando os terríveis dias em que Clark passou morto" — Eu entendo o que você passou, Alice.

— Foi terrível, Lois. Mas também... foi maravilhoso. — "ao contrário do que eu esperava, ela continua com o sorriso no rosto, mesmo que mais discreto" — Quero dizer, é bom para lembrar, não para viver.

— Eu que o diga. Enquanto todos choravam suas perdas, eu nem sabia o que se passava. Estava soterrado, com mais seis pessoas, sendo que três estavam vivas, e apenas uma máquina de doces para todos. Só Deus sabe quantas vezes eu gritei "alguém me salve" naqueles dias.

— Meu problema era que, além de ter perdido uma pessoa maravilhosa, eu soube que o tal milagre seria impossível de acontecer porque, depois de uma semana, Frank estava oficialmente morto.

Enquanto o mundo assistia boquiaberto ao surgimento dos quatro super-homens e os eventos que se seguiram a isso, Frank perdia as esperanças de ver novamente sua amada e seus familiares, e Alice passava pela maior crise de fé em sua vida. A fervorosa cozinheira começou a questionar o fato de ter passado por duas perdas do mesmo tipo. Ironicamente, Frank passou a acreditar que realmente não devia ter tentado nada com Alice, pois ele iria acabar morrendo e fazendo ela sofrer o que já tinha sofrido.

Foi o mês mais demorado para todos nós, até que, depois de várias tragédias e surpresas, o homem de aço ressurgiu dos mortos e viajou até à antiga Coast City para combater o Superciborgue.

Completamente alheia ao mundo em Leesburg, perdida num mar de remorso e

arrependimento, Alice resolveu voltar a trabalhar num domingo. Depois de uma noite cheia de lembranças da premiada parceira Anapol & Kudrow, retornou para seu apartamento próximo ao La Bella Vue, decidida a pedir demissão do emprego no dia seguinte e voltar para sua cidade natal.

E então, quando ela acordou no dia seguinte, incrivelmente irritada com a campainha tocando sem parar, veio a surpresa através do olho mágico. "Eu vi um vulto caminhando nervosamente pelo corredor, ao lado de outra pessoa. Esse segundo homem parecia um gigante, bem mais alto que o primeiro. Sonolenta, sem reconhecer os dois impacientes na minha porta, fui me trocar rapidamente, enquanto a campainha não parava de badalar".


— Acho que é óbvio quem eram os dois homens. — "Frank diz."

— Frank e Super-Homem. — "eu respondo, junto com Alice."

— Foi muito engraçado. Frank todo sujo, com a barba e os cabelos crescidos por um mês, parecendo um mendigo faminto e ajoelhado na minha sala, me pedindo em casamento. Na hora, eu nem reparei na porta arrombada pelo Super, a pedido de Frank. Só queria beijá-lo, mas fiquei parada sem reação, com dois mortos na minha frente. Tinha certeza de que estava maluca.

— E então eu disse que tinha sido resgatado pelo Super-Homem e tinha pedido para ele me ajudar com ela. Eu falei: "Alice, eu pedi pro azulão aparecer aqui pra ver se te convencia a se casar comigo. Ele acabou de me salvar e não tem muito tempo pra isso, não." Sem saber o que fazer, o Super apenas disse que a única coisa que eu dizia quando fui salvo era: "Alice, Alice, Alice."

Começo a sorrir. Clark nem deve mais se lembrar dessa história, ou pelo menos não se lembra do casal que o colocou nessa situação. Essa é a diferença do Super-Homem para a maioria dos heróis. Dificilmente, outro aceitaria passar por uma dessas logo depois de um trauma como ser morto e ressuscitado.

— Eu disse pra Frank que aceitava. — "Alice diz, finalmente chorando. Achei que ela ia ser durona até o fim" — Era óbvio demais para eu manter minha postura.

— O que era óbvio?

— Alice havia pedido, com sua quase inabalável fé, que algum mensageiro dos céus dissesse a ela e a mim qual era o nosso destino. Podia ser um padre, ou um pastor, um seminarista ou até uma pessoa comum.

— Ou um anjo.

— "Essa é a história daqueles que tiveram suas vidas radicalmente alteradas pelo Super-Homem depois de seu retorno. É impossível não estremecer ao pensar num mundo sem sua presença, o que me leva a acreditar que não era realmente a hora dele e por isso o mandaram de volta, seja lá quem cuida desses assuntos".

— Gostei. — "diz Clark" — Mas não imaginava que uma jornalista tão imparcial e séria como você escreveria em um tom tão emocionado.

"Eu salvo o arquivo no computador e o envio para Perry. Clark está atrás de mim, satisfeito por ter ouvido toda a matéria e, principalmente, por conhecer melhor a história de Frank e Alice. Para ele, era importante ter certeza de que fez o certo ao salvar o casal de um acidente de avião, dias atrás (**). Por um momento, fico calada, invejando um pouco a vida dos Kudrows. Não posso esconder que há muitas semelhanças entre nós. Para o mundo, meu noivo também foi soterrado depois da batalha contra Apocalypse. Só existe algo que não é igual... Por enquanto."

— O que foi, Lois?

— Clark, eu quero ter filhos.


A seguir: LOBO! (Agora de verdade)


::
Notas do Autor

(*) Curioso quanto ao título de nossa história? Bem, a história do Miracle Monday pode ser encontrada aqui. voltar ao texto

(**) Em Super-Homem #01. voltar ao texto



 
[ topo ]
 
Todos os nomes, conceitos e personagens são © e ® de seus proprietários. Todo o resto é propriedade hyperfan.