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Mulher-Maravilha # 13

Por JB Uchôa

Gritos da Morte

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Escola Dennis Peterson, Gateway City. Sala da turma de oitava série onde estuda Cassandra Sandsmark, que tem passado o último ano dividindo as tarefas escolares com a vida de super-heroína, atuando como a Garota-Maravilha. Aula de conhecimentos gerais, penúltimo período.

— Estou tão entusiasmada, Natalie. — comenta Cassie, entre cochichos e bilhetinhos — Mamãe prometeu que me levaria a Hollywood no próximo feriado! Vou ver gente famosa! Quem sabe até conhecer o David Boreanaz, aquele gato do seriado da Buffy!

— Você também é famosa, Cassie! — responde sua amiga, Natalie, em meio à caligrafia apressadamente rabiscada, tentando colocar a resposta no diminuto pedaço de papel rasgado do caderno.

— Ah, isso não vale! A famosa é a Garota-Maravilha! Eles são famosos de verdade...

— Senhorita Sandsmark, será que você poderia compartilhar conosco tão animada conversa? — pergunta o professor Niewinsk, em tom severo — Ou, já que você me parece ter tanto para dizer, poderia explicar para a classe o que é o complexo de Édipo?

— Uh... — Cassandra pára por um instante, e então prossegue — A psicologia define como complexo de Édipo a inclinação erótica de uma criança pelo genitor do sexo oposto, enquanto vê na figura do genitor do mesmo sexo um concorrente ao mesmo tempo amado e odiado. Essa é uma etapa considerada normal no crescimento psicológico infantil, podendo também ser patológico quando não resolvida.

O professor Niewinsk olha seriamente para Cassandra.

— Está certo, senhorita Sandsmark. — responde o professor, friamente.

— Inclusive, — continua Cassie — a expressão complexo de Édipo, se me permite complementar, é sobre a lenda grega de um garoto que matou o próprio pai e casou com a mãe, Jocasta. Ao nascer, os pais o abandonaram quando, horrorizados, consultaram o oráculo de Apolo e descobriram o que ele viria a fazer no futuro. Abandonaram-no para morrer, amarrado pelos pés e suspenso a uma árvore. O bebê, já próximo da morte, com os pés inchados devido à falta de circulação do sangue, foi encontrado por um pastor que o encaminhou para os monarcas de Corinto, que o criaram.

— Obrigado, senhorita Sandsmark! — responde ainda mais friamente o professor Niewinsk, com a careca suando, os braços cruzados e cerrando os dentes.

— Ah, e o nome Édipo, em grego, quer dizer justamente isso: "pés inchados". — Cassie conclui sua resposta, em tom jocoso. Antes que o professor possa despejar sua fúria em cima da aluna, o sinal toca.

— Salva pelo gongo! — observa Natalie, sorrindo — Pensei que você poderia pegar uma detenção.

— Ele perguntou, não foi? — responde Cassie, em meio aos livros e cadernos da próxima aula.

Alunos tropeçam em si mesmos nos corredores, ansiosos para que termine a próxima aula (que ainda nem começou) e possam desfrutar do fim-de-semana. Festas, namoricos, lanchonetes, e, para Cassie, alguma reunião da Justiça Jovem. Subitamente as paredes da escola começam a tremer. Estudantes e professores a princípio ficam parados, perplexos, mas logo entram em pânico e começam uma fuga pelos corredores em busca da saída.

— Terremoto? — indaga Natalie, assustada.

— Não parece, Nat! Que som estranho é esse?

Um som agudo, baixo, começa a aumentar de volume até chegar a proporções insuportáveis. A força do som derruba paredes e o teto sobre uma dezena de estudantes, faz armários voarem estraçalhados entre as pessoas, causando uma verdadeira destruição em massa.

SKREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

Cassandra, ignorando sua identidade secreta, levanta os escombros da parede, buscando salvar rapidamente três alunos na iminência de serem esmagados. No meio da confusão, da poeira e escombros, Cassie acredita que seu ato de heroísmo passará despercebido. Porém, alguns alunos, no meio da fuga, já falam para os outros quem segurou a parede. "É a Cassie? Como ela pode fazer isso?", "É uma mutuna!!", "Quem está segurando a parede?", "Meu Deus, tem uma pessoa morta aqui!"

Voando rapidamente para o lado de fora da escola, e vendo o tamanho da destruição de toda uma ala de salas de aula lotadas, Cassie se pergunta quantas pessoas morreram, quantas estão feridas e quem, em nome de Deus, fez isso. Um vulto prateado, de cabelos ruivos, cercada de aves de rapina, se aproxima da filha única de Helena Sandsmark.

— O que você pensa que está fazendo, sua idiota? — pergunta Cassandra, pronta para o combate, se necessário. A mulher alada se vira, encarando a heroína nos olhos — Você? Tudo isso é por minha causa? O que você quer, chamar a atenção? Sua ridícula estúpida...

A resposta de sua inimiga vem na forma de um grito sônico aterrador, atingindo Cassandra em cheio e derrubando-a no chão, inconsciente.

— Ora, ora, "Garota-Maravilha", pensei que fosse ficar feliz em me ver.

No museu de Gateway...

— Natania, querida, já é hora do almoço, pode ir! — Helena Sandsmark está escondida entre uma pilha de pastas, fotos e catálogos de artefatos antigos. Recentemente ela decidiu fazer um levantamento do acervo do museu de Gateway, pois pretende catalogar cada artefato com sua respectiva foto no computador, onde poderá consultá-los selecionando por época, etnia ou região. Na hora em que Natania abre a porta pra sair, Helena puxa uma nota de cinquenta dólares e grita o nome da estagiária — Natania! Na volta compre alguns filmes para a máquina fotográfica, sim?

— A senhora não vai almoçar, professora Sandsmark?

— Daqui a pouco... — Natania dá de ombros e sorri. Mesmo com pouco tempo de convivência ela sabe que nada será capaz de tirar a professora Sandsmark de trás daquela mesa. Quanto mais peixe frito com salada. A estagiária ainda ouve o telefone tocando ao fechar a porta.

— Alô? — pergunta Helena, enquanto cataloga uma peça.

— Por favor, eu gostaria de falar com Diana.

— Diana não vem hoje ao museu, posso ajudá-lo?

— Hmmm... diga a ela que o Wally ligou.

— Wally? Que Wally?

— O Flash!

— Wally Flash? É esse seu nome?

— Não, Wally West! O Flash! (*)

— Oh, desculpe! Darei seu recado quando encontrá-la!

— Obrigado!

— Educado, esse moço! — pensa a professora Sandsmark, enquanto anota o recado para a Mulher-Maravilha e o cola na capa da agenda.

A mulher alada observa Natania sair do museu. A Garota-Maravilha está inconsciente, sendo carregada em um de seus braços. Enquanto gargalha, arremessa Cassandra ao chão, perto do museu, e assim, como na escola Dennis Peterson, inicia-se uma onda sonora de destruição.

SKREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

Uma parte do museu começa a ruir. Ouvem-se gritos de terror, pessoas são arremessadas longe e corpos jazem inertes sob os destroços.

Nos escombros da escola Dennis Peterson, o detetive Mike Schorr analisa alguns destroços e dá ordem aos homens que auxiliam os feridos. A capitã Jane Sontoya aproxima-se dele, com passos firmes, ajeitando os cabelos curtos atrás da orelha, com uma pasta embaixo do braço.

— Tenho novidades, Mike, e não são boas.

— Devem ser melhores do que as que eu tenho aqui. Alguma análise da causa da explosão?

— Explosão? De acordo com o depoimento de testemunhas oculares, a "explosão" foi resultado do ataque de um meta (**) com algum tipo de poder sônico. O alvo foi o coração da escola, onde nesse horário vago entre uma aula e outra passa a maioria dos alunos. O alvo, Mike, é um aluno.

— Ou professor. — pondera Mike, estarrecido.

— Parece que o meta cessou o ataque quando um mutante voador o interceptou. Não sabemos a identidade dele.

— Deus... isso é um trabalho para...

— A Mulher-Maravilha! — Diana desliza dos céus ante Mike e Jane Sontoya — Recebi da torre de vigilância da Liga relatos do ataque. Acho que uma velha inimiga está de volta.

Nos arredores do museu de Gateway, Helena corre apressada junto com outros funcionários, tentando buscar uma sorte melhor do que a de quem estava na ala inca. Ela pega o celular e disca 911, relatando durante a corrida o que acontecera momentos antes.

— Mike! Capitã Sontoya! — grita um dos policiais — Avisaram no rádio que uma mulher alada atacou o museu da cidade!

— Grande Hera! — com incrível rapidez, a Mulher-Maravilha alça vôo aos céus, tendo como destino o museu. Ela sabe que os ataques à escola onde Cassandra estuda e ao o local de trabalho de Helena não são mera coincidência.

Diana vê apenas um borrão prateado no céu. Ela diminui a velocidade para poder apurar sua visão e finalmente reconhece sua inimiga. Ela não consegue parar de pensar na ameaça de Circe, e na promessa de que outra velha inimiga estaria de volta em breve. Parece que o "breve" finalmente chegou.

— Valerie!! — como em resposta ao chamamento, sua velha inimiga vira-se e sorri pelo engano da Mulher-Maravilha — Mas, por Zeus, você é... Vanessa?!

— Olá, Diana! Quanto tempo! — fala Vanessa Kapatelis — Valerie abriu mão de sua carreira... então tudo bem se você começar a me chamar de Cisne de Prata! — a mente de Diana não consegue processar a informação. Ela não consegue acreditar que na sua frente está a sua grande amiga e filha de sua ex-mentora Julia Kapatelis — E então, como você tem passado? Ouvi falar muito de você, de suas aventuras com os deuses, das pessoas que você tem ajudado... — Diana agora leva as mãos ao rosto, tentando achar algo coeso que a faça desacreditar daquilo que seus olhos enxergam — Você parece tão chocada! Sou eu, a mesma Vanessa Kapatelis, sua "amiga e irmãzinha"! Eu entendo tudo o que se passou na sua vida, quando você abandonou Boston e veio para esta cidade. Você nunca mais me ligou, Diana, nem mesmo para dizer "oi"! Oh! Veja, sua nova amiga, a Garota-Maravilha, acabou de acordar! Eu nunca consegui entender como você escolheu a ela!

A Mulher-Maravilha voa em direção a Cassie em uma velocidade surpreendente.

— Cassie, levante-se! Depressa, levante!

— O barulho... terrível... não consigo... pensar! — as palavras da jovem Sandsmark saem como um suspiro, confusas, balbuciadas. Os olhos permanecem fechados, talvez orando para que a terra se abra ou para que o mundo pare de girar.

SKREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

Rápida como o vento, Diana defende a rajada sônica que a nova Cisne de Prata desfere contra a Garota-Maravilha.

— É comovente o jeito que você a protege! Por que você não fez isso por mim? Por que você sempre permitiu que eu me machucasse?

— Eu não sabia o que estava acontecendo com você! Mas você precisa acreditar em mim, Vanessa, eu amo você! Como se fosse minha irmã! Eu nunca gostaria de vê-la machucada! — Diana aproxima-se daquela que chamou várias vezes de amiga e segura firmemente, mas com doçura, seu rosto, tentando olhar em seus olhos e encontrar algum resquício da menina Vanessa Kapatelis — Pelos deuses, Vanessa, quem fez isso com você?

— Quem fez isso comigo? Você fez! Você! (***) Você não notou que eu tenho meus próprios braceletes de prata? Que eu posso voar? Que eu uso um uniforme? Você sempre foi o meu modelo de mulher, Diana! Não aquela vaca patética da minha mãe! Você nunca percebeu que eu queria ser você? Eu cresci para me tornar você! — com um grito, Vanessa só não trucida a Mulher-Maravilha porque Diana é rápida o bastante e consegue se proteger com os braceletes — Não me venha com nenhuma "sabedoria de Atena", por favor! — nesse instante, Mike Schorr e Jane Sontoya chegam numa viatura. Eles atendem Helena Sandsmark, que tenta proteger Cassie de algum ataque que possa vir a acontecer vindo da Cisne de Prata.

— Central, Mike Schorr falando! Mande reforços para o museu da cidade! Rápido, enquanto a Mulher-Maravilha mantém a assassina no solo! — na estática do rádio, Mike mal consegue ouvir o "OK".

— Vanessa, por favor, nós temos que conversar sobre isso! Se eu magoei você, me perdoe, eu só pretendia tornar sua vida melhor!

— Tornar minha vida melhor? Você caiu de pára-quedas na minha vida, me colocou a mercê de sujeitos como o Mago Branco e pseudo-divindades gregas como Deimos, Phobos e Eris! Tive minha casa destruída, minha mãe ficou paralítica! Minha melhor amiga cometeu suicídio! Então você simplesmente sai de nossas vidas tão repentinamente como entrou, deixando a maldição do seu toque apodrecendo minha vida! Então você pára de me ligar, de conversar comigo e reaparece com sua preciosa Cassie-Garota-Maravilha! Eu deveria ser a Garota-Maravilha!

— Nessie...

— Não me chame assim!

— Você me deu força para que eu mudasse de cidade! Você iria começar vida nova na faculdade e se mudar de Boston! Foi Lorde Zeus quem deu poderes a Cassie, quando...

— Cala a boca, estou farta de suas mentiras! Eu não quero ouvir suas mentiras nunca mais! (****) — o barulho de sirenes vai se tornando cada vez mais alto.

— Renda-se! Você está cercada, "Cisne de Prata"! — Mike, Jane e algumas viaturas e policiais cercam a princesa amazona e sua algoz alada — Aconselho que fique de boca fechada e se entregue. — finaliza Mike, enfático.

— Patético! — garras rasgam as costas de Mike, enquanto simultaneamente golpeiam sua cabeça. Uma forte cauda, usada como uma espécie de laço, desarma a capitã Sontoya, enquanto as armas dos outros policias levitam como num passe de mágica! — A evolução de Vanessa é obra nossa, como você já deve ter deduzido, amazona.

— Mulher-Leopardo!

— Óbvio, não? Mesmo tendo sido criada em uma ilha de mulheres, você continua tola... como sempre! Esqueceu de mim? — Circe aparece envolta em uma bruma rosa, como se tivesse saído de um espelho d'água — Olá, Diana! Você fica maravilhosa ensangüentada! Queridas, hora de voltar para casa!

— Casa? O que, em nome dos deuses, você fez a Vanessa?

— Nada, querida! Apenas estou construindo a minha versão da Ilha Paraíso! Será linda, não? Lembranças à megera da sua mãe! Não se preocupe, nós voltaremos! — Barbara Minerva e Vanessa Kapatelis atravessam a névoa rosa atrás de Circe, que desaparece em um clarão de luz. As armas dos policiais caem no chão.

— Diana, o que está acontecendo? — mesmo abatida, Cassie segura firme a mão da Mulher-Maravilha — Se for preciso, nós vamos colocar o mundo abaixo e acabar com essa bruxa!

— Mulher-Maravilha? — chama a capitã Sontoya, em tom de desespero. — Ajude-nos! Mike não está respirando, não sinto sua pulsação... ele precisa de socorro médico urgente!

— Lorde Hermes, ajude-me! Conceda-me a velocidade necessária para salvar Mike! — ignorando as dores musculares que a assolam, a Mulher-Maravilha parte, carregando seu amigo nos braços.

Continua...

:: Notas do Autor

(*) Flash quer falar com Diana sobre uma certa proposta do deus Hermes. Não deixe de ler Flash #8.voltar ao texto

(**) Gíria usada para designar um meta-humano, ou superser.voltar ao texto

(***) Não exatamente... veja Mulher-Maravilha #8 e #9.voltar ao texto

(****) A maioria os eventos contados por Vanessa aconteceram, na cronologia DC, na fase do escritor George Pérez. Julia Kapatelis ficou mesmo paralítica, mas recuperou-se milagrosamente na fase em que o brasileiro Mike Deodato Jr. assumiu a arte da série (publicada no Brasil na extinta revista Shazam!). Achei alguns detalhes (que em breve vocês poderão notar que não são tão detalhes assim) dessas fases pouco conhecidas por aqui de grande importância na vida da Mulher-Maravilha, o que me levou a escrever uma história para que esses fatos fossem incluídos também na cronologia do Hyperfan. Espero que esteja sendo do agrado de todos essa nova fase da princesa amazona e saibam que estou aberto a críticas e sugestões. É só preencher o quadrinho abaixo e manter contato comigo! Que Gaia proteja todos vocês!voltar ao texto



 
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