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Mulher-Maravilha # 14

Por JB Uchôa

Um táxi amarelo estaciona em frente aos escombros do museu de Gateway City. Uma faixa de polícia cerca o local, a passageira abre a porta e pede para o motorista esperar um pouco enquanto fita a destruição. Ainda há sangue no chão, seco, deixando sua marca do dia anterior. Suas mãos aparam as lágrimas e abrem a porta do carro.

— Motorista, leve-me a esse endereço, por favor. — fala num sussurro, estendendo um pedaço de papel.

Quebra-Cabeça

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Residência das Sandsmarks e da Mulher-Maravilha. A princesa amazona não está vestida com seu uniforme e tampouco usa a tiara. Uma blusa lilás e calça branca compõem seu figurino. Helena Sandsmark acaba de desligar o telefone em que falava com o prefeito, que deu ordem para a restauração imediata do museu.

— Estou indo a Nova York, Helena. O teleportador da LJA que ficava no museu está seriamente avariado, e será mais seguro eu me teleportar de outro. — fala Diana, desviando o olhar de sua amiga enquanto coloca um sobretudo.

— Não vai de uniforme? — pergunta Helena, em um tom de amargura e preocupação.

— Não, Tróia vem me buscar no jato dos Titãs. De lá vou para a torre de vigilância conversar com Kal e Ajax. Não se preocupe, tomarei medidas para que nada de ruim aconteça com vocês.

— A situação é realmente tensa, Diana. Não estou culpando você, mas não posso deixar de imaginar que se você não tivesse entrado em nossas vidas, minhas preocupações e angústias seriam menores... — Helena levanta a cabeça e fita os olhos azuis da amazona, que parecem em profunda tristeza — ...mas também, se você não participasse de minha vida e de Cassandra, nossas alegrias não seriam tantas. — a professora sorri timidamente.

— Helena... — diz a Mulher-Maravilha com moderação — ...talvez minha vinda não tenha sido uma boa idéia, realmente.

— Não diga isso. Oh, Deus, por favor, não diga isso! Eu não quis dizer isso... eu agradeço a Deus, ou aos seus deuses... por ter você aqui comigo. — a princesa de Themyscira ajoelha-se perto da poltrona e abraça a amiga. Helena retribui o abraço num choro comovido, entre soluços. O momento parece durar uma eternidade, até que elas se fitam nos olhos — Oh, Diana, seu ferimento está sangrando novamente! Espere enquanto busco minha maleta de remédios.

A Mulher-Maravilha sorri e senta-se na poltrona. Seus dedos passam sobre sua fronte e ela percebe umidade. Seus olhos fitam o líquido escarlate por instantes, e sua atenção é quebrada pelo toque incessante da campainha.

— Deixa que eu atendo, Helena, deve ser Donna! — ao abrir a porta, seus olhos marejam de lágrimas ao encontrar sua grande amiga Júlia Kapatelis. O rosto sério da curadora do museu de Boston não se altera. Um sonoro tapa é dado na face de Diana — Júlia???

— Mulher-Maravilha... — responde ela, friamente — ...o que eu fiz? — Júlia Kapatelis abraça sua amiga e desata em um choro há muito reprimido.

Escola Dennis Peterson, hora do intervalo. O diretor convocou os alunos para dar instruções de socorro às vítimas, rotas de fuga e apresentar a planta da área destruída. Uma missa foi celebrada no início da manhã em homenagem aos mortos, e Cassandra Sandsmark sentiu um certo repúdio por parte dos alunos para com ela. Tammy está no hospital e Natalie permanece muda ao seu lado.

— Ouvi dizer que Duncan morreu, é verdade? — pergunta Natalie, rompendo o silêncio. — Não sei. — responde Cassandra, tristemente.

— Não foi culpa sua, Cassie! Ninguém vai condená-la por isso, a culpa é toda daquela perua ruiva!

— Eu também sei disso, Natalie. Mas por que é que todo mundo parece estar me evitando? — a pergunta de Cassie faz sua amiga baixar a cabeça em um sorriso sem graça.

— Estão falando que você...

— Eu o quê?

Mutuna asquerosa!! — um grito que ecoa no corredor faz Cassandra Sandsmark soltar seus livros e olhar repentinamente para trás. — Por que você tinha que trazer suas malditas briguinhas de genes-podres pra cá?

— Por Zeus... que diabos você está dizendo? — enquanto discute com o garoto, Cassie nota que Natalie não está mais ao seu lado.

— Todos nós vimos você voando e jogando paredes contra nós! — grita uma garota que Cassie nunca viu na vida, apontando o dedo para ela.

— Não! Eu... não fiz isso... — os olhos da Garota-Maravilha procuram por Natalie e não a encontram — ...de onde um nerd babaca feito você tirou essa idéia, Kenji?

— Eu vi! Eu vi você sair voando daqui! E você pode ser a mutuna que for, mas não é páreo para um humano se não usar seus poderes!

— Você está me desafiando, Kenji? Você quer brigar comigo? — Cassandra está estupefata com as acusações, afinal ela não pode revelar que é a Garota-Maravilha, mas também não tem como provar que não era ela que estava atacando, e sim ajudando. A melhor saída seria aceitar o desafio e apanhar de um garoto comum feito Kenji, para criar a ilusão de que ela é igualmente uma garota comum.

— Na saída da aula, no pátio! — o garoto de traços orientais sai em meio a aplausos, enquanto Cassandra se ajoelha para recolher seus livros e cadernos.

Júlia Kapatelis toma um chá quente enquanto Helena Sandsmark refaz o curativo na testa da Mulher-Maravilha. Donna Troy, que chegara há alguns instantes, acalma a professora Kapatelis.

— Diana encontrará Vanessa, Júlia, acredite! Se ela não conseguir definir o paradeiro de Vanessa pela base da LJA na lua, eu mesma mobilizarei os Titãs para procurá-la. Os esforços conjuntos trarão resultados! Tenha fé!

— Só resta ter fé, não é? — fala Júlia, amargurada — Não entendo como minha Nessie pode ter se transformado naquele monstro horrível.

— Calma. Com certeza, Circe ludibriou Vanessa, ou até mesmo obrigou-a a transformar-se na nova Cisne de Prata. A fé transforma nossos corações, e nos permite realizar feitos inimagináveis! Por Gaia, eu trarei Vanessa de volta! — Diana beija o rosto de Júlia e sorri ternamente.

— Vamos, Diana. — diz Donna — Quanto mais rápido formos, maior a chance de encontrarmos logo Vanessa.

— Claro! — as amazonas acenam para as duas mulheres no sofá e saem pela porta. Tão logo saem, o telefone toca estridentemente. Tanto Júlia quanto Helena parecem fitar o aparelho com receio, até que a dona da casa resolve atendê-lo.

— Professora Sandsmark? É Jane Sontoya. A Mulher-Maravilha me deu esse número de telefone pra avisar sobre Mike.

— Claro, capitã, ela me avisou que usaria o meu número de telefone, já que o museu está... bem, você sabe. — Helena tenta despistar ao máximo que Diana mora com ela, para não levantar suspeitas sobre a identidade da Garota-Maravilha.

— Bem, o quadro ainda é o mesmo, infelizmente. Mas diga para ela passar no hospital, se puder. Creio que mesmo em coma Mike gostaria de ouvir a voz dela.

— Obrigada, rezo pela recuperação do detetive. — Helena desliga o telefone e ainda o fita por alguns momentos, depois desvia o olhar para Júlia — Bem, você gostaria de descansar?

— Não, Helena, eu quero que você me conte tudo o que aconteceu... com detalhes. — responde, enfática e disposta a ouvir horrores sobre Vanessa.

Cassandra sente um frio na espinha enquanto caminha sozinha pelos corredores da escola. Ela deposita seu material em seu armário e o fecha com cuidado enquanto nota que está sendo observada.

Eu não vou fugir! Já estou indo para o pátio! — grita ela para os alunos que a seguem com olhares e cochichos. Enquanto passa a mão nos cabelos, ela pensa em como pode estar nervosa ao ponto de lutar com um idiota como o Kenji, se já lutou e venceu Mesmero, Modok, Gangue de Espadas, lorde Mangá Khan e o terrível dr. Silvana (*). Ela sabe que alguns deles são inimigos idiotas, principalmente Khan, mas ela também não era metade da heroína que é hoje — Oh, Zeus, qual é o deus para quem peço paciência?? — suplica.

No pátio do colégio, Kenji a espera com pose de lutador faixa-preta. Vários alunos gritam seu nome e vaiam a heroína. Ela procura por Natalie, mas não a encontra.

"Uh, Cassandra... você só tem que ir lá e apanhar!" — pensa para si mesma, para "digerir" melhor a idéia. Quem dera fosse tão fácil e possível. Um ser humano possui níveis toleráveis de humilhação, e para Cassandra Sandsmark, a Garota-Maravilha, essa barreira acaba de ser ultrapassada. O garoto começa empurrando-a, como se tentasse não somente confrontá-la, mas também esperasse uma reação. Mesmo ao chão, depois de empurrões fortes, ela ainda tem que agüentar as palmas da platéia. Humilhante. Kenji parece desfrutar da única glória que terá na vida, o momento em que massacrou uma garota. Seu sorriso mostra seu contentamento, mas não vai demorar muito para que ele seja taxado de covarde, que bate em menininhas. Não satisfeito por Cassandra não reagir, ele passa para a fase dois: o desaforo.

Com leves tapas na cabeça, ele começa a humilhá-la, e Cassie deixa apenas suas lágrimas rolarem tímidas por sua face, salgando sua boca. A barreira não só foi ultrapassada, mas sim demolida. E mesmo pessoas comuns, que não têm poderes divinos ou nasceram com o fator-X em seus genes conseguem feitos extraordinários na hora da raiva. Do ódio exacerbado, da fúria incontida. Quanto mais uma adolescente com poderes de uma semideusa!

— Por que você não reage, mutuna? — instiga o garoto, cuspindo em Cassie no chão — Depois de você, vou levar a galera pra pegar a gene-podre que te colocou no mundo! — os olhos de Cassandra faíscam, e ela se levanta rapidamente, encarando seu inimigo nos olhos.

— Já basta.

— Ora sua... — a mão direita de Kenji se fecha em punho, ele recua o braço e o lança com força, mirando no nariz da heroína. Cassandra segura o murro e torce o punho do garoto com uma das mãos. Enquanto Kenji urra de dor, maldizendo todos os ancestrais da Garota-Maravilha, ela recua o braço e dá-lhe um sonoro tapa, que o derruba no chão. Toda a escola Dennis Perterson olha petrificada em um silêncio sepulcral.

— Se tem mais alguém disposto a vomitar em cima de mim, a chance é essa!

— Senhorita Sandsmark, já para a diretoria! — diz o professor Niewinski, careca suada sob o sol da tarde.

— Pronto, era só o que faltava para completar o meu dia. — Cassie resmunga baixinho, indo em direção ao odiado professor, mas de cabeça erguida.

— Então eu intercedi para que lorde Zeus me desse uma maneira de controlar os poderes de Cassie, e ele me atendeu. (**) — explica Helena a Júlia, enquanto coloca o almoço.

— Interessante, os deuses são mesmo imprevisíveis. E pensar que se não tivesse visto um com meus próprios olhos ainda pensaria que eles eram apenas lendas...

— As lendas, junto com os fatos, constituem a História, não é mesmo? Mas Cassie é muito responsável... — o telefone toca, Helena pede licença e o atende — Como assim, suspensa???

O diretor narra o que aconteceu e conta que o garoto teve que engessar o braço e apresenta hematomas no rosto. Ele concorda com uma histérica Helena Sandsmark que o garoto também merece uma punição, mas que esta será branda. Helena desliga o telefone, aflita, e conta para Júlia. No mesmo instante, Cassie chega em casa, coloca a mochila no sofá e encontra a mãe na cozinha.

— Já me ligaram da escola, Cassandra Sandsmark! Você pode me explicar o que aconteceu? — mesmo com as explicações da filha, Helena retruca suas ações. — Não existem desculpas, filha! Você tem poderes, então deve ter uma responsabilidade dobrada!

— Mas, mãe!

— Já para o quarto, mocinha, depois levo seu almoço! — a garota tira os pés do chão, planando, furiosa — E sem poderes! — Cassie engole em seco o castigo e sobe correndo para o quarto.

— Sem poderes? — pergunta Júlia, curiosa.

— Sim, foi esse o poder que Zeus me deu sobre a Garota-Maravilha. Eu posso anular seus poderes.

— Então... desculpe me meter, Helena, mas que para sua filha não corra o risco de se tornar igual a Vanessa, você deveria banir permanentemente os poderes dela. Helena Sandsmark, pensativa, pondera se essa não seria mesmo a melhor opção.


Na próxima edição: A Garota-Maravilha sem poderes? A Mulher-Maravilha encontrará Vanessa Kapatelis? Quais as conseqüências que esse encontro terá na vida de nossa heroína? Enquanto o mês que vem não chega, preencha o quadrinho abaixo e mande suas críticas, sugestões e idéias. Que Gaia proteja todos vocês!


:: Notas do Autor

(*) Releia todas as edições de Justiça Jovem e comprove! Se faltar algum vilão, brigue com o Josa, foi ele que me passou esses dados! :-) voltar ao texto

(**) Leia Justiça Jovem #01 (caso você já não tenha relido, como falei pra fazer na nota anterior!) voltar ao texto



 
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